        
        
        
        
        
    A CARCIA DO VENTO
    Janet Dailey


http://groups.google.com/group/digitalsource
    
    
        
        
        
        
        
        
        
        
      A CARCIA DO VENTO
      
      Janet Dailey
      
        Ttulo do original: "Touch the wind"
        
        Copyright  1979 by Janet Dailey
        
        
        Traduo: Isabel Paquet de Araripe
        
        
        
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         Captulo 1
        
        Um conjunto de trs pulseiras de ouro tilintouquando Sheila Rogers fechou a porta do seu Thunderbird azul. Ela virou-se na direo do hotel em queBrad trabalhava, os cabelos lisos e castanho-amarelados movendo-se livremente junto aos ombros.
        No havia murmrio de brisa. Para alm daaltssima estrutura do hotel, as guas do rio Coloradorepresado pareciam lisas como um espelho. O pr-do-sol do Texas deixava uma trilha longa e amarelasobre a superfcie. O ar vespertino de fevereiro erafresco contra a face de Sheila.
        O seu olhar cor de mbar se desviou rapidamente para o relgio de pulso enquanto ela se dirigiapara a entrada do hotel. Eram quase cinco horas.
        Estava atrasada de novo. Deu de ombros como seno se importasse, o que revelava que estava acostumada a que as pessoas esperassem por ela. Noera um gesto consciente.
        Sheila no admitia que fosse mimada, emborareconhecesse que, como filha nica, fora paparicadapelos pais amorosos.
        Mas Brad no o fazia. No conseguia dobr-locomo fizera com os outros homens com quem sara.
        Talvez fosse este um dos muitos motivos da suafascinao por ele. Agora, Brad ia ficar zangado comela por estar atrasada, mas Sheila estava certa de queo faria esquecer esse aborrecimento.
        Ao pensar nisso, um leve sorriso encurvou osseus lbios sensuais, pintados de rosa-plido. Combinado com o brilho promissor dos seus olhos pintalgados de dourado, o movimento lhe dava um ar deprazer secreto, excitantemente misterioso aos olhosde algum observador casual.
        Sheila j estava bem prximo  porta de entrada quando viu Brad junto do prdio, ao lado deoutro empregado do hotel. A luz castanha dos seusolhos era bastante acusadora quando ele a olhoufixamente. No podia ter deixado de v-la dirigir-sedo estacionamento para a entrada, e no entanto noa chamara. Teria deixado que ela perdesse momentospreciosos procurando por ele l dentro, para puni-lapela sua impontualidade.
        Parada junto  porta, Sheila olhou para ele eficou com a respirao presa. Os cabelos louros caamcom uma masculinidade descuidada sobre a testabronzeada. Uma virilidade espalhafatosa se estampava nas belas linhas do seu rosto, e havia uma sugesto de arrogncia na rigidez do queixo. Alto, musculoso, a aparncia de deus do sol faria disparar ocorao de qualquer garota. O uniforme do hotel, um blazer castanho sobre um pulver branco e calasescuras, acentuava o seu fsico msculo.
        Todas as vezes que Sheila o via, a reao era amesma. Primeiro, havia uma vaga sensao de surpresa de que pudesse ter-se esquecido de como eleera espantosamente bonito, seguida por uma sensao de culpa por t-lo deixado esperando, emborano intencionalmente.
        Na verdade, os passos dela eram serenos, graciosos, quase descansados, impulsionando-a para frente. Seus lbios se abriam num sorriso encantadore com uma leve sugesto de pedido de desculpas. Aspulseiras tilintaram de novo enquanto Sheila jogavapara trs o cabelo louro-tostado.
        - Desculpe o atraso, meu bem - falou, emvoz baixa e clida, destinada a acalmar a irritaodele.
        Brad Townsend no retribuiu o sorriso. Fezum breve gesto de cabea para o colega de trabalhoe tomou a mo de Sheila, apertando-a brutalmente.
        Ela arquejou com a dor enquanto ele a puxava atrsde si para o lado do prdio.
        - Brad, voc est machucando a minha mo- protestou ela quando pararam, sem saber ao certo se ele tinha conscincia da prpria fora.
        Ele soltou os dedos doloridos dela imediatamente, as mos agarrando-lhe os ombros enquantoa puxava bruscamente para junto de si.
        - No gosto que me faam esperar - resmungou Brad, baixinho, a respirao quente indo de encontro aos lbios dela uma frao de segundo antesque a sua boca os esmagasse.
        O beijo era uma combinao de castigo e domnio. Sheila lutou contra a tentativa de domniodele, ao mesmo tempo em que se excitava com o seujeito de posse. Os braos dele a envolviam para esmagar a sua ligeira rebelio, o calor se irradiando doseu abrao. Conquistada, Sheila jogou para trs acabea, para deixar que a boca vigorosa dele explorasse a linha sensvel do seu pescoo e o vale de suagarganta.
        - Desculpe - murmurou ela, de olhos fechados, enquanto uma fraqueza ardente se espalhavapor seus membros. - No me atrasei de propsito.
        -  o que voc sempre diz - resmungou ele, mordiscando-lhe o lobo da orelha.
        Os dedos de Sheila deslizaram para dentro doblazer desabotoado, para poder abra-lo, sentindoo calor ardente do corpo e os msculos fortes dosombros e costas. As mos errantes dele se moviam sobre a cintura e os quadris dela, para melhor ajustar o seu corpo ao dele.
        O cheiro almiscarado que se desprendia do seu queixo bem barbeado era inebriante. Sheila aspirou-o profundamente, enquanto exclamava:
        - Pediram-me que ficasse alguns minutos depois da ltima aula, e o tempo foi passando sem eu sentir.
        Ele ergueu a cabea.
        - Qual foi o professor, desta vez? No que tenha importncia. Voc  a queridinha de todos os professores - falou Brad, entortando levemente os lbios.
        - Foi Benton. - Sheila ignorou a ligeira zombaria. - Tinha algumas sugestes a fazer sobre o esboo que apresentei para o tema deste semestre.
        - E voc me deixou esperando enquanto conversava com aquele ameixa-seca - acusou ele.
        - J pedi desculpas.
        - Quem sabe eu deva descobrir o quanto voc est realmente arrependida - disse Brad, com naturalidade, a luz escura do desejo iluminando seus olhos castanhos.
        Com uma risada abafada, ela afastou os braos que a envolviam, pousando as mos no peito dele para forar um ligeiro espao entre eles. Sentiu a batida forte do corao dele sob seus dedos.
        - Mas voc tem que pegar no servio daqui a alguns minutos - ressaltou Sheila, parcialmente cnscia de que no lhe havia dado exatamente um no.
        -  - concordou Brad, baixando a cabea para deixar a boca roar na curva sensual dos lbios dela -, e fazer amor com voc no  coisa que eu queira fazer com pressa.
        Um calor interno escaldou as faces dela. No de timidez, mas da tentao e medo imemoriais de explorar o desconhecido.
        - No fale desse jeito - murmurou ela.
        - Eu podia me atrasar para o trabalho - acrescentou ele, sugestivamente, e o pulso dela se acelerou naquela estranha combinao de medo e excitao.
        - No - falou Sheila, sem ter certeza de estar negando.
        A boca do rapaz continuou a roar-lhe os lbios, de modo excitante, at faz-los tremer de desejo de serem beijados. Deliberadamente, Brad ignorou a sugesto. Incapaz de suportar o tormento da proximidade da sua boca sem receber o beijo, Sheila enroscou os dedos nos cabelos dourados dele e forou-o a abaixar a cabea.
        A iniciativa lhe foi tirada quando ele tomou posse dos lbios desejosos dela. O beijo continuou compaixo fogosa at que Sheila se sentiu envolvida em chamas. Seus lbios foram forados a se separar pela exigncia spera da lngua dele. A explorao sensual que ela fazia da sua boca transformou as chamas num incndio incontrolvel que parecia isol-los do mundo, mas no era assim.
        - Vamos, Brad! - chamou uma voz, baixa e impaciente. - J passam dois minutos das cinco.
        A fria realidade derramou-se sobre Sheila como gua gelada, enquanto Brad terminava abruptamente o beijo, erguendo a cabea. Abalada porque algum tinha testemunhado o abandono de seu comportamento, Sheila aceitou de bom grado o apoio dos braos de Brad, deixando que ele a protegesse dos olhares estranhos.
        - Vou daqui a alguns minutos. Diga ao patro que j estou aqui, ajudando a dar partida num carro.
        - Pode deixar por minha conta - a voz assegurou a Brad, num tom inegavelmente sugestivo. - Chame-me se precisar de ajuda.
        - No vou precisar de ajuda nenhuma - disseBrad, com uma risada arrogante.
        O som dos passos foi diminuindo. Uma vagasensao de repulsa fez com que Sheila se desvencilhasse dos braos de Brad. No entanto, a debilidaderesultante da paixo avassaladora que ele acenderanela fez com que se afastasse apenas um pouco. Estava de costas para ele, que veio por trs dela, comas mos pousando-lhe familiarmente na cintura.
        O calor da sua respirao agitou os cabelos dela.
        Sheila enrijeceu-se, a despeito da dormncia insatisfeita na boca do estmago. O leve toque das mosdele parecia queimar atravs das suas roupas e chegarat a pele.
        - Encabulada! - debochou ele, suavemente. - Tom apenas nos viu beijando.  s.
        - No  isso - disse Sheila, movendo a cabea para o lado para negar a afirmativa dele.
        Brad imediatamente tirou vantagem do gestopara enterrar a boca nas madeixas sedosas, ao longoda' curva externa do pescoo dela. Os sentidos damoa reagiram prontamente  carcia, enquanto asmos dele se espalmavam sobre seu estmago, puxando-a contra o peito musculoso.
        - Acho que voc no se d conta do que fazcomigo - sussurrou Sheila.
        - O que eu fao com voc! - Brad deu umarisada curta e fez uma pausa para afastar-lhe o cabeloda orelha. - Voc no passa de uma provocadora, Sheila Rogers - acusou ele bruscamente, os braosapertando cada vez mais a sua cintura, at que elano mais pudesse ignorar a marca ardente do seudesejo de macho, forando-se contra a sua pele. - Voc promete com beijos, mas na hora de dar, voc recua. Devia arrast-la para um dos quartos do hotele possu-la agora.
        A mo de Brad segurou-lhe a curva do seio.
        - No.
        - No vou faz-lo. - Brad virou-a para olh-la de frente, a expresso sria e levemente assustadora. - Mas houve diversas vezes nas ltimassemanas em que voc teria me deixado seduzi-laapenas com um ligeiro protesto, e no queira negar.
        Um rubor de raiva subiu s faces dela. A confiana arrogante de que ele poderia possu-la quandobem o quisesse irritou Sheila, porque ela tinha plenaconscincia de que provavelmente era verdade.
        - Ento por que no me seduziu? - perguntou, desafiadora.
        - Porque, minha fedelha mimada - zombouBrad -, no vou satisfazer aos seus caprichos, comoos seus outros namorados. Quando fizermos amor, ser por convite seu, e no porque quebrei a suaresistncia. Quando formos para a cama, vai ser porque voc pediu, literalmente. Pouco me importa queseja antes ou depois de estarmos casados, mas vocvai me convidar.
        - Ora, mas que... - gaguejou Sheila, antea presuno arrogante dele de que ela chegaria asuplicar-lhe.
        Brad riu e cobriu com a boca os seus lbiosdesafiadores. Sheila resistiu alguns minutos, antes que o beijo agisse com a sua magia, e logo estava agarrada a ele de novo, esquecendo momentaneamente oorgulho.
        Finalmente, ele levantou a cabea, um brilhocomplacente nos olhos castanhos, enquanto fitava aexpresso embevecida no rosto que se erguia paraele. Lanou-lhe um dos seus sorrisos devastadores.
        - Diga que me ama - ordenou Brad, segurando-a firme pela cintura.
        - Eu o amo - ela respondeu, obediente.
        - E prometer amar-me, respeitar-me e obedecer-me - recitou ele.
        Ela j ia abrir a boca para repetir as palavras, porm a luz radiosa sumiu dos seus olhos ao lembrar-se da discusso com os pais.
        - Sim - Sheila conseguiu responder, depoisde vrios segundos.
        Brad notara a hesitao e leve mudana na expresso dela. Afastou a cabea para examin-la, cerrando os olhos.
        - Falei com mame e papai sobre ns.
        - E da! - indagou ele, estreitando a bocanum gesto carrancudo.
        - Acharam que  um pouco prematuro danossa parte querer casar - declarou Sheila.
        Ele soltou-a abruptamente e se afastou, o gnioestourado vindo  superfcie.
        - No sirvo para voc, foi o que disseram, no foi! - falou com selvageria, e nem esperouresposta. - Qual o problema! Sou pobre demaispara a filhinha querida? Imagino que me critiquempor ter levado sete anos para cursar quatro anos defaculdade. Eu l tenho culpa de no ter nascido depais ricos como os seus, e de ter tido que interromper os estudos para trabalhar e juntar dinheiro parapoder recomear!
        - Brad, por favor. - Sheila tentou deter asua exaltao. - No  nada disso. Eles s achamque no  sensato da nossa parte casar agora. Vocs vai se formar na primavera e...
        -...e eles tm medo, se nos casarmos agora, de ter que nos sustentar... ou, mais especificamente, me sustentar! Imagino que pensem que vou casarcom voc por dinheiro. Sabe o que eles podem fazercom o dinheiro deles, no sabe!
        - No  exatamente o dinheiro. - Sheila estava dolorosamente cnscia de que falar em dinheirocom Brad era como tocar num nervo exposto. - Eles acham que devemos esperar mais um ano paraque voc possa se formar e arrumar um emprego sema responsabilidade de uma esposa. Um ano no tanto assim, quando a gente se ama.
        Os olhos escuros dele a fitaram, penetrantes.
        - Fale-me com franqueza, Sheila, os seus paisme aprovam como seu futuro marido!
        Sem querer, ela hesitou. O pai deixara bemevidente que desaprovava Brad. Apenas a influnciada me obtivera a concesso da espera de um ano.
        Sheila sabia que o pai concordara na esperana deque eles se separassem antes que se passasse um ano.
        - Isso responde  minha pergunta, no ! - declarou ele, sombriamente.
        - No  que eles desaprovem... - apressou- se Sheila. -  s que no o conhecem to bemquanto eu. Alm disso, ainda pensam em mim comoa sua garotinha.  difcil para eles imaginar-me comomulher de um homem que  praticamente um estranho para eles.
        - Voc quer esperar um ano?
        - Claro que no.
        - No parece muito chateada com a idia.
        Ele estava com as mos nos quadris, abrindo opalet.
        Sheila ergueu a mo, exasperada, as pulseirastilintando.
        - O que quer que eu faa? Bata no peito echoramingue!
        - Suponho que tenham me acusado de ser umcaa-dotes - disse ele, a voz cheia de sarcasmo.
        - Meus pais no o acusaram de nada. - Sheila controlou com esforo a raiva crescente, - Admito que meu pai no confia em voc plenamente, mas minha me est disposta a conceder-lhe o benefcio da dvida. No  uma aprovao, nem tampoucouma condenao.
        - E devo ser grato por isso? - ironizou Brad.
        - Voc deve compreender o lado delestambm!Era evidente, por sua expresso, que Brad noestava de acordo.
        - O que voc teria feito se eles lhe tivessemdito para no se casar comigo? - indagou comveemncia, cerrando os olhos.
        - Mas no disseram! - protestou Sheila.
        - Mas se tivessem dito? - insistiu ele.
        Trincando os dentes, ela respondeu:
        - Se tivessem dito, eu me casaria com voc, de qualquer jeito!
        - Estou acreditando! - Um som amargo, quemal se assemelhava a uma risada, subiu de sua garganta. - Sabia que seria apenas uma questo detempo para voc admitir que est pensando duasvezes sobre o nosso casamento.
        - Se estou pensando duas vezes, no  porcausa de nada que meus pais me tenham dito.
        Ela virou-se para ir embora. Esta era uma facetade Brad que ela desprezava.
        Ele pegou-a pelo brao e f-la voltar, segurando-a com mais fora quando Sheila lutou para sesoltar. Seus dedos estavam quase tocando o ossoquando a forou a olh-lo de frente.
        - Jamais torne a ir embora desse jeito! - ordenou Brad.
        Sheila enfrentou sem piscar a fria da sua expresso.
        - Solte o meu brao e vai me ver ir emborade novo.
        - No vou solt-la. - Uma luz estranha embaava o olhar dele. - Voc  minha, e no vousolt-la.
        Ela sentiu uma pontada gelada de medo noestmago.
        - Voc est me machucando, Brad. - Tentouno demonstrar na voz o pnico que sentia. - Solteo meu brao.
        -  o dinheiro, no ? - Ele afrouxou ligeiramente a presso, o tom embaado abandonandoseus olhos castanhos. - Decidiu que, depois de sempre ter tido o que quis a vida toda, no quer viverapertado, poupando e contando os tostes para cadacoisa suprflua.  por isso que no quer se casarcomigo, no ! Porque no posso mant-la no padroa que est acostumada.
        - Voc s pensa em dinheiro, no ! - acusou Sheila. - No vou passar o resto da minhavida pedindo desculpas por meus pais serem ricos.
        No fui eu que escolhi isso. No tive nada com isso.
        - Voc nunca passou necessidades. - Elerespirava com dificuldade. - Eu nunca tive dinheiro. Tive que lutar, batalhar e s vezes at roubar paraconseguir o que queria. Ningum jamais me deu nada.
        Esto sempre tentando tirar o pouco que tenho. Agora esto tentando me tirar voc.
        - Ningum est tentando tirar-me de voc - disse Sheila, franzindo o cenho.
        - No mesmo! - zombou Brad, com amargura. - Agora que seus pais sabem que queremosnos casar, vo tentar envenen-la contra mim. Vopagar a pessoas para contar-lhe mentiras a meu respeito, at voc acreditar nelas. Espere e ver.
        - No  verdade. Meus pais no so assim.
        - Suponho que sejam puros e imaculadoscomo voc.
        O desprezo se insinuava em sua boca, desdenhosa e vagamente selvagem.
        - O que tenho certeza  que no so os monstros que voc est pintando - falou Sheila bruscamente.
        - Ou voc  cega ou incrivelmente ingnua.
        - Eu...
        A frase ficou interrompida quando uma vozmasculina impaciente chamou:
        - Brad!
        Ele no tentou disfarar o aborrecimento pelainterrupo.
        - O que , Tom? - perguntou com cara feiapara o intruso, o mesmo colega de trabalho queo havia advertido.
        - No posso ficar tapando buraco para voc anoite inteira - disse o outro. -  melhor aparecerantes que seja despedido.
        - J estou indo - concordou Brad, com umsuspiro irritado.
        -  bom mesmo - alfinetou o outro.
        Sheila ficou contente com a interrupo. Nopodia suportar os comentrios sarcsticos de Brad, nem suas acusaes injustas contra seus pais. Sentia-se desolada, e queria apenas ir embora e pensar emtudo aquilo.
        - V, Brad - murmurou, desanimada. - Jest mesmo na hora de eu ir embora.
        - No v, Sheila.
        Ele a segurou com firmeza e colocou a mo nooutro ombro, para vir-la de novo para si.
        Ela continuou a evitar o olhar dele.
        - No h por que ficar. No h mais nada adizer.
        - Sheila. - Ele pareceu procurar desesperadamente um motivo, depois deu uma breve risada.
        - Acho que acabamos de ter a nossa primeira brigade verdade.
        - Sem dvida, no fui eu que a comecei.
        No conseguia descobrir onde estava a graa queBrad parecia sentir na descoberta.
        -  horrvel, no ? - disse ele. Soltando-lhe o brao, comeou a alisar-lhe a face numa carciaapaziguadora, mas Sheila recuou, incapaz de fazera mesma transio rpida da raiva para o afeto. - No era meu desejo que brigssemos desse jeito - murmurou Brad, em tom de desculpa. - Perdi acabea, s isso.
        - Foi o bastante - respondeu ela, secamente.
        - Sheila, olhe para mim. - Como ela noobedeceu, segurou-a pelo queixo e forou-a a ceder.
        As suas feies belas e douradas suplicavam o perdo.
        - O que posso fazer para que compreendacomo me sinto?
        - J fez - assegurou-lhe Sheila. - Deixoubem claro que no acredita que eu o ame realmentee que acha que meus pais esto conspirando contravoc.
        - No, no  nada disso. No entende? - Brad fitou, ansioso, os olhos desconfiados dela. - Voc  a nica coisa na minha vida que tem significado para mim, Sheila. Tenho medo de perd-la.
        - Eu...
        Uma ruga de preocupao franziu a testa dele, desaparecendo sob a mecha de cabelos louros. A suasinceridade se projetou para, invisivelmente, tocarem Sheila.
        - Brad - sussurrou ela, correspondendo aoapelo.
        Um lampejo divertido, nascido do auto-desprezo, perpassou pelos seus aveludados olhos castanhos.
        - No compreende, no ? Acha que estouerrado, pensando desse jeito.
        - Ningum pode me tirar de voc - disseela, com um meio sorriso nos lbios.
        - J lhe pedi para ser minha mulher, Sheila- comeou ele.
        - E eu j aceitei - lembrou-lhe ela.
        -  - concordou Brad. - Mas nada tenhopara lhe oferecer, exceto o meu amor. Estou lhe pedindo para abandonar tudo em troca de nada.
        O polegar lhe acariciava a clavcula em crculosrtmicos. Sheila sentiu a magia do seu toque comeara surtir efeito.
        - No  uma troca to ruim, querido - sorriu ela.
        - O amor no pode colocar um teto sobre asnossas cabeas, nem comida nas nossas bocas - lembrou ele. - Isso custa dinheiro, coisa que no tenho.
        - Psiu! - Sheila apertou-lhe os lbios comdedos silenciadores. - No quero escutar essa palavra de novo.
        Brad beijou-lhe as pontas dos dedos, depoissegurou-os de leve nas mos.
        - No quero repetir, mas o dinheiro  umdos fatos imutveis da vida. No pode ser evitadosimplesmente porque  desagradvel.
        - No me importo. - Sheila soltou os dedosda mo dele e afastou-lhe carinhosamente os cabelosda testa. - Diga que me ama, Brad.
        - Eu a amo. - Deu-lhe um beijo profundoe demorado para reforar as palavras. - Um ano- gemeu Brad quando ergueu a cabea. - Noposso esperar um ano.
        Sheila esfregou a testa contra o seu queixo numgesto felino e soltou um suspiro.
        - Eu sei. - Relutante, procurou soltar-se doseu brao. - E voc no pode mais se demorar aqui, caso contrrio vai perder o emprego.
        Ele afastou os braos que a envolviam, dando-lhe um leve beijo.
        - Se a recepo no estiver muito movimentada, ligo para voc  noite.
        - Estarei em casa - prometeu Sheila.
        - E  melhor que esteja sozinha - rosnouele, numa ameaa simulada.
        - Vou pensar no seu caso.
        Sorriu e afastou-se sem beij-lo de novo. Isso serviria apenas para prolongar um momento que jse estendera demais.
        Enquanto Sheila se sentava ao volante do seuThunderbird e ligava o motor, Brad ainda permanecia onde ela o deixara. Ergueu a mo num aceno dedespedida quando ela manobrou e saiu da vaga.
        Sheila retribuiu o aceno, sentindo-se muito satisfeita.
        Rodando pela rua, pegou-se cantarolando a melodia de uma triste cano de amor. A letra melanclica era sobre um amor que no dera em nada.
        Sheila agarrou o volante, irritada, culpando a msicapor faz-la recordar a discusso, e no sua conclusosatisfatria.
        Dinheiro. Que coisa estpida para provocar briga, pensou. Sheila se perguntava se as pessoas pobreseram naturalmente mais orgulhosas, ou se Brad simplesmente tinha obsesso por ele. Por alguns minutos, durante a briga, pensara que era paranico, esentira uma pontada de incerteza.
        As janelas do carro estavam abertas, e Sheilasacudiu a cabea, deixando o vento brincar-lhe norosto. Tudo ia dar certo. Tinha confiana absolutanisso. Brad era um diamante bruto, precisando deum pouco de polimento para se encaixar no seu mundo. S isso. To logo ela o conseguisse, iriam formarum par muito bonito. Com o dinheiro dela e os contactos de seus pais, o cu seria o nico limite para ofuturo deles. Alegre, luminoso, sem nuvens.
        
        
        
        
        
        
         Captulo 2
        
        Ao cruzar a porta da frente, os saltos das suassandlias enterraram-se no carpete espesso cor decreme. Pelo padro geral, a casa tipo estncia dos seuspais era quase uma manso, mas, para Sheila, era simplesmente o seu lar.
        Uma empregada apareceu silenciosamente nosaguo. Sheila entregou  mulher a bolsa e a carapasta de couro contendo os livros e papis escolares.
        - Quer levar isso para o meu quarto, Rose!- pediu, esperando o gesto afirmativo antes mesmoque fosse dado. - Minha me est em casa?
        - A Sra. Rogers est na sala de estar.
        - Obrigada.
        O carpete espesso abafou os passos de Sheilaenquanto ela se dirigia para o amplo corredor quedava para o quarto dos pais e a sala de estar adiante. Diante da porta, bateu uma vez, depois entrou.
        -  voc, meu bem? - perguntou a me, do quarto de dormir.
        - Depende do "bem" a quem voc se estreferindo... eu ou o papai - riu-se Sheila.
        - Estava me referindo ao seu pai. - Constance Rogers apareceu na porta de ligao, apertandoo cinto do robe longo, cor de areia do deserto. - Vamos dar um jantar poltico hoje  noite, e eu lhepedi para voltar cedo para casa. Mas voc  igualmente bem-vinda, Sheila, embora eu estivesse esperando que viesse para casa mais cedo.
        Constance Rogers era uma verso mais velhae mais elegante da filha. O cabelo louro exibia umpenteado mais curto e sofisticado, com o tom clareado pela invaso de fios brancos. O corpo tambm eraesguio e firme, mas sem a pujana das curvas deSheila.
        - Demorei-me um pouco depois da ltimaaula - explicou Sheila.
        Os olhos astutos, cor de amndoa, correram-nade alto a baixo, sem deixar escapar nada.
        - Precisa retocar o batom. Alm disso, foi seencontrar com Brad antes de vir para casa - concluiu a me, com um toque de aborrecimento na voz.
        Sheila adiantou-se mais para dentro do quarto, evitando momentaneamente o olhar astuto da me.
        Jamais cometia o erro de subestimar a me. Emboraparecesse viver  sombra do marido, Constance Rogers tinha sua prpria fora. Foram sua intelignciae habilidade social, assim como sua queda para relaes pblicas, que haviam permitido ao marido tornar-se to bem-sucedido e poderoso.
        - , fui me encontrar com Brad - admitiuSheila, sentando-se no sofazinho de veludo. - Gostaria que voc falasse com papai sobre ele.
        - Por qu! - replicou a me com um sorrisoenganadoramente curioso, que no enganou Sheilanem por um instante.
        - Para persuadi-lo a abandonar a idia de queBrad e eu temos que esperar um ano para nos casarmos - respondeu docemente.
        - Mas no vejo nada de errado nessa idia- disse Constance Rogers, caminhando at a poltrona prxima ao sofazinho e desdobrando a saia comprida do robe ao se sentar.
        Cruzando as pernas, Sheila lanou o desafio:
        - Voc tambm  contra o meu casamento com Brad?
        - Querida, jamais sonharia em empurr-lapara os braos daquele homem proibindo-a de casar-se com ele - declarou a me, com uma risada rouca. - Por mais que tente, no consigo compreender oque voc v nele. Existem tantos outros homens noTexas que poderiam lhe oferecer muito mais e queseriam to mais apropriados! E voc poderia ter quemquisesse.
        - No os quero. Quero Brad - insistiu ela, puxando impacientemente os cantos de uma almofada.
        - Por que, quando existem tantos outros, voco quer? - suspirou Constance, os cantos da bocade contorno perfeito virando para cima num sorrisotriste.
        - Porque ele  um desafio para mim.
        Sheila deixou escapar a verdade, sem pensar.
        Nunca tinha certeza absoluta quanto a ele. Nosatisfazia todos os seus caprichos, nem a tratava coma adorao que estava acostumada a despertar, praticamente, desde que nascera. O relacionamento delesfora uma luta constante entre duas personalidadesigualmente fortes, sem um vencedor definido. Eraisso que dava o tempero, mas no era o motivo peloqual Sheila queria casar com ele.
        - O que no entendo - continuou a moa-  o que voc e papai tm contra Brad.
        A me hesitou, depois respondeu com igualfranqueza:
        - Ele  autoritrio e esquentado.
        Sheila se recostou nas almoadas, um brilho nosolhos dourados de gato.
        - No foi isso que seus pais disseram sobrepapai, antes de voc fugir para casar com ele! Faltavam-lhe cultura, requinte social, viso poltica, e olhe s a influncia que voc teve sobre ele. Foi vocque fez do papai o homem que  hoje.
        - No se pode comparar os dois - insistiua me.
        - Por qu? - contestou Sheila. - Brad ambicioso.
        - Acho que a expresso correta  louco pordinheiro.
        Nesse exato momento o pai de Sheila entrou nasala, parando ao lado da cadeira da mulher para darum beijo na face que ela erguia para ele.
        Recuperando-se da surpresa momentnea pelaapario dele, Sheila retrucou prontamente:
        - No creio que esta seja uma m qualidade.
        Afinal de contas, papai, voc no est sempre procurando um jeito de obter lucro!
        - A diferena  que estou disposto a trabalharpara isso. O seu namorado prefere obt-lo na moleza- respondeu o pai, calmamente.
        - Como pode dizer isso? - objetou Sheila, indignada. - Olhe s como ele trabalhou e lutoupara poder se formar.
        Os vincos de expresso no rosto bronzeado dopai enrugaram-se num sorriso distrado.
        - , sempre me perguntei por que um alunode cincia poltica estaria trabalhando num hotel. Como mora aqui na capital do Estado, sempre mepareceu que, se estivesse realmente interessado nasua futura profisso, estaria trabalhando num departamento do governo.
        - Uma observao excelente, E. J. - disseConstance Rogers, dando uma palmadinha na modo marido, pousada afetuosamente no seu ombro.
        - Brad j trabalhou em departamentos do governo antes, mas os horrios coincidiam com os dasaulas - defendeu-o Sheila.
        - Verdade? - comentou o pai, com descrena. - Orgulho-me da minha habilidade de julgar aspessoas, e voc est vendo nesse homem qualidadesque simplesmente no existem. No me agrada a idiade a minha garotinha ser magoada.
        Elliot John Rogers era um homem teimoso, eSheila puxara direitinho ao pai. Pondo-se de p, enfrentou o casal cara a cara.
        - Nenhum de vocs compreende Brad - acusou. - Simplesmente no o conhecem como eu.
        Alm do mais, no querem conhec-lo, para evitarque eu prove que esto errados.
        - Sheila, isso no  verdade - protestou ame, mas Sheila j estava saindo da sala de estar, No havia por que continuar a discusso, nocom o pai presente. Sheila ainda podia dialogar coma me, mas o pai era absolutamente rgido nas suasopinies, sem escutar ningum, exceto a mulher.
        Sheila se retirou para o quarto, a fim de pensar.
        Obter a aprovao dos pais no ia ser fcil.
        O problema permaneceu no recesso de suamente a noite toda, durante a refeio que fez sozinha e a leitura dos livros de estudos. Esperou o telefonema de Brad, quase necessitando do conforto davoz dele. Quando se enfiou entre os lenis de seda, por volta da meia-noite, ele ainda no havia telefonado. Sheila fechou os olhos, esperando que o sonolhe oferecesse alguma resposta.
        Alguma coisa estava tentando acord-la. Elamovia a cabea no travesseiro, em protesto, mas asensao persistia. Sonolenta, Sheila abriu os olhos, lutando contra as ondas de sono que tentavam arrast-la de volta.
        O quarto estava escuro como breu. Os olhosconseguiam apenas focalizar o mostrador luminosodo relgio de cabeceira. Os ponteiros indicavam alguns minutos depois das trs, o que arrancou um gemido de cansao de Sheila, enquanto ela se enfiava mais sob as cobertas.
        Um leve barulhinho perturbou o silncio. Parecia algum batendo em vidro. Sustentando-se numdos cotovelos, Sheila prestou ateno, os sentidosalerta, sem ter certeza de ter ouvido ou simplesmente imaginado o som.
        Escutou-o de novo. Algum estava batendo naporta de correr de vidro que dava do seu quarto dedormir para o ptio do quintal. Nenhum criminosoiria bater antes de entrar. Sheila afastou as cobertase saltou da cama, tendo certeza de que era Brad.
        Ningum mais estaria batendo na porta quela horada noite.
        Descala, dirigiu-se  porta de vidro e puxou ocordo para abrir as cortinas verde-limo que iam do teto ao cho. O luar iluminava a figura alta l fora, os cabelos louros embelezados  luz prateada. Soltando a tranca da porta, Sheila abriu-a para deixarBrad entrar.
        - O que est fazendo aqui? - sussurrou enquanto ele entrava. - So trs horas da manh.
        O mesmo luar que delineara o corpo masculinoentrava agora pela porta de vidro para iluminarSheila. As pernas nuas dela tinham um brilho sedoso, a bainha da camisola vermelha chegando pouco acimados joelhos. O olhar de Brad fez uma inspeo geral, chamando a ateno de Sheila para seus trajes soltos, mas sugestivos, com a parte superior da camisola desabotoada. Os dedos moveram-se imediatamente parafechar a frente da camisola.
        - Sei que horas so - respondeu Brad, sorrindo enquanto se dirigia para ela. - Acabo de largar o servio, e quis ver voc.
        - Podia ter telefonado.
        As mos dele pousaram nos seus ombros, eSheila se retesou. No lhe parecia direito Brad estar no seu quarto a essa hora, mesmo que estivesse planejando casar-se com ele.
        - No se pode fazer isso por telefone. - Aboca grudou-se  dela num beijo longo e doce, masele no fez nenhuma tentativa de tom-la nos braos.
        - Ainda me ama, meu bem?
        - No acha que iria parar de am-lo assimto depressa, no ?
        Pareceu-lhe subitamente romntico que Bradtivesse atravessado meia Austin de moto para v-lae assegurar-se de que ela ainda o amava.
        - E parou! - insistiu Brad, querendo ouviras palavras.
        - No - respondeu Sheila, com um pequenomeneio de cabea. - Ainda o amo.
        Ele a envolveu nos braos, apertando-a forte, o queixo pousado na cabeleira ouro-escura. O abraof-la sentir-se querida e segura. No havia exignciade beijos apaixonados. Ele parecia apenas quer-lanos braos.
        Com a cabea pousada na base do seu pescoo, Sheila acariciava a lapela do blazer dele. Um suspirocheio de felicidade escapou-lhe dos lbios enquantobaixava os clios, satisfeita.
        - Arriscou-se demais vindo at aqui a estahora - murmurou, enquanto ele esfregava o queixono alto da sua cabea. - Sabe que meu pai j noconfia em voc... devia mesmo ter telefonado.
        - Vale o risco poder abra-la e saber queainda quer se casar comigo. Quer, no  mesmo?
        A boca se movia de encontro ao cabelo despenteado dela.
        - Sim, quero casar com voc. Ou acha quetenho o hbito de admitir homens no meu quarto no meio da noite?
        - Espero que no - respondeu Brad, comaspereza simulada; depois continuou, num tom mais srio:
        - Provavelmente, devia ter-lhe telefonado, mas sem dvida seus pais teriam ouvido o telefonetocar e atendido para ver quem estava ligando. Nopodia correr o risco de que pudessem escutar a nossaconversa.
        Ela franziu as sobrancelhas, intrigada.
        - Por qu?
        Brad no deu uma resposta imediata; ergueuuma das mos e tocou o rosto dela.
        -  muito linda, sabia! Ter voc como mulher no vai ser assim to ruim, depois que eu lheensinar algumas coisinhas.
        - Hum, e voc at que poderia dar um marido bem decente - replicou Sheila ao comentriobrincalho -, mas est fugindo do assunto. O quequeria conversar comigo?
        - Quem sabe devesse ter telefonado. - Osdentes brancos faiscaram quando sorriu. -  difcildemais me concentrar quando estou com voc nosbraos. Fico ligado nos seus ombros macios e curvasperigosas. - As mos deslizaram pelo tecido sedosodas mangas compridas para agarrar as mos dela. - Venha. Vamos sentar-nos para poder conversar.
        Segurando-a de leve pela mo esquerda, levou-aat a cama. Sheila sentou-se junto ao p do leito, dobrando as pernas sob o corpo. Brad soltou-lhe amo para acender o pequeno abajur da mesinha-de-cabeceira. O brilho suave lanou uma pequena rstiade luz sobre a cama.
        - Voc est tornando tudo isso muito misterioso - disse Sheila, disfarando a confuso nummurmrio trocista, enquanto Brad se sentava na beirada cama, mantendo uma certa distncia entre eles.
        - No foi minha inteno. - Um sorriso pesaroso curvou a linha firme dos lbios. -  s que, desde que voc partiu hoje  tarde, tenho pensado no que falamos. Sheila, no agento esperar um anopara casar com voc.
        - Parece uma eternidade - concordou ela, com um suspiro langoroso.
        Brad debruou-se para a frente, transmitindoum sentimento de urgncia.
        - No precisamos esperar para casar. Voc jtem vinte anos. No precisa do consentimento dosseus pais.
        - Sei que no, mas...
        - O que ganharemos esperando um ano? - argumentou ele, num tom persuasivo. - No temosque provar coisa alguma aos seus pais... e definitivamente nos amamos. Quanto  bno deles, gostaria que pudssemos t-la, mas se desejam omiti-la, ouimpor condies, como a espera de um ano, entopodemos dispens-la. Depois que estivermos casados, tero que me aceitar.
        - Est sugerindo que a gente fuja para secasar? - indagou ela, mordiscando o lbio inferior.
        - Estou. No quero esperar um ano, seis meses, sequer uma semana - declarou.
        - Mas, e quanto  faculdade, ao seu emprego?Onde vamos morar! - argumentou Sheila.
        - Sei que no  prtico nem lgico casar agora- admitiu Brad, correndo os dedos pela espessacabeleira loura. - Devamos esperar pelo menos ato vero, quando me formo, mas desde quando oamor  prtico ou lgico!  uma necessidade fsica eemocional. - Inspirou fundo.
        - No sei. - Soltoua respirao num longo suspiro. - Talvez no sejapara a mulher a mesma coisa que  para o homem.
        - Talvez voc no sinta essas necessidades tanto quanto eu.
        - No  verdade - negou ela, rapidamente. - Eu as sinto.
        Ele perscrutou o rosto dela durante alguns segundos silenciosos.
        - Sabe o quanto desejo proclamar ao mundoque a bela mulher ao meu lado  minha esposa, Sra. Sheila Townsend?
        - Tanto quanto desejo ouvi-lo dizer essas palavras.
        Jamais imaginara que Brad fosse to romntico, dominador... e at mesmo possessivo, e no percebera nele esse lado tradicionalmente romntico seno essa noite. Parecia no combinar com ele.
        - Ento vamos fugir e casar amanh, nomximo depois de amanh. Podemos ir para o Mxico e casar em questo de horas.
        - Quero, sim...
        O tom de incerteza na voz dela impediu a afirmativa de ser uma concordncia total.
        - Mas o qu? - disse ele, mencionando apalavra que ela apenas sugerira.
        - Eu... preciso de tempo para pensar.
        Fugir para casar era a soluo bvia, mas Sheilano tinha certeza absoluta de que fosse a nica alternativa, embora tivesse sido a escolhida pela me.
        Ele agarrou-lhe as mos, que se retorciam nocolo, e segurou-as com firmeza.
        - Se est preocupada com seus pais, querida, vai ter que optar: ou os magoa ou me magoa. Elestm um ao outro, mas eu s tenho voc.
        Do jeito como ele falou, ela s tinha uma escolha. Ele a puxou para a frente, pondo-a de joelhos, depois enlaou-a pela cintura. Os dedos de Sheilase enroscaram nos msculos dos ombros largos dele, enquanto o fitava.
        - Fuja comigo, Sheila - ordenou ele, voltando a ser o Brad autoritrio que lhe era mais familiar.
        - Sim.
        A sua aceitao no necessitava de elaborao.
        As mos na espinha foravam-na a deitar-se. Aboca do rapaz fechou-se umidamente sobre a dela, saboreando a doura da sua rendio num beijo ternamente apaixonado. Sheila se excitou com o ardoramoroso da carcia, o calor espalhando-se-lhe pelasveias. Jamais encontrara outro homem to perito emdespertar seu desejo quanto Brad.
        Os lbios exploradores dele percorreram-lhe asfaces e as pontas douradas dos clios. Acompanhandoa curva graciosa da tmpora, mordiscou o lobo daorelha e a pele sensvel sob ela, antes de voltar boca, ardentemente. Os sentidos dela corresponderam, impetuosamente.
        Virando o corpo dela, Brad empurrou-a paratrs at que a cabea se apoiasse no travesseiro. Continuou a prender a maciez vulnervel dos lbios delaenquanto a caricia errante das suas mos lhe provocava um desejo febril.
        Ao sentir os dedos dele comearem a desabotoar a camisola escarlate, Sheila deu-se conta de queestava perdendo o pouco controle que tinha. A camadesfeita era um cenrio ntimo demais para uma longasrie de beijos apaixonados no ter concluso.
        - No, Brad - protestou, tentando impediros gestos dele.
        - Sim - insistiu ele, e ignorou as mos queinterferiam, abrindo habilmente o resto dos botes.
        Levantou a cabea para olhar para ela, o fogo ardentedo desejo iluminando-lhe os olhos escuros.
        - Noposso evitar quer-la, Sheila, ou querer fazer amorcom voc.
        Durante todo o tempo que falava com ela, nummurmrio sedutor, a mo se insinuava sob o tecidomacio da camisola. Deslizou-a vagarosa e instintivamente pelas costelas, at chegar  curva arredondadado seio nu. Sheila sentiu-o intumescer-se ao toquedele, incapaz de controlar a reao da sua carne.
        - No - murmurou, empurrando debilmentea mo dele.
        - No se negue a mim, querida. - A bocaroou-lhe os lbios, torturando-os, enquanto a mocontinuava a acariciar os seios redondos e empinados.
        - Voc tem seios to lindos e firmes! Quero toc-lose v-los e saber que logo sero apenas meus, para asminhas carcias.
        Com o polegar rodeou o mamilo, repetidasvezes, at deix-lo bem durinho. Ela estremeceu, acaricia tantlica esgotando a sua fora de vontade.
        A camisola deslizou para o lado, um fundo escarlatepara o trax nu, e ela no se pde forar a objetar.
        A luz do abajur iluminava o globo de porcelana do seu seio e o mamilo rosado para o olhar ardente de Brad. Puxou de leve o bico duro, estimulando-o a um nvel ainda mais alto. Sheila gemeu, semquerer, o seu toque tantlico deixando-a maluca.
        - Gosta disso, no , minha garotinha mimada! - Seu olhar fixou-se no rosto dela, a boca retorcendo-se de satisfao ao notar o brilho febril das suas faces e a umidade trmula dos lbios ofegantes.
        -  gostoso, no ?
        - ,  - arquejou ela, num desejo atormentado.
        A cabea movia-se agitada no travesseiro quando os dedos dele cessaram de brincar com o bico doseio e passaram a segur-lo por baixo, para empurr-lo para cima. Seus olhos semi-cerrados viram a cabeadele dobrar-se na direo da pontinha rosada.
        - Brad, no, no deve - protestou Sheila, egemeu quando os lbios dele rodearam o mamilorosado.
        A lngua dardejante lambeu a sua rigidez, rolando-a na boca como se estivesse saboreando adoura de uma uva. Quando Brad deu-lhe uma mordida de leve, Sheila arquejou de dor, que era estranhamente agradvel. Imediatamente ele abriu a bocae enfiou nela o bico do seio e a sua base rosada inteiros. Enquanto ele chupava eroticamente o seio dela, Sheila sentiu o latejar doido no seu sexo aumentar, o vazio pulsante ansiando por ser preenchido.
        Inesperadamente, ele desviou a ateno dosseios e voltou para seus lbios. Beijos duros e punitivos magoaram-lhe a boca, confundindo Sheila, poisno lhe era permitido corresponder com a paixo quea consumia. Finalmente, Brad ergueu a cabea, ofegando, um brilho escuro no olhar, que sugeria raiva.
        - Devia fazer amor com voc - falou, a vozrouca -, aqui na sua prpria cama, bem debaixo donariz do seu pai.  o que ele merece.
        As mos dele escorregaram pelos flancos dela, seus dedos exploradores encontraram o elstico dacalcinha. Ele o ergueu o suficiente para enfiar a pontados dedos por baixo, seguindo a linha reta ao longodos msculos trmulos da barriga dela.
        - Brad, no.
        Desta feita, a negativa dela era definitiva. Aexpresso dos olhos dele assustara-a, fazendo comque seu protesto fosse para valer.
        Ele forou o joelho entre as pernas dela, enquanto seu peso comprimia contra o colcho o corpoque agora se debatia. Sheila tinha conscincia da fora superior dele, e sabia que ele poderia domin-lase quisesse.
        Brad soltou uma risadinha abafada.
        - No vou fazer amor com voc, pelo menos at que voc me pea, lembra-se! Aliviou apresso sobre o corpo; j no a comprimia. - Almdisso, mesmo que possusse o seu corpo, jamais meconvenceria de que voc  minha at estarmos casados. Talvez as suas regras antiquadas sejam contagiosas. Tem um vestido branco para usar na cerimnia, minha virginal Sheila!
        Ela se descontraiu, no mais se sentindo ameaada por ele.
        - Tenho um vestido branco, mas  de vero.
        O brilho escuro que estava acostumada a vervoltou aos olhos de Brad.
        - No vamos nos preocupar com questes demoda. - Beijou-lhe a face, depois rolou para o lado, para deitar-se junto a ela. Constrangida, Sheila fechou a parte da frente da camisola, sem ver a expresso sardnica da boca de Brad. Ele ps o dedo sob oqueixo dela e virou-lhe o rosto. - Vai casar comigono Mxico amanh, no vai! - Imediatamente, abriu um amplo sorriso. - No amanh, pois amanh j  hoje, mas depois de amanh.
        - Ningum poderia me impedir - murmurouSheila, com um sorriso lnguido.
        - Andei tomando umas informaes hoje, quando estava de servio. Para casar no Mxico, sprecisamos de identificao e visto de turista - explicou Brad.
        - Tenho toneladas de identificao - assegurou-lhe ela -, carteira de estudante, carteira demotorista, cartes de crdito, passaporte. Vamos serfelizes juntos, querido - suspirou, aninhando-se nacurva do brao dele, olhando sonhadoramente para oteto. - Sei que vamos.
        - Antes de tornarmos isso realidade, temosque nos casar. O que significa que temos que fazercertos planos. - Afastou-a suavemente e se sentou.
        - Este  um caso em que uma posio horizontalno facilita o raciocnio.
        Relutante, Sheila ficou semi-deitada, recostadanos travesseiros, enquanto Brad se sentava ao p dacama, de frente para ela. Depois de afastar uma mecha de cabelo que lhe cara na face, Sheila enrolou-semais seguramente na camisola.
        - Quais so os planos! - indagou Sheila, certa de que ele j havia pensado em tudo antes defazer-lhe a proposta. Brad era meticuloso em praticamente tudo o que fazia.
        - Primeiro, h a questo do transporte - comeou. - A minha moto nos levaria e traria devolta economicamente, mas viajar quase a metadedo Estado do Texas no seria muito confortvel, nocom voc, eu e nossa bagagem. Por mais que eu deteste a idia, a lgica indica que devemos levar ocarro que seus pais lhe deram. Est no seu nome?No gostaria que tivssemos problemas na hora decruzar a fronteira com ele.
        - Est exclusivamente no meu nome  tranqilizou-o a moa -, certificado de propriedade, seguro... tudo.
        - Se vamos viajar toda essa distncia para casar, seria uma tolice no passar dois dias de lua-de-mel no Mxico, certo?
        - Certssimo. - Um amplo sorriso de concordncia iluminou-lhe o rosto, os olhos cor de topa brilhando de prazer.
        - Para onde vamos, noMxico?
        - Jurez.
        - Jurez? - repetiu Sheila, assombrada. - Mas fica a um dia de viagem daqui. Por que nocruzamos a fronteira em Laredo ou Eagle Pass? Qualquer lugar seria mais perto do que Jurez.
        - Fale baixo - disse Brad, franzindo o cenho.- Estou bem a par das distncias geogrficas, mash outras coisas a levar em considerao. Se seus paisdescobrirem o que estamos planejando, e tentaremnos deter, vo imediatamente imaginar que, se formos cruzar a fronteira, escolheremos um dos locaismais prximos que voc mencionou. Estou certo deque jamais ocorreria ao seu pai que eu seria to "burro a ponto de ir at Jurez.  um caso de psicologia ao contrrio - finalizou, com a boca levemente retorcida numa expresso presunosa.
        - Pode ser que tenha razo.
        Porm parecia-lhe que Brad estava tomandoprecaues desnecessrias. No gostava do modocomo ele insistia em pintar seus pais como viles.
        - Sei que tenho razo - disse ele, conclusivamente, e ela no tentou discutir. Brad parecia aSheila um garotinho participando de um jogo, e elasorriu em segredo  idia. - De qualquer maneira- continuou Brad -, sei me virar em Jurez melhordo que em qualquer outra cidade de fronteira.
        - Desde garotinha que no vou a Ciudad Jurez. Desta vez voc pode bancar o meu guia e memostrar os pontos de interesse - sugeriu.
        - Com satisfao. - Havia um brilho provocador no olhar dele, enquanto a olhava de alto abaixo, vendo as curvas femininas acentuadas pelacamisola escarlate bem ajustada ao corpo e as longaspernas expostas. - Desde que passemos a maiorparte do nosso tempo curtindo outros prazeres.
        Estranhamente, as implicaes do comentriodele no lhe estimularam o desejo. Na verdade, fizeram Sheila se sentir vagamente constrangida.
        - No podemos passar todo o nosso temponum quarto de hotel. - Fez uma tentativa de darde ombros, despreocupadamente. - Temos que sairpara comer, de vez em quando.
        - Pode ser - concordou Brad, com um entortar de lbios levemente malicioso. Levantou-se dacama e afastou-se dois passos, de costas para Sheila.
        - Mas isso nos leva a outro assunto.
        Sheila inclinou a cabea para o lado.
        - Qual!
        - Dinheiro.
        Ela enrijeceu o corpo. A briga que tiveram  tarde ainda era recente demais para que tivesseesquecido a amargura e o sarcasmo dele no tocanteao assunto. Baixou os olhos para os dedos, que agarravam a frente da camisola.
        - Pensei que no fossemos mais falar nisso- disse Sheila, com voz baixa e tensa.
        - Acredite em mim, no queria tocar noassunto. - Brad massageava a nuca, a voz sombria.
        - No vai ser fcil para mim dizer isso. Estou praticamente duro. - Soltou um suspiro fundo. - Opagamento desta semana foi todo para o aluguel.Tenho apenas alguns dlares no bolso at o dia dopagamento da semana que vem.
        - Oh! - exclamou ela. Havia um mundo decompreenso naquela pequena expresso.
        - Deus, como odeio isto - resmungou Brad, baixinho, depois endireitou os ombros. - Sheila, voc tem algum dinheiro s seu... quero dizer, almdo que vai herdar quando fizer vinte e um anos! No quero que voc v pedir dinheiro emprestado ao seupai. Me arrancaria as entranhas fugir para casar comvoc com o dinheiro "dele". Sheila sentiu um espanto inicial. Ele estava lhepedindo dinheiro. Sempre fora irredutvel, de modo quase neurtico, em no aceitar nenhum dinheiro, por mais que estivesse apertado. Agora, queria usaro dinheiro dela para se casarem.
        Era um bom sinal. Significava que conseguiriapersuadir Brad a usar o dinheiro e a herana delapara promover a sua carreira sem que ele se sentisseculpado, achando que estava vivendo  sua custa. Ofuturo parecia to cor-de-rosa! Seus pais ficariamchateados com a fuga para o Mxico, mas Sheila sabiaque voltariam a ficar do seu lado quando o casamento com Brad lhes fosse apresentado como um fato consumado.
        - Tenho o meu prprio dinheiro - disse -, uma caderneta de poupana que meu pai abriu paramim, e que est com quase dez mil dlares. Era paraser usado como uma lio prtica do valor do dinheiro, para ser gasto com as minhas despesas pessoaiseste ano.
        Brad virou-se parcialmente para olhar para ela.
        - Mas  seu?
        - Completamente, sem nenhuma outra assinatura na conta - assegurou-lhe Sheila.
        - timo. - Ele balanou a cabea, vivamente -  o que usaremos ento. Voc poder sac-loamanh, e j teremos derrubado este obstculo.
        - E quanto ao seu trabalho, e s aulas?
        - Terei que faltar s aulas, e pedirei a Tompara avisar que estou doente. Nenhum problema, poresse lado. - Correu os dedos pela espessa cabeleiraloura. - Ambos temos coisas para fazer, hoje. ɠmelhor eu ir andando, para podermos dormir umpouco.
        - Tem mesmo que ir? - suspirou Sheila.
        - Desta vez. - Meneou a cabea. - Encontro voc hoje  tarde s quatro horas, diante do hotel, e poderemos decidir a que horas nos encontraremos, e onde. - Deu-lhe um leve beijo. - E lembre-se:nem uma palavra dos nossos planos para pessoa alguma. No quero correr nenhum risco de isso chegaraos ouvidos dos seus pais.
        - Est bem - concordou ela, relutante.
        - No se esquea de trancar a porta - disse.Depois deu um largo sorriso. - Pense s nisso, meubem, daqui a pouco mais de vinte e quatro horasestaremos a caminho do Mxico.
        Um leve sorriso tocou os lbios dela. Quandoele retirou o brao dos seus ombros, Sheila sentiu frio. A sensao inquietante aumentou enquantoBrad sumia dentro da noite, e ela fechava e trancavaa porta nas costas dele. Estava tremendo ao voltarpara a cama. Nervosismo natural das noivas, disseSheila consigo mesma.
        
        
         Captulo 3
        
        Num quarto de hotel de Jurez, Sheila sorria ao telefone.
        - , foi o que falei, mame. - E repetiu afrase dita h segundos: - Brad e eu nos casamosno civil h vinte minutos.
        Brad estava de p ao seu lado, com o brao envolvendo possessivamente os seus ombros. Sheiladirigiu o sorriso para o belo rosto do marido. Otoque estava aquecendo a frieza confusa que a atormentara o dia todo. Nesse momento, toda a apreenso que tivera parecia tola.
        - No fique to nervosa, mame. Brad e euvamos ser muito felizes. Teremos uma lua-de-melde dois dias em Jurez; depois, iremos para casa. Agente se amava demais para esperar.
        Quando terminou as explicaes, ela se viroupara os braos de Brad, as mos dele se fechando emsuas costas, perto da cintura.
        Ele passou a boca pela cabeleira grossa e fulva, junto  testa da moa.
        - Ficaram zangados?
        - No - respondeu Sheila, examinando aaliana simples de ouro no seu anelar. - No houverecriminaes graves, apenas um desapontamento tcito por no lhes termos contado antes.
        - Fico feliz. - Brad afastou a cabea paraolhar para ela. - Fico feliz por voc - continuou, para remover qualquer indicao de hipocrisia de queestivesse se importando por si mesmo.
        - Eu tambm - concordou ela, antes que elea beijasse.
        - A prxima coisa a fazer - roou com onariz o canto dos lbios dela -  descer para a salade estar do hotel e tomar duas margaritas para brindar o nosso casamento. De l, podemos ir para orestaurante para um jantarzinho ntimo  luz develas. Notei que voc mal comeu quando paramospara almoar, e no a quero desmaiando de fomelogo mais  noite, Sra. Townsend.
        - Sou eu, no ! Sra. Townsend - compreendeu Sheila com certa sobriedade. - Vou ter que me acostumar.
        -  bom mesmo - advertiu ele, com simulada aspereza, apertando-a entre os braos por uminstante ameaador, antes de solt-la completamente.
        - Passe um pouco de batom e vamos descer. - Deu-lhe uma palmadinha no traseiro, quando Sheilavirou-se para obedecer. - Espere um segundo puxou-a de volta, a boca num esgar pesaroso. - Estou de bolsos vazios. Se no quer que eu passe a noitede npcias lavando pratos para pagar o jantar, vou precisar do dinheiro da sua caderneta de poupana. D-me logo tudo. No h por que correr o risco de algum roubar a sua bolsa.
        - O senhor  que manda, Sr. Townsend.
        Tirou da bolsa o envelope que continha o dinheiro e entregou-lho.
        Tirando tambm o batom da bolsa, Sheila sedirigiu para o espelho e pintou os lbios com umvermelho plido. Brad estava visvel num dos cantosdo espelho. Ela ficou olhando distrada enquanto elerasgava o envelope e comeava a contar o dinheiro.
        Sheila sorriu de leve.
        - Todos os dez mil esto a  tranqilizou-o.
        - O qu?O olhar parado se encontrou com o dela refletido no espelho.
        - Espero que no v querer contar tudo. - Havia uma manchinha de batom num dos cantos daboca, e ela limpou-a com o dedo. - Estou ficandocom fome.
        - No... no, claro que no - concordouele, com ar distrado, e afastou-se do espelho.
        Sua ateno voltou-se imediatamente para omao de notas que tinha nas mos. Como que fascinado, continuou a cont-las. Sheila sorriu para o reflexo, numa compreenso muda. Era provavelmentemais dinheiro do que ele jamais tinha visto de umas vez. O olhar dela desviou-se para as mos dele, eela sentiu alguma inquietao pelo modo quase reverente com que ele manuseava as notas. Virou-se devagar para fit-lo.
        Brad levantou os olhos e enfiou rapidamente odinheiro no bolso das calas. O ar de transe haviaabandonado o rosto, e ele sorriu com bastante naturalidade.
        - Est muito bonita, Sheila - disse Brad.
        A imaginao dela devia estar lhe pregando peas.
        - Que bom que voc acha - respondeu, com carinho. - Vamos indo!Depois de duas margaritas num estmago vazio, Sheila comeou a ficar meio tonta. Brad tomarao dobro sem parecer sofrer efeito semelhante. Narealidade, parecia ficar mais expansivo e extrovertidoa cada gole do forte coquetel de tequila.
        Pediu um quinto, e tirou uma gorjeta generosado mao de notas para colocar na bandeja do garom.
        Sheila no pde deixar de se sentir inquieta ante essecomportamento incomum.
        - Nunca soube que voc bebia tanto - disse, com forada naturalidade.
        - No  todo dia que um homem se casa. - O olhar distante e sorridente era arrogante. - Aocasio exige comemorao - continuou, erguendoaos lbios a taa que continha a bebida supergelada.
        No restaurante do hotel, Sheila morreu de vergonha da exagerada gorjeta de Brad ao matre. Eletomou a sua sexta margarita enquanto consultavam ocardpio. Sheila sugeriu um copo de vinho, juntocom a refeio, e Brad pediu o vinho mais caro dacasa.
        Durante a refeio, um par de violonistas parouao lado da mesa para fazer uma serenata. Brad imediatamente enfiou a mo no bolso e puxou o maode dinheiro, tirando uma nota alta. Mais uma vezfez questo de dar o dinheiro ostensivamente, e node passar a nota discretamente para os msicos.
        Quando os dois violonistas finalmente se afastaram da mesa, Sheila fez um comentrio suave sobreaquela extravagncia de mau gosto.
        - No precisa ser to generoso, Brad.
        - Estou feliz - defendeu-se ele, com um darde ombros indiferente. - E quero que todo mundoesteja feliz. - Ergueu a taa num brinde. - Paravoc, Sheila, e nosso glorioso futuro.
        O sorriso dela era forado enquanto erguia ataa aos lbios. O vinho parecia-lhe amargo e desagradvel. Tentou ignorar as apreenses que a atormentavam, e o comentrio do pai de que Brad eralouco por dinheiro. Ele simplesmente estava feliz, pensou, numa tentativa de racionalizar as aes dele.
        No tinha nada a ver com nenhuma sensao eufricade poder por estar com tanto dinheiro no bolso.
        Quando o garom retirou os pratos do jantar, Brad perguntou a Sheila:
        - Quer um pouco de conhaque com o caf?
        - No - recusou. E no pde deixar de acrescentar, com voz tensa:
        - Gostaria que no bebessetanto, Brad.
        - No estou bbado. - Os olhos se dilataram, com a censura. Depois, um sorriso de pretensacompreenso se espalhou por seu belo rosto. - Ah,  a nossa noite de npcias.  isso que a est incomodando, no ? - perguntou com um leve ar dedeboche. - Est preocupada que eu no v dar nocouro hoje, na cama? Asseguro-lhe que nunca houvequeixas a respeito, bbado ou sbrio.
        A grosseria dele fez Sheila enrubescer de repulsa. Baixou os olhos para a mesa, detestando o quequer que fosse que estava transformando Brad numestranho.
        - Rubores de donzela da minha noiva virginal. - Brad riu.
        - Brad, por favor - sibilou Sheila, com raiva, desejando que ele baixasse o tom de voz.
        - Desculpe, meu amor - disse, dando deombros. Mas no parecia arrependido.
        O garom voltou. Sheila quase soltou um suspiro alto quando Brad pediu a conta, ao invs do conhaque e do caf. Novamente ele deu uma gorjetaexagerada, mostrando o mao de notas para todomundo ver o seu gesto. Sheila tentou fingir que aquilo nada significava.
        Quando voltaram ao quarto do hotel, Brad beijou-lhe o pescoo e sussurrou, roucamente:
        - Creio que o tradicional  a noiva usar primeiro o banheiro... portanto, v voc na frente, minha bela.
        A bagagem estava num descanso perto da portado banheiro. Apanhando-a, Sheila hesitou. No foraassim que imaginara a sua noite de npcias. Bradagia mais como um estranho do que como o seu amante, mas agora era tarde demais para arrependimentos.
        Depois que saiu da banheira, retocou a maquilagem e afofou o cabelo louro-escuro. Havia somenteuma camisola na mala. As mos lhe tremeram quandoa tirou da mala e enfiou-a pela cabea. A camisolafinssima era ricamente bordada com renda no busto, duas alas finas sobre os ombros mantendo no lugaro vu transparente azul-turquesa.
        Lutando contra a agitao no estmago, abriua porta do banheiro e entrou no quarto. Sheila sedeteve, petrificada, sem conseguir se mover. Bradestava largado numa cadeira, uma garrafa de tequilanuma das mos e um copo na outra. Tirara o palete a gravata. A camisa estava semi-desabotoada, deixando ver um tufo de pelos louros e crespos. O olharfixou-se na garrafa.
        - Onde conseguiu isso! - indagou, sabendoque no havia bebido no quarto antes.
        - Servio de copa. - Brad fitava-a com olhossemi-cerrados, que ainda pareciam alerta. - Venhaaqui - ordenou. - Quero olh-la mais de perto.
        Entorpecida, Sheila obedeceu, as pernas se movendo quase por si mesmas. A trinta centmetros dacadeira, parou e ficou imvel para a inspeo. O olharde Brad moveu-se vagarosamente do rosto dela paraos ombros nus, percorrendo o corpinho de renda dacamisola at o vinco entre os seios, depois passandopara as curvas cheias e empinadas, descendo para afazenda finssima que lhe envolvia a cintura, a barriga, os quadris.
        - Vire-se - ordenou.
        Novamente, Sheila obedeceu, o corao batendocomo o de um coelho numa armadilha. A pele ao longo da espinha parecia arrepiar-se toda enquanto oolhar dele descia pelo seu corpo. Sentia-se como umamercadoria que estivesse sendo inspecionada em busca de defeitos. Ouviu o barulho do copo e da garrafasendo largados na mesa junto  cadeira.
        - Nada mau - murmurou Brad. Acariciouuma das ndegas arredondadas, e Sheila crispou-seao seu toque. No tinha nada da excitante magiaanterior. - No se preocupe. - Riu baixinho evirou-a para si. Pousou as mos nos flancos dela, junto s costelas, esticando bem a renda fina do corpinho sobre o busto. - Ainda prefiro os seus lindosseios.
        - Brad, no - disse, com voz trmula, nauseada pelo vinho e pela tequila que saturavam o hlito que atingia seu rosto.
        Uma das mos moveu-se at a ponta de um seio, onde um bico adormecido se delineava sob a renda.
        Afastou o tecido e segurou a renda, enquanto Sheilaarqueava os ombros, fugindo ao toque em seu seio.
        - Este pedacinho de nada azul e sexy provavelmente custou uma fortuna - comentou Brad, negligentemente.
        - Gosta da camisola? - perguntou Sheila, inspirando fundo e tentando disfarar o curioso malestar pela proximidade dele.
        - Se gosto! Claro. - Soltando-a, Brad caminhou at a mesa para tornar a encher o copo pousadoao lado da garrafa de tequila. Havia um pires cheiode fatias de limo sobre a mesa. - Vou lhe compraruma dessas para cada noite da semana.
        - Mas no  necessrio - protestou ela, crispando-se intimamente com o tom de bazfia dele.
        - Provavelmente tem razo. - Tomou umgrande gole antes de morder uma fatia de limo.
        -  melhor que no use nenhuma roupa.
        - No beba mais, Brad - insistiu ela, tensamente.
        Por um instante, ele se irritou. Depois, seusbraos estavam envolvendo-a, apertando-a.
        - Tem razo de novo. Por que beber esse lquido ardente quando posso provar a doura intoxicante da minha mulher?
        O rosto dele se aproximou mais, o bafo nauseante entrando-lhe pelas narinas. Ela desviou a cabea no ltimo segundo, e os lbios dele no tocaramos dela, apenas roaram-lhe a face. Mas Brad nopareceu notar.
        Os braos dele apertaram-na ainda mais enquanto suspirava ao seu ouvido.
        - No pode imaginar como estou feliz hoje, meu bem.
        - Est? - retrucou ela, imvel. Por mais quetentasse, no conseguia se descontrair, envolvida pelos braos dele.
        - Quando coloquei aquela aliana no seudedo, hoje  tarde, todo um mundo novo se abriupara mim - comentou ele, cismando. - Voc nosabe o que  no ter dinheiro, Sheila. A minha vidainteira tive que lamber o saco de algum para progredir, tive que fazer o trabalho sujo dos outros.
        Estou cansado de arranjar prostitutas para aquelesfilhos da puta ricos do hotel. - Sheila empalideceuante esse comentrio distrado. - Agora, com voc, todo esse tipo de vida pertence ao passado. Jamaisterei que fazer isso de novo.
        O sangue fugiu do rosto dela, depois voltouvelozmente, manchando-lhe as faces de vermelho, como se ele a tivesse esbofeteado. Sheila estava comeando a se dar conta de que havia um bocado decoisas sobre Brad que desconhecia.
        - , no ter - disse ela, quase sufocandocom as palavras.
        A mo dele vagueou pelos ngulos finos daomoplata antes de baixar para a cintura fina e acurva do quadril.
        - Voc no tem apenas um rosto bonito, tem um corpo fabuloso, tambm. Tem sido uma tentaoesperar at esta noite para possu-la - declarou Brad, grosseiramente.
        Os braos dela haviam estado rigidamente grudados no corpo. Ento, Sheila os ergueu para forarum espao entre os dois, depois soltou-se do abrao.
        - Brad, quero conversar - insistiu Sheila.
        - No h mais tempo para conversa. - Elelanou um olhar zombeteiro pelo seu corpo malcoberto. - Esta  a nossa noite de npcias... pelaqual ambos esperamos e ansiamos. Jamais conheciuma garota to ansiosa para perder a virgindadecomo voc. No posso acreditar que esteja ficandocom medo.
        - No  isso. S acho que devemos conversar.
        Ela tentou manter a voz calma e razovel, lutando contra as dvidas que inundavam sua mente.
        - O que h com voc?
        - Ele franziu a testa, puxando-a pelo cotovelo para vir-la para si. - Hsemanas que vem querendo que eu faa amor comvoc.
        Sheila procurou evitar que ele a tocasse.
        - No h nada comigo - protestou.
        O olhar dele baixou para o brao, ao notar queela procurava se soltar da sua mo.
        - Mas voc gosta que eu a toque - disseele. - Isso a excita. Lembra-se!
        O rosto que Sheila j considerara bonito haviase modificado, de alguma maneira. No sentia nenhuma excitao, nenhum estimulo na carcia dele. No compreendia essa mudana na sua reao, domesmo modo que no compreendia a mudana emBrad.
        - Nervosismo de noiva. - Sheila tentou levar na brincadeira as suas apreenses. - Tenha sUm pouquinho de pacincia comigo, Brad.
        - Ah, no. - A boca se retorceu provocando uma aparncia desagradvel. - No vai dar umade "esta noite, no" comigo. H muito tempo queanda me provocando.
        Brutalmente, puxou-a de volta para seus braos.
        Segurou a curva arredondada do traseiro e apertoua carne macia da ndega. Forou os quadris a se ajustarem  sua rigidez de macho, o tecido fino da camisola fazendo o papel de uma segunda pele. Umaonda de nojo subiu  garganta de Sheila, um bolonauseante que quase a sufocou.
        -  isso que voc est querendo, no ! - murmurou Brad, a voz rouca. - Porm no achaprprio de uma dama admiti-lo, no !- No  isso - insistiu Sheila. Tinha perfeitaconscincia da sua natureza apaixonada, e recordavaa capacidade que Brad tinha de excit-la. S que dessa vez ele no parecia preocupado em estimular oseu desejo.
        A ala frgil da camisola escorregou do ombroao toque dos dedos de Brad. Uma costura lateral serasgou quando ele puxou para baixo o corpinho rendado para revelar a pujana dos seios. Pegou brutalmente o que estava mais prximo  sua mo, enquanto a camisola larga caa ao cho, aos ps dela.
        - Brad, voc est me machucando - protestou Sheila, contra a massagem dolorosa no seu seio.
        Ele parou e esmagou-lhe os dois seios contraseu peito, os pelos crespos arranhando a pele sensveldela.
        Agarrou um punhado de cabelos louros, puxando-os pela raiz, at que Sheila arquejou. Os lbiosestavam imveis, vtimas fceis para a boca brutaldele. Brad os tomou num beijo quente e mido, ferindo a sua maciez. Sheila foi incapaz de repeli-loquando a lngua explorou todos os recantos da suaboca. Forou-se a no resistir, e conseguiu corresponder debilmente s exigncias ardentes dele.
        Tomando Sheila no colo, Brad carregou-a at acama e deitou-a nas cobertas j dobradas. Ela respirava ofegantemente. Ele ficou parado diante dela, fitando seu corpo despido na cama. Sheila permanecia imvel. Ficou olhando enquanto ele se despia, amensagem transmitida para o seu crebro num borroirreal. Era um pesadelo, algo que estava acontecendocom outra pessoa, no com ela. Se fechasse os olhos, quem sabe acordaria e encontraria o Brad com quempensara ter-se casado, ao invs desse estranho indiferente.
        Baixou os clios por uma frao de segundo, erguendo-os bruscamente quando a cama cedeu aopeso dele. Engoliu o grito abafado que subiu  suagarganta enquanto ele acomodava o corpo nu nacama ao seu lado, fechando uma das mos sobre asalincia do seu seio.
        Mordiscando brevemente o ombro branco, eleenterrou o rosto na curva do seu pescoo. Mas logoabandonou qualquer tentativa de excitar e estimularo desejo de Sheila. E as tentativas dela de fingir eramde dar pena. Estendeu os braos abertos acima dacabea, enquanto ele se deitava sobre ela.
        - Por favor - pediu, obstinadamente, recusando-se a suplicar -, seja meigo comigo.
        Ele abriu  fora as pernas dela para penetr-la.
        - Relaxe, porra - ordenou, irritado.
        Ao sentir a pontada lancinante de dor, Sheilacomeou a gritar, mas a boca dele cobriu a dela paraabafar o som, at que ela mal podia respirar. Possuiu-a como um javali no cio, rolando para o ladoquando ficou satisfeito.
        Lgrimas de vergonha e de um estranho sentimento de degradao inundaram as faces dela, jmidas pelas lgrimas iniciais de dor. Sentiu-se usada, "usada, diminuda de alguma forma por um ato que deveria ter sido a consumao do amor deles.
        Debilmente, Sheila tentou afastar-se do corpo masculino ao seu lado, mas os msculos trmulos edoloridos no lhe obedeciam.
        Apoiado num cotovelo instveis, numa posiosemi-sentada, Brad olhou-a com um ar cinicamentedivertido.
        - Mas que diabo, por que est chorando!Se tivesse sido bondoso para com ela, se tivessedito uma s palavra de carinho para compensar omodo grosseiro e indiferente como a usara, Sheilapoderia t-lo perdoado. Poderia ter posto toda a culpana grande quantidade de lcool que ingerira.
        Ao invs disso, enxugou vivamente a umidadedas faces com as costas da mo, o orgulho vindo tona para disfarar a necessidade de uma mo carinhosa, mesmo a de Brad.
        - Por nada - retrucou Sheila, a voz rouca, palpitante.
        - Ainda bem. - Ele virou-se para o outrolado. - Deus, estou cansado - murmurou, com umsuspiro.
        Dali a minutos, Brad roncava, a bebida finalmente fazendo efeito. Sheila desejou que o cansaotivesse tomado conta dele mais cedo, antes...Saiu da cama, ignorando a ardncia dolorosa dasua regio genital. Sem ter conscincia da nudez, foiat a janela do hotel que dava para a rua l embaixo.
        Havia gente nas caladas, garotinhos pedindo esmola.
        Sheila sempre se considerara uma realista. Jamais esperara ouvir pssaros cantando ou sinos tocando. Nunca pensara ter qualquer iluso romnticasobre o amor. Agora, percebia que tinha.
        Seu organismo estava chocado, suas emoesabaladas pelo conhecimento carnal de um homem, umhomem que era seu marido. Sheila imaginara quesentiria dor e uma certa dose de desprazer, mas noesse nojo e rejeio que a varriam. O sexo no era uma unio ntima de dois amantes. Era uma violao, um ato compulsrio de subservincia  vontade deum homem.
        Brad a possura egoisticamente para o seu prprio prazer e satisfao. A pergunta mesquinha permanecia: teria sido por causa do porre que tomara!Seria diferente quando estivesse sbrio! Quanto donojo que ela sentia agora era uma reao exageradaa uma experincia traumtica? E quanto era justificado!O frescor do ar noturno perpassou pela sua pele nua. Sheila afastou-se da janela, confusa e incerta.
        A camisola transparente jazia no cho. A moa hesitou, depois apanhou-a e enfiou-a pela cabea. Quem sabe na manh seguinte a lembrana dessa experincia se abrandaria, e tudo ficaria bem de novo.
        
        
         Captulo 4
        
        Brad acordou com o sol na manh seguinte. Logo que ele se mexeu, Sheila fingiu dormir, coisa que no acontecera durante a noite, pois sua mente ficara repassando as imagens da noite de npcias.
        Ele no fez nenhuma tentativa de acord-la quando se levantou e comeou a se vestir. Por entre os longos clios semi-cerrados, Sheila viu-o enfiar a camisa dentro das calas. Ele tirou o mao de notas do bolso. Louco por dinheiro, dissera o pai, e agora Sheila estava quase convencida de que ele tinha razo. Brad no procurara a esposa na manh seguinte ao dia do casamento. Seu primeiro interesse fora o dinheiro.
        - Vamos, bela adormecida, acorde - ordenou vivamente, sem olhar para ela.
        Depois de um breve debate ntimo sobre se devia ou no obedecer  ordem dele, Sheila abriu devagar os olhos, no deixando que demonstrassem o que lhe ia pela cabea. Ele no se dera ao trabalho dedar bom-dia. Ela agiu da mesma forma.
        - O que !
        As coxas ainda estavam doloridas e com cibras, protestando contra qualquer movimento.
        - Resolvi que devemos ir para Acapulco - anunciou Brad, parecendo muito satisfeito consigo mesmo.
        - Voc o qu? - exclamou Sheila.
        - Esta cidade de fronteira superlotada no  lugar para uma lua-de-mel. - O olhar dirigiu-se para a janela do hotel, onde o tumulto matinal de trfego e pessoas filtrava-se pelas vidraas. - Minha mulher mimada merece um local mais extico.
        Quando seus olhos castanhos se voltaram para ela, Sheila percebeu que ele no se interessava o mnimo pelo que ela desejava. Fora o prprio Brad quedecidira que Jurez no era bom o bastante para ele.
        Jurez era para os turistas, e Acapulco, o local paraa gente de dinheiro. E Brad se elevara a esse nvel, ao casar-se com ela.
        - No estou com vontade de ir para Acapulco- falou ela, a voz tensa.
        - Est se esquecendo, meu amor... aonde tu fores, eu irei - citou, zombeteiramente. - Vamos. Vai ser uma longa viagem. Levante-se e faa as malasenquanto vou pagar a conta e sair desta espelunca.
        - No h nada de errado com este hotel - insistiu Sheila, mas Brad j estava se dirigindo paraa porta.
        - No seja ridcula. - Riu-se dela, a mo namaaneta. - Quero lhe proporcionar uma lua-de-mel de verdade. Portanto, no discuta.
         Com o meu dinheiro, pensou Sheila, enquantoele saa para o corredor. Uma risada histrica subiulhe  garganta. Ela a abafou e afastou as cobertaspara se levantar.
        No banheiro, Sheila lavou-se rapidamente. Nose esmerou na maquiagem, aplicando apenas rmelcastanho nos clios encurvados e um batom rosa-plido nos lbios. Escovou rapidamente o cabelo paradesembara-lo, e estava pronta. O espelho do banheiro deixava ver que aquele mnimo de maquiagemno reduzia a sua beleza natural.
        Saindo do banheiro, foi procurar as roupas namala, desejando estar vestida antes de Brad voltar.
        Com a rapidez que lhe permitiam os msculos doloridos, vestiu uma calcinha e depois calas compridas marrons. A porta se abriu, e Brad entrou, fitandoas curvas macias do corpo dela.
        O interesse se dissolveu num arroubo de impacincia.
        - No est vestida ainda! - acusou.
        Sacudindo a cabea, Sheila fitou-o, com o sutina mo, os dedos segurando o bojo branco e rendado.
        - Brad, agora no temos tempo para uma lua-de-mel. Temos que voltar para a faculdade, e voctem o seu emprego.
        - Temos todo o tempo do mundo - insistiuele.
        Sheila franziu o cenho.
        - Mas, e a faculdade! E seu diploma?
        - E quem precisa de diploma! No h nadaque aqueles professores possam me ensinar. Almdisso, no  o que voc sabe...  quem voc conhece e quanto dinheiro voc tem. - Deu uma palmadinha na salincia do bolso das suas calas. - E temoso bastante para viver aqui no Mxico como reis.
        Sheila ficou boquiaberta, embora no soubessepor que ficara to surpresa pela declarao dele. Tinha havido muitas pistas.  que ela no estivera todisposta a enxerg-las quanto os pais.
        - Esse dinheiro no vai durar para sempre- lembrou-lhe Sheila, secamente. - Mais cedo oumais tarde vai acabar, mesmo no Mxico.
        Com passos lentos, calmos, Brad parou diantedela.
        - Vai durar facilmente at voc receber a suaherana. Far vinte e um anos em poucos meses.
        - Est pensando que vou simplesmente entreg-la a voc!
        Os dourados pontos felinos dos olhos dela chamejaram vivamente.
        Brad pareceu achar divertida a demonstrao da raiva dela.
        - Somos casados. O que  seu  meu. E o que  meu  seu tambm - pilheriou.
        Porm Sheila no achou graa nenhuma. Todos os seus gloriosos planos para o futuro estavam se desintegrando, um por um. Estava comeando a se dar conta de que sempre haviam sido planos dela. Brad simplesmente concordara com eles, provavelmente porque sabia que era o que ela queria ouvir.
        - No tem nenhuma ambio? - indagou ela, com um entortar sarcstico dos lbios, enquanto o queixo lhe tremia.
        - Vai ser uma ocupao de tempo integral ser casado com voc. - Tocou a ala do suti, o olhar passando pelos seios antes de fixar-se no rosto. - Por algum tempo, pelo menos.
        - E depois? - indagou Sheila, desafiadora.
        - Estou certo de que seu pai saber achar para mim um emprego condizente com minha condio de genro.
        Brad sorriu, complacente.
        - Alguma coisa que pague muito bem, mas que no lhe ocupe muito tempo - concluiu ela, dilatando os olhos, num ar de falsa inocncia.
        -  isso a, exatamente. - Ele abriu um sorriso. - Mas isso fica para mais tarde. Agora, vamos nos mudar para Acapulco, para passar uns dias preguiosos na praia. - Brad enfiou o dedo na ala do suti e arrancou-o da mo dela. - No precisa disso - declarou, tirando-o do seu alcance.
        - Devolva o meu suti - disse Sheila, recusando-se a tentar pux-lo da mo dele.
        - Hoje vamos fazer uma viagem de carro longa e chata. - Jogou o suti dentro da mala e fechou-a. - Vou querer uma diversozinha, de vez em quando. E sei que minha mulherzinha tambm.
        Sheila afastou-se, estremecendo, do toque abrasivo dos dedos dele. A mo ficou pairando no ar, enquanto ele lhe lanava um olhar demorado e tranqilo.
         - No h necessidade de bancar a tmida. Estamos casados. Volte aqui. No tenho tempo de ser paciente com voc agora como fui ontem  noite.
        - Voc foi paciente ontem  noite?
        Ela respirou com dificuldade.
        - Mais paciente do que estou sendo agora. De qualquer modo, voc gosta  da tcnica do homem das cavernas. - Fechou a mo sobre o seio, acariciou-o brevemente, antes que Sheila se afastasse. Brad soltou uma risada. - Pode vestir a blusa, agora. Vou fazer as malas enquanto voc pega as coisas no banheiro.
        Entorpecida com a revelao do verdadeiro Brad Townsend, Sheila obedeceu. Quando saiu do banheiro, Brad j estava pronto para ir embora. Segurou-a pelo cotovelo, foi andando depressa pelo corredor, na direo da sada.
        - No vamos comer alguma coisa, ou pelo menos tomar caf? - falou Sheila, tentando diminuir o passo, enquanto ele a empurrava para a porta.
        Ele olhou desdenhosamente  sua volta.
        - No, quero sair deste lugar. Vamos parar mais tarde em algum canto.
        No havia ningum no pequeno estacionamento do hotel. Sheila sentou-se no banco do lado do motorista, enquanto Brad arrumava as malas no banco de trs do Thunderbird azul. Ao sentar-se ao volante, debruou-se para beij-la. Sheila virou a cabea no ltimo instante, e ele beijou-lhe o canto da boca, apenas.
        - Ainda tem vergonha de fazer carinho em pblico? - debochou ele. - Vamos ver se conseguimos livr-la de algumas das suas inibies durante a viagem. - Piscou o olho e deu partida ao carro.
        Enquanto Brad guiava pelas ruas de Jurez, Sheila se encolhia o mais perto possvel da porta.
        Cansada e desanimada, sentia-se encurralada pelodestino. A seda cor de creme da sua blusa era friade encontro  pele nua, um lembrete fsico do tipodo homem que era Brad.
        Os arredores de Jurez, com as suas favelas esqulidas, logo ficaram para trs. Um grupo de operrios que consertavam um pequeno trecho da autoestrada forou Brad a diminuir temporariamente avelocidade. Logo a seguir, recomearam a correr.
        A cada giro do volante, dentro de Sheila cresciaa certeza de que havia cometido um erro terrvel. Trataria de arranjar uma anulao, um divrcio, qualquer coisa que pusesse fim a esse casamento de farsa.
        Tendo tomado a deciso, uma exausto que eraa um s tempo fsica e mental comeou a domin-la.
        Logo adormecia, embalada pelo ritmo constante domotor e o girar das rodas. Foi um sono pesado, semsonhos.
        Horas e quilmetros se passaram antes que odesconforto do banco do carro comeassem a incomod-la, forando-a a acordar. O pescoo estava duroe dodo, e a cabea sacudia-se contra o encosto.
        Esfregando o pescoo, Sheila abriu os olhosdevagarzinho. Com dificuldade, fixou o olhar na paisagem. Lembrava a do oeste do Texas em muitosaspectos, mas a imponncia das montanhas da SierraMadre  sua frente confirmava que estavam noMxico.
        No estavam mais viajando na auto-estrada. Uma trilha de cho batido irregular se estendia diantedeles, em meio  vegetao rasteira, esburacada, que provocava solavancos. Sheila olhou confusa paraBrad.
        - Onde estamos? - A garganta ressequidatornava-lhe a voz rouca.
        A linha do queixo dele estava rgida e irada. Nem tirou os olhos da trilha para olhar para ela.
        - Devamos estar num atalho das montanhasat a costa oeste, mas no creio que o mexicano burroque me falou nele soubesse o que dizia.
        - Seria impossvel voc ter tomado a estradaerrada - comentou Sheila com um sarcasmo seco.
        O olhar dele virou-se irado para ela por umbreve segundo, e o volante quase lhe foi arrancadodas mos quando o pneu da frente caiu num buraco.
        - Provavelmente, ele acha que esta  uma boaestrada, mas vai acabar com este carro - resmungouBrad.
        Que gentileza em se preocupar, pensou Sheilacom cinismo, levando-se em conta que era o carrodela que estava guiando. Porm, ficou calada. Haviauma friagem no ar. Olhou de novo para as famosasmontanhas e chegou  concluso de que a altitudemaior fizera a temperatura baixar. Abafando umarrepio, abraou o prprio corpo.
        - Est ficando frio. No pode ligar o aquecimento!
        - No est funcionando - disse Brad, bruscamente.
        - H calor em algum lugar, porque a luz deadvertncia no painel est acesa - observou Sheila, causticamente. - No  vapor aquilo que est saindode sob o capo!
        Brad soltou uma srie de palavres. Parando ocarro e deixando o motor ligado, saiu impetuosamente, batendo a porta. O vapor subiu em nuvens quando ele levantou o capo.
        Com a mesma impacincia com que sara do carro, voltou para o banco do motorista e desligouraivosamente o motor. Ficou sentado ali por umtenso minuto, as mos agarrando com violncia ovolante.
        - Merda!
        Socou o volante.
        - O que aconteceu? - perguntou Sheila, sentindo um tipo estranho de satisfao ao ver a raivafrustrada dele.
        - Uma mangueira furada - rosnou Brad.
        - D para voc consertar?
        Os olhos dela estavam arregalados e piscavam, inocentes, ao sentir qualquer provocao deliberada.
        Ele abominava trabalho manual.
        O rosto dele estava lvido de fria.
        - Ora, claro, sempre trago sobressalentes.
        - No sabia. - Ela deu de ombros. - Spensei que voc talvez tivesse previsto a possibilidade de uma avaria, e tomado suas precaues.
        - Cale essa boca, Sheila - rosnou ele.
        - O que vamos fazer agora! Sentar aqui eesperar que passe algum!  uma estrada to movimentada que...
        Com a velocidade de uma cobra dando o bote, a mo dele fechou-se ao redor da garganta de Sheila, cortando o resto das palavras. O belo rosto estavavermelho de raiva ao aproximar-se do dela.
        - No abra de novo a boca antes que eu mande - ordenou. Os dedos fizeram uma presso ligeiramente maior, fazendo Sheila sufocar.
        Ela conseguiu balanar ligeiramente a cabea, concordando, respirando fundo quando a presso estranguladora foi afrouxada. Lgrimas de dor lheafloraram aos olhos. Sheila virou o rosto para a janela lateral, enxugando os vestgios das lgrimas coma ponta dos dedos.
        - Puxa, mas voc no sabe aceitar uma brincadeira, hein! - falou com voz sufocada, mas Bradno respondeu.
        Um remoinho de poeira passou rodopiando aolado do carro, e entrou pela vegetao adentro. Sheilaacompanhou a sua trajetria para o vazio da terra.
        Parecia um deserto.
        Uma rajada de vento formou uma nuvem depoeira. O olhar dela se aguou ao detectar movimento na nebulosidade. O ar se desanuviou ligeiramente, possibilitando entrever cavalos e cavaleiros. Na densidade obscura da vegetao, era difcil dizer quantoseram, meia dzia, talvez mais.
        Sheila no avisou Brad da presena dos cavaleiros at que o pequeno bando viu o carro avariadoe parou para fit-lo curiosamente. Um Thunderbirdazul no fim do mundo no era uma viso comum.
        - Brad, h algum a - falou, finalmente.
        - O qu! - Ele inclinou-se para ela. - Onde!
        - Ali. - Sheila apontou, atormentada porum medo que no conseguia explicar. - A cavalo. No est vendo!
        - Sim, estou - respondeu ele.
        - Quem acha que sejam!
        Ela continuou a observ-los, achando estranhoque no se tivessem aproximado para investigar.
        - Vaqueiros mexicanos, pelo jeito - concluiuBrad. - Ouvi dizer que h muitas estncias nessarea.  regio de gado.
        Ela franziu o cenho, incerta.
        - , pode ser.
        - No se preocupe. No vou correr nenhumrisco.
        Debruou-se para o banco de trs e abriu a suaSurrada mala de viagem. Sheila olhou por cima doombro para ver o que estava fazendo. Arregalou os olhos, surpresa, ao ver o revlver de cano curto sendo retirado de sob uma pilha de roupas.
        - O que vai fazer com isso?
        Brad ignorou a pergunta. Verificou se a armaestava carregada antes de enfi-la na cintura e abotoar o palet.
        Ao abrir a porta, ordenou:
        - Fique no carro.
        O olhar dela voltou-se rapidamente para obando de cavaleiros que se aproximava do carroserenamente. Quando Brad saltou, um dos cavaleirosseparou-se dos demais e adiantou-se.
        - Al! - cumprimentou Brad, caminhandoat o capo levantado.
        - Buenos das, seor - retrucou o homem.
        Parou o cavalo e desmontou, o corpo robusto envoltonum poncho sujo, de listras vivas.
        - Fala ingls! - indagou Brad.
        - No hablo ingls - respondeu, sacudindotristemente a cabea.
        - Olhe - Brad inspirou fundo e soltou umsuspiro irritado -, meu carro enguiou. - Fez sinalao homem para que viesse para a frente do carro. - Est vendo! A mangueira do radiador rebentou.
        O outro fez um comentrio em espanhol queparecia adequadamente solidrio aos problemas deBrad. Dava de ombros, demonstrando a sua impotncia para ajudar, enquanto se afastava do capo.
        Os outros cavaleiros se haviam agrupado juntoao cavalo do homem, observando o que se passava.
        Sheila contou oito homens, nove com o que falavacom Brad. No podia reprimir a sensao estranhaque lhe dava calafrios na espinha. Era como se alguma parte primitiva dela tivesse farejado o perigo.
        Ignorando a ordem de Brad, saltou do carro.
        - O carro no vai andar at que seja consertado. O que preciso  de... - Brad se interrompeu ao ouvir o barulho da porta do carro se fechando eolhou feio para Sheila. - Volte para o carro.
        O olhar dela no se desviava dos cavaleiros.
        - Vou ficar aqui.
        Era um grupo heterogneo de homens. A poeiracobria as suas roupas, uma variedade de ponchos ecalas. Os cavalos eram pequenos e mirrados, insignificantes se comparados com os cavalos fortementemusculosos comuns no Estado natal de Sheila.
        Combinando a pantomima com uma tentativade linguagem de sinais, Brad se esforava para comunicar-se com o mexicano. Sheila o observava com ocanto dos olhos.
        - Tem alguma cidade ou aldeia aqui por pertoonde possa consertar o carro! - Brad dizia as palavras devagar, fazendo mmica quando podia. - Tenho que achar algum para consertar o carro...para que volte a funcionar. Comprendez?
        O homem escutou e observou atentamente, mas, no final, sacudiu a cabea pesaroso e levantou asmos espalmadas.
        - No entiendo, seor.
        Brad murmurou baixinho para Sheila:
        - Por que esses malditos mexicanos noaprendem a falar ingls! - Recomeou tudo. - Halgum por aqui que possa consertar o carro!
        O olhar de Sheila percorreu, desconfiado, o grupo de cavaleiros, fixando-se sempre num nicohomem, embora, superficialmente, nada houvessenele que o distinguisse dos demais. Usando um chapu de cowboy de aba larga, coberto de p, estavalargado na sela, a mo enluvada pousada no arodianteiro. No entanto, Sheila sentiu uma vigilnciaanimal por trs da pose indolente.
        Como nos demais, havia uma sombra escura nasfaces e queixo, que indicava que no se barbeara recentemente. Dava-lhe uma aparncia desleixada e vagamente no respeitvel. Mas esse homem no tinhao rosto largo e chato que indicava a origem mexicano-ndia dos demais. As feies eram angulares emagras. E os olhos vtreos que a fitavam eram durose frios.
        - Que merda! Deve haver algum mecnicopor aqui! - explodiu Brad, perdendo a pacinciapela sua incapacidade de comunicar-se com o mexicano.
        - Mecnico? S, s.
        O homem sacudiu a cabea, compreendendorepentinamente, soltou um palavrrio em espanholenquanto apontava para a direo de onde tinhamvindo.
        - Agora, sim, estamos chegando a um acordo- murmurou Brad, sombriamente.
        Uma rajada de vento jogou mechas lustrosas docabelo castanho-dourado no rosto de Sheila. Ela levantou a mo para pux-los para trs da orelha, semse dar conta de que o gesto repuxava o tecido de sedada blusa sobre os seios. O olhar foi atrado novamente para o cavaleiro moreno.
        - Quer ir no seu cavalo buscar o mecnico?- Brad fez a pergunta com a ajuda de mmica. - Eu lhe pagarei pelo incmodo. Pagar... entendeu?Pesos. Muitos pesos. No vai me dizer que no sabeo que so pesos! - acrescentou cinicamente.
        - Pesos? Si, si.
        O homem lhe assegurou que entendera, eesperou.
        - Quanto quer? - perguntou Brad, enfiandoa mo no bolso das calas. - Cinqenta pesos?
        Quando tirou do bolso o mao de notas queSheila lhe dera, ela ficou inteiramente gelada. Tevevontade de gritar com Brad pela sua burrice em mostrar todo aquele dinheiro para o homem, mas nadaconseguiu desfazer o n que se formara na sua garganta. O mexicano riu com alegria indisfarada, deixando ver dentes lascados e amarelados, e disse algo para os outros.
        Ela no podia acreditar que Brad no estivessesentindo a mudana sutil na atmosfera... aquelasensao carregada no ar que precede uma violentatempestade. Sheila fitou os cavaleiros, notando osleves sorrisos que apareceram quando do comunicadodo seu compatriota. Apenas aquele cavaleiro que aatraa pareceu no se sensibilizar com a notcia. Cadamsculo do corpo dela estava retesado para a fuga.
        - Cinqenta pesos no chegam, hein! - resmungou Brad, baixinho. - Filho da puta ganancioso. - E comeou a tirar mais notas. - Que tal cempesos! Isso o persuadi!
        Sheila tinha vontade de rir histericamente deBrad. O desejo obcecado de mostrar como era ricodeixava-o cego  situao, e ela no conseguia foraras palavras a sarem da boca para adverti-lo. A cenatoda caminhava para um clmax, e ela estava impotente para impedi-lo.
        A mo esquerda do mexicano saiu das dobrasdo poncho e estendeu-se para o dinheiro.
        - Descobri o seu preo, no foi! - declarouBrad, e comeou a separar algumas notas do mao.
        O homem no esperou que lhe desse o dinheiro. Ao invs disso, a mo se fechou sobre a quantia toda. Brad percebeu, tarde demais, o perigo que Sheilapressentira desde o comeo. Praguejando, meteu amo sob o palet para pegar o revlver.
        Quando o cano da arma apareceu na mo dele, os olhos horrorizados de Sheila viram a boca da armado mexicano surgir do lado direito do seu poncho. Seguiu-se uma exploso ensurdecedora. Quando osolhos dela voltaram a entrar em foco, Brad caa aocho, o revlver escorregando dos seus dedos.
        "Seu idiota cretino". pensou Sheila.
        Quis correr para junto dele, mas o mexicanoj estava se ajoelhando ao seu lado, arrancando omao de notas dos dedos fortemente cerrados.
        Sheila deu um passo incerto na direo de Brad, fitando o pequeno buraco vermelho no seu peito. Nohavia nenhum esguicho de sangue como vira no cinema... apenas um buraquinho mortal e uma mancha escarlate que se espalhava lentamente, indicandoa ferida fatal.
        O rudo das patas dos cavalos e do couro dasselas penetrou na nvoa atordoada da sua mente. Ocheiro de plo de cavalo misturava-se ao cheiro acreda plvora. Enquanto seu olhar se expandia paraabranger a cena para alm do corpo imvel de Brad, Sheila percebeu que o bando de cavaleiros se acercara. Dois deles haviam desmontado para se unir aohomem que revistava os bolsos de Brad.
        O olhar dela correu pelo grupo ameaador. Seucorao parou de bater por um segundo, depois disparou alucinado de medo. Todos a fitavam. Sheilagrudou-se  porta do carro.
        Mais dois cavaleiros desmontaram e comearama caminhar em sua direo. No havia para onde correr. J tinham matado Brad, e ela sabia que no podiaesperar misericrdia, certamente nenhuma, antes quea matassem tambm.
        Sobreviver! A palavra gritava em suas veias. Sobreviver! As batidas apavoradas do seu corao diminuram instantaneamente, e a mo de ferro que apertava a sua garganta foi removida. Precisava sobreviver.
        
        
         Captulo 5
        
        Sheila enfrentou ousadamente seus atacantes.
        - Sei como podem conseguir muito mais dinheiro - falou calmamente. - Compreendem! Mucho dinero.
        Sua declarao foi recebida em silncio. Todosolhavam para ela, sem alterar a fisionomia. Os doishomens haviam interrompido a sua aproximao.
        Sheila percebeu que lhes prendera a ateno.
        - Mucho dinero - repetiu.
        Os dois homens recomearam a andar na direo dela. Um deles era alto, o rosto nas sombras daaba larga do chapu. O outro era baixo e atarracado, um sorriso debochado nos lbios.
        - Meu nome  Sheila Rogers - comeou denovo, ignorando o fato de que seu nome fora legalmente trocado para Townsend. - Meu pai  muitorico. Pagaria um bocado de dinheiro se eu fosse devolvida para ele, inclume. - Sheila enfatizou altima palavra. - Pagaria um bocado de dinheiro.
        Ningum pareceu impressionado pelas palavrasdela. O seu olhar correu pelos cavaleiros, ricocheteando para longe das feies magras e duras de umdeles, o moreno. O instinto lhe dizia que era o maisperigoso do bando.
        - Um de vocs aqui tem que entender o queestou dizendo, - Uma nota raivosa e desesperada soou em sua voz. - Meu pai pagaria um dinheiropara me ter de volta.
        Sheila percebeu a ironia da sua desgraa. Estavanesse fim de mundo, casada, e agora viva por causada ambio de Brad pelo seu dinheiro. No momento, talvez a nica chance de sobrevivncia dependessedesse dinheiro.
        Uma voz baixa falou qualquer coisa em espanhol, interrompendo-lhe o fio do pensamento. Buscou rapidamente com os olhos o dono da voz serena.
        Era o cavaleiro magro e moreno, que a olhava comas plpebras semi-cerradas, o cavalo batendo com aspatas no cho, inquieto.
        Uma segunda voz fez Sheila girar depressa acabea.
        - Quanto!
        Vinha do homem alto e de ombros largos quese acercava dela. Sheila viu-se fitando um par deolhos azuis lmpidos, frios e sem emoo. O sotaquefora inconfundivelmente americano.
        - Voc  americano - exclamou Sheila, quase arquejante.
        Ele ignorou a observao.
        - Quanto o seu pai pagar!
        - Milhes - assegurou-lhe. - O suficientepara todos vocs, desde que no me machuquem deforma alguma.
        Sem tirar os olhos dela, dirigiu algumas frasesem espanhol por cima do ombro, para os que estavam atrs. Era, obviamente, uma traduo da resposta. O olhar dela dirigiu-se para o cavaleiro quefalara primeiro, para ver o efeito que suas palavrastinham produzido nele. Suas feies bem-feitas eramuma mscara impenetrvel. Falou de novo na mesmavoz baixa, e a ateno de Sheila voltou-se parao americano.
         - Quem  o seu pai, e onde moras - perguntou secamente.
        - O nome dele  Elliot Rogers, e mora emAustin, Texas - ela respondeu simplesmente, sabendo que no tinha nenhum motivo para florear.
        - Nunca ouvi falar dele - foi a resposta indiferente.
        - Duvido que vocs tenham sido convidadospara as mesmas festas. - Seus olhos dourados defelino percorreram significativamente o bando de seqestradores. - No fazem parte dos mesmos crculos.
        O homem deu uma risadinha e no traduziu oque dissera. Aproximou-se dela. Sheila forou-se ano vacilar quando ele estendeu a mo e tocou nafazenda da sua blusa. Ele cheirava a poeira, suor ecavalo.
        Visto de perto, Sheila pde perceber vestgiosde uma beleza juvenil por trs da barba por fazer edas feies endurecidas pelo sol. Tentou calcular asua idade, mas as rugas da experincia tornavam oclculo difcil. Podia estar na casa dos trinta, masSheila teve a sensao de que era mais moo ainda.
        Os olhos azuis a percorreram de alto a baixo, no deixando passar nada; no entanto, Sheila nose sentiu perturbada pela inspeo minuciosa.
        - Roupas caras - observou ele.
        - Foi o que meu pai achou quando pagou porelas - respondeu Sheila, para reforar a sua posiode herdeira.
        Sorrindo de leve, ele largou a blusa e seguroulhe as mos, erguendo-as para examin-las. Focalizoua ateno na aliana de ouro.
        - Ele? - indicou com um gesto de cabea o cadver de Brad.
        -  - admitiu Sheila. - Meu nome de casada  Sheila Rogers Townsend. Estvamos na nossa lua-de-mel.
        - O que estavam fazendo aqui? - perguntou.
        - Disseram a Brad que havia um atalho pelasmontanhas. Estava tentando encontr-lo quando ocarro enguiou.
        - No  este - falou ele.
        Sem alterar a posio, disse algo em espanhol. A voz baixa e familiar que respondeu causou ummurmrio de dissenso no grupo. Sheila prendeu arespirao ao olhar para as expresses em desacordo. A disputa terminou com a nota firme de autoridadena voz baixa.
        - Est com sorte - falou o americano. - O chefe acredita na sua histria. - Embora os cantos dos seus lbios se curvassem para cima, no haviacalor algum no sorriso. - Sabe que h meios de descobrir se o seu pai realmente tem dinheiro, no sabe?
        - No estou mentindo - respondeu Sheilacalmamente. - Acha que mentiria!
        - Poderia - disse, sacudindo a cabea -, para salvar este seu lindo pescoo.
        Soltando uma de suas mos, virou-se para pegaruma pequena corda de um dos cavaleiros. O gestopareceu um sinal para os demais recomearem apilhagem.
        - No h necessidade de me amarrar - insistiu Sheila, enquanto ele prendia a corda num dospulsos.
        -  s uma precauo.
        Apertou a corda e enrolou-a tambm no outropulso.
        As fibras penetravam na pele macia, e a cordaestava to apertada que restringia a circulao nosdedos. Qualquer tentativa de Sheila para flexion-los irritava a pele em contacto com a corda.
        O olhar se desviou para o homem que acreditara na sua histria. De alguma forma, soubera desdeo incio que era o chefe do bando.
        Enquanto ela o observava, ele deu uma ordemem espanhol, e os homens recomearam a montardevagar. Os olhos dela desviaram-se para o corpoque jazia no cho. Devia sentir choque ou tristezaao v-lo, pensou Sheila. Era errado no lamentar umamorte, especialmente quando o homem era o maridodela. Mas o medo e a vontade desesperada de sobreviver haviam afastado todas as outras emoes de suamente.
        Houve um puxo nas suas mos para que semexesse. Sheila resistiu, e a corda imediatamente penetrou na sua pele quando fizeram presso paraque obedecesse.
        - Espere - pediu Sheila. O americano parou, erguendo uma sobrancelha num ar indagador. Elalanou um rpido olhar ao corpo de Brad. - Novai deix-lo a desse jeito, vai! Os animais podero...
        Sheila no pde acabar a frase, incapaz de verbalizar a imagem horrvel que lhe passou pela cabea.
        - Ns acabamos de mat-lo - disse ele, retorcendo a boca cinicamente, um brilho duro nosolhos azuis. - No est esperando que viremos cristos e o enterremos decentemente, no !
        Sheila fechou os olhos ante a lgica amarga, eos abriu para fitar o corpo sem vida.
        - No  direito deix-lo a desse jeito - repetiu em voz baixa.
        Um repelo nos seus pulsos atados lanou Sheilapara a frente, aos tropees. Um dos cavaleiros segurava as rdeas do cavalo do americano, enquanto elaera semi-arrastada para o lado esquerdo da sela vazia.
        Antes de poder recuperar o equilbrio, um par demos agarrou-a pela cintura e iou-a para o cavalo.
        Segurando o aro da sela para se firmar, SheilaOlhou para o americano. A mo dele pousava na aba da sela de couro, junto  perna dela. Ele lhe lanou um olhar longo e duro, depois disse algo em espanhol para o homem que segurava o cavalo.
        Sem uma palavra para Sheila, virou-se e caminhou at o corpo que jazia no p. Levantando o pesomorto, jogou-o sobre o ombro, carregando-o comoum saco de batatas at a porta do carro, do lado dobanco do passageiro.
        Magneticamente, o olhar dela se afastou dacena, atrado por um par de olhos que eram topretos e duros quanto pedaos de carvo. Eles a foravam a olhar para o homem, o lder do bando derenegados. Seu pulso se acelerou, numa vaga sensao de alarme.
        Um alvoroo e uma voz irada em espanhol livraram Sheila do olhar penetrante quando a suaateno voltou-se para outro local. Inconscientemente, ela se havia retesado naqueles breves segundos, e agora sentia os msculos contrados comearem arelaxar. Seu olhar se dirigiu para a causa da sua libertao.
        O mexicano dos dentes amarelados, o que matara Brad, estava a cavalo no centro do semi-crculodos cavaleiros montados. Um palavrrio irado emespanhol era dirigido ao homem que, havia segundos, gelara Sheila com o olhar. O cavalo do mexicano semovia, inquieto, reagindo  raiva do seu cavaleiro.
        Ele fez um gesto indicando Sheila e depoisbateu com a mesma mo possessivamente no peito.
        Naquele instante, Sheila percebeu que ele havia colocado o cavalo de modo a bloquear a volta do americano para junto dela. Embora no entendesse o queele estava dizendo seu objetivo era evidente. Estavareclamando-a como propriedade sua.
        Sentiu um tremor correr-lhe pela espinha. Semdvida, no a fariam cavalgar com o homem queassassinara Brad! Gritava o seu pensamento, aterrorizado. Pelo menos o americano ainda conservavaum vestgio de compaixo.
        Seus olhos arregalados procuraram o rosto impassvel do lder. A deciso era obviamente dele.
        Ele nem sequer olhou para ela, deu de ombros comindiferena e afastou o cavalo do crculo. Com umgrito de triunfo, o mexicano esporeou o cavalo na direo de Sheila.
        Parou o cavalo ao lado dela, puxando o freioselvagemente. O olhar de Sheila se dirigiu para oamericano, esperando que protestasse, mas nem umlampejo de oposio perpassou pelo seu rosto. O brao que rodeou sua cintura tirou-a da paralisia que adominava.
        - No! No!
        Sheila foi arrancada da sela, esperneando egritando.
        Ningum ligou para os gritos, enquanto era colocada de lado sobre a sela. A faixa de ferro do braodele apertou ainda mais a cintura dela, quase espremendo-a ao meio. Ele esporeou o cavalo, que se lanou para diante, jogando Sheila contra seu peito. Acada passada do cavalo, o aro dianteiro da selacutucava a sua coxa.
        O assassino riu ao v-la debater-se, sabendo, como Sheila tambm sabia, que ela no poderia soltar-se e que estava apenas desperdiando energia natentativa. Prendendo um soluo de frustrao e auto-piedade, ela parou de se debater e manteve o corporgido contra o peito dele.
        O cavalo agora trotava agitadamente. Os olhosde Sheila, acusadores e mal-humorados, percorreramO bando que comeava o xodo da cena do crime. Dois retardatrios vinham a meio galope para se reunir ao grupo meio disperso. O fogo dourado em seusolhos refletiu seu ressentimento quando o americano de olhos azuis passou. Ele nem sequer olhou para ela enquanto dirigia o cavalo para postar-se ao lado dochefe.
        As mos amarradas e a posio lateral sobre asela foravam Sheila a se apoiar no brao e no peitodo homem. Seu ombro roava no peito dele, e o tecido spero do poncho a arranhava, atravs da fazendafina da blusa. Ele tinha um tremendo mau hlito, eSheila virou a cabea para evit-lo.
        O couro das selas rangia enquanto o bandoaumentava a distncia entre si e a estrada de terrabatida. O caminho que seguiam pelo terreno irregular era paralelo  imensa cordilheira. Uma ordeminvisvel pareceu correr pelo grupo. Quase simultaneamente todos diminuram o trote.
        O aro fazia uma presso constante, o que nomachucava mais sua coxa. O homem lhe falou qualquer coisa em espanhol, o tom de voz baixo e sugestivo, o bafo quente tocando-lhe o rosto. Sheila lhelanou um olhar venenoso, e ficou tensa ao ver osolhos brilhantes se voltarem para baixo.
        A posio encurvada de Sheila contra o peitodele fizera com que a parte da frente da blusa abotoada se estofasse, enquanto os braos juntavam osseios, formando um rego profundo. Sheila ergueuos antebraos para fazer que os pulsos amarradosocultassem protetoramente o vinco entre os seios.
        - No, no, seora - protestou ele, com umsorriso obsceno, e agarrou a corda para baixar asmos dela.
        Torcendo-se na sela, ele enfiou o cotovelo entreos pulsos dela, fazendo presso no n e mantendoafastados os braos. Logo que ele roou os dedosno tecido acetinado que lhe delineava os seios, Sheila recuou, forando o corpo para trs, por cima do brao dele, para fugir do contacto obsceno. O gesto fez que os seios redondos se empinassem contra o tecido fino.
        A mo dele cobriu um dos fartos seios.
        - Tire as mos de cima de mim! Seu monstrofeio e nojento! - xingou Sheila, furiosa.
        Ele riu de novo e espremeu o seio, como castigo. Dois cavaleiros se aproximaram para olhar, oferecendo palavras de encorajamento e sugestesbaixas ao homem a quem chamavam de Juan. Sheilatentou chutar a perna dele, os ps balanando no ar, no esforo de alcanar o alvo. Os ps atingiram oestribo do cavalo.
        Os dedos dele moveram-se para a frente abotoada da blusa, puxando-a com impacincia, at queos botes foram arrancados. Quando os fartos seiosforam revelados, ele gritou para os que estavamolhando, como que a exibir a excelncia da sua presa.
        Indescritivelmente envergonhada e degradada, Sheila agora se debatia mais desesperadamente doque antes. As mos do homem examinaram e exploraram a presa, o dedo calejado acariciando rudementea sua pele, at que Sheila teve nsias de vmito, detanto nojo.
        - Meu pai no vai lhes pagar um centavo! - falou, sufocada de humilhao. - Nem um centavo!Esto ouvindo!
        Berrou a sua advertncia para o homem que iana frente, e para o americano ao lado dele.
        O cavalo corcoveava para o lado, sob o inquietopar em seu lombo, sacudindo a cabea e bufandonervosamente. Sheila se deu conta de que no haveriasalvao. Fora dada a esse animal que se fazia passarpor homem, e sabia que preferiria morrer a ser usadanovamente.
        O cavalo empinou de novo, numa agitaoassustada. S havia uma maneira de fugir quelasmos repulsivas, e Sheila comeou a golpear com osps os ombros e o pescoo do animal. Relinchandopelo inusitado do ataque, o cavalo se empinou ligeiramente. contido pelo sbito repuxo das rdeas cutuco forte com as esporas. Mas Sheila continuoua dar chutes, ofegando e soluando com a determina so de salvar-se.
        O cavalo ameaou disparar em pnico. O cavaleiro usava toda a sua habilidade para conter o animal. Com os outros rindo da sua situao difcil, Sheila podia ver o rosto dele comear a ficar commanchas vermelhas de raiva.
        O calcanhar de Sheila enganchou-se numa rdearetesada. Ela deu um chute, fazendo a cabea doanimal virar bruscamente. Os cascos nervosos e inquietos tentaram acompanhar o movimento, mas asbita mudana de direo foi impossvel. Sheila sentiu as patas do cavalo cederem antes que ele casseao cho pesadamente. Soltou-se do brao que a prendia enquanto caam, e livrou-se, cambaleante, doscascos desnorteados do animal.
        Desequilibrada, cambaleou para a frente, tentando correr. Mal percorrera trs metros, ouviu passos pesados atrs de si. Uma mo agarrou-a pelocotovelo e f-la voltar-se bruscamente. Perdeu totalmente o equilbrio e caiu ao cho. O assassino deBrad estava de p, acima dela, as feies largas marcadas com a expresso da vingana. Dois cavaleirospararam os cavalos, um de cada lado de Sheila, edesmontaram.
        Arrastando-se para trs, os olhos assustados deSheila no se desgrudavam do homem chamado Juan.
        Ficou de p enquanto ele se dirigia ameaadoramentepara ela. Instantaneamente, os outros dois se acercaram dela, segurando-a pelos braos. Ela dava chutesselvagemente, mordendo-lhes as mos.
        Inesperadamente, foi solta. Sheila nem quissaber a razo: virou-se para correr de novo. Enquantose debatera, o resto dos cavaleiros formara um crculo sua volta.
        Arquejando com os esforos desesperados, Sheila deu meia-volta, desconfiada, alerta, sem saber oque viria a seguir. Seu olhar fixou-se no homem derosto magro que comandava o grupo, a expresso impassvel e distante. Os olhos negros semi-cerrados desviaram-se para os seios arfantes dela, a blusa de sedacreme toda aberta. Imediatamente, ela ergueu os braos para se cobrir.
        A boca do homem retorceu-se ante a aodefensiva que chegara tarde demais para ocultar oque todos j tinham visto. Desmontando, soltoualguma coisa da sela. Parecia um cobertor e um laopara prender animais. Sheila crispou-se intimamente, mas recusou-se a deixar transparecer qualquer temor, quando ele se dirigiu para ela.
        A magreza dele era enganadora, percebia agora. Era muito mais alto e largo do que ela imaginara aprincpio. Movia-se com a graa leve de um animal, uma fera predatria. Os olhos escuros e insondveisno abandonavam o rosto de Sheila, hipnotizando-ade tal modo que ela no poderia correr, mesmo quetentasse.
        Parando  sua frente, desenrolou um sarape, tipo de poncho usado pelos mexicanos. Ergueu-oacima dela, enfiando-lhe a cabea pela abertura. Introduziu a ponta sob seus braos, deixando-lhe asmos e os braos fora do tecido spero.
        Com sua voz baixa, ele lhe disse algo em espanhol, uma inflexo zombeteira em tom sereno. O sangue fervia agora nas veias dela, os nervos  flor dapele com a sensao de perigo pela proximidade dele.
        O n do lao foi-lhe passado pela cabea. Seu corao parou de terror quando a corda roou os ladosdo Seu pescoo, mas ele a fez descer at os ombros.
        - O que vai fazer comigo! - arquejouSheila, incapaz de suportar o suspense.
        Ele ficou calado, e ela no teria entendido aresposta, caso a houvesse dado. O medo a fazia tremer toda, ao tentar adivinhar as intenes dele.
        Quando o n chegou  cintura, ele o apertou, o laofazendo as vezes de cinto para prender o sarape juntoao seu corpo.
        Seus olhos indagadores deixaram a mscara impenetrvel para buscar o nico homem que podia daralguma explicao.
        - Por que ele est fazendo isso? - perguntouao americano.
        - Voc estava com tanta vontade de correr- veio a resposta indiferente -, que ele resolveuatender ao seu desejo de fazer algum exerccio.
        Voltou-se bruscamente para o par brilhante deolhos cor de bano. Segurando a corda enrolada, elese virou e caminhou para montar seu cavalo. Sentouse imvel na sela por um instante, fitando o rostoplido de Sheila. Deixando as rdeas soltas junto aopescoo do cavalo, incitou o animal a andar. A corda comeou a se esticar. Sheila tinha a opo de caminhar na extremidade da corda, ou de ser arrastada.
        Qualquer coisa era prefervel ao toque repelentedo assassino de Brad, e Sheila preferiu caminhar. Asmos amarradas agarravam-se ao lao que a puxava, usando-o para manter o equilbrio.
        Uma milha, duas milhas, mais. As pernas pareciam pesos de chumbo a serem arrastados pelo terreno spero e irregular. A poeira enchia o ar querespirava, levantada pela montaria e o cavaleiro quetinha que acompanhar. O suor fazia seu cabelo grudar-se ao pescoo. O rosto estava manchado com amistura de poeira e sulcos de suor.
        Ela se forou a seguir em frente, alm do queimaginara ser o limite da sua tolerncia, tropeandocom mais freqncia  medida que cada passo faziaseus dentes chacoalharem. Era impulsionada pelodio que sentia pelo homem de ombros largos quesegurava a corda.
        Tropeando num tufo de grama, Sheila caiu dejoelhos. A corda puxou-a sobre o terreno spero. Umgrito abafado de dor saiu-lhe dos lbios quando foiarrastada em quase toda a extenso de seu corpo, antes que a corda se afrouxasse.
        Esforou-se para ficar de joelhos, exausta demais para manter-se de p. Soluando de cansaototal, Sheila sentou-se sobre os calcanhares. Os pulmes parecia que iam estourar, antes que ela recobrasse o flego. Uma escurido ameaadora surgiulhe diante dos olhos. A qualquer momento esperavasentir de novo o puxo da corda, mas no se importava. No conseguia dar mais um s passo.
        Um par de botas empoeiradas surgiu diante desua viso nublada. Exausta, Sheila ergueu a cabea, que pendeu debilmente para um lado. As feies masculinas do seu torturador, sombreadas pela barba, oscilaram diante dos seus olhos embaados.
        Ele se agigantava acima dela, um cantil redondo, coberto de lona, na mo. Soltando a tampa, ofereceu-o a ela. Sua garganta estava completamenteressequida, a boca pegajosa, os lbios rachados einchados.
        Sheila olhou para o cantil por um longo momento. Erguendo os olhos para o rosto magro e duro, procurou achar na boca uma gotinha mnima de salivae tentou cuspir. Foi um dbil gesto de dio.
        Ele a fitou calado, depois deu de ombros elevou o cantil aos lbios. O borbulhar do lquido norecipiente quase enlouqueceu Sheila. O corpo sedento gritava ante a umidade dos lbios dele quandobaixou o cantil. O orgulho fora esquecido. Se eletivesse oferecido o cantil pela segunda vez, Sheila oteria aceitado ansiosamente.
        Ao invs disso, ele voltou a colocar a tampae se dirigiu para o cavalo. Prendendo um soluo, Sheila o fitava. Quase havia abandonado o orgulho para esse lder renegado, seu captor implacvel.
        Sheila jamais havia observado um par de olhos tonegros como o inferno e completamente despidosde emoo.
        Estava no limiar da histeria. O corpo e o crebro exaustos precisavam apenas do mais leve empurro para cruzar o limite. Estava sendo impulsionadapelo instinto de sobrevivncia, o mesmo instinto quea mantinha ereta.
        Seu olhar cansado percorreu a pequena clareiracoberta de vegetao rasteira. Os outros cavaleiros haviam parado, desmontando para que os animaispudessem descansar. Os cantos da boca se crisparambrevemente enquanto arquejava para encher de aros pulmes que quase estouravam. A pausa no forafeita porque ela no conseguia dar mais um s passo, mas porque os cavalos precisavam descansar.
        Erguendo os olhos, Sheila olhou para o contornoirregular das montanhas contra o horizonte. Umsol ofuscante parecia vigi-las, sombreando suas encostas at que parecessem escuras e ameaadoras.
        Pareciam estar mais perto do que antes. Ou ser queera s imaginao, causada pela exausto!
        Seu olhar enevoado voltou-se para o leste, eolhou para baixo. Tinham estado subindo, provavelmente com regularidade, desde que deixaram a estrada ao sul. O ar rarefeito explicava a dificuldadeda respirao difcil. Sheila estava prostrada demaispara se consolar com isso.
        Curvando a cabea, fechou os olhos. Estavacansada demais para pensar. A manuteno do funcionamento dos seus pulmes e corao parecia exigirtodo o seu esforo. Como que em transe, escutou opulso martelando.
        Nenhum outro som penetrava nos seus ouvidos... nem o murmrio baixo das vozes conferenciando no idioma que ela no entendia, nem o bater no cho dos cascos dos cavalos ou o abanar das suascaudas para afastar as moscas... nada alm do som reconfortante de que estava viva.
        
        
         Captulo 6
        
        O rangido do couro da sela e o tinir das esporas constituram um alarme para quebrar o transe de Sheila. Forando-se a levantar a cabea, fitou, entorpecida, os olhos negros insondveis que a fixavam do alto do cavalo.
        A parada para descanso havia acabado. O bando estava novamente montando e pronto para se pr a caminho. Sheila fitou as linhas duras e bem-definidas do rosto do cavaleiro dos olhos negros, o seu novo feitor.
        Tentando recuperar suas reservas de fora, Sheila conseguiu se erguer e ficou oscilando sobre as pernas. O n tinha se soltado e a corda a pendia, frouxa,  volta da cintura. Ficou esperando que ela fosse apertada, para o cavalo sair andando e esticar a corda enrolada no aro dianteiro da sela.
        Ao invs disso, uma mo enluvada pegou a corda que jazia sobre a perna vestida de negro. Com uma toro hbil do pulso, o n  volta da cintura caiu no cho. O cavalo foi tocado em sua direo. Tateando entre seus sentidos atordoados, Sheila tentou entender o que estava acontecendo, mas esse esforo foi demais para ela.
        Inclinando-se sobre a sela, ele a prendeu na curvatura de ao do seus braos, erguendo-a como se no passasse mais do que uma criana. Na verdade Sheila se sentia como se no tivesse peso algum, flutuando num estado de suspenso.
        Quando ele a virou nos braos para acomod-la contra o peito, lembrou do tratamento revoltantee degradante que recebera das mos do tal Juan, que atirara em Brad. Seus msculos exaustos noconseguiriam se defender de outro ataque comoaquele.
        Mesmo assim, Sheila tentou.
        - No, por favor - grasnou ela, a gargantaressequida, enquanto fazia fora contra o brao. Opequeno impulso de energia logo se esgotou, deixando-a frouxa e subserviente nos braos dele. Nosobrara um s grama de resistncia. - Por favor- suplicou Sheila, desalentada, num sussurro- no de novo.
        Sem segur-la, simplesmente sustendo-a com obrao, ele ignorou as splicas e comeou a enrolara corda que a havia puxado durante as ltimas milhas. Quando estava novamente presa  sela, ajeitoua posio de Sheila de tal modo que o ombro delaficasse sob sua axila esquerda e a cabea se apoiassecontra a solidez do seu ombro esquerdo.
        A mo esquerda segurou as rdeas presas noaro dianteiro da sela, depois se apoiou de leve contra o quadril dela, enquanto instigava o cavalo a andar. Os outros cavaleiros o seguiram, num grupo descontrado. Nessa posio, Sheila no precisava fazernenhum esforo. Os braos e o peito dele apoiavamna completamente.
        Com olhos cansados, fitou o rosto dele por entre a cortina dos clios de pontas douradas. A barbanegra por fazer acentuava ainda mais as linhas fortese poderosas do queixo e do maxilar. Havia um estreitamento cruel na sua boca, rigidamente fechada. Havia, vincos profundos de cada lado da boca. Asugesto de uma elegncia aristocrtica no nariz repetia-se nas mas do rosto salientes, que se erguiamacima das faces encovadas.
        Cercados por clios espessos e espetados, osolhos pretos e frios moviam-se, incansveis, pelo terreno por onde os cavaleiros viajavam, numa prontido alerta, que no deixava transparecer nada dosseus pensamentos ntimos. Sobrancelhas negras grossas, masculamente arqueadas, marcavam o comeoda testa, que entrava por baixo do chapu manchado de p.
        Era um rosto imperioso, agressivamente msculo e com as feies bem marcadas. Chamava a ateno. A sua presena dominaria um grupo mesmo queno falasse uma s palavra, como acontecera quandoSheila imediatamente o destacara dos demais.
        Distante e srio, era um homem a ser temido. No entanto, ela estava se apoiando nele confortavelmente, os msculos fortes do seu peito e braoembalando-a. O cheiro msculo e almiscarado lheatordoava os sentidos. Parecia drogar o seu crebrofatigado e anular todas as suas defesas. As plpebrasdela se baixaram e fecharam. 
        Algo tocou-lhe a face. Uma voz baixa, rouca eaveludada murmurava palavras ininteligveis numavoz de comando. Os clios estremeceram e se abriram devagar, lutando contra a nvoa de sono quenublava a sua viso. Estava se apoiando contra algoduro e inflexvel. Ou seria algum?Fitou uns dedos enluvados que se afastavamdo seu rosto. Ao se dar conta de onde estava, oapoio lhe foi retirado. Msculos duros e doloridosreagiam devagar para manter-lhe o equilbrio enquanto ele desmontava e estendia as mos para desc-la do cavalo.
        Os joelhos de Sheila cederam, mas as mos nacintura firmaram-na at que suas pernas tivessemcondies de sustent-la. Imediatamente, ele a soltou, e foi tirar a sela do animal. Ainda sem confiarna prpria capacidade de caminhar, Sheila olhou aoseu redor.
        Um pr-do-sol dourado estava se tornando roxoescuro. Ela sentiu frio nos ossos. Estavam acampando para passar a noite. Olhou ao seu redor para oterreno que serviria como local de acampamento. Agrama crescia, alta e densa, onde corria um riacho.
        Um cavalo j estava comeando a pastar enquantoo seu cavaleiro lhe tirava a sela.
        O murmrio da gua atraa Sheila como um poderoso m. A sede lhe queimava a garganta e a lngua. Fitou o local de onde vinha o som, os ps grudados ao terreno spero.
        Colocaram-lhe um cantil sob o nariz. Ao sentiro cheiro mido da gua, suas mos amarradas estenderam-se avidamente para ele, at que seus olhosreconheceram a mo enluvada que segurava o cantil.
        O olhar subiu pelo brao envolto no poncho at orosto sedutor do seu seqestrador.
        O corpo ressequido tremia de desejo de beber, mas no pde forar-se a aceitar a gua daquele cantil. Baixando as mos, Sheila enfrentou desafiadoramente o seu olhar velado, sabendo que seria elaprpria a sofrer com essa demonstrao de rebelioauto-destrutiva, mas sem se importar.
        Uma sobrancelha negra se ergueu, dando-lheum segundo para pensar no assunto antes que o cantilfosse retirado. Quase enlouquecida de sede, ela giroue deu de cara com o olhar pensativo do americano. Deu um passo trmulo para o lado, para afastar-sede todos eles, mas parou ao ouvir uma ordem emespanhol, dada pela voz que comeava a reconhecer.
        - Estou cansada demais para fugir. S o quequero fazer  me sentar. - A voz estava rouca espera, mal a reconhecia. - D para voc entender!
        Evidentemente, o seu recado foi entendido, ou pela interpretao da debilidade da voz, ou pela instabilidade das pernas. Ningum tentou det-la quando recomeou a andar, os msculos cansados oferecendo pouca coordenao.
        Um tufo de grama verde serviu de almofadapara Sheila. Largou-se sobre ele, agradecida, semvontade de se mover ou pensar. Mas precisava concentrar-se noutra coisa que no fosse a sede. Tentoufitar o cu que escurecia para achar a primeira estrela da noite. Seus olhos perscrutadores depararamcom um homem agachado ao seu lado, segurandoum cantil nas mos. Inspirou vivamente diante daquela viso atormentadora, com o olhar acusadorvoando para os olhos azuis.
        - V embora - falou Sheila, com voz rouca.
        - Pensei que era uma sobrevivente, Sra. Sheila Rogers Townsend - zombou ele -, mas c estvoc, tentando morrer de sede. Sempre teve estastendncias suicidas.
        - No  da sua conta - disse. Fechando osolhos para evitar ver o cantil, enterrou o rosto nagrama.
        -  da minha conta, sim.  da conta de todosns - ressaltou ele. - Voc alega ter um pai ricoque nos pagar uma nota preta para a devolvermospara ele. E c est, tentando matar-se antes que possamos fazer-lhe esse favor.
        - Dinheiro.
        Sheila tentou rir, mas s conseguiu emitir umsom abafado.
        - L na estrada voc usou bons argumentos para que a mantivssemos viva. No entrou em pnico, no perdeu a cabea. Ento, por que no bancaa esperta agora e toma um gole dgua! - Desatarraxou a tampa do cantil, e ela chegou a tremer aoescutar o barulho. - No tem nenhuma vontade de morrer, Sra. Townsend.
        Sheila crispou-se.
        - No me chame deste jeito.
        O que ela estava realmente pensando  que noqueria morrer.
        Uma mo curvou-se sob o seu queixo, erguendo-lhe a cabea. O frescor da abertura de metal docantil tocou-lhe os lbios. O cheiro doce da guaatordoou seus sentidos.
        - Vamos. Beba.
        Ele inclinou o cantil, fazendo que um filete degua escoasse pelos lbios dela.
        Sheila ergueu a mo para inclinar mais o cantile deixar mais um pouco da gua refrescante enchera sua boca seca. No conseguia engolir com rapidezsuficiente, e comeou a se engasgar.
        - V com calma - advertiu o americano, eprendeu o cantil. - Beba devagar... um pouquinho de cada vez.
        Sheila forou-se a tomar pequenos goles, quando tinha vontade de engolir tudo de uma s vez.
        Ainda havia gua no cantil, quando ele o tirou. Amoa podia ter tomado toda a gua, e ainda mais, e lhe disse isso.
        - Mais tarde  tranqilizou-a, depois f-ladeitar-se na grama.
        Ela ajeitou a cabea no seu travesseiro de grama e pde olhar mais facilmente para ele. Examinou-o, calada por um minuto, ainda envolta no casuloconfortvel que a protegia temporariamente da realidade da sua situao.
        - Como se chama? - quis saber Sheila.
        A hesitao dele foi evidente, enquanto fingiaestar concentrado arrolhando com firmeza o cantil.
        Quando acabou, olhou com indiferena aparente parao resto do bando. Havia frieza no olhar azul quevoltou para Sheila.
        - Chamam-me de Laredo - falou, indicando com um gesto de cabea os outros membros do grupo. Sheila esperou que ele lhe confiasse seu nomecompleto. A boca do rapaz se estreitou, sombriamente. -  um nome to bom quanto qualqueroutro - concluiu.
        Um brilho felino de curiosidade apareceu nosolhos dela.
        - Voc  de Laredo!
        - No exatamente - falou, e ficou calado.
        -  americano! - insistiu Sheila.
        - Nasci l.
        Lanou um olhar distante para o norte. Fezparecer como se jamais fosse voltar, ou no pudessevoltar.
        - Quem so eles!
        As sombras se encompridavam no acampamento, transformando em formas escuras os homens quecirculavam por l.
        - Os nomes deles! Suas ocupaes! Provavelmente j se esqueceram.  melhor assim - disseo homem apelidado de Laredo. - Fica tudo maisfcil.
        Uma pequena fogueira fora acesa. A luz bruxuleante tocou o rosto malvolo do homem chamadoJuan. Os dentes lascados e amarelados ficaram expostos com a expresso maldosa que entreabriu seuslbios. Fitava Sheila atentamente. Seu corpo se lembrava nitidamente das mos dele, nojentas e vidas, do cheiro ftido do seu hlito.
        - Mais fcil para voc e seus amigos roubarem, assassinarem e violentarem - desafiou Sheila, com um dio amargo.
        Ele acompanhara a direo do olhar dela. Aexpresso era serena quando voltou a olhar para ela, e largou o cantil no cho ao seu lado.
        - Vou deixar isso com voc - falou. - Acho melhor esperar um pouco antes de beber mais.
        Comeou a se afastar.
        - Laredo. - Sheila chamou-o de volta, apoiando-se num dos cotovelos, os pulsos ainda amarrados  sua frente. Ele se virou e esperou que ela falasse, com ar corts, embora distante. - Ser que... - Ela engasgou com as palavras, depois recomeou. - Ser que vou ser a diverso desta noite para voc e seus amigos!
        - Voc disse que seu pai no pagaria um centavo se fosse molestada.
        Mas a resposta dele no confirmou nem negou os seus temores.
        - Sei o que eu disse - retrucou Sheila. Mas isso no responde  minha pergunta.
        Dando de ombros, Laredo se virou e foi para junto da fogueira, deixando-a a imaginar o pior. No mais cega do que  prpria situao, devido ao cansao e  sede, Sheila deu um jeito de sentar-se.
        Nada os impediria de violent-la e ainda exigirresgate do pai. Pelas suas aes, Laredo j demonstrara claramente que no ficaria contra os amigospara proteg-la, e esse bando de salteadores no tinha nenhum escrpulo. Amarrada, toda doda, Sheila estava impotente para ajudar a si mesma.
        Estavam servindo comida de uma panela pendurada sobre a fogueira. Feijo, disse-lhe o faro, e sentiu as pontadas de fome na barriga. Fazia quase vinte e quatro horas que comera pela ltima vez.
        Parecia muito mais tempo. Os pesadelos parecemdemorar muito mais tempo, e o dela apenas comeara, pensou Sheila.
        A alguns metros de distncia, Laredo sentavase de pernas cruzadas no cho, comendo do pratoque segurava. Uma caneca com caf fumegante estavaequilibrada num dos joelhos. Sheila observava-o louca de fome, a barriga roncando em protesto.
        Recortada  luz da fogueira, uma figura alta caminhou em sua direo. Sheila reconheceu imediatamente o homem que se movia com tanta graacomo o lder, o seu captor. Apenas quando ele chegou bem perto foi que ela pode ver o prato de comida que ele carregava numa das mos e a xcara decaf na outra.
        Debruando-se, colocou a refeio no cho, aoseu lado, depois se endireitou. A fome cegou Sheila viso desagradvel de um punhado grudento defeijo, um pedao de carne-seca e um naco de poduro. Estendeu as mos para a frente, ansiosamente, para que ele lhe desamarrasse os pulsos, para elapoder comer. Ele simplesmente a fitou, as feies duras escondidas nas sombras da noite.
        - Desamarre-me - exigiu.
        Ele no fez nenhum gesto para livrar-lhe asmos. Soltando um suspiro impaciente, Sheila lanouum olhar sobre o ombro para Laredo.
        - Quer fazer o favor de traduzir para o espanhol para este seu chefe ignorante que no possocomer com as mos amarradas?
        Hesitante, Laredo ergueu a cabea para olharalm de Sheila, para o homem que estava ao ladodela. Houve uma breve troca de palavras em espanhol, durante a qual ela no ouviu nem sim, nem no pronunciadas pela voz baixa. Antes que pudesse concluir qual fora a deciso tomada, estava sentada sozinha, e o homem voltara para junto da fogueira.
        Seu olhar frustrado voltou-se para Laredo. Estava se pondo de p, o prato e a xcara nas mos, edirigindo-se para ela. Sentando-se no cho ao seulado, pousou no solo a comida para afrouxar a cordae solt-la dos pulsos da moa.
        - Obrigada - falou Sheila, flexionando osdedos e pulsos dormentes. Havia crculos vermelhosem carne viva onde a corda apertada ferira os pulsos, mas a fome era grande demais para que sentissequalquer desconforto, no momento.
        - Apenas cumpro ordens.
        Deu de ombros com indiferena, e apanhou oseu prato.
        Com mos trmulas, Sheila fez o mesmo. Durante os minutos seguintes, concentrou-se em enchera barriga vazia, servindo-se do feijo com o pedaode po e rasgando nacos da carne dura com osdentes.
        No sobrara uma migalha no prato ao terminara refeio com um bom gole do caf. Satisfeita, segurou a caneca com as duas mos e fitou o fogo quese apagava.
        Laredo fazia o mesmo, e atraiu o olhar dela.
        Na luz suave que diminua, ele parecia mais jovem, um toque de solido nos olhos azuis atormentados.
        A curiosidade de Sheila veio  tona de novo.
        - Voc no  como eles - disse-lhe suavemente.
        O olhar de esguelha dele foi cnico e zombeteiro.
        - No!
        -  diferente.
        - Por qu! - Retorceu a boca. - Porquefalo ingls!
        - No, claro que no. - Inclinando a cabeapara o lado, Sheila fitou-o. - Por que est com eles?No posso acreditar que seja por opo.
        - No quer acreditar - corrigiu ele.
        - Est com eles por opo!
        Estava resolvida a obter uma resposta direta sua pergunta.
        - Estou. - No havia nenhuma nota dearrependimento na voz dele. - So meus amigos.
        - Embora tenham morto um homem, e feitovoc tomar parte na coisa!
        Sheila no podia aceitar que ele estivesse falando a verdade.
        - Est se referindo ao seu marido! Foi mortopela prpria estupidez. Se no tivesse tentado pegara arma, no teria sido ferido, apenas perderia umpouco de dinheiro... s isso.
        Seus olhos azuisbrilharam especulativamente.
        - Estou vendo quevoc no est muito abalada com a morte dele.
        Sheila ignorou deliberadamente o ltimo comentrio.
        - Porque defendeu a sua propriedade, provocou a prpria morte! - disse, modificando aspalavras dele, sarcasticamente.
        -  assim que vocracionaliza o assassinato dele! - O olhar feroz dirigiu-se para o lder renegado que estava a algunspassos de distncia. - Ou est verbalizando as palavras dele?
        - O seu patro, que to piedosamentepoupou a minha vida para me entregar ao mesmoporco grosseiro que assassinou o meu marido!
        Sheila no havia falado baixo, nem tentado disfarar o seu desprezo absoluto. Laredo sorveu o caf, e no respondeu.
        - O que ! Est com medo que me lembrede que voc no discutiu nem um pouco quando oseu patro me entregou ao seu colega bandido! Noposso culp-lo por isso, posso! - ironizou Sheila. - Afinal, voc s cumpre ordens.
        -  isso a - concordou ele, calmamente.
        - Independentemente do fato de achar queeles estejam certos ou no - acrescentou, enojada.
        - Quem  ele! A reencarnao do Diabo?
        - Os nomes no so importantes por aqui.
        Parecia impossvel provocar Laredo para zangar-se.
        Nem defendia seu chefe, nem o condenava.
        - Jlhe falei isso antes. Beba o caf.
        - O que voc faz? Curva-se aos ps dele e ochama de patro? - Apelar para ele parecia intil, mas era a sua nica esperana. - Voc tem que meajudar, Laredo.  americano, sou americana. No pode deixar que faam seja l o que pretendam fazer comigo. Por favor. Oh, meu Deus. - Sheila engoliu umsoluo de pnico.
        - No d para ver como eles meobservam, nos observam? - O olhar inquieto abrangeu o grupo de homens sentados junto  fogueira.
        No era o dinheiro dela que atraa os seus olhares.
        - Ajude-me a sair daqui; ajude-me a fugir.
        - Para voc poder ir a los soldados, e la policia, e contar-lhes o que aconteceu! - Laredo debochou do pedido, um sorriso mudo repuxando o cantoda sua boca. - Esquece que eu tambm estava l? Olao iria ser passado no meu pescoo, assim comono deles.
        - Eu no lhes diria nada, juro. Por favor, me ajude.
        - Esquea - disse ele, esvaziando a xcarade caf.
        Lgrimas quentes vieram-lhe aos olhos. Sheilaarregalou-os, mal ousando respirar, temendo que arespirao se transformasse em fundos soluos. Levou alguns minutos para se recompor.
        A voz rouca agora inclua Laredo no grupo, tambm.
        - Amanh? - O olhar dele tocou-a ligeiramente, depois virou-se para o oeste. - L para cima.
        Sheila se virou, percebendo a ponta de um cigarro aceso, um lembrete de como o lder dos bandidos estava prximo deles. O olhar dela se dirigiupara o contorno impressionante e negro da cordilheira Sierra Madre.
        - Para as montanhas? - perguntou, comoconfirmao, e recebeu um gesto seco de cabea.
        Aquilo explicava por que dependiam dos cavalos para o transporte. Vastos trechos da cordilheirasetentrional eram acessveis somente a cavalo ou a p. Essa terra primitiva e assustadora era um esconderijo perfeito para o bando daqueles fora-da-lei. Ocorao afundou num desespero ainda maior.
        - Como vo entrar em contacto com o meupai? - perguntou, temendo pela primeira vez quenunca fossem deix-la partir.
        - H meios.
        - O que me acontecer quando receberem odinheiro!
        - No sou eu que decido - falou, aparentemente pouco se importando com o destino dela.
        -  ele, suponho. - Com um gesto bruscoda cabea, indicou a figura silenciosa a curta distncia. - Voc sempre pula quando ele manda, ouprimeiro pergunta a que altura? - falou Sheila, mordazmente.
        - Voc fala demais. - Havia uma ponta deimpacincia na voz dele para indicar que no erato insensvel como parecia s alfinetadas dela. Pondo-se de p, estendeu a mo para ajudar Sheilaa se levantar. - Vamos, est ficando tarde, e nahora de irmos dormir.
        Ela ia estendera a mo para aceitar a dele, maso resto das palavras deteve seu gesto. Os dedos ficaram suspensos no ar, a centmetros da palma estendida dele.
        - Irmos? - repetiu Sheila, cada terminalnervoso instantaneamente alerta.
        - Voc vai dormir comigo hoje - confirmouLaredo.
        A raiva toldou-lhe a vista com uma nuvemvermelha. Pedira-lhe socorro, contara-lhe os seus temores do que lhe poderia acontecer durante a noite.
        Ser que ele pensou que ela no ofereceria resistncia? Porque era americano e conversara comela, achava que ficaria agradecida por ser ele, e no um dos outros?
        O brao esquerdo estendido afastava o ponchofrouxo da cintura e dos quadris. Na penumbra, Sheila viu o cabo de uma faa aparecendo na bainha de couro presa ao cinto. A bainha estava aberta.
        Fingindo uma resignao amarga, Sheila pegoua mo dele com a mo esquerda e deixou que ele apusesse de p. Dando a impresso de que tropeara, agarrou a faca e tirou-a da bainha antes que Laredose desse conta do que estava fazendo. Livrou-se delee deu dois passos para trs. A lmina da faca rebrilhou, ameaadora,  luz bruxuleante da fogueira.
        - No me toque - sibilou ela.
        - Sua idiota, me d essa faca - murmurouele, numa voz baixa e zangada.
        - Chegue perto de mim e eu o mato... - Suas palavras foram interrompidas por um forte grito de dor.
        Garras de ao rodearam por trs o seu pulsoqueimado pelo atrito da corda, torcendo-o at quea faca escorregou dos seus dedos paralisados. Instantaneamente, Sheila foi virada com brutalidade, o brao dobrado no alto das costas, e ficou aprisionada contra a parede slida do peito de um homem.
        Outros dedos agarraram um punhado do cabeloe puxaram com fora a sua cabea para trs. Os lbios se entreabriram num segundo arquejo de dor, enquanto os olhos dilatados fitavam as feies durase magras do rosto do seu captor. O negro olhar ardente queimou-lhe primeiro os olhos, depois seguiu uma trilha de fogo pelas suas faces at os lbios, midos e trmulos.
        A qualquer momento Sheila esperava que aquela boca implacvel esmagasse a sua, brutalmente. Cada fibra pulsante do seu corpo sentia a selvageria do beijo, embora ainda no tivesse sido dado. Mas a mente estava entontecida pelo choque da posse imaginria.
        Com a mesma brutalidade com que fora imprensada contra ele, foi empurrada, caindo ao chojunto aos seus ps. Abaixando-se, apanhou a cordaque prendera os pulsos dela e atirou-a para Laredo, dando uma ordem baixa em espanhol.
        A boca de Laredo tinha um ar sombrio quandocomeou a amarrar de novo as mos de Sheila.
        - Sua idiota maluca - resmungou. - Por que foi fazer um troo desses?
        - E fao de novo - jurou Sheila, mas suavoz trmula.
        - Ele est sabendo.
        Quando Laredo se endireitou, um cobertor foijogado sobre Sheila, acompanhado por uma torrentede palavras em espanhol. Ela teve vontade de se encolher debaixo do cobertor, mas no podia tirar osolhos do homem alto que a observava. Laredo seafastou e voltou dali a segundos para pousar sua selano cho, ao lado de Sheila. Estendendo o prprio cobertor, deitou-se ao lado dela e cobriu-se, inclinandoo chapu para o rosto a fim de apoiar a cabea nasela.
        - Descanse um pouco enquanto puder, Sra. Townsend. Amanh vai ser um dia muito longo - disse Laredo, friamente. - Algum ficar de guardaa noite toda, e eu tenho o sono muito leve.
        Prendendo um soluo de derrota, Sheila ficouolhando a figura alta levar os pratos e as xcaraspara junto do fogo, e voltar para ficar a curta distncia, na escurido. Um fsforo foi aceso, levadoat o cigarro por mos em concha. Depois ela nopde mais enxergar a silhueta dele, mas sabia queestava ali, o seu novo feitor.
        No havia sensao de segurana ou alvio porLaredo estar simplesmente deitado ao seu lado, e no a forando, ter contacto com ele. Ainda tremia por causa dos braos punitivos que a haviam segurado. Fechou os olhos, duvidando que o sono chegasse.
        O n da corda irritava a pele j em carne viva dos seus pulsos. Por baixo do corpo, a terra dura lhe cutucava os msculos doloridos, machucados. Sheila sentiu o cheiro de fumo queimando. Sobrevivncia, pensou, e teve vontade de rir.
        
        
         Captulo 7
        
        Seus joelhos estavam trmulos devido  frico contra os flancos do cavalo. O couro duro da aba da sela fizera feridas na parte interna das suas coxas. As mos amarradas de Sheila j no tinham mais foras para segurar a patilha para equilibrar-se. Ansiavapor pousar a cabea nas costas largas de Laredo, sabendo que ela ricochetearia como uma bola, se tentasse. O lder moreno estava agora ao lado deles. Estivera montado o dia todo, e no entanto pareciaalerta e bem-disposto, no exausto e semi-entorpecido de dor, como Sheila. O olhar dela lanava punhais de pontas douradas ao homem aparentementeinfatigvel.
        O terreno elevou-se bruscamente, e Sheila teveque concentrar todas as suas energias em ficar sobreo cavalo, e no deslizar pelo traseiro at o cho. Tendo-se levantado antes do alvorecer, haviam chegados montanhas pouco depois do nascer do sol.
        Sem acompanhar nenhuma trilha discernvelaos olhos de Sheila; os cavaleiros haviam subido pormontanhas onde parecia que s um cabrito subiria, depois descido por vales e gargantas, e subido denovo.
        Parecia que eram guiados apenas pelo instintodo lder. Num momento de dio e ressentimentoamargos, Sheila esperou que ele se tivesse perdido. O sentimento no durou muito, ao notar que estavaescorregando do traseiro do cavalo.
        - Socorro! - arquejou Sheila.
        Laredo esticou o brao para trs para pux-la. Deixou-o parcialmente ao redor da cintura dela, paraapoi-la, quando o cavalo comeou a galopar para oalto de uma elevao ngreme. Sheila largou-se contra o brao dele. No topo de uma crista estreita, ocavalo recomeou a trotar.
        - No podemos parar e descansar? - protestou Sheila, exausta. - Ou pelo menos andar maisdevagar?
        - Agente firme. Estamos quase chegando- prometeu ele, sem nenhuma compaixo.
        - Aonde? Ao inferno!
        Pareceu-lhe uma eternidade mais tarde quandose viraram para cavalgar por um corredor entre asmontanhas. Uma vegetao retorcida e atrofiada seagarrava tenazmente s paredes rochosas da passagem. O cavalo apressou o passo, puxando o freioquando viu que chegaram a casa.
        Espiando por cima do ombro de Laredo, Sheilatentou dar uma olhada no destino deles. O corredorentre as montanhas ia dar num desfiladeiro pequenoe estreito entalhado no fundo das entranhas da cordilheira de Sierra Madre. Uma trilha visvel serpenteava at l, onde choas de adobe casualmente agrupadas pontilhavam um dos lados do desfiladeiro.
        Foi diante de uma delas que Laredo freou ocavalo. Jogando uma das pernas por cima do arodianteiro da sela, saltou para o cho. Sheila osciloupara dentro dos braos que se estenderam para apanh-la. Distraidamente, notou que os outros cavaleiros dirigiam-se para outras caas de adobe, ouvindomeio atordoada os gritos de boas-vindas e vendo asfiguras que corriam ao encontro do bando que voltava.
        O brao de Laredo permaneceu sustentando-a pelas costas enquanto a acompanhava at o interior em penumbra de uma casa de adobe. Pararam l dentro, e Sheila examinou, desinteressada, o aposento.
        Uma cozinha e um refeitrio primitivos ocupavam metade do aposento. Sups que os mveis toscos na metade mais prxima representassem uma sala de estar. Uma abertura em arco numa das paredes dava para um corredor, o que sugeria outros cmodos mais alm.
        Uma voz familiar falou em espanhol s costasde Sheila. Ela virou-se, enquanto o brao de Laredosoltava as suas costas, para dar com os olhos escurosvelados do seu captor. Um metal frio penetrou entreos seus pulsos, e ela baixou os olhos para ver Laredocortar a corda que a prendia.
        J ia agradecer-lhe quando se lembrou do que Laredo lhe dissera antes. Apenas cumpria ordens.
        Assim, flexionou os dedos dormentes e ficou calada.
        Embainhando a faca, Laredo dirigiu-se para a porta.
        - Aonde vai? - indagou ela, com um levemeneio de cabea, tentando no demonstrar a suaapreenso por ficar sozinha com o lder renegado.
        Laredo parou, olhou de Sheila para o patro, depois de novo para ela.
        - Cuidar dos cavalos.
        Retirou-se, e o olhar dela ricocheteou dos olhosescuros e brilhantes. Teve a estranha sensao deque ele estava lendo os seus pensamentos, e virou-sebruscamente. A espinha ficou toda arrepiada, sentindo a sua presena. Sheila no ficou surpresa ao Ouvi-lo falar a uns trinta centmetros s suas costas.
        - Seora.
        O tom de voz baixo e imponente foi acompanhado por uma mo que apareceu ao lado, para indicar-lhe que devia seguir pelo corredor.
        Este se bifurcava em dois quartos. Mandou, com um gesto, que Sheila entrasse no ltimo. Observando-o, ela adivinhou que seria a sua nova priso.
        A cela austera consistia em um catre com aparncia desconfortvel, uma cmoda tosca com uma bacia e uma jarra de gua em cima e uma cadeira. Uma cortina toscamente tecida, de uma fazenda alaranjada fosca, pendia da nica janela.
        Seu olhar, que corria o aposento, deteve-se noespelho retangular que encimava a cmoda. Sheilafitou o seu reflexo, chocada. Parecia uma vagabundaemaciada. O rosto estava manchado de sujeira e suor.
        O cabelo embolado e descabelado, o seu brilho sedoso oculto sob inmeras camadas de p. O sarapeempoeirado que a cobria tornava informe o seucorpo.
        Inconscientemente, Sheila levou a mo ao rosto, como que para certificar-se de que o reflexo quevia era realmente dela. Sentiu a sujeira grossa quecobria a sua pele geralmente to sedosa. Aquilodespertou os seus sentidos para a imundcie que cobria o resto do corpo e o fedor de suor e o cheirode cavalo que se desprendiam da sua pele e das roupas. Mal parecia humana, e deu as costas ao espelho, enojada.
        - H algum lugar onde eu possa me lavar? - perguntou Sheila rapidamente.
        Nem um lampejo de compreenso perpassoupela mscara entalhada das feies dele. Sheila soltouum suspiro impaciente, perguntando-se como fariapara ele compreender o que queria.
        - Quero me lavar! Est entendendo? - Esfregou as mos juntas num gesto de limpeza. - Lavar. Tomar banho.
        Ele ficou olhando para a mmica, depois foi ata cmoda e derramou gua da jarra dentro da bacia.
        Fez um gesto para Sheila, para que a usasse.
         - No. No. - Ela sacudiu a cabea, resoluta. - Escute, senhor... seja l como se chame.
        Hesitou antes de preencher o tempo com umdar de ombros desinteressado.
        - Rfaga - interrompeu ele, serenamente.
        Nem um vestgio de emoo era visvel no rosto esguio e masculino, ou nos olhos pretos e insondveis.
        Sheila fitou-o, curiosa, sem ter certeza se elerealmente tinha dado o seu nome. Considerando amaneira como Laredo o evitara, quase conclura queiria permanecer um segredo.
        - Seor Rfaga! - repetiu, para determinarse era mesmo o nome dele. O homem inclinou deleve a cabea, com um ar ligeiramente arrogante, emaquiescncia. - Seor Rfaga - recomeou Sheila-, no estou apenas querendo lavar as mos. - Repetiu de novo o gesto de se esfregar. - Querome lavar inteira... meu cabelo, minhas roupas, tudo. Compreende?
        A expresso dele era inescrutvel. Sem dvida, estava entendendo o que ela queria dizer, pensouSheila, irritada. Perguntou-se se ele no estaria sendo deliberadamente obtuso quando indicou de novoa bacia.
        -  muito pequena - exclamou bruscamente, e sentou-se no meio do cho, fingindo lavar-se. Quero tomar um banho... numa banheira grande. Compreende?
        Ouviu-se uma risada vinda dos lados da porta.
        - O que est fazendo? - perguntou Laredo, divertindo-se claramente, os olhos azuis rindo deSheila.
        Ela ficou rubra de vergonha. Rigidamente, ficou de p, limpando os fundilhos das calas enquantotentava recobrar alguma dignidade.
        - Quer explicar a este imbecil de lngua espanhola que quero tomar um banho? - falou, com frieza.
        - Os encanamentos aqui so estritamente do tipo externo - replicou Laredo, a boca ainda se repuxando numa risada silenciosa.
        - Sem dvida tem de haver por aqui alguma coisa maior do que esta bacia cretina. Onde vocs tomam banho? - desafiou Sheila. Depois, acrescentou causticamente: - Ou no tomam?
        Uma interrupo em espanhol impediu Laredo de responder  pergunta, pois respondeu ao patro. A troca de palavras entre eles foi breve, musicalmente fluida, e baixa.
        - Meu banho? - lembrou Sheila a Laredo, quando a conversa deles parecia ter terminado.
        - Bao - soou a palavra baixa em espanhol.
        - Isso quer dizer banho - traduziu Laredo.
        - Pelo menos entenderam o que eu quis dizer - suspirou ela, impaciente.
        - Como eu j disse, as instalaes sanitrias aqui so primitivas - continuou Laredo -, mas h um riacho que usamos para tomar banho.
        - Vou ter permisso para us-lo? - perguntou, formalmente.
        A resposta veio do lder, que se identificara como Rfaga. Abriu uma gaveta da cmoda e tirou de l um pedao de pano dobrado. Rfaga entregou-o a Sheila, com um sabonete usado em cima do tecido spero da toalha.
        Desconfiada, tomou-a das mos dele, retesando-se sob o seu olhar escuro e avaliador. Fez um sinal para o corredor para indicar a Sheila que deveria ir na frente enquanto eles a seguiriam.
        Do lado de fora da casa de abobe, havia um homem encostado a um poste que sustentava um prtico, segurando um rifle nas mos, com o cano apontando para o cho. Quando Sheila apareceu na porta, ele se endireitou, o cano virado para ela enquanto dava um passo adiante para bloquear-lhe a sada.
        Quando os dois outros homens apareceram s suas costas, relaxou ligeiramente a posio de sentido. No parecia familiar a Sheila. Estava quase absolutamente certa de que no fizera parte do bando que acabava de chegar. Rfaga passou  frente de Sheila, fazendo-lhe sinal para esperar enquanto ele falava com o estranho.
        - Quem  ele? - Sheila observava os dois, curiosa, enquanto Laredo esperava junto dela. - O que est fazendo aqui?
        -  o guarda. Haver sempre algum diante de sua porta, enquanto estiver aqui.
        - Para a proteo de quem? - retrucou. - Rfaga est com medo que eu v roubar outra faca e atac-lo? - Notou um lampejo de surpresa nos olhos azuis quando usou o nome do bandido. - Ele me disse que era esse o seu nome - explicou, friamente.
        - Rfaga? ,  assim que o chamam.
        - Parece surpreso - disse ela, inclinando a cabea para o lado, num desafio.
        - S de voc se ter feito entender, considerando-se a dificuldade que teve com banho.
        Os olhos azuis brilharam de divertimento, de novo.
        - Mim Tarzan, voc Jane  mais fcil de representar. - Sheila deu de ombros, sabendo que a coisa fora mais simples. - Imagino que no seja o nome real dele, assim como o seu no  Laredo.
        - No,  um nome que os homens lhe deram.
        - O que quer dizer? - indagou Sheila, olhando para Rfaga. Quem sabe uma pantera, pensou, levando-se em conta a sua graa animal e aquela reserva felina com um toque de crueldade predatria includo.
        - Acho que se traduz por... - Laredo franziu o cenho, procurando um equivalente em ingls - uma rajada de vento ou um claro de luz.
        O termo descritivo sugeria alguma coisa fugaz, algo evasivo e voltil. Considerando a ocupao dele, era provavelmente, pensou Sheila mordazmente, e ficou imaginando se seria verdadeiro ou apenas intencionalmente portentoso.
        - Qual  o nome verdadeiro dele? - perguntou curiosamente.
        - No sei - Laredo tirou o chapu para depois correr os dedos pela cabeleira espessa e castanha, e depois o recolocou, bem baixo sobre a testa. - No  uma pergunta que um homem goste que lhe faa, por essas bandas.
        O guarda escutou o que Rfaga lhe dizia, mas olhava atentamente para Sheila. Ela parecia ser o tema da conversa. Deu-se conta de que mais uma vez Laredo evitara dar-lhe uma resposta direta  sua pergunta sobre o guarda. 
        - Ainda no me explicou a quem o homem estar vigiando - lembrou-lhe. - A mim ou a Rfaga?
        - Diego ficar ali, ou qualquer outro, para garantir que voc no resolva dar longas caminhadas.
        Inclinando a cabea para trs, olhou para ela por sob a aba do chapu.
        O olhar dela percorreu as montanhas que rodeavam o desfiladeiro.
        - E para onde eu iria? -suspirou Sheila, amargamente.
        - No h lugar para onde ir - concordou Laredo -, mas Rfaga acha que voc seria tola o bastante para tentar.
        - E voc?
        - Est se esquecendo... foi de mim que voc roubou a faca.  - Laredo balanou a cabea -, acho que voc tentaria correr, mas no teria chance.
        Sheila deu-se conta que estava completamente aprisionada. A priso inclua muros, guardas e, um diretor. A nica coisa que lhe faltava eram as grades na sua janela. Sentiu sua frustrao aumentar, e soube que era apenas o comeo.
        Terminada a conversa com o guarda, Rfaga veio reunir-se a eles. Os olhares de Sheila brilharam com amargo ressentimento enquanto ele fazia sinal para que ela se dirigisse ao lado esquerdo da casa de adobe. Laredo tocou os dedos na aba do chapu, num comprimento zombeteiro, e depois se afastou na direo oposta.
        - No est com medo de ficar sozinho comigo? - exclamou Sheila para a expresso velada de Rfaga. Sabia que no compreendia uma palavra do que ela dizia, mas tinha que soltar um pouco da sua raiva. - No teme que eu v fazer alguma coisa desesperada, como tentar arrancar-lhe os olhos?
        Como se ele soubesse como o veneno dela era impotente, nem piscou os olhos ante o seu tom de voz ameaador. Usou sinais manuais para dirigi-la para as sombras das rvores por trs da casa cor de argila. A vegetao subtropical escondeu o laguinho represado abaixo do riacho at quase pisarem nele.
        A superfcie da gua tocada pelo sol parecia fresca e convidativa. Os pssaros pulavam de galho em galho, piando de alarme  invaso dos humanos. Sheila esqueceu-se da raiva de um momento atrs, abandonando-a no desejo premente de sentir o corpo limpo da sujeira e das impurezas dos dois ltimos dias.
        Deixando a toalha e o sabonete na margem, comeou a tirar o sarape sujo pela cabea, depois lembrou-se do homem atrs dela e voltou-se. Ele observava e esperava.
        - Quer fazer o favor de se virar?
        Fez um gesto circular com a mo.
        O olhar escuro continuou velado e discreto, mas no a abandonou. Teimosamente, Sheila nofez nenhum movimento para se despir, resolvida ano ser a primeira a desviar o olhar.
        - Bao - disse Rfaga vivamente, e indicouo laguinho.
        - No vou entrar na gua se voc no se virar- insistiu Sheila, num rompante.
        Ele deu um passo at uma rvore perto dela, e apoiou, indolente, um ombro contra o tronco. O olharescuro no se desviou do rosto dela. Falando em espanhol, apontou para o laguinho, depois por cimado ombro, para a direo de onde tinham vindo.
        Sheila percebeu as palavras "bao" e "casa".Compreendeu que ele estava dizendo que, se ela notomasse banho, voltariam para casa. Louca de raivapor dentro, deu-se conta de que a sua escolha eraou continuar suja ou se despir ante o olhar dele.
        Dando-lhe as costas, Sheila arrancou o sarapepela cabea, os dedos tremendo de raiva.
        - Se estava esperando ver um espetculo particular, vai se dar mal - exclamou com selvageria.
        Segurando as partes rasgadas da blusa, virou-se ejogou o sarape no rosto impassvel dele. Ele o segurou com uma das mos. - Minhas roupas estoto sujas quanto o resto de mim.
        Sheila sentou-se para tirar os sapatos, depoisescorregou das margens gramadas para dentro dagua. O choque da temperatura gelada da gua f-lasoltar uma exclamao de surpresa. Mas no haviacomo voltar quando Sheila mergulhou inteiramenteno laguinho. Vindo  tona com uma sacudidela dacabeleira molhada, afastou as mechas do rosto, batendo os dentes de frio.
        Meio agachada dentro do lago, submersa at o pescoo, Sheila conseguiu soltar-se da blusa e jogoua veste molhada na margem. Tirou tambm as calas compridas, deixando no corpo apenas as calcinhas. Indo devagarzinho para a beirada do laguinho, largou as calas ao lado da blusa e pegou o sabonete. A gua estava fria demais para Sheila perder tempodando-se os parabns por ter iludido Rfaga. Ensaboou-se rapidamente, sentindo o p e a sujeira sedissolverem.
        Quando acabou de enxaguar os cabelos, seusbraos e pernas estavam ficando dormentes pela temperatura glida da gua. Desajeitadamente, foi at amargem e pegou a toalha. Desdobrando-a, segurou-adiante dos seios com uma das mos, enquanto saado laguinho, e depois enrolou-se nela.
        Olhou ligeiramente para Rfaga. O ombro deleainda se apoiava negligentemente contra o tronco darvore, enquanto olhava para Sheila. Enfiando aspontas da toalha sob o brao, ela se ajoelhou paralavar a blusa e as calas. Tremia incontrolavelmente, a pele nua toda arrepiada. Embora desejasse podervestir roupas limpas e secas, Sheila se conformoucom roupas limpas e molhadas.
        De costas para Rfaga, enfiou as calas antesde soltar a toalha. A blusa estava sem botes, portanto Sheila deu um n na parte da frente, deixandoexposto o rego entre os seios, enquanto o tecidoensopado, grudado ao corpo, delineava enfaticamente cada curva dos seios. A proteo era duvidosa, mas Sheila no podia suportar a idia de vestir osarape sujo.
        Enrolando a toalha para formar um turbante, endireitou o corpo e se virou para Rfaga. Mantinhaos ombros retos, o queixo bem erguido, enquantotentava controlar os arrepios de frio que lhe percorriam a pele.
        Afastando-se indolentemente do tronco da rvore, Rfaga fez um comentrio baixo em espanhol eolhou significativamente para os sapatos dela. As faces de Sheila ficaram levemente rosadas enquanto seinclinava para cal-los. Sentiu o contacto do olhardele, e se deu conta do quanto se revelava ao se abaixar daquele jeito. Virou-se rapidamente para enfiar osps molhados nos sapatos.
        Os dedos faziam um barulho de chapinhar acada passo que dava, quando chegaram de volta acasa. O guarda fitou com curiosidade o estado ensopado e trmulo da moa, mas Sheila estava geladademais para se importar. Sem esperar que ele a mandasse para o quarto, foi para l por sua conta. Aoentrar, Sheila comeou a espirrar. Rfaga sumiu porta afora.
        - O que h! - ironizou ela, enquanto ele seafastava. - Est com medo de pegar um resfriado?
        Chutando fora os sapatos molhados, Sheila foiat a cama, pretendendo enrolar-se no grosso cobertor que ali havia, para aquecer-se. Rfaga voltou, trazendo consigo uma camisa branca de homem. Entregou-lhe, falando num espanhol baixo e melodioso. Incapaz de controlar os arrepios que percorriam oseu corpo gelado, Sheila aceitou-a.
        - Gracias.
        Sheila duvidava que o gesto tivesse sido motivado por outra coisa alm do desejo egosta de noter uma mulher doente nas mos.
        - Por nada - respondeu vivamente, antes dedar meia-volta e sair do quarto.
        Hesitando apenas um segundo, Sheila tirou rapidamente as roupas molhadas e vestiu a camisa secae quentinha. Seus dedos trmulos tinham acabado defechar o ltimo boto quando Rfaga reapareceu, osolhos escuros percorrendo-a do turbante aos ps descalos, parando ligeiramente nas pernas bem-feitas. As fraldas da camisa paravam no meio da coxa.
        Ele ficou calado enquanto jogava um pente emcima da cama e recolhia as roupas molhadas delaque jaziam no cho. Saiu do quarto, levando consigoas roupas ensopadas. Sheila comeou a protestar, depois suspirou ante a futilidade do protesto, e comeou a desembaraar os cabelos.
        O catre tosco parecia extremamente convidativo. Ela se enfiou sob o cobertor, o tecido speroirritando a pele recm-esfregada. Mas estava quente, e logo Sheila caiu num sono leve.
        Foi acordada pelo som de uma voz de mulher. O sol ainda no se pusera, portanto no devia tercochilado por muito tempo. Escutou durante vriossegundos a voz cadenciada em espanhol, o tom damulher feliz e levemente provocante.
        A curiosidade fez Sheila afastar o cobertor parao lado e levantar-se. Descala, sem fazer barulho, foipara o corredor e parou no arco da sala principalda casa de adobe. Seu olhar indagador procurou aorigem da voz atraente.
        Rfaga estava de p na cozinha. Ondas de caloremergiam da xcara que segurava na mo esquerda.
        O brao direito rodeava uma morena esguia. Olhosgrandes, escuros e brilhantes fitavam, risonhos, o rosto dele, provocante e brincalho como a mulher quese encostava nele. As mos dela estavam espalmadasdentro da parte da frente da camisa dele, semi-desabotoada para dar-lhe acesso ao peito nu e aos tufosde plos escuros e crespos.
        Ele raspara a barba que lhe sombreava o queixoe as faces bem marcadas. Nenhum chapu de abalarga cobria a negritude do cabelo espesso que comeava no alto da sua testa. As linhas fundas de cadalado da boca haviam se aprofundado em vincos ntidos, sinal de um sorriso divertido. Os olhos escuros e enigmticos fitavam a garota, aceitando aateno dela como se fosse um direito seu.
        Uma vitalidade dura e mscula agora marcavamais ainda o ar poderoso e cruel das suas feies masculinas. E isso o fazia parecer, aos olhos de Sheila, mais perigoso do que nunca. O corao comeoua bater mais depressa, martelando-lhe a garganta.
        Ela no se mexera desde que parara no arcoda sala; no entanto, alguma coisa revelou a sua presena a Rfaga. Seu olhar escuro voltou-se para ela, prendendo Sheila no lugar como se fosse um punhal.
        A morena vivaz virou-se para ver o que chamara a ateno dele. Seus olhos se arregalaram antea viso de Sheila de p no corredor, semi-vestidanuma camisa de homem. Notou a cor de mel escurodos cabelos de Sheila.
        Os olhos da morena comearam a fulgir de dio.
        Afastou-se, zangada, do lado de Rfaga, voltando-sefuriosa para ele. Um jato de palavras em espanholsaiu dos lbios dela. Fez um gesto na direo deSheila, com mau gnio latino.
        Sem se alterar com a exploso da moa, Rfagafez um comentrio em voz baixa, que no acalmoua sua raiva. Ela foi para o lado de Sheila, soltandonovo jato de palavras iradas em espanhol. Estavaobviamente furiosa ao ver Sheila ali na casa, especialmente com to pouca roupa.
        Pelo tom de voz desdenhoso e o olhar malvoloda moa, Sheila imaginou que a morena estivesse fazendo comentrios escarnecedores a seu respeito.
        Inconscientemente, Sheila deixou um sorriso chegarlhe aos lbios, divertida com o cime desnecessrio.
        O gesto fez que a morena, j furiosa, inspirassefundo, sibilando como uma vbora mortfera. No instante seguinte, estava cuspindo no rosto de Sheila.
        Todo o divertimento que esta sentira perante a situao sumiu com as gotas de saliva na sua face. Sheila reagiu sem pensar,  raiva quente correndo-lhe pelasveias enquanto a mo espalmada acertava o rosto damorena.Houve um grito momentneo de dor e surpresa, quando a garota tocou o rosto que ardia. Logo aseguir, jogou-se sobre Sheila, puxando-lhe os cabelos e soltando palavres em espanhol. Atordoada apenaspor um segundo, Sheila revidou instintivamente, lutando e se debatendo enquanto procurava se defender das unhas da morena. A ordem brusca de Rfagano as fez parar.
        - Meu bom Deus! - exclamou a voz de Laredo em meio  torrente de espanhol.
        A briga de chutes e puxes de cabelo mal comeara quando os dois homens intervieram para acabarcom ela. Um brao envolveu por trs a cintura deSheila e arrastou-a  fora para longe do alcance daoutra moa. Os ps chutavam o ar, a centmetrosdo cho.
        - Largue-me! - exclamou Sheila, tentandoinutilmente soltar-se do brao musculoso que a prendia pela cintura.
        Gritos estridentes saam da boca da sua oponente, bem presa nos braos de Laredo. Sheila ficourgida, ao se dar conta de quem a estava segurando.
        A voz de Rfaga deu uma ordem brusca perto doouvido dela, e a morena parou de se debater, emborao fogo do dio ciumento brilhasse nos seus olhoscom a mesma intensidade de antes.
        Sheila estava semi-virada no brao dele, que lhesegurava o queixo, virando-o para cima para poderenxergar-lhe o rosto. Ela fez fora para se afastardo peito dele, os olhos cor de mbar faiscando dedio ante o seu contacto. A expresso dele era dissimulada. Um leve ar de escrnio brilhava nos seus olhos insondveis.
        Disse alguma coisa em espanhol para a morena.
        Sheila notou pelo tom que no era elogiosa a seurespeito. Furiosa, soltou o queixo dos dedos dele.
        - O que foi que ele acabou de dizer? - quissaber de Laredo.
        - Ele estava tranqilizando Elena - respondeu, depois de lanar um olhar hesitante ao patro-, perguntando-lhe por que levaria para a cama umagata selvagem de olhos amarelos, quando podia teruma gatinha ronronante e ansiosa.
        A explicao acabou de romper o tnue fio queestava controlando o gnio de Sheila.
        - Porco! Seu animal nojento! - Tentou atingir o rosto implacvel, mas o golpe foi bloqueado porum brao erguido. - Como se eu fosse permitirque me tocasse! Assassino!
        A srie de golpes caa inofensivamente nos braos e ombros dele, sem jamais atingir o alvo, o rosto.
        Cansando-se de v-la debater-se, Rfaga tomou-anos braos.
        - Sua cama? - cuspiu Sheila. - Antes dormir numa cova de serpentes do que me deitar nasua cama!
        O olhar dele se estreitou ante o brilho de dionos olhos dela. A boca ficou mais fina quando sevirou, carregando-a nos braos, e caminhou at oquarto dela.
        Parando ao lado do catre, largou-a sobre ele sem cerimnia, e ficou ali de p durante vrios segundos. No disse uma s palavra, mas tudo nele parecia gritar que, se quisesse, poderia for-la a deitar-se na cama dele. Enquanto ela empalidecia, ele saiu do quarto.
        
         Captulo 8
        
        Quase uma hora depois, Laredo fora ao quartodela, anunciando que estava na hora de comer. Elaestava com fome, mas no tinha a menor vontade devoltar para o aposento principal da casa, onde estavam Rfaga e sua mulher temperamental.
        - Ningum vai bancar o garom para voc, nem trazer bandejas com comida para o seu quarto- declarou Laredo, calmamente. - Se quiser comer, vai ter que ir para a mesa, ou ficar sem comida.
        Ele tambm se havia lavado e feito a barba, aaparncia agora nitidamente americana, mas Sheilasabia que ele no tinha nenhuma ligao especialcom ela apenas porque compartilhavam da mesmanacionalidade. Era um membro do bando. Pertenciaao outro lado.
        Sheila ficou parada  pequena janela, afastandoa cortina para espiar o sol pairando sobre o cumede um pico a oeste. Soltando a cortina, virou-se paraolhar para Laredo, a boca sensual firmementecerrada.
        - Est bem, vou comer  mesa, mas mantenham aquela gata mexicana longe de mim - advertiu.
        - Rfaga j a acalmou.
        Sheila lembrou-se das panelas batendo com raiva, e duvidou muito.
        -  melhor mesmo que o tenha feito, seno vai acabar dormindo com uma morena de cara todaarranhada.
        -  mais provvel que fosse voc a sair deuma briga toda marcada. - Um sorriso estranho ergueu um dos cantos da sua boca. - Elena briga sujo. Voc no teria chance numa luta para valer contra ela.
        - Ficaria surpreso com o quanto aprendi nestes ltimos dias - falou Sheila, que depois passoupor ele e foi para o corredor.
        Quando entrou na sala, Rfaga estava sentadoa uma das cabeceiras da mesa. O olhar escuro notousua presena, embora Sheila o ignorasse deliberadamente. A jovem mexicana servia a comida nos pratosde cermica.
        Havia quatro cadeiras ao redor da mesa, trsdelas vazias. Sheila escolheu a que dava as costaspara os dormitrios,  direita de Rfaga.
        A atmosfera estalava de tenso. Sheila sabiaque a morena no havia aceite sua presena. Seusolhares pareciam lanar punhais cada vez que se dirigiam para Sheila.
        A animosidade que emanava da moa  frentedela era quase tangvel. Contaminava a comida, tornando-a quase impossvel de ser saboreada. Exasperada, Sheila largou o talher sobre a mesa. Virandose para Laredo, falou:
        - Quer explicar a esta bruxa ciumenta queno estou interessada no amante dela! - Lanouum olhar irritado  moa. - Pode tambm dizerlhe que, se ela me desse uma faca, eu tomaria asminhas providncias para que ele no chegasse maisperto de mim do que est no momento.
        Ocultando um sorriso, Laredo lanou um breve olhar ao patro, depois traduziu o que Sheila dissera. O ceticismo misturou-se a uma antipatia malvola quando a morena respondeu.
        - Ela acha que voc s est dizendo isso por que est com medo dela. - Laredo repetiu em ingls o que Elena dissera. Havia um brilho malicioso nosseus olhos azuis. - Falou que s uma mulher muitovelha e aleijada afastaria um homem como Rfagada sua cama. Disse que voc no parece ser nemvelha nem aleijada.
        Os elogios para a percia de Rfaga como amante serviram como uma capa vermelha para o gnioexplosivo de Sheila. Como haviam sido ditos primeiro em espanhol, era bvio que ele os havia ouvido.
        Os olhos dourados de felino de Sheila viraram-separa ele, vendo a inexpressividade deliberada doolhar com que a fitou.
        - Ora, mas que... - gaguejou Sheila numdio impotente antes de dominar a exploso de raivae cerrar firmemente a boca. A seguir, virou-se paraLaredo. - Diga a ela que ele mandou matar o meumarido, e que meu nico desejo  v-lo ter o mesmodestino!
        O queixo pontudo da morena ergueu-se ante ainformao traduzida por Laredo. Finalmente, balanou a cabea, como se compreendesse, e o brilho dabatalha abandonou os seus olhos, deixando Sheila delado como sinal em potencial para as atenes deRfaga. Mas ainda parecia desconfiada quando olhoupara Rfaga, como se no estivesse l muito certaquanto a ele, no que dizia respeito a Sheila.
        A trgua permitiu que Sheila acabasse a refeio numa paz relativa. Logo que acabou, pediu licena e saiu da mesa, indo para o quarto.
        Os seus pensamentos teimavam em voltar paraas mesmas perguntas quanto tempo demoraria atque entrassem em contacto com os seus pais e exigissem o resgate! Quanto tempo demoraria at eleslevantarem o dinheiro e pagarem? E, a mais perturbadora de todas: ser que a soltariam quando recebessem o dinheiro?O sol se ps e a escurido chegou. Enfiando-sesob o cobertor do catre duro, torceu para que o sonochegasse logo para ajud-la a esquecer as perguntassem resposta.
        Laredo deixou a casa de adobe logo que Sheilase deitou. Um murmrio baixo de vozes continuavaa vir da sala, a intimidade sugerida pelos tons suavese pontuada por momentos de profundo silncio. Sheila tentou concentrar-se nos rudos noturnos l fora, mas se pegou fazendo fora para ouvir o casal nasala.
        Passos trouxeram as vozes mais para perto, para o dormitrio adjacente ao de Sheila. Um calorde embarao subiu-lhe pelo corpo ao rudo de roupassendo tiradas s pressas. A carcia cadenciada na vozsuave de Elena foi silenciada abruptamente, e Sheilafechou os olhos ante a imagem da boca masculinadominadora fechando-se sobre a da morena.
        A parede que separava os dois quartos no eraespessa o bastante para abafar o ranger do catre ouos gemidos suspirosos de xtase dos lbios femininos. Sheila tapou os ouvidos com as mos, tentandobloquear o som dos dois fazendo amor. Com persistncia nauseante, ele ficava martelando os seus ouvidos.
        Minutos interminveis prolongavam-se, repugnantemente, sem sinal de nenhum dos dois estar satisfeito. Sheila gemeu ante a idia repelente de que osrudos poderiam continuar a noite toda, a intervalos, enquanto Rfaga provava a sua potncia na cama.
        Um grito de nojo j lhe subia  garganta quandose fez silncio. Sheila apertou a mo contra o estmago revolto e esperou para ver se a tempestade dapaixo deles tinha passado, ou se fora apenas umacalmaria. O catre rangeu de novo e ela engoliu depressa o bolo nauseante que parecia engasg-la.
        Mas o recomeo esperado no ocorreu. Houve o rudo de algum se vestindo, seguido por um comentrio sussurrado e carinhoso de Elena. A seguir, Sheila escutou os passos leves da mulher, que saadiscretamente do quarto, e depois da casa. Estremecendo de repulsa, Sheila se perguntou quantas noitesteria que passar ouvindo o acasalamento bestial deles.
        Fitou o teto, odiando violentamente todos oshomens e seus desejos carnais. No se podia confiarem nenhum deles. Eram animais insensveis e egostas, que ligavam apenas para as suas necessidadesfsicas. O amor era uma armadilha, concebida pelohomem para escravizar a mulher  sua vontade. Sheila jurou jamais deixar-se prender nela.
        O silncio encheu a casa. Uma onda de inquietao tomou conta de Sheila, forando-a a movimentar-se. Jogando o cobertor para os ps do catre estreito, levantou-se e foi, sem fazer barulho, para ocorredor.
        Sentiu-se aprisionada na sala. A lua cheia deixava entrar seus raios prateados pelas janelas, ensombrando os cantos da sala e restringindo o caminhar inquieto de Sheila  rea iluminada. Sua nucase arrepiou, em advertncia, e Sheila virou-se bruscamente para o corredor.
        Rfaga estava parado na entrada, reflexos prateados nos cabelos de bano. Nu da cintura paracima, o trax castanho-dourado brilhava ao luar, as calas escuras ajustadas aos quadris e coxas esguias, enquanto realavam o comprimento das pernas. Paralisada, Sheila fitou as feies atraentes dele.
        Ele ergueu uma sobrancelha indagadoramente:
        - Seora?
        Ela ficou ali parada, fitando-o, sabendo que estava perguntando por que ela no conseguia dormir. Mas, vendo-o daquele jeito, semi-vestido, Sheila podia apenas recordar que minutos antes ele estivera deitado com uma mulher, realizando com ela os atos mais ntimos.
        Franzindo de leve o cenho, ele inclinou a cabea para o lado, observando-a, alerta. Um desejo sufocante de escapar dominou Sheila. No tinha certeza do tipo de ameaa que ele representava. Sabia, apenas que tinha que fugir dele, e se dirigiu para aporta.
	    - Sheila!
        O uso do seu nome era uma ordem para queparasse.
        Ela correu mais depressa, chegando at a portae comeando a escancar-la. A mo dele fechou-aviolentamente antes de agarrar-lhe o brao e vir-lapara si.
        - Solte-me! - Debatia-se desesperadamente. - Porco! Animal!
        Ela notou o tom dominador da voz baixa, mas no lhe deu ateno. Chutando-lhe as canelas comos ps descalos, retorcia-se como um animal enfurecido, para soltar-se dele. Como que pressentindoque Sheila estava no limiar da histeria, ele agarrou-apelos ombros e sacudiu-a com tanta fora que elapensou que fosse lhe quebrar o pescoo.
        - Porco! - arquejou Sheila, quando ele parou de sacudi-la. Via tudo preto, e teve que se agarrar  pele dos seus ombros musculosos paramanter o equilbrio. - Voc  um monstro, depravado! Elena foi uma conquista fcil demais! Resolveu agora me violentar!
	   Seus olhos refulgiam com as chamas amarelasque ele descrevera para Elena. A boca do homemcerrou-se sombriamente, um pulso pulsando convulsivamente no maxilar, enquanto os carves ardentes dos seus olhos a fitavam. Antes que pudesse respirar de novo, suas mos foram cruzadas atrs das costas, e viu-se esmagada contra o peito de bronze dele.
        O cheiro msculo e almiscarado era forte e inebriante, entorpecendo, com a sua potncia, os sentidos de Sheila. Alucinada de medo, ela retorcia-se emvo contra ele, o corao batendo na garganta.
        A largura dos ombros dele pareceu diminuir, acompanhando-a enquanto ela se dobrava para trs.
        Sua voz sibilou uma ordem zangada em espanhol, junto ao ouvido dela. Sheila virou a cabea, para evitar o som, cometendo o erro de voltar o rosto parajunto do dele.
        O toque acidental dos seus lbios msculos apetrificou. No conseguiu mover-se, enquanto todoo seu corpo gelou, depois ficou pegando fogo. Otempo parou enquanto os lbios dele mantiveramaquele toque levssimo. Sheila esperou, sem respirarde tanto medo, que ele tomasse posse da sua bocade modo brutal.
        Lembrando-se da violncia de Brad, Sheila fechou os olhos.
        - Outra vez, no - soluou, num apelo desesperado.
        O elo frgil se rompeu; Rfaga se endireitou, erguendo a cabea enquanto Sheila piscava para osseus olhos vtreos. Suas narinas se dilataram levemente, numa sugesto de orgulhosa arrogncia. Seu braodesceu at a curva dos joelhos dela para ergu-la docho e carreg-la.
        - No! - arquejou ela, em protesto, debatendo-se loucamente.
        Os seus esforos foram facilmente contidos enquanto ele a carregava para o quarto dela. Pondo-ade p virou-a contra o seu peito. Sheila usou osbraos para tentar abrir um espao entre eles e anular a tentativa dele de esmag-la de novo no seuabrao vigoroso. Deu-se conta de que ele permitira que ela o afastasse tarde demais, ao sentir que eleprendia os braos dela entre seus corpos.
        A mo dele envolveu parcialmente seu pescoo empurrando-lhe o queixo para cima. Sheila ficourgida ao sentir a boca dele fechando-se sobre a suaclida e firmemente. Tentou recuar, mas ele aumentou a presso no pescoo para impedir a tentativa. Forou-a a suportar o beijo at o fim.
        Quando terminou, empurrou-a rudemente. Sheila cambaleou para trs ante a rejeio inesperada, caindo com fora sobre o catre. A postura dele indicava que poderia possu-la, se assim o desejasse, masque no a queria, e que os temores dela eram infundados. Sem uma palavra, virou-se e saiu do quarto.
        Tremendo ante a frieza dele, Sheila deitou-seno catre e se enroscou na posio fetal. Os olhos lhe ardiam, mas no conseguiu chorar. O sono demorou muito a chegar.
        
        Durante dois longos dias, Sheila manteve-seisolada, retirando-se para o quarto sempre que Rfaga estava na casa. Seu sangue chegava a ferver cadavez que o via, odiando-o com uma intensidade quea deixava trmula.
        No entanto, Sheila era impotente, prisioneiradele, e sujeita aos seus castigos, caso o provocasse.
        No havia ningum para interceder por ela. Estavasozinha, tendo a gui-la apenas os seus instintos desobrevivncia.Na tarde do terceiro dia, os minutos vazios elentos e os quartos de hora que pareciam ficar cadavez menores comearam a deix-la nervosa. Sentiuque enlouqueceria se tivesse que passar mais umahora dentro de casa.
        Dirigindo-se  porta com passadas longas eagitadas, abriu-a. Imediatamente, o guarda se virou, o rifle seguro contra o peito para impedir sua passagem. Sheila parou, levantando a cabea farejando o perigo.
        O guarda mostrou os dentes quebrados e amarelados num sorriso obsceno. Era Juan, o homemque assassinara Brad e tentara estupr-la. Ondas de repulsa a percorreram enquanto os olhos escurosdebochados a olhavam da cabea aos ps. Ele parecia despi-la, enquanto a pele dela se arrepiava aotoque quase fsico do seu olhar.
        - Bao, seora? - perguntou, com um brilho lascivo no olhar.
        Sheila tentou engolir o bolo que se formara nasua garganta, e meneou a cabea. O movimento sacudiu a cabeleira fulva junto aos seus ombros, asmechas mais claras refletindo a luz do sol.
        Ele mudou o rifle de posio, apontando ocano para Sheila. A boca do rifle cutucou o n nafrente da blusa, forando-a a voltar para dentro dacasa. Ela recuou um passo, e o olhar dele se fixou nosseios que subiam e desciam com a respirao profunda, forando o tecido sedoso da blusa. Encheu-sede pnico, mas tentou no demonstrar o que sentia.
        A ateno dele foi desviada por um rudo ssuas costas. Olhou por sobre o ombro, apagando dorosto o sorriso obsceno. A viso de Sheila estava bloqueada pelo portal, impedindo-a de ver quem ou oque fizera as feies largas se transformarem numamscara inexpressiva.
        O tom autoritrio de uma voz familiar em espanhol forneceu a resposta. Juan respondeu, o olharvoltando para Sheila. O brilho dos seus olhos escuros parecia prometer que se encontrariam denovo... a ss, sem interrupes.
        Sheila empalideceu ante a ameaa silenciosa eagourenta. Rfaga apareceu, com Laredo ao lado.
        Juan afastou-se da porta, apontando a boca do rifle para o cho. Brevemente empalada pelo olhar de Rfaga, Sheila virou-se, empertigada, e entrou na casa, os membros trmulos pelo encontro com o assassinode Brad.
        - O que estava fazendo? - quis saberLaredo.
        O que podia dizer? Que tivera vontade derespirar um pouco de ar fresco, mas que a besta doguarda a detivera? Devia contar-lhe que Juan estivera prestes a for-la a entrar na casa e atac-la?No acreditariam nela.
        Juan era um deles. Acreditariam na palavradele, no na dela. Sheila imaginou que houvesse ordens para que ela no fosse tocada, portanto Juan jamais admitiria que planejava fazer-lhe algum mal, apenas que tentara impedi-la de sair da casa.
        - Estou ficando maluca, trancada nesta casa!- berrou Sheila. - Queria respirar um pouco de arpuro, mas o co que vocs puseram de vigia noquis me deixar sair.
        -  melhor voc ficar dentro de casa - disse Laredo.
        - Durante quanto tempo? - a voz dela soouestridente num toque de histeria. - No pode esperar que eu fique dentro deste buraco miservelpara sempre! J estou quase subindo pelas paredes!
        Rfaga fez um comentrio em espanhol, chamando a ateno de Laredo. Uma mensagem silenciosa passou entre eles antes de Laredo voltar a olharpara Sheila.
        - Vou lev-la para dar uma volta - anunciou-lhe.
        - Obrigada - retrucou Sheila com amargura.
        Afastando-se para o lado, Laredo no deu resposta ao sarcasmo dela. A figura baixa e atarracadade Juan esperava l fora. Endireitou o corpo para impedir de novo a sua passagem, mas uma ordem, a voz baixa de Laredo f-lo retrair-se.
        Sheila baixou a cabea ao passar, deixando queseus cabelos louros-escuros ocultassem o seu rosto doolhar dele. Mas sentiu que ele a observava, silenciosamente ameaador.
        A mo de Laredo no seu cotovelo dirigiu-a paralonge da dispersa formao de casas de adobe, em direo  sombra das rvores ao p do desfiladeiro.
        Novamente, estava sendo isolada dos demais habitantes do lugar.
        s suas costas, Sheila podia ouvir as crianasbrincando. Pssaros cantavam alegremente nas rvores e arbustos enquanto cavalos e algum gado pastavam satisfeitos no prado iluminado pelo sol, abanando as caudas para afastar as moscas. Tudo pareciabastante incongruente, considerando-se a situaodela.
        Laredo soltara-lhe o brao para deixar que caminhasse livremente. Sheila cruzou os braos numgesto nervoso de quem se aquece. Olhava para a frente, os olhos dilatados, um brilho de apreensonas suas profundezas.
        - Converse comigo, Laredo - falou, desesperada. - Diga-me quem , como veio parar aqui. Conte-me mentiras... no faz mal. Apenas converse comigo para que eu no possa pensar.
        Ele fez uma pausa, examinando-a em silncio, depois recomeou a caminhar.
        - Por onde quer que eu comece? - indagou.
        - Tanto faz. - Sheila deu de ombros comindiferena e inspirou, toda trmula. - Como veioparar aqui... como se uniu a este bando de renegados, ou seja l o que forem!
        - Eu estava contrabandeando maconha nacosteira. O homem com quem eu fazia negcios tentou mudar os termos, me passar para trs. Brigamos. Ele puxou uma faca, eu a tirei dele e o matei. Infelizmente, a polcia mexicana chegou antes que eu pudesse fugir.
        O tom dele era frio, sem emoo. Apenas narrava os fatos, nada mais.
        - Parece legitima defesa - murmurou Sheila, para manter a conversa - ou, no mximo, homicdio involuntrio. Foi condenado por qu?
        - Nunca fui a julgamento.
        - Como?- A boca se retorceu num arremedo de sorriso.
        - O sistema judicial do Mxico no  comoo dos Estados Unidos.  o velho Cdigo Napolenico, pelo qual voc  culpado at provar o contrrio. Voc fica na cadeia at ser julgado, o que podedemorar um bocado. Mantm os criminosos longedas mes.
        - Ento  por isso que voc est aqui, escondendo-se nas montanhas, porque  procurado pelapolcia - concluiu Sheila. Sentia-se bastante indiferente quanto ao fato de ele ter matado algum, independentemente das circunstncias. - Comofugiu?
        Ele parou para acender um cigarro e ofereceuum a Sheila, que o aceitou, esperando que a nicotina do tabaco acalmasse seus nervos  flor da pele.
        Ele soltou uma fina baforada e ficou vendo a fumaadissolver-se no ar.
        - Houve uma incurso, em assalto bem organizado,  cadeia onde estava preso. Tudo aconteceuto depressa que nem vi o que estava se passando- lembrou-se ele, distrado. - As portas das celasforam abertas. Todo mundo corria em todas as direes, tentando fugir. Mas notei esse invasor mexicano, absolutamente frio e controlado. Tinha trs prisioneiros americanos com ele, e parecia que ele osguiava para longe da confuso. Imaginei que ele sabia o que estava fazendo e para onde estava indo...coisas que eu no sabia... e da segui atrs dele.
        - Rfaga - disse Sheila, identificando older.
        -  - concordou Laredo, examinando a ponta do cigarro. - Algum o contratara para arrancaros trs prisioneiros americanos da cadeia e faz-loscruzar a fronteira de volta para os Estados Unidos. Eu fui de carona, s isso.
        - Mas por que no voltou para os EstadosUnidos com os outros! - indagou ela, franzindo ocenho. - Por que ficou aqui com ele!
        - Os outros haviam sido apenas acusados depequenos delitos com relao a drogas. Eu, de assassinato - lembrou-lhe. - Teria sido extraditadopara o Mxico para ser julgado. Alm disso, mateium guarda durante a nossa fuga; assim, mesmo queme tivesse safado da outra acusao, me pegariamna segunda. O governo americano poderia ter feitovista grossa se eu tivesse cometido um delito depouca importncia, mas, para o bem das relaes internacionais, teriam que procurar um assassino. Minha famlia seria avisada. Haveria manchetes nosjornais locais. Agora eles no sabem onde estou, ouo que fiz, ou se estou vivo.  melhor eu ficar dolado de c da fronteira.
        - Mas a sua famlia no foi avisada quandofoi preso pela primeira vez! - indagou Sheila.
        - Fui para a cadeia sob nome falso, e compassaporte falso. - Laredo tragou o cigarro e sacudiu a cabea, soltando uma nuvem de fumaa. - A polcia mexicana descobriu quem eu sou realmente, mas o nome errado ainda consta da lista doCnsul americano. Assim, a minha famlia no sabe.
        - Como pode ter certeza?
        - H meios - respondeu, voltando a se refugiar na frase misteriosa que indicava a existncia de contactos.
        Sheila recomeou a andar, a esmo, por entre os cavalos que pastavam.
        - H quanto tempo est com Rfaga?
        - Quase trs anos.
        - Ele parece passar um bocado de tempo comvoc, mais do que com os outros - comentou despreocupadamente.
        - Imagino que se possa dizer que virei o seubrao esquerdo - disse Laredo, sorrindo preguiosamente.
        - Brao esquerdo? - Olhou para ele, curiosamente. - E quem  o brao direito?
        - Ningum. Ele no confia em ningum para ficar  sua direita.
        Laredo parou para esmagar a ponta do cigarro com a bota.
        Um frio correu pela espinha de Sheila. Jogouo prprio cigarro, fumado pela metade, na gramaalta sob seus ps.
        - O que vai acontecer comigo, Laredo?
        - No sei o que quer dizer.
        Ergueu os olhos para fit-lo cautelosamente.
        - J entraram em contato com os meus pais?
        Uma mscara desenhou-se sobre as feies vagamente juvenis, tornando-as duras e dissimuladas.
        - No posso lhe responder, Sra. Townsend - replicou Laredo, formalmente.
        - Pelo amor de Deus, me chame de Sheila! - declarou, agitada. - No quero que me lembrem Brad!
        - No foi minha inteno, Sheila - retrucou Laredo, descontraindo-se ligeiramente.
        - Quando o resgate for pago, serei solta? - indagou, aproveitando-se do vestgio de compaixo na voz dele.
        - No sei por que no, se o resgate for pago.
        Ele deu de ombros e recomeou a andar.
        No era uma resposta l muito satisfatria, eSheila soltou um suspiro desanimado. Muito distante, soou um lamento solitrio. Ela parou, prestandoateno para ver se ouvia o som de novo.
        - O que foi isso? - murmurou.
        Laredo lanou um olhar para o sul.
        - Um trem... a ferrovia Chihuahua Pacfico, que vem do lado mexicano de Presdio,Texas, atravessa as Sierras e o Copper Canyon at a costa do Pacfico. Dependendo do vento, a gente pode ouvir o seu apito ecoando pelas montanhas.
        - A quanto tempo fica daqui? - indagouela, uma nota ansiosa na voz.
        - Voando no sei, talvez no longe, mas socem milhas de terreno rduo, se tentasse chegar la p. No conseguiria, Sheila - comentou secamente.
        Ela apertou os lbios. Recusou-se a admitir quepassara pela sua cabea a idia de chegar l, caso lheaparecesse uma oportunidade de fugir. Laredo parou.
        - Vamos mudar de assunto - sugeriu, tentando tornar mais leve a tensa atmosfera. - Diga-me, h outras como voc em casa?
        - Sou filha nica - retrucou Sheila -, oque  bom para vocs, j que meus pais pagariamqualquer coisa para me ter de volta.
        Laredo ignorou o sarcasmo.
        - Tenho um irmo mais moo..  um atleta nato... basquete, corridas. Quando estava no penltimo ano da escola secundria, fez parte da lista dos melhores atletas como jogador de meio de campo. O treinador achava que tinha praticamente garantida uma bolsa de estudos para a universidade, quando se formasse. - Laredo ficou pensativo. - Ser que a conseguiu!
        - Sente falta de sua famlia, no ? - comentou Sheila meigamente, sentindo de repente umaafinidade com ele.
        Por um momento sentiu que ele comeava ase retrair, preparando-se para negar a afirmativa dela. A seguir, sorriu, um brilho malicioso movendo-se nosseus olhos azuis.
        - Sabe do que sinto falta? - Pareceu rirbaixinho de si mesmo. - De um sundae de caramelo quente, com montes de creme batido, castanhase uma cereja em cima. Chego a sonhar com isso denoite; s vezes, sinto um desejo to grande que achoque vou ficar maluco se no tomar um.
        Sheila sorriu.
        - Um caso violento de paixo por doces.
        -  - concordou Laredo, os olhos brilhantes fitos nos dela. - E piorou depois que voc chegou. - Como se tivesse percebido subitamente oque dissera, virou-se, deixando o espao entre elesficar maior. Agora caminhavam por entre os cavalos, e Laredo passou a mo pela anca de um cavalo depelo castanho. - Quer dizer que  filha nica?
        Sheila hesitou, depois deixou que ele mudassede assunto.
        -  isso a. Mimada e paparicada, uma fedelhinha rica, como Brad costumava dizer.
        O nome dele lhe escapou antes que pudesseimpedir.
        - Falando carinhosamente,  claro - sorriuLaredo.
        - No. - Notou o brilho da sua aliana, aoolhar para baixo. - Falando invejosamente, acho.
        - Isso faz parte do motivo pelo qual voc noest exatamente chorando a morte dele? - indagou, olhando para o perfil dela.
        - Brad na verdade se interessava muito mais pelo meu dinheiro do que por mim. Gostava dasensao de poder que ele lhe oferecia - respondeuSheila, inexpressivamente.
        - Por que est me contando isso?
        Quando Sheila ergueu os olhos, ele a fitava comum toque de ceticismo no olhar. Uma brisa fez esvoaar os cabelos dela, e ela os afastou do rosto.
        - No sei. Talvez porque voc me tenha falado da sua famlia. Ou talvez porque eu tivesseque admiti-lo em voz alta, e ouvir as palavras - respondeu devagar. - Talvez queira que voc sejameu amigo.
        - Por qu! - insistiu Laredo.
        - Porque eu o fao lembrar-se de sundaes decaramelo quente, suponho. - Tentou brincar comele, para que abandonasse o ar interrogador. - Eimporta o porqu!
        - Talvez. - Olhou-a dos ps  cabea. - Talvez voc esteja querendo me dominar.
        - E eu o conseguiria!
        Sheila inclinou a cabea para o lado, deliberadamente provocante.
        Laredo levantou uma das sobrancelhas sardonicamente, antes de olhar para o outro lado.
        - Tem a munio em todos os lugares certos.
        Por trs do seu tom seco, Sheila pressentiu aconcordncia relutante. No ficou surpresa ao saberque ele a achava atraente.
        Mas era algo que ele apenas sugerira que interessava a Sheila. Embora Laredo tivesse tentadocortar os laos com sua famlia e seu pas, no conseguira faz-lo integralmente. E Sheila representavaUm elo com a ptria, no importando o quanto Laredo insistisse em que agora o seu lugar era ali.
        Como poderia conseguir tornar mais forte oeloe persuadi-lo a transferir a sua lealdade ao bando para ela! O uso do sexo era a resposta provvel, mas ela a repelia com violncia.
        A caminhada tranqila os havia levado  outraextremidade do prado. Um movimento  esquerdade Sheila chamou-lhe a ateno. Um garotinho sepunha de p, uma franja de cabelos negros caindolhe sobre os olhos escuros. Parecia engolido peloponcho cor de ferrugem que usava, assim como pelasfolgadas calas marrons.
        Hesitante, baixou a cabea num cumprimentoconstrangido:
        - Buenas tardes, seora, seor.
        - Buenas tardes.
        Sheila repetiu a frase com um sorriso levemente curioso.
        Laredo acrescentou o seu cumprimento ao dela.
        - J andamos bastante - falou, mudando de direo para retornar pelo prado. -  melhor voltarmos.
        - H muitas crianas por aqui! J as escuteibrincando do lado de fora.
        Olhou para o conjunto disperso de casas de tijolo cru, vendo movimentos, mas incapaz de distinguir figuras quela distncia.
        - Mais ou menos uma dzia, creio, contandoas crianas ndias.
        - ndias! - indagou Sheila, a testa franzida.
        - Havia umas duas famlias de ndios tarabumaras morando aqui quando chegamos - explicou. - Vivem isolados, no se metem com a gente.
        Sheila no procurou mais conversa enquanto voltavam para casa. Ele j lhe dissera tudo o que queria. Supunha que devia dar-se os parabns por ter conseguido que Laredo se abrisse tanto, embora as informaes no tivessem nenhum proveito.
        
         Captulo 9
        
        Um novo guarda estava de viglia quando chegaram a casa. As feies largas e chatas eram afveis.
        Inclinou a cabea para baixo num gesto deferente de respeito quando Sheila passou por ele. Foi o primeiro gesto de cortesia que recebeu desde que chegara ao esconderijo no desfiladeiro.
        O brilho intrigado dos seus olhos mereceu um comentrio de Rfaga quando ela entrou em casa.
        Imediatamente, ficou abespinhada e virou-se para Laredo.
        - O que foi que ele disse a meu respeito! - quis saber.
        - Simplesmente comentou que o passeio pareceu lhe fazer bem - respondeu Laredo.
        - Diga a ele que todos os prisioneiros precisam de um pouco de exerccio - retrucou Sheila. - E diga-lhe tambm que quero tomar um banho hoje  tarde enquanto o sol ainda est alto o bastante para aquecer o lago. Vou pegar o sabonete e a toalha, e voc pode me levar. Tenho certeza de que ele no confiaria em mim para ir sozinha.
        Dirigiu-se em largas passadas para o quarto, o momento de bom humor desaparecendo no instante em que deparara de novo com Rfaga. Batendo a gaveta da cmoda, Sheila ouviu o murmrio baixo de vozes no outro aposento. A conversa em espanhol cessou quando ela voltou.
        - Estou pronta - anunciou.
        - Tenho umas coisinhas para fazer - retrucou Laredo, colocando o chapu na cabea. - Rfaga vai lev-la.
        Com os nervos  flor da pele, Sheila disse, intempestivamente:
        - Em quem ele no confia? Em voc ou emmim!
        - Talvez em nenhum dos dois. - Laredoabriu um amplo sorriso. - Ele sabe que faz tempopra burro que no durmo com uma loura.
        - J no basta que eu tenha que sofrer a indignidade de no permitirem que tome banho emparticular? No tenho nem o direito de escolherquem vai me vigiar? - fuzilou ela.
        Laredo olhou para o rosto inexpressivo de Rfaga e deu de ombros para Sheila.
        - Ordens - falou, e esta palavra foi a suanica explicao.
        Os ns dos dedos que seguravam a toalha branquearam nitidamente quando Laredo fez um cumprimento breve e zombeteiro de cabea, antes desair porta afora. Sheila olhou, carrancuda, para o rosto bronzeado que ocultava os pensamentos de Rfaga, tremores de raiva primitiva percorrendo-a toda.
        - Muito bem, seu bisbilhoteiro, est pronto!- indagou, sarcasticamente.
        Apertando os lbios, Sheila virou-se e saiu pelaporta que Laredo deixara aberta. Rfaga ia dois passos atrs, deixando que ela achasse a trilha para olago formado pelo riacho, sem a ajuda dele.
        Junto ao lago, ele se dirigiu para a mesma rvore em que se encostara da outra vez, e apoiou umombro contra ela. A respirao dela era difcil, devido  raiva que sentia. No tinha a menor vontadede vestir roupas molhadas de novo quando acabasse de tomar banho. Dando-lhe as costas, Sheila comeou a soltar o n que prendia a blusa.
        - Tem alguma tara que o deixa excitado vendo uma mulher se despir e tomar banho? - perguntou com voz rouca de frustrao. - Ou apenastem prazer em me humilhar?
        Arrancou a blusa e jogou-a ao cho. As suasomoplatas muito brancas sentiram o toque do olhardele, que lhe descia pelas costas at a cintura fina.
        Seus dedos tremiam ao abrir o zper das calas.
        - Voc  um monstro sdico por me fazerpassar por tudo isso. - A voz lhe tremia. - Deviaser esquartejado e pendurado para servir de comidaaos urubus. Gostaria que pudesse entender o queestou dizendo para saber que o acho um selvagem... vulgar e abominvel e desprezvel e...
        Sheila esgotou o vocabulrio para descrever oseu dio.
        Abriu o zper e tirou as calas, sentindo umrubor de vergonha pela sua nudez. Um segundo depois, mergulhava no lago. Subiu  tona quase queimediatamente, a temperatura gelada da gua tirando-lhe o flego.
        Afastando dos olhos as mechas de cabelo molhadas, Sheila voltou a olhar para a rvore. Rfagaestava sentado na base dela, o chapu marrom manchado puxado sobre os olhos. Ela podia sentir oolhar dele perturbadoramente intenso enquanto sedirigia para a margem para apanhar o sabonete que estavana grama, perto da gua.
        Quando acabou o banho, saiu atrevidamente dagua, sem procurar cobrir-se com as mos. Apanhando a toalha, comeou a secar-se rapidamente, sentindo o calor do embarao e recusando-se a cedera ele.
        - D uma boa olhada. - Sentia uma vontade enorme de jogar-lhe a toalha no rosto. - Talvezajude a estimul-lo para a visita noturna de Elena.
        Ao ouvir o nome da amante, Rfaga se ps dep, um brilho divertido nos olhos, mas no se acercou dela. Lutando contra um sbito ataque de nervosismo, Sheila vestiu as calas, semi-virada para ele.
        O tecido sedoso da blusa grudou-se  sua pelemida. Enquanto ele se movia na direo dela, Sheila sentiu sua falsa serenidade abandon-la. Os dedospareciam ter dificuldade em dar um n na fazenda.
        Antes que conseguisse d-lo, ele estava calmamente afastando as mos dela e juntando a frente dablusa com dedos firmes. Enquanto dava o n, osdedos roaram as amplas curvas dos seios. Sheilacrispou-se ante o toque dele. Os vincos dos lados daboca do homem aprofundaram-se zombeteiramente.
        - Eu l posso evitar - murmurou Sheila tensamente, o seu ar de bravata atenuado pela proximidade dele - se o seu toque me faz sentir vontade de me lavar de novo!
        A carne dela vibrava com o contacto. Indiferente ao tom de voz cido, Rfaga examinava as chamasamarelas que lhe iluminavam os olhos. Ficaram parados, em silncio, o ar crepitando entre eles, comSheila quase a desafi-lo a toc-la de novo.
        Ansiava por empurr-lo para dentro da guagelada. Ele pareceu ler-lhe os pensamentos, porqueseu olhar escuro dardejou para a superfcie espelhada do lago, depois para o rosto dela, o brilho divertido aparecendo de novo nas profundezas negras dosseus olhos.
        A irritao fervilhava quase  superfcie quandose dirigiram de volta  solitria casa de adobe afastada das outras. Sheila ia na frente, sentindo Rfagalogo atrs, a despeito do silncio animal das suaspassadas. Controlou o seu gnio. Sabia que ele eraperigoso.
        
        Os passeios  tarde com Laredo tornaram-seuma rotina. Ela os esperava com tanta ansiedadequanto uma criana espera receber um doce. Eles lhe ofereciam uma trgua do tdio sufocante da casa, e da presena perturbadora de Rfaga.
        Nunca antes na vida Sheila ficara to ociosa.
        Sempre havia alguma coisa para lhe ocupar os minutos. Aqui, nada havia a fazer exceto zanzar pelacasa quando estava sozinha, e esperar os passeiosvespertinos com Laredo. Depois de uma semana, aexistncia monotonamente vazia havia deixado seusnervos  flor da pele.
        No fim de um dos passeios, Laredo comentara:
        - Est com uma cara exausta, Sheila. Notem dormido bem  noite!
        - No muito.
        Uma leve tenso ecoou na sua resposta.
        A culpa era de Rfaga. As visitas de Elena cama dele no aconteciam necessariamente todas asnoites, mas era quase pior para Sheila escutar a suarespirao compassada atravs da parede fina doquarto.
        - Por que no se deita e tira um cochilo!- Sugeriu Laredo. - Est com cara de quem est precisando.
        - No preciso de cochilo!
        Sheila entrou com largas passadas pela porta queele segurava para ela.
        O ar  sua volta parecia vibrar como um diapaso. A agitao aumentou ao ver Rfaga sentado  mesa, limpando o rifle.
        - O que preciso  ir embora daqui! Quantotempo ainda vai demorar antes de terem notcias dosmeus pais Ou j as tiveram! - indagou Sheila, virando-se para Laredo.
        - No posso lhe responder a isso.
        - No pode me responder a isso.
        Ela colocou as mos nos quadris, enquanto debochava dele.
        - No pode responder a coisa alguma a no ser queele puxe a cordinha. Por que no pede a ele permisso para me arranjar um par novo de mos para ficar abanando? J estou ficando cansada das velhas.
        - Est entediada, no ?
        - Entediada? Santo Deus, mas isso  poucopara o que sinto.
        Sheila virou-se bruscamente, soltando um suspiro enojado, e deu de cara com o olhar duro, distante e avaliador de Rfaga.
        - Os passeios... - comeou Laredo.
        -...ocupam talvez duas horas do dia interrompeu Sheila. - O que devo fazer com as outras vinte e duas? Pass-las dormindo!
        Laredo tinha uma expresso sombria na boca, quando inspirou fundo e olhou para Rfaga, comoque a pedir-lhe conselhos. Sheila escutou, impaciente, o dilogo em espanhol.
        - Qual a proposta que o Salomo dos ladrese assassinos fez! - quis saber Sheila.
        Um meio sorriso tocou os lbios de Laredo, como se o divertissem as garras de gatinha dela.
        - Concorda que voc fica tempo demais semfazer nada. J que tem que ficar dentro de casa, eleresolveu que deve cuidar da limpeza e ajudar Elenana cozinha.
        - Ele resolveu! - Sheila quase engasgou deindignao. - J no basta que eu seja prisioneiraaqui; agora ele espera que tambm seja sua empregada!
        - Tem que admitir que vai ajudar a passaro tempo. - A boca de Laredo retorceu-se, divertida. - E voc tambm mora aqui. Deve contribuirpara as tarefas domsticas.
        - Devo, ? - falou desafiadora e iradamente. - Se este lugar fosse imaculado, ainda assim seja um buraco nojento. E quanto  cozinha, no seicozinhar, pelo menos no nessas condies primitivas! Alm do mais, qualquer comida que eu bote  frente dele ser temperada com veneno!
        - Ele est disposto a se arriscar. - Laredodeu de ombros para a ameaa dela.
        - Elena no vai gostar que eu fique na cozinha - explodiu.
        - Ele j tomou a deciso. Voc vai ajudar - concluiu Laredo.
        Quando Elena soube da mudana de status deSheila, o seu gnio latino explodiu com combustoespontnea. Rfaga se recusou a ouvir os seus protestos tempestuosos, e silenciou-a com um comentrio baixo e ameaador.
        A frgil trgua que existira entre as duas mulheres foi destruda. Novamente, nos olhos da morena surgiu o dio nascido do cime, e ela dava aSheila as tarefas mais servis, ralhando com ela emespanhol quando no compreendia.
        Fervendo de raiva com o tom abusivo que aoutra vivia usando, Sheila jogou os pratos em cimada mesa, olhando feio para Laredo quando ele deuuma risadinha abafada.
        - Juro por Deus - resmungou -, se aquela vaca no parar de gritar comigo, vou enfiar um tamale pela sua garganta abaixo!  melhor dizer aoseu patro que a mande calar a boca, antes que euo faa!
        - Mau gnio, mau gnio - brincou Laredo.
        - Daqui a uns dois minutos voc vai ver direitinho como  o meu gnio! - retrucou Sheila.
        Uma torrente de novas ordens ininteligveisSaiu da boca de Elena. Sheila deu meia-volta, cerrando os punhos nos lados do corpo. Uma palavrarspida de Rfaga fez Elena calar a boca bruscamente. Os olhos escuros e malvolos encheram-se de ressentimento enquanto empurrava um prato decarne cozida e uma faca contra o estmago de Sheila.
        Largando-os sobre a mesa, Sheila agarrou a facapelo cabo.
        - No consigo resolver em quem usar isto- murmurou.
        - No creio que Elena saiba que no se podeconfiar em voc com uma faca - comentou Laredo, com um sorriso retorcido.
        Sheila retribuiu o sorriso, com falsa doura.
        - Pensando melhor, sei exatamente em quemus-la... no seu patro implacvel. Gostaria de arrancar-lhe fora o corao e t-lo aqui no prato, aoinvs deste pedao de carne. - A lmina brilhantepairava acima da carne fibrosa. - A, ento, poderia cort-lo em pedacinhos, ou quem sabe seriato duro que s poderia parti-lo em pedaos.
        - Como  sanguinria - riu Laredo, quando Sheila colocou a faca sobre a carne para cort-laem pedaos finos, e depois fez meno de cortar umpedao maior.
        Dedos cor de bronze fecharam-se sobre a suamo. Sheila retesou-se quando Rfaga mudou asmos dela de posio, para que a lmina pousassesobre a fatia mais fina. Deu-se conta de que eleapenas estava lhe mostrando como cortar a carne.
        - Gracias. - Lanou-lhe um sorriso adocicado. - Preferiria cortar o seu corao em fatiasfinas. Levaria mais tempo. - Comeando a cortara carne, lanou um olhar para Laredo. - Por queno traduziu o que falei?
        -  estragar o seu prazer!
        Ele riu silenciosamente.
        - Estou certa de que ele j sabe que o achoum bastardo cruel e desprezvel - retrucou Sheila, no mesmo tom.
        - Cuidado - advertiu Laredo.
         - Por qu! - replicou. - Ele no entendeuma palavra do que digo. Posso cham-lo do quequiser.
        - Porm esta palavra em particular no soamuito diferente no idioma dele.
        O sorriso que lhe curvava a boca perdera grande parte do seu divertimento.
        - No diga! - Sheila arregalou os olhos comfalsa inocncia e assombro. Fitou Rfaga, disfarando a antipatia do olhar com um movimento modestodos clios. - Ento, no pretendia cham-lo de bastardo. Estou certa de que seria muito mais exatocham-lo de filho da puta.
        Tornou-se um jogo divertido insult-lo sob a cobertura de comentrios polidos. Nunca houve um s lampejo de interesse nas suas feies impassveis, e Laredo no fazia a traduo.
        
         Captulo 10
        
        A novidade do jogo se esgotou. L pela terceira noite, os insultos docemente verbalizados por Sheila j no lhe davam nenhum prazer. Ao invs disso, deixavam-lhe um gosto amargo na boca, por causa da sua impotncia. Fora uma demonstrao infantil de rebelio, Sheila dava-se conta, e que apenas Laredo compreendera.
        No modificara nada. Ainda era prisioneira, sem deixar de ser vigiada um s minuto. Elena ainda morria de cimes dela. Sua revolta fora apenas verbal, j que estava ajudando na cozinha e fazendo a arrumao na pequena casa. A alternativa era voltar s horas ociosas, e Sheila no as agentava mais.
        Do lado de fora da janela, a chuva leve se alternava com um temporal, prendendo Sheila dentro de casa. Raios amarelos tocavam os picos das montanhas, lambendo os cus, eltricos e ofuscantes. Nuvens escura agourentas deixavam o cu negro, aumentando o ar sombrio do interior rido do seu quarto.
        No meio de um aguaceiro, Sheila ouviu o rudo de cascos de um cavalo sobre a terra encharcada, aproximando-se da casa de adobe. O trote cessou, e algum bateu  porta. No pde deixar de se perguntar quem estaria saindo com um tempo daqueles.
        Sua curiosidade aumentou quando ouviu Rfaga dar uma ordem ao vigia. O homem abandonou a proteo do prtico para dirigir-se, sob a chuva, parao conjunto distante de casas de tijolo cru.
        Durante vrios minutos houve apenas o murmrio abafado de vozes na sala principal, onde estavam Rfaga e o cavaleiro. Sheila afastou a cortinapara fitar o aguaceiro. Ningum vigiava a porta. Todos estavam dentro de casa, protegendo-se dotemporal.
        Apenas um idiota sairia com um tempo desses, raciocinou Sheila - um idiota ou algum querendofugir sob a proteo da chuva. Rapidamente subiuno peitoril da janela e jogou as pernas para fora, para saltar para o cho.
        Os ps caram numa poa de gua e a mobuscou a slida parede da casa para recuperar o equilbrio no solo escorregadio. Os raios rasgaram oscus quando Sheila correu na direo das rvoresatrs da casa.
        Antes que pudesse alcan-las, estava ensopadaat os ossos. A chuva violenta grudava-lhe o cabelo cabea, e a gua escorria para dentro dos seus olhos, toldando-lhe a viso. Cada inspirada que dava erapesada de umidade.
        Os galhos grossos das rvores diminuram umpouco a fora da chuva, as gotas violentas no maisirritando suas faces. Sheila parou uma vez, piscandopor entre as gotas de chuva que se grudavam aos seusclios, para lanar um olhar para a casa.
        Dois homens andavam, apressados, naquela direo, as cabeas baixas para se protegerem da chuva. Por um instante angustiado, pensou que a tinhamvisto, e escondeu-se atrs de um tronco de rvoreofuscado pela chuva. Porm nenhum dos dois olhouna sua direo enquanto corriam para o abrigo doprtico. O mais alto, num impermevel amarelo, Sheila reconheceu como sendo Laredo. O outro tinha que ser o vigia, evidentemente mandado por Rfagapara ir buscar Laredo.
        A qualquer momento poderiam descobrir que, j tinha sumido. Sheila comeou a correr, mantendo-se sob a proteo das rvores. Fora das vistas dacasa, sentiu-se mais segura e diminuiu o ritmo dacorrida.Um raio crepitou, rasgando o ar, seguido imediatamente por uma enorme trovoada. O cho sobseus ps pareceu tremer ante o som. Sheila sentiu-se tentada a abandonar o abrigo das rvores e tomar ocaminho mais curto atravs do prado at  gargantado desfiladeiro. Caiu uma nova torrente, e ela mudou de idia.

        Inclinando a cabea contra os lenis de guaque caam, seguiu rapidamente em frente. O somdos seus ps chapinhando era abafado pela chuvarada constante caindo entre as folhas das rvores.
        - Sheila.
        Quase surda com o barulho da chuva, no estava bem certa de que realmente havia escutado algum dizer o seu nome. Parou, a mo protegendoos olhos. Um cavalo bufou  sua esquerda.
        O corao de Sheila disparou, alarmado, enquanto ela se virava na direo do som. Laredo puxava o cavalo calmamente pelo meio das rvores, aaba do chapu bem abaixada por onde a gua escorria sem cessar.
        A audio dela ficou de repente aguada, percebendo outros sons. Seu olhar dardejou para asrvores que escasseavam,  esquerda de Laredo. Trsoutros cavaleiros espalhavam-se numa linha de busca. Um deles era Rfaga. Sheila teve certeza dissomesmo antes de distinguir as feies severas sob asombra da aba do chapu.
        Os cavalos pararam, formando um semicrculo sua volta. Correr era intil, portanto Sheila ficou parada. Inclinando a cabea num ngulo orgulhoso, recusou-se a deixar que vissem o quanto a amargurara ter falhado na fuga. A chuva lhe escorriapelo rosto.
        - O que est fazendo aqui!
        Laredo sabia a resposta  sua pergunta. Estavano escrnio frio dos seus olhos azuis.
        Sheila deu-lhe a resposta que a pergunta merecia.
        - Tive vontade de dar uma volta, e sa. Infelizmente, no me dei conta de que estava chovendoto forte.
        - No  estranho? - Laredo mudou de posio na sela, debruando-se ligeiramente sobre oaro dianteiro. - Quando a vi correndo da casapara as rvores, meu primeiro pensamento foi deque estava tentando fugir.
        Ele a vira e correra para alertar Rfaga.
        - Que bobagem a sua - comentou secamente.
        - O que serve para mostrar como  fcil agente ficar com a impresso errada numa situaodessas - retrucou ele, sorrindo zombeteiramente.
        -  mesmo - concordou Sheila, fervendo deraiva, mas lutando para no demonstr-la.
        Um raio cruzou o cu, um risco ofuscante dechama eltrica. Laredo olhou ao seu redor, como sesubitamente tivesse se dado conta do dilvio quecaa dos cus.
        - Seja como for - foi levando o cavalo parajunto de Sheila -, acho que foi sorte eu t-la visto. Poderia pegar uma pneumonia, se tivesse ido longedemais. - Um brao vestido de impermevel amarelo esticou-se para ajudar a coloc-la na sela. - Teramos chegado antes, s que levou algum tempopara selar os cavalos. Ao contrrio de voc, nenhum de ns estava contando com um longo passeio nachuva.
        A alfinetada dele provocou um olhar faiscantede ressentimento por parte de Sheila. Ele soltara op do estribo mais prximo dela. Sheila pisou nele edeixou Laredo ergu-la para o cavalo.
        Sheila estava ensopada at os ossos e tremendoquando Laredo a largou diante da casa de adobe. Entrou apressadamente, no esperando que a mandassem ou conduzissem. Laredo, Rfaga e o terceiro cavaleiro a seguiram rapidamente, e podia-se ouvir oguarda levando os cavalos embora.
        -  melhor vestir umas roupas secas bemrapidinho - aconselhou Laredo.
        Sheila estava na metade do corredor. Parou evirou-se, os dentes batendo incontrolavelmente, enquanto abraava a si mesma.
        - Caso tenha se esquecido, o meu guarda-roupa  muito limitado. Consiste no que eu estou usandoe uma camisa. Eu a lavei hoje de manh. No tenhoroupas secas para vestir.
        Parte do seu sarcasmo foi atenuada pelos arrepios que a percorreram.
        Dando meia-volta, dirigiu-se de novo para oquarto, enregelada e tangada, e cheia de auto-piedade.
        Ouviu Laredo dizer qualquer coisa para Rfaga noSeu espanhol fluente, e receber uma resposta.
        Ao entrar no quarto, ouviu passos no corredor, aqueles conhecidos que ouvia todas as noites. Retesando-se, Sheila virou-se para Rfaga quando eleentrou no quarto.
        O pesado poncho que o protegera da chuvafora tirado. A camisa, aberta no pescoo, estavaSeca, embora, devido  umidade, grudasse em seupeito e nos ombros suavemente musculosos. As calas estavam molhadas e escuras dos joelhos s botas.
        A expresso dos olhos era frgida como uma noite deinverno rigoroso.
        A gua pingava das roupas ensopadas de Sheila, formando uma pequena poa no cho. Mais guapingava do cabelo empapado, correndo em linhas brilhantes pelo rosto e pescoo. O tecido encharcadoda blusa moldava quase obscenamente cada curvados seios, inclusive os mamilos, endurecidos pelofrio. O olhar dele no deixava escapar nada.
        - O que voc quer?
        Sheila deu-se conta de que o seu desafio nervoso era to fraco quanto o sibilar beligerante de umagatinha semi-afogada.
        Ele soltou uma resposta e fez um gesto na direo das roupas dela. A sugesto era evidente: queria que as tirasse.
        Sheila empertigou-se.
        - S porque sou forada a tomar banho nasua frente no quer dizer que v me despir sempreque voc queira, para poder me olhar!
        As linhas duras da boca do homem estreitaramse ameaadoramente. Passadas largas e flexveis levaram-no at ela, antes que o corpo entorpecido deSheila pudesse reagir. Os dedos esguios comearama desfazer o n da blusa da moa, onde riachos degua juntavam-se para correr pela vale entre os seios.
        Ela afastou as mos dele com violncia.
        - Pode deixar que eu fao isso! - resmungoupor entre os dentes cerrados.
        Com um gesto desinteressado de concordncia, Rfaga foi at a cmoda e tirou a toalha do seu gancho junto  bacia. Voltando para junto dela, esperouat que as calas de Sheila tivessem se juntado  suablusa no cho. Ela estava dolorosamente cnscia dasua nudez ao pegar a toalha que lhe era estendida, mas o olhar indiferente dele no passou do seu rostoplido e branco.
         Enquanto ela se enxugava com as mos trmulas, ele foi at a cama e retirou o cobertor. A toalhamal havia absorvido a umidade em excesso quandoele comeou a enrolar o cobertor em sua barriga, apertando-o nos seios. Jogou o resto do cobertor sobre o ombro esquerdo dela, num sari improvisado.
        Ergueu os olhos para os cabelos dela, lembrando-lhe que estavam bastante molhados. Um poucoatordoada pela engenhosidade dele, Sheila levou atoalha aos cabelos molhados. Muito bem ajustado, ocobertor no se moveu nem um pouco quando elase mexeu; sentia-se gostosamente aquecida, como quenum casulo tosco.
        Sheila comeou a esfregar vivamente a toalhanos cabelos, quando Rfaga saiu do quarto. Novospassos no corredor. Desta feita no eram de Rfaga.
        Sheila no tirou a toalha da cabea quando Laredoapareceu  porta.
        - O vigia que foi guardar os cavalos aindano voltou? Imagino que Rfaga esteja com medoque eu v pular pela janela de novo se me deixaremsozinha por um minuto - declarou ela, tensamente.
        - Ele quer que voc v para o outro quarto- foi a resposta serena.
        - Onde possa ficar de olho em mim?
        O sarcasmo dela era venenosamente seco.
        - No, onde possa se aquecer. H um fogoaceso na lareira - explicou Laredo, pacientemente.
        -  incrvel como ele  cheio de considerao- redargiu Sheila. - Estou certa de que  umaordem e de que no tenho escolha.
        - Nenhuma - concordou ele.
        Um suspiro sibilante escapou-lhe por entre osdentes brancos.
        -  o que imaginava. Deixe-me apanhar omeu pente.
        - Sheila?
        A meia pergunta, meia ordem na voz dele, fezque Sheila parasse ao lado da cmoda.
        - O que , agora? - murmurou, com irrita so disfarada.
        - No tente de novo - falou Laredo.
        - Tentar o qu? - perguntou Sheila, sendodeliberadamente obtusa.
        - Fugir... como se voc no soubesse.
        - Ah! E por que no deveria! - fez a pergunta com naturalidade aparente, apanhando o pente.
        - Porque hoje voc teve sorte.
        - Sorte? - Soltou uma risada fria. - Comofoi que tive sorte?
        - No conseguiu sair do desfiladeiro. No teria sido muito agradvel se tivesse sado - acrescentou gravemente.
        - Por qu? - perguntou, desafiadora. - Porque poderia ter-me perdido na tempestade? Ouquem sabe teria sido comida por animais selvagens?Desculpe se acho a sua preocupao fingida pelo meubem-estar um pouquinho nauseante.
        Laredo ignorou as perguntas zombeteiras.
        - Ningum sai do desfiladeiro sem a permisso de Rfaga, Sheila... ningum - enfatizou.
        - Isso est me parecendo uma ameaa.
        Inclinou a cabea num ngulo desafiador.
        - Chame de ameaa, advertncia, como quiser - replicou ele, serenamente. -  uma regra para a segurana de todos ns no acampamento. Estelugar no seria secreto se todo mundo ficasse indoe vindo ao seu bel-prazer. Algum l fora poderiadescobrir a sua existncia. Sendo assim, ningum saidaqui sem a permisso de Rfaga... principalmente voc.
        Ela apertou o pente com fora, os dentes ferindo-lhe os dedos. Compreendia a lgica que haviapor trs da explicao de Laredo, mas, no que lhe dizia respeito, no era obrigada a seguir regra nenhuma.
        - Ele governa com mo de ferro, no ?
        - Se no o fizesse, o desfiladeiro j teria sidodescoberto.
        - Uma pena que no o tenha sido - disse ela, debilmente. - Nenhum de vocs estaria aqui, e muito menos eu.
        - Sei que as circunstncias no so as mesmas para voc. Entenda, porm, que  diferente para o resto de ns. Damos  nossa liberdade o mesmovalor que voc d  sua. Aqui, estamos seguros e livres. Rfaga faz tudo o que pode para manter essa situao.
        - Estou certa que sim - falou bruscamente.
        Laredo soltou um suspiro.
        - Voc no quer compreender.
        - Compreendo. - Os olhos dela faiscaram de frustrao e raiva. - Compreendo que sou uma prisioneira aqui... que no me permitem um momento de privacidade... que vocs no passam de um bando de assassinos e ladres, e no merecem estar livres.
        A boca do rapaz se estreitou num gesto sombrio.
        - Vamos para junto do fogo.
        Por um momento, Sheila permaneceu teimosamente onde estava. Com uma inclinao levemente rgia de cabea, finalmente passou por Laredo e foi para o corredor.
        
         Captulo 11
        
        O fogo crepitava alegremente na lareira, competindo com as fortes gotas de chuva que caamsobre o telhado. Rfaga estava sentado  mesa como terceiro homem, o estranho cuja chegada precipitara a tentativa de fuga de Sheila. Os dois ergueramos olhos quando ela entrou no quarto e acompanharam-na com o olhar enquanto se dirigia para juntodo fogo.
        Ajoelhou-se diante da lareira, a fenda no cobertor deixando  mostra uma perna bem-torneadae a insinuao de uma coxa nua. O aperto constritordo agasalho forou Sheila a dobrar as pernas paraum lado para poder se sentar no cho de pedra aquecido diante do fogo.
        Laredo foi para a mesa, pegando a cadeira queestava mais perto da lareira. O silncio com que forarecebida a chegada de Sheila foi rompido quando elese sentou. Sheila se perguntava por que estariam falando to baixo. No podia entender uma s palavra, de qualquer maneira.
        Vivamente, comeou a esfregar a toalha nos cabelos, espalhando gotculas de gua. As que atingiamas pedras quentes da lareira logo se dissolviam.
        Quando o cabelo ficou apenas mido, Sheila comeou a passar o pente pelas mechas sedosas, cor demel escuro.
        O estranho parecia estar lhes dando algum tipo de informao. As respostas de Laredo e Rfaga pareciam ser "sim" ou "no ou perguntas.
        Ela ficou imaginando qual seria o assunto. Era, sem dvida, algo muito importante, para o homemchegar no meio de um temporal, e para Rfaga mandar o guarda ir buscar Laredo.
        Deu as costas para o fogo para deixar o calorirradiante terminar de secar a cabeleira espessa naparte de trs. O pente continuava a sua rtmica separao dos fios, auxiliando na ao de secar. O cabelo parecia ouro derretido contra o pano de fundodas chamas bruxuleantes.
        Uma fora magntica forou-a a voltar-se paraRfaga. O olhar pensativo dele parecia dirigido paraalm dela, para dentro do fogo, hipnotizado pelaschamas danantes. S ento Sheila se deu conta deque ele estava observando os reflexos das chamasna nudez cremosa do seu ombro direito e da clavcula.
        Com uma intensidade perturbadora, o olhar subiu devagarzinho pela curva esguia do seu pescoo.
        Os olhos negros insondveis examinavam a linha graciosamente feminina do seu maxilar e das faces, a retido clssica do nariz, antes de passar para os clioslongos e fartos, de pontas douradas. Voltando pelomesmo caminho, o olhar dele fez um desvio, dandouma parada completa nos lbios dela.
        A posse quase fsica daquele olhar fez o pulsodela disparar feito louco. Inesperadamente, os olhosvelados, entretanto dominadores, mudaram a ateno para prenderem o olhar dela. Sheila teve a sensao avassaladora, maluca, de que alguma fora a empurrava para trs, deitando-a ao lado do fogo paraser seduzida, de bom grado.
        Abalada pela nitidez da impresso, Sheila ouviu-o responder a um comentrio de Laredo, no entanto, a concentrao dele no se desviava da moa.
         Com esforo, ela afastou os olhos do olhar magntico, com a respirao irregular e superficial.
        Laredo levantou-se da cadeira e dirigiu-se paraa lareira. Rapidamente, ela desviou a cabea, olhando para as chamas, esperando que, caso ele notassea sua pele afogueada, atribusse o fato ao calor dofogo.
        Agachando-se, acrescentou outra acha de lenhaao fogo e mexeu nos pedaos incandescentes de madeira. Equilibrando-se nas plantas dos ps, lanou-lhe um olhar de esguelha, calmo e interrogador.
        - J se secou? - perguntou.
        - J. - Concordou com um gesto rgido decabea e lanou um olhar desconfiado  mesa. Tevea sbita sensao de que estavam falando dela, quemsabe o tempo todo. - Laredo?
        Ele tinha apoiado as mos nos joelhos, prontopara se levantar, porm, esperou, inclinando a cabea para o lado.
        - Sim?
        O olhar dela dardejou para o homem  mesa.
        - Quem  ele?
        - Um amigo - respondeu simplesmente.
        Sheila voltou a olhar para o mexicano.
        -  um de seus contactos!
        -  um amigo - foi s o que Laredo disse.
        Sheila virou-se para olhar atentamente para ele.
        - Est aqui por minha causa, no ?
        - Por que est dizendo isso? - perguntou.
        -  uma sensao que tenho. No est?
        - Sheila - havia pacincia na voz dele, calma e controlada -, est fazendo perguntas que sabeque no posso responder.
        - Por que no! Se me dizem respeito, tambm so da minha conta - raciocinou teimosamente. 
        Mas Laredo deu de ombros e ficou calado.
         -  bvio que a esta altura l entraram em contacto com o meu pai.  por isso que este homem est aqui? Para lhe contar o que ele disse?
        Laredo inspirou profundamente, um breve brilho de impacincia no olhar que lhe lanou.
        - No force a barra, Sheila. - Parecia muito calmo. - Quando houver algo definitivo, ser informada.
        Com essas palavras, colocou-se de p para acabar com a conversa.
        - Diga ao seu patro que prefiro voltar agorapara o meu quarto - pediu ela, lutando contra asensao de aprisionamento e impotncia.
        O olhar azul pulou para Rfaga e ricocheteoude volta para Sheila.
        - O resto da casa  frio e mido demais. Fique aqui ao p do fogo, onde se sentir quente eseca.
        - O que aconteceria se eu resolvesse ir parao quarto, e fosse! - indagou, desafiadora.
        - Seria trazida de volta - declarou Laredo, e deu-lhe as costas.
        Frustrada, recomeou a pentear o cabelo, escutando o estalar de eletricidade que se assemelhava sua prpria tenso nervosa. Mais uma vez, Sheilasentiu a absoro perturbadora do olhar de Rfaga, mas no deixou que a capturasse.
        Dali a poucos minutos, o estranho levantou-se da mesa. Rfaga acompanhou o homem at  porta, dando uma ordem ao guarda. Este deixou o seu posto para acompanhar o estranho. Com a partida do guarda, Sheila soube que no lhe permitiriam ir para o seu quarto at que ele voltasse.
        A sada do estranho deu incio a nova discusso entre Laredo e Rfaga. Certa de que tinha algo a ver com ela, Sheila ficou atenta, percebendo uma nota de dissenso no tom de voz de Laredo. Era bvio que estava discordando de alguma coisa que fora tomada.
        Quando Elena chegou para preparar o jantar, Sheila no se levantou para ajudar. Ningum reclamou, muito menos Elena. Contudo, a presena damorena interrompeu a discusso entre Laredo e Rfaga. A julgar pela expresso descontente de Laredo, Sheila adivinhou que ele no conseguira fazer queRfaga mudasse de idia.
        Mordiscando um canto do lbio, ficou imaginando se o pai havia oferecido menos dinheiro doque fora pedido para ela ser solta. Talvez Laredo estivesse disposto a aceitar menos. Ou, quem sabe, erao contrrio.
        Durante todo o jantar, Sheila considerou as possibilidades. Se a sua concentrao foi notada, ningum fez comentrios. Ningum  mesa parecia estar com muita disposio para conversa, embora Sheila tivesse notado que Elena fazia tentativas sutis para se insinuar para o lado de Rfaga.
        Quando a refeio acabou, Elena trouxe o caf para a mesa. Sheila viu a maneira como a morena debruou-se sobre Rfaga, roando deliberadamente os seios contra o ombro e o brao dele. Um arrepio de nojo a percorreu ante o gesto to descaradamente sugestivo.
        Imediatamente, sentiu o olhar de Rfaga. Passou sobre ela, aguado, e no entanto estranhamentedistante. Sheila fitou a superfcie escura e espelhadado caf, to negra e inescrutvel quanto os olhosdele.
        Rfaga desviou o olhar e disse qualquer coisapara Elena. Fosse o que fosse, deixou-a uma fera.
        Uma torrente violenta de espanhol foi dirigida paraele. As mos da morena fizeram um gesto de desdm para Sheila. De alguma forma, ela estava sendo, de novo, o motivo da discusso entre eles.
        Depois de duas respostas tranqilizadoras que no surtiram efeito, Rfaga deu bruscamente umaordem. Lanando-lhe um olhar venenoso, Elena deumeia-volta e saiu violentamente porta afora.
        Sorvendo seu caf, Sheila fitou os pratos sujosna mesa. Com um suspiro de resignao, empilhou-os e levou-os para a pia, deixando os homens  mesa, acabando o caf.
        Sheila mal comeara a lavar os pratos quandoa porta se escancarou e Elena entrou, os cabelos escuros cobertos por um xale. Jogou o embrulho quetrazia nas mos para Rfaga, e saiu. Sheila olhoupara a trouxa de roupas multicolorida. A roupa sujadele? Pensou, e um sorriso irnico lhe brincou noscantos da boca.
        A porta batera com estrondo quando Rfaga selevantou da mesa e comeou a caminhar na direode Sheila, levando as roupas. Ela enrijeceu o corpo, furiosa. Se ele achava que ela ia lavar as roupas dele, podia esperar sentado.
        Antes de entregar-lhe a trouxa, mostrou-lhe ocontedo. Sheila fitou a parte da frente bordada deuma blusa e uma saia rodada carmesim. Havia sinaisevidentes de uso, a fazenda esgarando nas dobrasda bainha. Eram roupas velhas de Elena, dadas demau grado e com raiva.
        Sheila no se importava. A idia de usar roupas sem botes arrancados ou que no acabavam sugestivamente no meio das coxas era atraente demais para ser recusada por causa de orgulho.
        O cobertor spero do sari improvisado comeou de repente a irritar a sua pele. Pegou, ansiosa, as roupas da mo dele e correu para ir se trocar no quarto, esquecendo completamente os pratos, na surpresa.
        A blusa ficava um pouco apertada nos ombros, e a saia estava curta. No fazia mal. No que lhe diria respeito, serviam perfeitamente.
        Sua atitude se modificou depois que vestiu as roupas. Sheila sentiu-se repentina, embora temporariamente, alegre e despreocupada. Deslizou de volta para a sala, inconscientemente motivada por um desejo de exibir as roupas novas. Davam-lhe uma confiana que ela nem percebera que lhe estava faltando.
        Rfaga foi o primeiro a erguer os olhos quando ela tornou a entrar na sala. Seu olhar de inspeo percorreu-a dos ps  cabea numa avaliao clnica queno era bem a reao que seu ego desejava. Laredoj estava a meio caminho da porta, de impermevel.
        - No se v, Laredo - protestou, andandoem sua direo.
        Ele sorriu, indulgente.
        - Est ficando tarde.
        - Fique mais um pouco - falou ela, com jeitinho.
        No se dava conta de como estava atraente. Orosto brilhava de entusiasmo, um sorriso natural lhe entreabria os lbios, os olhos estavam radiantes deprazer.  luz do fogo, o cabelo refulgia comoouro velho. A brancura cremosa da pele contrastavaperfeitamente com a saia rodada carmesim que lhe envolvia as pernas.
        - Eu... - Laredo hesitou, os olhos azuispercorrendo-a com aprovao, e um brilho de algomais.
        - Venha. - Com um abandono descuidado, Segurou o brao dele com as duas mos. - Estou deroupa nova e quero comemorar a ocasio antes quese acabe a novidade das minhas roupas de segunda mo.
        - Est bem.
        Laredo abriu um amplo sorriso e tirou o impermevel. Sheila pegou-o e pendurou-o de novo no gancho, perto da porta. Ao se voltar, a saia rodopiou emvolta das suas pernas. Emoldurada pela luz do fogo, colocou as mos na cintura justa da saia, a pose levemente provocante.
        - No disse como estou - lembrou-lhe Sheila. - Admito que no seja exatamente chique, mas...
        Deixou a frase pelo meio, sorrindo-lhe carinhosamente, sentindo-se afvel e brincalhona.
        -  mais do que voc costuma usar - comentou ele, com tristeza simulada -, mas sem dvida  bem melhor do que as calas compridas.
        - Chauvinista! - riu ela.
        Os olhos dele escureceram at ficarem num tomforte de azul.
        - Voc est estonteantemente linda, Sheila- disse Laredo, com suavidade.
        No fora sua inteno enfeiti-lo deliberadamente, mas logo se ps a curtir a admirao ardenteno olhar dele.
        - Sem dvida, sinto-me mais confortvel.
        Alisou a saia com a mo, notando distraidamente o contraste da pele clara contra o tecido vermelho-vivo.
        - Diga-me - Laredo voltou a reclamar a suaateno -, que tipo de comemorao est planejando para as suas roupas novas?
        Um escrnio suave velava o fogo azul-escurodos seus olhos.
        - Estou com vontade de danar.
        - Desculpe. - Um sorriso de pesar simulado curvou-lhe brevemente a boca. - Infelizmente,  a noite de folga dos msicos.
        A perna de uma cadeira arrastando no cho fezque Sheila virasse a cabea bruscamente na direodo rudo, subitamente alertada para o fato de que tinham uma platia. As feies de Rfaga formavam uma mscara dura e fria, perigosa e francamenteespanhola.
        Sheila no precisava que lhe dissessem que o sangue da crueldade lhe corria nas veias. Estava escrito no formato implacvel da linha do seu maxilare da boca, levemente arrogante e selvagemente nobre. Dirigia-se para uma das janelas escurecidas pelachuva, e Sheila acompanhou-o com os olhos.
        O lembrete desagradvel da presena dele esfriou um pouco o prazer do momento. Voltou a olharpara Laredo, com a determinao brilhando nosolhos.
        - Podemos danar, com ou sem msica - declarou Sheila.
        - No me lembro mais como se dana - disse ele, sacudindo a cabea em negativa, a luz do fogofazendo brilhar os seus cabelos castanhos.
        - Vai se lembrar.
        Colocando a mo esquerda no ombro dele, forou-o a segurar-lhe a mo direita, e comeou a cantarolar uma balada.
        Hesitando por uma frao de segundo, Laredodeu um sorriso torto de indulgncia divertida, e apoiou a mo na curva da cintura dela. Os passosiniciais foram desajeitados e fora do ritmo, masSheila insistiu at ele encontrar a sua coordenao.
        - Est vendo! - Sorriu para ele, fazendouma pausa no cantarolar da melodia conhecida. - No esqueceu.
        - Acho que no. Pelo menos voc ainda temtodos os dedos dos ps. - Abriu um sorriso. - Estava correndo um risco e tanto, danando descalacomigo. Eu podia ter pisado neles todos.
        - No estava nem um pouquinho preocupada - assegurou-lhe Sheila.
        Rodaram pela pequena rea livre da sala. A saia escarlate rodopiava  luz do fogo. A luz bruxuleante emprestava uma atmosfera mgica ao aposento, impedindo a entrada da realidade. Laredo girava Sheila num rodopio rpido, a mo segurando-lhe o meio das costas enquanto ela ria e o agarravapara no cair. Diminuiu a velocidade, sorrindopara ela.
        - E voc estava tentando me convencer deque tinha se esquecido como se danava - implicou ela.
        - Acho que estava errado - disse ele, erguendo ligeiramente os ombros.
        - Acho que estava.
        -  uma doideira, mas sabe o que isso me fazlembrar!
        Laredo a segurava nos braos, e agora apenasoscilava distraidamente.
        O brao ao redor da cintura dela fez mais presso, e Sheila deixou-se encostar nele, apoiando, satisfeita, a cabea no seu ombro. A sua fora era reconfortante.
        - No. O qu? - indagou ela, sorrindo deencontro  camisa do rapaz.
        - Os bailes... as festas de formatura a quecostumava ir. - A mo acariciou-lhe distraidamente as costas. - Segurando-a deste jeito, no pareceque faz tanto tempo.
        Sheila inclinou a cabea para trs para ver-lheo rosto, bonito, com um encanto juvenil cativante.
        Viu o olhar baixar para os lbios dela. Bastava quefizesse o mais leve movimento para convid-lo a beij-la. Mas no era isso o que ela queria.
        A sua referncia ao lar e ao modo como as coisas eram por l varreu para longe os poucos momentos de encantamento. De repente, as roupas novaspouco lhe importavam. Queria apenas fugir, voltar para casa, para a segurana. Talvez Laredo pudesseoferecer-lhe os meios, afinal de contas.
        - Quanto o meu pai vai pagar para eu serlibertada?
        Laredo se enrijeceu.
        - No sei.
        - Quem vai ficar com o dinheiro? - tentoufazer que a pergunta parecesse natural e sem importncia. - Provavelmente ser dividido, imagino, ecada um de vocs receber uma parte.
        - Suponho que sim.
        Fechou o rosto numa carranca, mas Sheila sabia que ela era frgil e podia ser partida.
        -  uma pena. Para um s homem, seria umbocado de dinheiro.
        -  - concordou Laredo, secamente.
        - Sabe que podia ficar com todo ele paravoc, no sabe! - murmurou Sheila.
        Os msculos dele se contraram, rejeitando oque ela dizia. Ter-se-ia afastado, interposto algumadistncia entre eles, mas Sheila continuou apertadacontra o seu corpo.
        - Sheila... - comeou a protestar, mas elao Interrompeu.
        - No, escute - insistiu. - Voc poderiaficar com tudo, at o ltimo centavo. Poderia me levar para casa. O dinheiro estaria esperando. Meu paino voltaria atrs.
        - No adianta - disse Laredo, sacudindo firmemente a cabea.
        - Adianta, sim. Ns dois iramos para casa, Onde desejamos estar. Podamos sair para dar umpasseio, uma tarde dessas, e no voltar mais.
        Apressou-se a convenc-lo da habilidade do plano.
        - Voc podia deixar dois cavalos  nossa espera, eestaramos a quilmetros daqui antes que algum sedesse conta de que tnhamos sumido.
        - No posso voltar. J lhe expliquei tudoisso.
        - Mas assim pode. No percebe! - argumentou Sheila, com persuaso. - Voc seria umheri. Teria sido meu salvador. Sua famlia e seusamigos sentiriam orgulho de voc, e meu pai ficariaagradecido. Conhece um bocado de gente influente.
        Acharia um meio de garantir que voc nunca tivesseque voltar para c.
        - Eu... - ele franziu o cenho, e sua resistncia parecia enfraquecer.
        Sheila encostou os dedos nos lbios dele, silenciando o seu protesto. Depois, deslizou a mo pelorosto forte, at o cabelo castanho sedoso junto tmpora. Correu de leve os dedos por ele, numacarcia evidente. O brao ao redor da cintura delaaumentou a presso, automaticamente, puxando orosto levantado mais para perto dele.
        - Voc ganharia uma pequena fortuna por melevar de volta... alm da gratido e da ajuda demeu pai. - Tornou a voz suave e rouca. - E aminha tambm, Laredo. Sei que me acha atraente. E eu no me importaria de passar o resto da vidapagando a voc por ter-me tirado daqui. Dinheiro, respeitabilidade e eu - prometeu -, as trs coisas, se as quiser. S o que tem a fazer  me levar daqui, me levar para casa.
        - No!! - A voz de Rfaga, baixa e criminosacomo uma trovoada, afastou-os um do outro. Fitava-os, uma fria fria escurecendo-lhe os olhos. - No ir seduzi-lo para fazer o que quer, seora, nemcom palavras nem com atos. Laredo conhece o castigo por sair daqui sem a minha permisso. E sabeque, se a levar consigo, eu o acharei e o matarei. Quando um homem tem que escolher entre dinheiro, uma mulher ou a vida, escolher a sua vida. Laredo no a levar a parte alguma at que eu diga quepode partir!
        A cor fugiu do rosto da moa. Sheila fitou-o, boquiaberta de choque - no por causa do quetinha dito, mas pelo fato de ela ter compreendidocada palavra. Ele falara num ingls impecvel.
        - Mas... como? - Na sua confuso, nemconseguia verbalizar as respostas. - Voc fala ingls - acabou por dizer, abobalhada.
        - , falo ingls - concordou ele, friamente.
        - Podia ter-me dito - falou Sheila, recobrando um pouco da sua compostura.
        - Isso a teria impedido de me chamar de filho da puta, de bastardo! - ironizou Rfaga. - Ou de desejar cortar fora o meu corao com uma faca, e pic-lo em pedacinhos. Acho que no.
        Sheila lembrava-se muito bem dos insultos quelhe lanara quando acreditava que ele no entendia oque ela dizia. Ardeu ante a descoberta.
        - No, no teria feito nenhuma diferena - concordou, com raiva. - Ento, por que no mecontou! Por que fingiu que eu precisava de Laredopara traduzir qualquer coisa que lhe quisesse dizer!Dava-lhe prazer me fazer de boba?
        - No tinha vontade de falar com voc, nemque voc esperasse que eu fosse responder s suasperguntas. Alm disso - ergueu uma sobrancelha, numa fria acusao -, se voc soubesse que eu entendia ingls, jamais teria falado com Laredo na minha frente como o fez agora.
        O olhar dela dardejou para Laredo, parado aUm canto. Sabia que Rfaga falava ingls fluentemente, e no fizera nenhum esforo para alertarSheila da bobagem que estava fazendo. A raiva delapassou a inclu-lo, tambm.
        - Voc podia ter-me avisado - acusou ela.
        - No cabia a mim - disse ele, dando deombros.
        - Ah,  verdade - concordou Sheila, amargamente. - Est com ele, no ?
        - Disse-lhe isso desde o comeo - respondeu calmamente.
        dio e desprezo inundaram Sheila.
        - No sei qual dos dois, desprezo mais - falou, furiosa. - Voc, Laredo, por ser um traidor dasua prpria gente, ou voc - lanou um olhar venenoso  fisionomia taciturna de Rfaga - por ser...
        - No me interessa a sua opinio a meu respeito - interrompeu Rfaga, friamente. - Queroapenas que entenda, e creia que tentativas como asque fez hoje no tero xito. Ningum aqui vai ajud-la a fugir.
        - No tenha tanta certeza assim. - Sheilameneou a cabea desafiadoramente, a cabeleira louro-escura refulgindo  luz do fogo. - O dinheiropode comprar um bocado de lealdade.
        Os olhos vtreos dele se estreitaram.
        -  muito temerria, seora. Fala sem pensar. Ficarei sabendo de qualquer nova tentativa que faa. E se insistir... - Deixou a ameaa no formulada pairar no ar j bastante carregado. - Nogostaria de negar-lhe as pequenas liberdades de quedesfruta agora.
        - Liberdades? Que liberdades! - Sheiladeu um passo zangado na direo dele. - Sou prisioneira aqui contra a minha vontade!
        Rfaga no se abalou com a raiva dela.
        - Permiti-lhe andar por toda a casa e certaliberdades fora dela, sob vigilncia. Preferiria queeu a confinasse ao seu quarto!
        - No teria coragem - arquejou Sheila, tremendo com a turbulncia das suas emoes.
         - Terei - ele a enfrentou calmamente, a expresso dura e implacvel -, se a sua lngua comear a criar caso demais.
        Sheila no pensou no que fez. Foi apenas o instinto que guiou a mo para esbofetear o rosto frio earistocrtico. Foi segura em pleno ar por dedos deferro. O reflexo ergueu a mo esquerda para completar o que a direita comeara. Tambm esta foiagarrada por ele antes de chegar ao alvo.
        - Largue-me.
        Sheila recusou-se a se debater, deixando que elesegurasse as mos dela diante de si, como que algemada pelos seus dedos.
        Rfaga lanou-lhe um olhar ameaador antes dedesviar a ateno para Laredo.
        - Pode ir - falou. - Acho que a comemorao da seora acabou.
        Ao ouvir os passos obedientes, Sheila virou acabea, vendo Laredo dirigir-se para o impermevelamarelo pendurado junto  porta. Sentiu-se tomadade uma raiva desesperada  idia de ficar sozinhacom Rfaga.
        - No, no v, Laredo! - protestou, chamando-o de volta. - No pode me deixar sozinhacom este animal... este sdico!
        Laredo fez ouvidos moucos. Nem hesitou aovestir o impermevel e sair porta afora.
        - Que espcie de domnio tem sobre ele? - Sibilou ela, tentando soltar os pulsos de suas mosde ferro.
        - Ele me deve a vida - retrucou sem emoo. - A voc, no deve nada.
        - E durante quanto tempo vai faz-lo pagar?O resto da vida! - acusou sheila.
        - Basta que ele me diga que quer partir, e poder ir embora - informou Rfaga. - Fica porque quer. D-me a sua lealdade porque quer. Pode partir na hora que quiser... contanto que no aleve junto.
        - , voc jurou que o mataria se tentasse - retrucou ela, o gosto amargo na boca revestindo avoz com a mesma acidez.
        - Foi uma promessa... uma que todos oshomens aqui sabem que cumprirei. Aceite meu conselho, seora, e no tente persuadir ningum a ajud-la a ir embora daqui. No creio que queira ter amorte dele na conscincia. - Inesperadamente, soltou-a e se afastou. - V para o seu quarto, seoraTownsend.
        Ela sentiu uma compulso de desafiar a ordemdele. Chegou a tremer com a sua fora. Com umavirada da saia, deu meia-volta e caminhou ereta eorgulhosamente para o seu quarto.
        
         Captulo 12
        
        A trovoada sacudiu a casa, igualando a disposio tempestuosa de Sheila. Ao acender a vela ao ladoda cama, o quarto pareceu ficar menor.
        Irritava-a saber que a pouca liberdade de quedesfrutava dependia dos caprichos de Rfaga. Viude relance o seu reflexo no espelho e virou-se. Fitando a saia cor de fogo e a blusa bordada que usava, Sheila lembrou-se da alegria que sentira ao receb-las, e agora sentia nojo delas.
        Rfaga dera-as para ela. Subitamente, no pdesuportar a sensao do tecido contra a pele. Tirou asroupas e agarrou o cobertor que deixara de lado anteriormente.
        Enrolando-o no corpo, apanhou as roupas e fezcom elas uma trouxa malfeita. De cabea erguida, entrou na sala.
        Rfaga estava ao lado da lareira, fitando as chamas. Apoiava a mo na cornija, o joelho esquerdodobrado para apoiar o p na caixa de lenha. As sombras lanadas pela luz do fogo acentuavam os planosangulares do seu rosto.
        Quando Sheila entrou, ele ergueu devagar a cabea. A escurido velada dos seus olhos fitou-a impassivelmente, notando o cobertor no seu corpo e atrouxa nos braos. O ar indiferente dele a atordoava.
        - O que , agora? - perguntou Rfaga, serenamente. Depois a boca se retorceu com ironia. - J Inventou novos insultos para me dirigir, agoraque descobriu que posso falar e compreender o seuidioma?
        - Tome as roupas da sua amante. Pode devolv-las a ela. - Sheila jogou a trouxa aos ps dele. Ela caiu quase dentro da lareira. - No as quero.
        Ele as salvou das chamas vorazes e segurou-asnegligentemente na mo. Agradaram-lhe, antes.
        - Antes. - A voz dela tremeu. - No medava conta do quanto abominava qualquer coisa remotamente ligada a voc.
        Um brilho criminoso surgiu nos olhos dele. Comlentido deliberada, caminhou para junto dela, parando para largar as roupas numa cadeira e continuar a andar em seguida. Interiormente intimidada, Sheila permaneceu esttica.
        - J que se sente assim, o cobertor  meu. - Uma nota suave de presuno soava na sua voz. - Pode devolv-lo a mim.
        - No - negou ela, com um sobressalto.
        Agarrou instintivamente as dobras do cobertor, comose esperasse que ele fosse arranc-lo.
        - Mas  meu - ressaltou Rfaga novamente. - Como voc no quer nada meu tocando a suapele, o quero de volta.
        - Muito bem. - Sheila estava tendo dificuldade em respirar naturalmente. Faltava fora sua voz. - Vou vestir as minhas roupas, e depoistrago-o para voc.
        Antes que ela pudesse se virar, ele falou comfirmeza:
        - Quero-o agora.
        - No - declarou, um frio gelado correndo-lhe pelas veias.
         - Por que no? - perguntou, zombeteiro. - Porque no est usando nada por baixo! Mas jestou acostumado  sua nudez. J a vi diversas vezes. Conheo os seus seios redondos, firmes e empinados, sua cintura fina, o modo como seus quadris esbeltos foram feitos para receber um homem.
        As faces pegando fogo, Sheila deu meia-voltapara fugir, apavorada da situao que a sua imprudncia provocara. A mo dele agarrou-lhe o braologo acima do cotovelo, os dedos enterrando-se nacarne macia para vir-la para si. O cobertor escorregou do ombro, ajudado pela outra mo dele, que oempurrava. Sheila mal conseguiu evitar que casseao cho.
        - Eu conheo essas coisas que Laredo podeapenas imaginar.
        Rfaga puxou-a lentamente para mais pertodo seu corpo musculoso, a voz rouca e maciacomo veludo.
        No entanto, por baixo da maciez, Sheila pressentia a falta de piedade. Segurando o cobertor sobreos seios, conseguia usar apenas um dos braos paratentar afast-lo. Teria sido igualmente em vo comos dois. A sua cabea dobrou-se sobre ela, e Sheilatorceu a dela para trs e para longe.
        A boca do homem atacou a curva esguia de seupescoo, queimando a pele como lnguas ardentes defogo. Ela ergueu a mo para o contorno duro doqueixo, tentando empurr-lo, e falhando.
        - Por que no me acaricia como acariciou Laredo? - A respirao dele roava-lhe o pescoo. Afastou a mo e torceu-a atrs das costas da moa, erguendo a cabea para deixar que seu olhar escurozombasse dos esforos inteis dela. - Quem sabeeu possa ser persuadido a solt-la.
        - Porco! Odeio voc! - cuspiu Sheila.
        O brao nas suas costas aumentou a pressopara esmagar seus quadris contra os msculos rgidosdas coxas dele. Dobrando-se para trs para evitar o contacto com o peito dele, os seios da moa subiame desciam rapidamente, de agitao. O cobertor frouxo escorregou para revelar-lhe ainda mais o corpo.
        - , minha leoa, voc me odeia. - Rfagadeu um sorriso frio. - Gostaria de me arrancar osolhos. Tenta constantemente lutar contra mim, ignorando as minhas ordens, mesmo sabendo que fareicom que obedea a elas. Teria se dado melhor setivesse sido humilde e submissa, ao invs de to determinada a me desafiar.
        - Se eu tivesse sido humilde e submissa, voce seu bando de assassinos teriam me violentadoe matado quando assassinaram Brad! - lembrou-lheSheila, arquejando selvagemente.
        - Agora est  minha merc.
        - Voc no tem misericrdia! No tem corao! - disse ela, depois tentou soltar-se de novo, mas ele a segurou com facilidade.
        Viu os msculos ao longo do seu maxilar enrijecerem, e soube que o havia provocado de novo.
        Acusara-o de no ter misericrdia, e Rfaga no demonstrou nenhuma, ao ferir os lbios dela com a suaboca punitiva.
        Presos num redemoinho violento, seus sentidosbaquearam ante o assalto. O abrao constritor negava-lhe o ar aos pulmes, enquanto ele esmagava asua boca com a dele. A escurido rondava os limitesda sua conscincia. Sheila lutou para no ser atradapara o turbilho da sua raiva.
        A virilidade agressiva dele estava fazendo queela perdesse o contacto com a realidade. A pressoesmagadora da sua boca tornou-se menos violenta emais sensualmente persuasiva. E Sheila estava tonta demais para resistir  lngua exploradora do homem.
        Estava apenas semi-consciente de que ele havia libertado os seus braos. Os movimentos excitantes dasmos nos seus quadris e costas, grudando-a ao seucorpo de granito, estavam libertando descargas explosivas, at que ela se agarrou debilmente a ele.
        Apenas um gemido baixo de protesto escapou-lhe da garganta quando ele a tomou no colo. A bocamantinha o beijo arrasador enquanto ele a carregava.
        Um desejo primitivo e insidioso crescia dentro dela, e Sheila sentia-se impotente para det-lo. Odiava-odesesperadamente, enquanto reconhecia que era ummestre na arte de seduzir. Comparado a Rfaga, Bradfora um amador desastrado.
        Enquanto a deitava na cama, tirou-lhe o cobertor. Sheila tentou peg-lo, instintivamente, pormele o jogou para longe do alcance dela. Ento os seussentidos entorpecidos de amor deram-se conta de queno estava na sua cama. No era o seu quarto.
        Por um momento ficou paralisada demais peladescoberta para se mexer. O peso do corpo dele estava no colcho antes que ela pudesse se recobrar.
        As mos instintivamente encontraram-na na penumbra. O contacto firme delas fez Sheila comear achutar e se debater como um animal selvagem. Elesoltou uma risada rouca, rechaando os golpes dosbraos e pernas dela, enquanto a imobilizava sobreo colcho.
        - Grite, se quiser, leoazinha - murmurouRfaga. - Ningum vai ouvir, por causa do temporal. Mesmo que ouam, no viro at aqui.
        A sua boca quente descobriu a linha sensvel aolongo do pescoo. Sheila enterrou os dedos na peledele, tendo a sensao satisfatria da carne que serasgava sob as suas unhas, enquanto lhe arranhava os ombros. A despeito do palavro abafado de dor que ele soltou, as mos que a seguravam no cederam um centmetro.
        A violncia desesperada estava acabando com as energias dela. Sheila parou para tomar flego.
        Imediatamente, ele tomou posse dos seus lbios entreabertos, forando-lhe a cabea para trs enquantoa beijava. As mos seguraram-lhe os seios para explorar a sua firmeza redonda.
        Sheila sentiu os bicos dos seios enrijecerem sobo toque, e soltou um grito mudo ante a incapacidadede controlar as reaes da sua carne. A cabea delagirava loucamente na torrente de desejos incandescentes que lhe atormentavam o corpo.
        Essas sensaes depravadas, de permissividade,eram-lhe estranhas, contudo sentia-se impotente paracontrol-las. Elas  que a estavam controlando, tomando conta dela e fazendo que desejasse a gratificao fsica da posse. As sensaes se intensificaramquando a boca do homem desceu pelo seu pescooat o seio. O contato da lngua no seu mamilo provocou-lhe um gemido involuntrio de prazer.
        No havia pressa na paixo lnguida das suascarcias, mas o fogo lento que ardia dentro de si ficava cada vez mais quente. As mos exploradorasdele descobriram e sondaram suavemente as suaspartes secretas e ntimas, tocando, provocando e liberando todas as suas inibies e temores.
        O seu cheiro de macho era um estimulante ertico, excitando-a. Por mais que quisesse, jamais poderia ser indiferente ao toque dele. Era como umafolha, girando, girando ao vento. J perdera a virgindade para a brutalidade de Brad. Agora estavaperdendo rapidamente o amor-prprio para a perciasensual de Rfaga.
        Sob as mos, podia sentir os msculos nus eondulantes dos seus ombros, e a umidade quente dosangue, onde o arranhara. Mas seus dedos no estavam mais arranhando ou ferindo a pele dele; ao contrrio, quase se deleitavam ao sentir-lhe a carne firme.
        Enquanto lhe sobrava um mnimo de fora devontade, Sheila empurrou-o pelos ombros, forandoRfaga a erguer a cabea e parar a brincadeira tantlica com o seu mamilo. Dominando-a, inclinou a cabea na direo dos lbios, mas a moa se desviou.
        - O que est esperando? - murmurou Sheila, desesperada. - Por que no me violenta logo eacaba com isso?
        - Mas isso seria rpido demais, minha leoa - replicou. - Quero prolongar o momento, a tortura.
        A respirao roou-lhe a face um instante antesde cobrir-lhe a boca, exigentemente. E foi tortura,uma doce tortura. A nsia que sentia no sexo deixava o sistema nervoso de Sheila gritando de necessidade pela posse. Em carcias trmulas, as mos delapercorreram as costas e ombros dele. O corpo damoa se retorcia com a agonia da sua paixo.
        Mas ainda levou algum tempo para todo o pesodo corpo esguio pousar sobre o dela. O pulso estavato acelerado e ansioso quanto o dela. A sua pelenua estava pegando fogo, e o calor pareceu fundi-losjuntos. Sheila sentiu a sua dureza de macho e soubeque a necessidade dele era to grande quanto a sua.
        Um som de gatinha ronronando escapou-lhe dos lbios quando as pernas musculosas deslizaram intimamente por entre as suas, forando-as a se abrirem.
        O gozo estava para acontecer dali a apenas um momento, e um arrepio de xtase alucinado percorreu-lhe o corpo. Quando ele veio, Sheila foi envolvida num turbilho, numa nvoa aveludada de sensaes. Tremores primitivos alternavam-se com um espanto embevecido, at que ela ficou largada, fraca, esgotada e sozinha.
        O turbilho de emoes novas e estranhas se dissipou vagarosamente. Depois, Sheila ficou estarrecida com a maneira sensual de ele fazer amor. Aospoucos, foi voltando a si, ao normal, e sentiu nojo evergonha de ter sentido prazer nos braos dele.
        Rfaga moveu-se, o ombro roando o brao dela. Um arrepio de conscincia correu pela sua pele, aschamas armazenadas vindo  tona. Ela cerrou o maxilar ante a reao involuntria do seu corpo, assustada porque no era capaz de control-la.
        Sheila precisava afastar-se do contacto dele. Escorregando as pernas para a beira da cama estreita, comeou a se levantar, mas a mo dele segurou-lheo brao. Sheila no conseguiu soltar-se do apertode ferro.
        - Aonde vai!
        - Para o meu quarto - respondeu formalmente.
        - Por qu! - indagou Rfaga, agora distantee impessoal.
        - Tinha a impresso de que todas as suascompanheiras de sacanagens o deixavam dormir sozinho - respondeu mordazmente, ao invs de admitir que precisava controlar novamente os sentidos eesquecer a satisfao que encontrara nos braos dele.
        - Est dizendo isso por causa de Elena, no ?
        - E quem mais! - explodiu Sheila. Os olhosescuros e insondveis eram imunes ao olhar de desprezo que ela lhe lanou. - Acha que no podiaescutar vocs dois quando estava deitada na minhacama! Os sons revoltantes de vocs fazendo amor!O boa-noite sussurrado que ela lhe dava quando iaembora?
        - Se achava to revoltante, no devia ter escutado - zombou Rfaga.
        - No me restava escolha, com dois porcosno cio no quarto ao lado - declarou.
        Ele a puxou para junto de si, o brao forando os ombros dela sobre o colcho. Sheila no lutou, preferindo uma no-resistncia rgida ao toque dele.
        - O arranjo sexual era adequado para Elena, para mim, mesmo que no lhe agradasse - faloufriamente.
        - O que me agradaria - Sheila usou o mesmo tom glido dele - seria no dormir nesta camacom voc.
        - Mas que pena - murmurou ele, arrogante.
        - Por qu! - explodiu ela. Infantilmente, lembrou-lhe:
        - Elena no dorme com voc. Por queprecisa me forar a ficar!
        - A situao no  a mesma. Elena queriaficar em casa com a famlia e o homem que  seu marido. Voc no tem nada a esper-la, exceto umacama vazia.
        Sheila virou-se para olhar para ele, a cabeleiradourada e emaranhada fazendo as vezes de travesseiro.
        - O qu! O marido dela? - Encrespou oslbios de nojo e choque. - Quer dizer que ela casada e vem para c... ficar com voc!
        O seu olhar negro correu desdenhosamente pelorosto dela.
        - Voc  bem ligeira em condenar os outros, quando  a sua propriamente que  vulgar e grosseira. Csar, o marido de Elena,  paraltico.  um morto-vivo, a sua mente no est neste mundo. Hquatro anos que est assim, deixando Elena com doisfilhos e sua lembrana para amar. Ela  moa e temas necessidades fsicas de uma mulher normal. Embora desejasse o amor de um homem, no queria abandonar o marido. Eu precisava de uma mulher, masno queria uma esposa. Assim, chegamos a um acordo mutuamente satisfatrio.
        - No importa como o disfarce ou que argumentos use: ela ainda  sua amante e uma mulher casada - retrucou Sheila.
        A mo dele deslizou para o pescoo da moa. Pousou de leve na curva exposta e vulnervel, os dedos capazes de estrangul-la, mas seu toque permaneceu suave, quase uma caricia.
        - Acredita que ela seja uma hipcrita por ficar com o marido e buscar satisfao fsica comigo, no ? - ironizou Rfaga. - E quanto a voc, que reclama de assassinato e nem sequer chora a morte do marido?
        - Voc no sabe o que sinto por dentro - falou Sheila, defensivamente.
        - Quando estou na cama, tambm eu escuto os seus sons no quarto ao lado - falou ele, sardonicamente. - Nem uma s vez, desde que chegou, ouvi-a chorar... nem por si mesma, nem por ele.
        - Se eu chorasse, iria alterar alguma coisa! - perguntou com amargura. Por nada deste mundoSheila queria admitir para Rfaga que no sentianada pela morte do marido. - Faria voc ter piedadede mim! Duvido. Ela prpria respondeu  pergunta. - Voc no tem compaixo. No conhece o significado da palavra. Talvez no me lamente onde voc possa ver ou ouvir, porque sei que iria rir de mim.
        - Talvez no se lamente porque ele no a amava, nem voc a ele - rebateu Rfaga.
        Sheila inspirou vivamente, dando-se conta doquo completamente ele controlava tudo o que acontecia no esconderijo. Apenas uma pessoa poderia ter-lhe dado essa informao.
        - Laredo contou o que eu comentei a respeitodele - falou acusadoramente.
        -  verdade! - insistiu ele. - Fale-me sobre ele. Quero saber.
        Teimosamente, ela hesitou, no querendo obedecer, mas sabendo que ele daria um jeito de for-la a responder. Assim, deu-lhe uma resposta com a inteno de feri-lo.
        - No h muito o que contar - respondeu Sheila devagar. - Vocs dois provavelmente se dariam s mil maravilhas. So muito parecidos. Brad tambm s se interessava pelo meu dinheiro. Ele tambm me possuiu porque eu estava  mo, e achava que tinha o direito de me usar para satisfazer seus instintos.
        - Voc era virgem quando ele a possuiu.
        Era mais uma afirmao do que uma pergunta,enquanto o brilho inquietante dos olhos negros deleperscrutava o rosto dela.
        A mo tocou-lhe o queixo, o polegar traandoo contorno dos seus lbios. Os nervos de Sheila vibraram com a proximidade dele, ali deitado ao seulado, nu, to virilmente masculino e vitalmente forte.
        - Era? - murmurou, incapaz de mentir convincentemente quando sabia que ele podia percebera mais leve alterao nas batidas do seu corao.
        - Disse que estava em lua-de-mel com seu marido quando ele a possuiu. E pude ver que ningum lhe ensinou as manhas do amor. Hoje voc ficou surpresa e assustada com os prazeres que uma mulherpode sentir. Mas isso  muito natural, leoazinha. Quem sabe,  medida que for aprendendo, ter tolerncia para com Elena tambm - murmurou Rfaga.
          medida que for aprendendo: as palavras correram-lhe pela espinha. Os olhos pintalgados de dourado se dilataram, o medo misturado  raiva, enquanto o fitava.
        - O que est sugerindo? - indagou Sheila, tentando no demonstrar o pnico na voz. - Estquerendo dizer que vai me ensinar?
        - Vai aprender depressa, acho - disse, com um ar pensativo.
        A luz de um relmpago entrou no quarto, iluminando brevemente os contornos duros e inflexveisdo rosto dele.
        - Posso ser sua prisioneira aqui, mas no vouser sua amante - declarou Sheila vigorosamente -, se  o que est imaginando.
        - No de bom grado, talvez.
        Ela tentou afastar a mo que lhe segurava o rosto, mas o toque suave dele transformou-se em ao.
        - Deixe-me em paz. Nunca se aproximou demim esse tempo todo. Por que agora!
        -  natural para um homem querer possuiruma mulher bonita e desejvel como voc. Quandovoc provocou a minha raiva, hoje, no vi mais motivos para me negar o que estava querendo - replicouRfaga, num tom sem emoo. - No est arrependida, agora, de ter feito a sua proposta a Laredo naminha frente!
        - No acredito - murmurou ela, friamente. - Se h uma coisa que aprendi, confinada nesta casacom voc,  que no se deixa levar pelas emoes, seja raiva, seja desejo.
        A risadinha rouca que ele deu em resposta afirmao no continha nenhum humor.
        - A sua cabea  linda, mas no vazia, no , Seora? - Os dedos dele se enroscaram nos cabelos dela, junto  orelha. - Acho a sua beleza tentadora.Outros tambm podem achar. Se a oferecer a eles, e mais dinheiro, podem no ser capazes de resistir.Amanh de manh sabero que  a minha mulher.Ningum a ajudar, ou ousar aproximar-se de voc, ento - concluiu Rfaga, complacente.
        - Maldito!
        A frustrao vibrava na voz dela, fazendo a suapraga soar mais como um soluo de desespero. Naquela explicao Sheila acreditava.
        Mais palavras amargas e iradas estavam na ponta de sua lngua, mas a cabea j estava sendo erguidapara encontrar-se com a boca do homem, que descia. Sheila resistiu, tentando afastar-se dele. Sua bocaabriu-se entre os lbios dela numa srie de beijos longos, narcotizantes. Talvez tivesse sido capaz de ficarimpassvel e indiferente se ele estivesse sendo bruto, como antes, mas essa seduo atordoante e preguiosa a derrubou.
        De bom grado a sua carne se deixou moldar aoscontornos msculos dele. Sheila rendeu-se aoturbilho de inevitabilidade, fogo grego se espalhando violentamente pelas suas veias. A nvoa aveludadaenvolveu-a de novo.
        Depois, muito depois, Rfaga cobriu a amboscom o cobertor e mandou que Sheila dormisse. Parteda sua mente queria discutir com ele, declarar denovo que no queria dormir na sua cama. Mas umaexausto langorosa tomou conta do seu corpo. Nemsequer objetou quando ele envolveu possessivamentea sua cintura.
        Pareceu-lhe que mal havia pegado no sonoquando uma torrente furiosa de espanhol a acordou. Deitada de lado na cama, Sheila teve dificuldades emlembrar-se de onde estava, ou o que estava causandoaquele calor ardente nas suas costas, quadris e pernas. Um peso saiu de cima do meio do seu corpo, e o calordelicioso tambm se foi.
        Ainda no totalmente desperta, Sheila virou-separa descobrir a origem. Seus olhos se abriram quando ouviu a voz de Rfaga, a centmetros de distncia. Todos os vestgios do sono desapareceram, seus sentidos totalmente alerta e a memria nitidamenteclara.
        Elena tinha dado alguns passos para dentro doquarto. Os seus olhos espanhis escuros pareciam osde um animal ferido levado  raiva pela dor. A peledourada tornava-se cor de cera, enquanto fitava Rfaga deitado na cama ao lado de Sheila. O que querque Rfaga lhe tenha dito em espanhol, no a acalmara. A voz estava estridente ao replicar, o tom amargamente raivoso e acusador.
        Sheila apertou mais o cobertor  sua nudez, enojada pela cena de cimes que Elena fazia. Por queno tinha acordado durante a noite e sado do quarto? A resposta era bvia. Estivera fisicamente exausta por ter feito amor com Rfaga, com toda a suavirilidade, e mentalmente confusa pela sua reaoperturbadora ao acontecimento.
        A ltima coisa que Sheila queria era se envolver numa disputa com Elena por causa de Rfaga. Elena que ficasse com ele, Sheila estava mais do quedisposta a abrir mo de qualquer sentimento de posseque Elena pudesse achar que tivesse. A maneira maisfcil de fazer isso era sair da cama e do quarto.
        - Fique onde est.
        Rfaga pousou a mo no brao dela, contendo-a, como se estivesse lendo os seus pensamentos.
        - Ela o quer, e eu sem dvida no o quero!- arquejou Sheila.
        - No se trata do desejo de nenhuma de vocs - respondeu bruscamente. -  assim que vai ser.
        Deve ter dito a mesma coisa para Elena em espanhol, porque as suas palavras seguintes deram origem a nova exploso tempestuosa. Rfaga pareceunem ser tocado pela raiva doda de Elena. Suas feies duras eram uma mscara de indiferena. Sheila refletiu mais uma vez como ele era um bruto sem corao e sem princpios.
        Uma terceira voz em espanhol, chamando dasala da casa de adobe, interrompeu Elena. O coraode Sheila parou de bater quando Laredo surgiu  porta. Ele parou de chofre, a expresso levemente divertida do seu rosto sumindo como por encanto ao verSheila deitada na cama estreita.
         A cor fugiu do rosto dele, depois voltou paradeix-lo escarlate. Nada havia no azul-claro dos olhosdele que revelasse o que estava pensando, mas Sheila, sentiu-se uma barata e desejou poder correr e ir esconder-se nalgum canto escuro. A sensao ficoumais intensa ao se lembrar do modo aviltante comocorrespondera s intimidades com Rfaga.
        Elena se virou, falando rapidamente em espanhol com Laredo, obviamente tentando conseguir-lhe o apoio. Laredo sacudiu a cabea, numa recusafirme, e comeou a se retirar, no querendo se envolver no tringulo.
        - No h necessidade de voc sair, Laredo - declarou Rfaga. - Elena j vai.
        Quando traduziu estas palavras para Elena, amoa lanou-lhe um olhar frio e orgulhoso e respondeu-lhe numa voz baixa, selvagemente controlada.
        Rfaga no respondeu, a fisionomia inexpressiva. Elena virou-se rigidamente, e saiu. Os olhos azuis deLaredo tinham um ar aturdido como se dissessem"Eu j previa que isso ia acontecer".Sem se alterar, Rfaga afastou a coberta para olado e sentou-se, jogando as pernas para fora dacama. Somente porque estava segurando firme a coberta foi que Sheila tambm no ficou com o corpo mostra. Desviou os olhos da nudez dele, enquanto elevestia as calas largadas no cho. Uma onda nova deembarao e vergonha tingiu-lhe as faces de vermelho.
        Acidentalmente, seu olhar encontrou-se com o deLaredo.
        - Pedi-lhe que no me deixasse ontem  noite- falou Sheila, acusadoramente. apoiou-se num doscotovelos, a cabea soberanamente desafiadora. - Suponho que no lhe importe que ele tenha me estuprado depois que voc saiu. Afinal de contas, ele  o seu patro, o seu deus.
        A grosseria com que falava escondia a sua vergonha.
        Laredo olhou para ela, calado. O cobertor estava bem ajustado ao seu peito, revelando os braos eombros nus. O cabelo cor de mel escuro cascateavacomo ouro derretido sobre um dos ombros. Os olhosde felino brilhavam com a umidade do orgulho.
        Rfaga abotoou a cala e olhou por cima doombro, o olhar dominador exigindo a ateno deSheila, que estremeceu ante o frio escrnio nos olhosdele.
        - No o culpe pelo que voc provocou - disse-lhe suavemente. - No foi estupro. - Sheila ainspirou vivamente, palavras iradas de protesto subindo-lhe aos lbios, mas no teve chance de diz-las. - No negue que voc estava como uma gata no cio, ontem.
        O olhar dela se dirigiu para o sangue coaguladonos ombros dele, e para as longas linhas vermelhasonde o arranhara.
        -  assim que voc vai explicar as marcas nosombros?
        Mas Rfaga simplesmente a ignorou, como se asmarcas fossem to triviais que nem merecessem explicaes.
        - Devia limpar esses arranhes - observouLaredo.
        Calmamente, Rfaga derramou gua da jarra nabacia sobre a cmoda e umedeceu um pedao de pano.
        - Foi Sheila que os fez. Ela que os limpe paramim.
        - Eu, uma ova! - exclamou ela, com raiva. - Espero que pegue uma infeco e morra!
        - Est vendo como ela  sanguinria? - disseRfaga para Laredo, com reprovao irnica. Caminhou at a cama, um brilho rude nos olhos. - Mas voc vai limpar os arranhes, minha leoa.
        - No vou - declarou ela. - Se quiser que sejam limpos, vai ter que mandar Laredo ou outra pessoa faz-lo, porque eu no vou.
        - Vai, sim - disse ele, e, debruando-se sobre ela, agarrou-a com fora pelo pulso.
        O cobertor escorregou para um nvel perigosamente baixo. Com uma das mos segura por ele e apoiada no outro brao, Sheila se deu conta de que estava numa posio indefesa. Havia um brilho malicioso e vivo nos olhos escuros que a fitavam.
        Sheila sabia que, se continuasse a desobedecer-lhe, ele no iria pensar duas vezes antes de retir-la de sob a proteo do cobertor, revelando a sua nudezpara Laredo.
        - Est bem - concordou Sheila, de mau humor. - Mas no posso fazer nada enquanto voc segurar o meu brao deste jeito. Tem que solt-lo, a no ser que pretenda quebr-lo.
        Ele riu baixinho, com uma satisfao arrogante, e soltou-lhe o brao. Enrolando bem o cobertor  sua volta, Sheila deslizou devagarzinho para o ladoda cama onde ele estava. Quando ele lhe ofereceu opano molhado, ela o arrancou das suas mos. Eleretorceu a boca ante esse gesto e virou-se para sesentar na beira da cama, oferecendo-lhe os ombrospara que ela cuidasse deles.
        De joelhos, com a coberta mantida sobre osseios, Sheila fitou a espessura dos cabelos cor debano e a pele ouro-bronzeada que cobria os ombrose as costas musculosos. Se tivesse uma faca nas mos, ao invs de um pedao de pano, t-la-ia enfiado naespinha dele.
        - Os arranhes, seora.
        A sua voz arrastada, com sotaque, lembrou aSheila o que devia fazer, deixando-a com a impresso de que ele estava lendo seus pensamentos.
        O toque dela foi deliberadamente bruto quando comeou a limpar o sangue seco da carne rija. Sentiuos msculos dele se contrarem ante a brutalidade, mas Rfaga no se retraiu nem emitiu o mais levesom, nem mesmo uma respirao mais forte, parademonstrar que ela lhe estava causando dor. O seucontrole no diminuiu a crueldade do toque dela.
        Quando os arranhes ficaram expostos, Sheiladescobriu que eram piores do que pensava. Ela noferira apenas a pele. As unhas tinham ido mais fundo, abrindo sulcos na carne. Estavam vermelhos eirritados, extremamente doloridos. O olhar se dirigiu para Laredo, que estivera observando o trabalho.
        A expresso no rosto dele corroborava o julgamentodela.
        - Tem lcool a para desinfet-los? - perguntou Sheila, sem permitir que a emoo lhe transparecesse na voz.
        Disse a si mesma que pouco lhe importava terferido Rfaga. Ele merecia. Mas sentiu uma onda decompaixo, e consolou-se dizendo com seus botesque pelo menos aquilo provava que no era to brbara quanto seus captores.
        Laredo fez que sim com a cabea.
        - Vou buscar.
        Demorou apenas alguns segundos, e voltou comuma garrafa de bebida, com dois teros cheios doliquido.
        Desarrolhando-a, entregou-a a Sheila, pegandoo pano molhado e sujo que ela segurava. Ela hesitou, lanando um olhar para a linha austera do maxilar deRfaga, a arrogncia friamente aristocrtica do seuperfil.
        - Vai doer - disse desnecessariamente.
        - Quem sabe prefere aplic-lo em gotas, paraprolongar a tortura - replicou ele, com voz maciae irnica.
        A compaixo sumiu numa exploso de mau gnio. Sem avisar, Sheila virou a garrafa, lavando osarranhes Com o lcool, mas no sentiu nenhumasatisfao quando ele se crispou ao receber o liquidoardente nas leses.
        Imediatamente, Rfaga se levantou e foi at a cmoda pegar uma camisa. Sheila ficou pensando seno seria melhor ele colocar uma atadura nas feridas, mas no seria ela quem iria sugeri-lo. Calada, devolveu a garrafa para Laredo.
        - Aprendeu a cozinhar, seora? - Rfagavestiu a camisa, tomando cuidado com os ombros.
        Lanou um olhar indiferente para ela.
        - No. - No a comida deles, com os utenslios toscos deles... Sheila qualificou a negativamentalmente - Acho que vo ter que prepararvocs mesmos o desjejum, ou ficar com fome at ahora do almoo. A essa altura Elena provavelmentej se ter acalmado, e voltar para prepar-lo - comentou serenamente.
        - Elena no voltar - Rfaga informou, depois virou-se para Laredo. - Providencie para quea mulher de Juan venha diariamente preparar as nossas refeies. Diga-lhe que venha depois de ter feitoa comida da sua prpria famlia, e que pode trazerconsigo o filhinho, se quiser. - Um leve sorrisoapareceu nos seus lbios enquanto olhava para Laredo. - Juan sempre nos contou que ela  a melhorcozinheira de Chihuahua. Vamos confirmar, no !
        Laredo sorriu, concordando, antes de sair doquarto para cumprir a ordem. Depois que a porta dafrente se fechou, Rfaga concentrou a ateno emSheila.
        - Trate de mudar os seus pertences para estequarto - declarou, enfiando a camisa para dentrodas calas. - De agora em diante vai dormir aqui.
        - Vou? - desafiou ela, sem esperanas de sustentar o desafio.
        Os vincos marcantes dos lados da sua boca se aprofundaram, num divertimento zombeteiro, mas ele no respondeu enquanto saa do quarto, como se soubesse que o protesto dela era simplesmente uma tentativa de preservar o orgulho.
        
        
        
         Captulo 13
        
        Depois da noite anterior, Sheila esperava que Rfaga fosse suspender a permisso para os seus passeios vespertinos com Laredo, no mais confiandonos dois juntos. Mas, para surpresa sua, ele sugeriu que os continuassem.
        Agora, caminhando pelo prado verde onde oscavalos pastavam, Sheila desejou ter recusado. O silncio entre eles pesava, ela estava constrangida enervosa, vergonhosamente consciente da alterao desua posio dentro da casa.
        - Pelo amor de Deus, diga alguma coisa - falou tensamente. - Diga que lamenta, ou que mereci... diga qualquer coisa.
        - No  o fim do mundo, Sheila - disseLaredo, apaziguadoramente.Ela parou de chofre.
        - Quer dizer que devo estar radiante porqueele me quis como amante!
        - Sheila - suspirou Laredo, com um toque de exasperao.
        Ela comeou a andar rigidamente.
        - Por que no vo roubar um outro motorista inocente e raptam a sua mulher para que ele se esquea de mim?
        - No roubamos e raptamos motoristas.
        - Ah, no diga! - ironizou Sheila. - Desculpe se o chamo de mentiroso.
        - Aquilo no passou de um acidente. - Embaraado, Laredo olhava firme para a frente. - Ascoisas fugiram ao controle. Motoristas sendo assaltados e mortos nas estradas  to comum nos EstadosUnidos quanto no Mxico. Acontece, mas raramente.
        - Verdade? - O tom de voz dela era deliberadamente ctico. - Se no obtm dinheiro roubando, ento como compram comida, roupas, munio, e todo o resto?
        - No estamos propriamente vivendo em esplendor - ressaltou ele, secamente. - E  precisolembrar que o custo de vida aqui no Mxico  consideravelmente mais baixo do que nos Estados Unidos, especialmente para o essencial, que  s o quetemos aqui. Grande parte do que comemos  plantada ou criada aqui mesmo.
        - Ento, o que fazem com todo o dinheiroque roubam? - indagou Sheila, com ar de desafio. - Rfaga se considera um Robin Hood, e d tudopara os pobres! Ou  como Pancho Villa, com assuas numerosas mulheres e bando de saqueadores, disfarando as suas safadezas sob a capa de "la revolucin"?
        - J lhe disse que no roubamos. - Os olhos dele estreitaram-se, formando fendas azuis e glidas. - Umas duas vezes por ano, Rfaga invade uma priso, ou uma cadeia. Digamos que seja contratado paraisso.
        - Entendo. - Sheila meneou a cabea friamente, lembrando-se da histria de Laredo de comoentrara para o grupo. - Ento este  um grupo deassalto mercenrio. No roubam nem furtam. S invadem algumas cadeias, matam alguns guardas e recebem os seus honorrios. No fazem nada feio comoroubar.
        - Que merda! O que espera que a gente faa!- explodiu Laredo, furioso. - Que v procurar emprego? Trabalhar na lavoura? Que diabo, todos aqui j ramos procurados pela polcia antes de nosjuntarmos. No vou fingir que o que fazemos sejadireito, ou legal. Sei que estou no meu inferno, ou acaminho dele. Mas quem sabe alguns desses garotosque soltamos no tero uma segunda chance antesde acabarem como eu.
        - Tenho certeza de que os seus motivos somuito nobres - murmurou ela, sardonicamente.
        - Estou pouco ligando para o que voc pensados meus motivos. - As feies dele endureceramde raiva. - Mas no acho que tenha o direito deme julgar, ou a Rfaga, ou a qualquer um aqui. Estamos apenas tentando continuar livres e nos virarda melhor maneira possvel.
        Sheila percebeu que estava pisando em terrenoperigoso. Se continuasse a ridicularizar a maneira pelaqual Laredo racionalizava os seus complexos de culpa, poderia perd-lo completamente. Ainda havia umachance de que pudesse persuadi-lo a ajud-la a fugir, independentemente do que Rfaga dissera.
        - Como foi que Rfaga se meteu nisso! - Alterou sutilmente a conversa para uma direo menos pessoal. - O que foi que fez!
        - No sei - foi a resposta seca.
        - Mas  claro que voc tem que saber algumacoisa a respeito dele - insistiu Sheila. - Ele temfamlia? Era rfo? Onde aprendeu a falar inglsto bem? Disse que est com ele h trs anos. Emtodo esse tempo, no pode ter deixado de saber alguma coisa a respeito dele.
        Laredo inclinou a cabea para o lado, discordando.
        - Rfaga no responde a muitas perguntas, especialmente sobre o passado. Perguntei-lhe, umavez, e ele me disse que no vive nos dias de ontem.
        Sheila hesitou, a curiosidade aumentada ainda mais pela aparente falta de informao de Laredo.
        Tudo bem que Rfaga fosse enigmtico, era seu jeito, mas Laredo tinha que saber alguma coisa. Pareciaimpossvel que no soubesse.
        - Deve ter ouvido histrias a respeito dele...quem sabe pela boca dos outros.
        Olhou de esguelha para a fisionomia fechadade Laredo.
        - Ouvi histrias - concordou ele, secamente. - No sei o que h de verdade nelas.
        - Tais como! - indagou Sheila.
        Foi a vez de Laredo hesitar.
        - Umas contam que a me dele era amante deum americano muito rico. Outras histrias dizem que o filho mais moo de uma destacada famlia mexicana. Outra histria alega que ele cruzou a fronteiraem criana para ir viver com um tio nos EstadosUnidos, fazendo-se passar por filho desse tio, durantevrios anos. - Fez uma pausa de alguns minutos, caminhando em silncio. - E tambm h histriasque contam que esteve na cadeia por ter tomado parte em escaramuas anti-governamentais, ou por tercontrabandeado armas para revolucionrios. Sem dvida alguma, cometeu algum crime. Todas as histriasexprimem o fato de que ele  instrudo, explicam asua fluncia em ingls e o seu conhecimento das prises e do que podem fazer a um homem, se permanecer ali por muito tempo.
        - Qual delas acha que  a verdadeira!
        - Nenhuma delas. - Laredo complementoua sua resposta. - Imagino que uma delas estejaprovavelmente mais perto da verdade, mas somenteRfaga poderia lhe dizer qual.
        - Quando? - perguntou ela, a voz cheia deamargura. - Quando estivermos sozinhos na camade noite!
        - Escute. - Laredo parou, segurou Sheilapelos ombros e virou-a, obrigando-a a olh-lo. - Basicamente, no foi tratada to mal assim. Podia tersido estuprada e morta, e seu corpo deixado ao ladodo de seu marido. Conseguiu evitar esse destino, no papo, e foi Rfaga que interveio para no deixarque fosse violentada por alguns dos outros.
        - No fez isso para me proteger - retrucouela. - Foi apenas porque teve medo que meu paino pagasse nada, se me fizessem mal.
        - Seja realista, Sheila - disse Laredo, sombriamente. - Os seus pais pagariam, no importando o estado em que voc estivesse. Sei disso, e Rfagatambm. Por falar nisso, voc podia ser violentada emorta agora, e provavelmente ainda receberamos odinheiro.
        Empalidecendo, Sheila se deu conta de queele provavelmente estava falando a verdade. Aquiloainda podia acontecer. Era um choque descobrir quea nica pessoa que se interpunha entre ela e essedestino era Rfaga. Mas Laredo ainda no acabara.
        - Tem sorte de que lhe permitam ter tantaliberdade. Claro, h sempre algum de vigia. Mas, como Rfaga ressaltou, voc podia ser confinada aoseu quarto. - Ou - Laredo fez uma pausa enftica- podia ficar amarrada o tempo todo. E agora Rfaga resolveu que, de hoje em diante, voc vai partilharda cama dele. Tem uma tremenda sorte de que eleno seja um filho da me gordo e babo como Juan. Voc no foi espancada, no passou fome. Na verdade, quase foi tratada como gente da realeza. As coisaspodiam ser bem, mas bem piores mesmo. E est nahora de voc se dar conta disso e parar de sentir penade si mesma.
        Largou os ombros dela. Laredo recomeou a andar, olhando sempre para a frente. Abalada pelo sermo, Sheila acompanhou-lhe os passos, a cabealigeiramente baixa.
        - Voc  uma sobrevivente, Sheila. - Laredofalava mais serenamente, o tom de voz firmementemeigo. - A gente vira sobrevivente aprendendo atirar o mximo de uma situao ruim. No estou sugerindo que goste dela, apenas que tire o mximoproveito.
        Dito daquela maneira, dava impresso de rendio, e Sheila no tinha certeza de estar pronta aadmitir uma rendio. Mas no podia negar que haviaalguma sabedoria nas palavras de Laredo.
        - Vou pensar no assunto - falou.
        O barulho de cascos que vinham a meio galopefez Sheila virar a cabea. A postura ereta e naturaldo cavaleiro e a sua graa discreta na sela denunciaram-no instantaneamente como Rfaga. O baio delevinha direto para onde eles estavam.
        Um puxo nos freios fez o cavalo passar a trotar, depois f-lo parar bruscamente em frente de Sheila.
        Com as mos cruzadas sobre o aro dianteiro dasela, Rfaga fez um breve cumprimento de cabeapara Laredo, depois virou o seu olhar escuro integralmente para o rosto da moa, que se erguia paraele.
        - Gostaria de dar um passeio a cavalo, seora?
        O cavalo se movia, inquieto, sob o peso dele.
        - Gostaria, num cavalo s meu - replicouSheila.
        - Venha. - Tirou o p esquerdo do estriboe ofereceu-lhe o brao para ajud-la a subir. - Vamos arranjar-lhe uma montaria.
        Hesitante, Sheila lanou um olhar a Laredo. Suaexpresso parecia dizer-lhe: "Lembre-se do que lhe falei". Usando o estribo como degrau, cobriu a moestendida de Rfaga com a sua. A mo bronzeada dele rodeou firmemente o antebrao dela. Sheila sentiu os msculos de ao do seu brao se flexionaremquando a puxou para a sela.
        Transferindo as rdeas para a mo esquerda, fez o cavalo girar num semicrculo, o brao roando deleve o corpo dela. Os ombros da moa se esfregaramcontra a parede slida do peito dele, enquanto ocavalo se movimentava para o lado, nervosamente, ante o peso adicional; logo a seguir, saiu a meio galope na direo do grupo de casas de adobe.
        As coxas musculosas queimavam a parte posterior das pernas dela. O cheiro de macho despertavaos sentidos de Sheila, produzindo uma reao puramente fsica e que ficava alm do seu controle. Obafo clido mexia com os cabelos da nuca da moa.
        - Tem certeza de que quer um cavalo s seupara montar! - falou junto ao ouvido dela.
        - Certeza absoluta.
        Mas o tremor roufenho na voz dela revelou oseu estado de perturbao, e ela sabia que Rfagatinha notado.
        Chegando perto do grupo de casas toscas, elefez o cavalo passar a trotar ligeiramente. Era a primeira vez que Sheila tinha permisso de chegar pertodas casas. Tentou ignorar o contacto fsico com ele eOlhou ao seu redor, com interesse.
        - O que voc e Laredo discutiam to animadamente, antes da minha chegada?
        - Estvamos tramando a nossa fuga - mentiu deliberadamente, para irrit-lo.
        - Est pilheriando, seora.
        Havia um riso zombeteiro no seu tom de voz, e uma sugesto de arrogncia, ante a sua certezaabsoluta de que controlava a situao.
        - Seora? No acha tal formalismo um poucoridculo, dadas as circunstncias.
        Virando-se na sela para olh-lo friamente, Sheila deparou com o seu rosto desconcertantemente junto ao dela. O seu olhar se desviou para a boca dohomem, ladeada por vincos profundos de um divertimento satrico. Afastou rapidamente o olhar, enquanto seu pulso acelerava, num alarme sensual.
        Rigidamente, voltou a olhar para a frente, lutandocontra a sbita fraqueza nos seus membros.
        - Mas  claro, tem razo. - Depois de umaligeira pausa, acrescentou: - Sheila.
        O modo como disse seu nome aumentou a confuso ertica dos seus sentidos. Um leve movimentoda mo esquerda fez o cavalo passar a andar, enquanto se aproximava da primeira casa de adobe.
        Enquanto cavalgavam devagarzinho por entre asfileiras de casas pequenas e toscas, sua mo direitaenvolveu a cintura dela, e foi pousar na nudez do seuestmago, logo abaixo do n da blusa. Os msculosdela se contraram ante aquele contacto ardente e ntimo, e sua respirao ficou difcil, intermitente.
        Desprezava Rfaga mentalmente, e, no entanto, ele tinha esse estranho domnio sobre a sua carne:bastava toc-la para que ela o desejasse.
        Tinha uma conscincia dolorosa das cabeas quese viravam para v-los passar, tanto de homens quanto de mulheres. Alguns meneavam a cabea ou erguiam a mo para cumprimentar Rfaga, um sinalbvio de respeito nas suas atitudes.
        At mesmo as poucas crianas que brincavamdo lado de fora das casas paravam para olh-los.
        Sheila sabia que seu cabelo louro e a pele clara eramuma viso pouco comum. O tom moreno de Rfagacontrastava lindamente com a alvura da sua tez.
        Um cachorro veio correndo para latir e tentarmorder os calcanhares do cavalo. O andar deste nose alterou, embora repuxasse a orelha para trs, ao rudo. Numa das casas, um homem estava sentadonuma cadeira, sob a proteo do telhado que se projetava amplamente para fora. No se mexeu nemergueu os olhos quando passaram por ele.
        Sheila notou o cobertor de padres vivos colocado sobre as pernas do homem, e se lembrou de queRfaga lhe havia contado que o marido de Elena erainvlido. Desviou o olhar, curiosa, para a porta dacasa e viu Elena de p nas sombras da entrada. Umdio ciumento ardia nos seus olhos ao fitar Sheila.
        Haviam passado pela casa e estavam se aproximando do pequeno curral quando Sheila percebeu overdadeiro motivo dos cimes de Elena. No forameramente o fato de ela estar cavalgando com Rfaga. Fora o brao colocado intimamente  volta da suacintura.
        A percepo desse fato deu origem a um outro. O convite de Rfaga para cavalgarem juntos no forafeito porque desejava a companhia dela, nem paradistrai-la. Estava tornando realidade a sua afirmaoda vspera:
        "Amanh", dissera, "todos sabero que  a minha mulher".
        O boato quanto  modificao do seu statusdevia ter-se espalhado depressa pela pequena populao, e Rfaga o confirmara visualmente cavalgandocom ela pelo centro do pequeno agrupamento decasas.
        Quando Rfaga parou o cavalo diante do curralcercado, Sheila imediatamente jogou a perna por cimada sela para desmontar. Estava ansiosa para se libertar do contacto perturbador dele, que a cegaratemporariamente para o verdadeiro objetivo que tinha o passeio.
        Mas o brao dele permaneceu firme  volta dasua cintura, baixando-a at o cho, embora soubesseque ela no desejava a sua ajuda. Ela comeou a caminhar rigidamente para o curral, onde os cavalos estavam se agrupando para receber a montaria deRfaga.
        - Buenos dias, seor Rfaga. Al, seora.
        O cumprimento, num ingls com forte sotaque, deteve Sheila.
        Um mexicano saa com passos vivos de sob oresguardo de um barraco. Suas feies suaves tinham uma expresso de respeito deferente, sem serservil. Ela j o vira vigiando a casa.
        - O que desejam? - perguntou com fortesotaque.
        - Quero que sele um cavalo para a seora - respondeu Rfaga.
        O mexicano olhou para os cinco cavalos que seagrupavam junto  cerca.
        - Qual deles!
        Perguntava a preferncia de Sheila, mas foi Rfaga que respondeu.
        - O baio com a estrela.
        O olhar de Sheila percorreu os animais, encontrando o baio com a estrela branca na testa, de focinho romano e ar plcido. No viu nada no animalque lhe despertasse o interesse.
        - O baio! No, no, seor. - O homemparecia partilhar da opinio de Sheila sobre a escolhade Rfaga. O roano. - Traduziu imediatamente, porcausa de Sheila. - A gua ruana  melhor.
        Uma gua castanha com manchas brancas estendeu o pescoo por cima da cerca do curral. Haviauma insinuao de puro-sangue no corpo elegante ede pernas longas da gua, embora lhe faltasse a graaque Sheila tinha visto nos equivalentes americanos da raa. Tinha os olhos grandes e luminosamente castanhos, curiosos, mas meigos.
        - No, a ruana, no - disse Rfaga, recusando a sugesto.
        Franzindo o cenho, o homem lanou-lhe um olhar confuso, obviamente acreditando que havia escolhido o melhor animal do grupo, e sem compreender por que Rfaga preferia o baio  gua ruana.
        - Acho que ele quer dizer - explicou-lheSheila - que quer que eu monte um animal que sejamenos capaz de fugir comigo, ou vice-versa.
        - Fugir! Ah, no seor, a gua  muito mansa. - Meu filho Pablo vive montado nela - insistiu.
        Uma sobrancelha negra arqueou-se, pensativa, enquanto Rfaga olhava para Sheila. Tendo tomadouma deciso, ele a comunicou em espanhol. O sorrisosatisfeito que se abriu na boca do homem contou aSheila que montaria a ruana, antes mesmo de eletirar a gua do curral.
        - No est com medo de que eu v tentarfugir! - zombou Sheila suavemente, mantendo avoz bem baixa, para que somente Rfaga escutasseas suas palavras.
        Ele a fitou com olhos preguiosos, semi-cerrados.
        - Vai pensar no assunto. - A voz dele erarouca, mas dura, como veludo sobre ao. - Mas novai tentar.
        Tinha razo. Sheila no tentaria fugir quandoele estivesse junto com ela. Rfaga era cruel demais.
        No se deteria ante nada para se assegurar de queela no lhe escaparia. Era irritante o jeito como Rfaga sempre parecia saber o que ela pensava.
        Chateada, Sheila se afastou e foi para junto deJuan, que selava a gua. Ficou parada prximo cabea do animal, acariciando o focinho de veludo, ciente de que Rfaga a seguira, mas ignorou-o. Elese encostou negligentemente a um poste da cerca aolado dela, enganchando o calcanhar no varo inferior.
        Ela sentiu um arrepio na nuca ante o olhar fixo deles Suas costas.
        A gua encostou o focinho no seu ombro, aparentemente afetuosa. Sheila deu-lhe palmadinhas nopescoo.
        - Ela tem nome?
        - S. - Ele apertou bem a cilha, firmandocom percia a correia. - Chama-se Arriba.
        - Arriba? - repetiu Sheila, e a gua empinou as orelhas.
        - S. A me dela era muito velha. Por muito, muito tempo, a gua no teve bebs. Ento teve esta, e dissemos: Arriba! Arriba! E foi esse o nome quelhe demos - explicou, com um sorriso amplo eamistoso.
        Quando a gua estava selada e com freio e rdeas, o mexicano segurou-lhe a cabea para Sheilapoder montar. Foi Rfaga quem se adiantou paradar-lhe o impulso e ajustar os estribos num comprimento confortvel.
        Sheila pegou-se examinando as feies dele, toagressivamente msculas e to perigosamente bonitas.
        Desviou depressa o olhar, depois que ele acabou deajustar os estribos. Por que o achava to atraente!A gua meneou a cabea, demonstrando ansiedade para partir, mas esperou docilmente pela ordemde Sheila. S depois que Rfaga tambm estava montado foi que Sheila encostou os calcanhares nos flancos da gua ruana.
        Cavalgando lado a lado, rodearam o grupo decasas pela parte de fora, em vez de passarem pelomeio delas, como quando da sua vinda ao curral. Onivelamento do prado os chamava, a sua estreitezamarcada pela encosta do desfiladeiro. Os dois cavalostrotavam por entre a grama alta.
        - Aonde vamos passear? - perguntou Sheila, virando a cabea para encontrar o olhar de Rfaga.
        Ao invs de estar olhando para ela, notou queele lhe observava os seios subindo e descendo, alternadamente relaxando e forando o tecido creme da blusa. Imediatamente, Sheila freou a gua, as facesrubras. Rfaga tambm deteve o seu animal, o olhar, se desviando para o rosto dela.
        - No fique envergonhada - falou suavemente -  uma viso muito agradvel.
        - Voc me convidou para andar a cavalo - lembrou-lhe Sheila, com desdm gelado -, no para suportar olhares obscenos da sua parte.
        Os olhos dele refletiram um brilho malicioso, mas ele simplesmente balanou a cabea e recomeou a andar.
        - Iremos at a outra extremidade do desfiladeiro - disse ele, respondendo finalmente  primeira pergunta.
        Ao toque das rdeas, a gua imediatamentecomeou a acompanhar o meio galope do baio deRfaga.
        - No podemos ir alm do desfiladeiro?
        Ela olhou para a garganta atravs da qual haviaentrado na fortaleza do desfiladeiro, havia muitosdias.
        Rfaga negou com um gesto de cabea.
        - Quem sabe, outro dia.
        Sheila teve que se contentar com a meia promessa. Mas a cavalgada foi um gesto tantlico deliberdade. Pressentiu a velocidade da gua nas suaslargas passadas, e quem sabe a capacidade de distanciar-se do baio dele.
        Depois de galoparem pelo prado at a outraextremidade do desfiladeiro, Rfaga entrou no meiodas rvores. Foram serpenteando pelo bosque, desviando-se de galhos e arbustos, num trote rpido.
        Entre as rvores, o ar estava opressivamentemido, depois da chuva recente. Logo Sheila sentiua blusa mida colar-se ao seu corpo, quando os galhoslanavam borrifos minsculos sobre ela.
        Olhando por entre as rvores, Sheila entreviu a parede dos fundos de uma casa de adobe. Era a que partilhava com Rfaga. O passeio fora quase umcrculo completo. Adiante, havia um brilho prateadoentre as folhas. Minutos mais tarde, entraram na clareira junto ao lago formado pelo riacho e fizeram oscavalos andar lentamente ao seu redor.
        Sheila afastou a cabeleira espessa do pescoo, deixando que a leve brisa lhe refrescasse a pele.
        - O lago parece convidativo - murmurouinconscientemente.- Gostaria de tomar banho depois do passeio!- indagou Rfaga, serenamente.
        - Como! - Ela olhou abobada para ele, antesde se dar conta de que tinha falado em voz alta. - Sim, gostaria - respondeu rapidamente.
        O leve meneio de cabea parecia indicar que lhe estava dando permisso. Sheila se abespinhou ante aatitude autocrtica, mas ele no notou, conduzindoo cavalo para diante. Pouco tempo depois estavamsaindo do bosque, com o curral bem  frente. Novamente o homem saiu de sob o abrigo do barraco, quando eles se aproximaram.
        - Fez um bom passeio? - perguntou, segurando a cabea da gua enquanto Sheila desmontava.
        - Um timo passeio - assegurou-lhe Sheila, passando a mo pelo pescoo comprido do animal. - Arriba foi uma moa bem-educada.
        - Comportou-se bem. No! - sorriu ele. - No tentou fugir?
        - No. Foi perfeita - disse, retribuindo o sorriso.
        - Gosta dela, no?
        - Gosto, sim - riu Sheila.
        - Ento  sua. - A mo espalmada indicoua gua. - Dou-a para voc.
        - No est falando srio! - protestou Sheila. Olhou para Rfaga, que estava meio afastado, observando com um ar divertido e remoto. - No a estdando para mim de verdade, est?
        - Si, si - insistiu ele. - Arriba  sua. Dou-apara voc.
        Confusa, Sheila olhou de novo para Rfaga, semsaber o que fazer. Um brilho divertido refulgia nosolhos dele. Fez um gesto quase imperceptvel de cabea. Sheila entendeu que devia aceitar o cavalo.
        Com um sorriso confuso, Sheila aceitou, balanando a cabea.
        - Gracias. Nem sei como lhe agradecer. ɠuma gua to bonita!
        - Se lhe agrada,  o bastante - retrucou ele.
        Sheila ainda hesitava, perguntando-se se haviamais alguma coisa a ser esperada da sua parte. A guacutucou o peito do mexicano com a cabea, insinuando que lhe retirassem o freio e as rdeas. A guaruana agora era de Sheila. Ser que devia vir cuidardela?
        Uma mo se fechou no seu cotovelo.
        - Temos que ir - disse Rfaga, dando indiretamente a resposta  pergunta que a afligia.
        - Ele est falando srio quando diz que agua  minha? - perguntou, quando o homem jno podia ouvi-los.
         - Si, est. - Os vincos dos lados da sua bocaficaram mais fundos, como que ocultando o divertimento, - Mas ficar surpreso se voc interpretaras suas palavras literalmente.
        - No estou entendendo. - Sheila sacudiu a cabea, mais confusa do que antes.
        -  um gesto de cortesia - explicou Rfaga, com um brilho indulgente nos olhos escuros -, para demonstrar a sua generosidade. Voc teria ofendido a dignidade dele se no tivesse aceite, mas ele tambm esperava que fosse generosa deixando o presente com ele, ou ento dando-lhe um de igual valor.
        - Entendo - murmurou Sheila.
        -  um costume do meu pas, um toque de cavalheirismo. Dizemos "minha casa  sua casa", e falamos com sinceridade, mas no esperamos que voc a tome e v vend-la.
        - Imagino que no.
        Ela deu uma breve risada, olhando para ele bem a tempo de ver um leve sorriso tocar a dureza da sua boca. O pulso se acelerou ao ver o modo como o sorriso mudava as feies speras. Sheila se deu conta do quanto ficara descontrada com ele, e se enrijeceu imediatamente, tirando o brao da mo que a segurava levemente. Como  que podia ach-lo to encantador? 
        
        
        
         Captulo 14
        
        Depois de pegar um sabonete e uma toalha na casa, foram para o lago formado pelo riacho. Sheila sabia que era intil pedir a ele que se virasse enquanto ela se despia. Em lugar disso, deu as costas para ele, despindo-se com aparente pressa para poder cair nas guas do lago, onde a sua nudez ficaria oculta aos olhos avaliadores dele.
        Um rudo chamou a ateno de Sheila. Olhou por sobre o ombro, os olhos se arredondando de surpresa. Rfaga estava sem as botas e a camisa, o trax bronzeado brilhando nu  luz do sol.
        - O que est fazendo? - perguntou ela, acusadoramente.
        - Espera que eu tome banho vestido? - replicou Rfaga. Sem esperar resposta  sua pergunta retrica, comeou a desabotoar as calas.
        Sheila virou rapidamente a cabea, as faces negras de raiva e vergonha. Houve um segundo em que ficou paralisada. Devia ter esperado por isso, disse com seus botes. Depois da noite passada, devia ter esperado qualquer coisa. Como uma boba, contudo, no o imaginara.
        Estendeu a mo para suas roupas, que jaziam no cho junto aos seus ps.
        - S porque me forou a dormir na sua cama no significa que vou tomar banho com voc!
        Antes que Sheila pudesse fazer o primeiro gesto para vestir as roupas, braos fortes a estavam levantando do cho. A nudez do seu quadril macio sentiuos msculos fortes do estmago dele, e o mamilosentiu o contato da nuvem de plos escuros do peitodele.
        O seu grito de protesto abafado foi ignoradoenquanto ele a segurava nos braos com firmeza.
        Mantendo-se rgida, Sheila olhou, furiosa, para asfeies implacveis.
        - Largue as suas roupas - ordenou Rfaga -, a no ser que queira que se molhem.
        - No sabe o quanto o desprezo! - sibilou Sheila, inutilmente.
        -  por isso que sempre me desafia?
        O brilho complacente dos olhos escuros e friosera zombeteiro, quase um desafio a que ela serebelasse.
        Tentar lutar seria intil. Rfaga simplesmentea levaria para dentro da gua, com as roupas e tudo.
        Quem sabe, o divertimento dele consistia em quebrara resistncia dela, pensou Sheila, com raiva. Se fosse,desta feita ela o desapontaria.
        Formalmente, largou as roupas no cho, nemrelaxando nos braos dele nem tentando se libertar.
        Ele a levou para o lago, e s quando estava com guapela cintura retirou o brao forte das suas coxas, deixando-lhe os ps descerem at o fundo do lago.
        Sheila sentiu um impulso infantil de jogar guafria em seu rosto aristocrtico e arrogante, mas resistiu  tentao, sabendo que aquilo apenas provocaria um revide. E conhecia muito bem o tipo derevide dele.
        Sheila era muitos centmetros mais baixa do que Rfaga, e a gua fresca tocava a curva superior dosseus seios. O brao s suas costas foi retirado, a movindo  tona para oferecer-lhe o sabonete. Sheilaolhou para ele durante alguns segundos tensos antes de peg-lo, evitando cuidadosamente qualquer contacto com a mo dele.
        Rfaga virou-se dentro da gua, dando-lhe as costas. Espantada, Sheila no compreendeu essa sbita rejeio, o fato de ele no tentar seduzi-la nesse cenrio idlico, rstico. Nem por um s minuto acreditara que ele apenas queria tomar banho, e nada mais.
        - Lave as minhas costas - ordenou ele, suavemente.A cabea dela se moveu bruscamente, os olhos pareciam lanar punhais no espao vulnerveis entre as omoplatas. Uma negativa veemente  ordem dele j estava na ponta da sua lngua. Sheila mordeu o lbio inferior para silenciar uma rplica. Era isso o queRfaga esperava, e ela sabia que iria adorar for-laa obedecer.
        Abafando o seu ressentimento, comeou metodicamente a ensaboar-lhe as costas, espalhando aespuma pelos msculos rijos de seus ombros e costas.
        A espuma fazia a carne dura parecer sedosa. Tornava-se cada vez mais difcil permanecer indiferente enquanto o ensaboava.
        Os dedos sensveis sentiram o leve flexionar dobceps enquanto movia as mos pelo seu brao esquerdo. Sheila conhecia a fora daqueles braos e mos, fora no castigo e no amor. Do ltimo nopodia esquecer, no com as marcas vermelhas nos ombros dele a lembr-la.
        Sheila passou para o brao direito para desviar o olhar do pior ferimento que lhe infligira. Os arranhes pareciam inflamados. No pode deixar de pensar se o sabonete no estava provocando ardncia.
        Tentou convencer-se de que esperava que estivesse, mas a mente estava ocupada demais tentando controlar a crescente excitao dos seus sentidos para ser totalmente vingativa.
        Virando-se dentro da gua, Rfaga ficou defrente para ela, oferecendo aos seus cuidados o peitonu. A feio indiferente que ele ostentava fazia queela se sentisse uma escrava lavando o amo.
        A beleza mscula dele afastou qualquer outropensamento da sua cabea. O olhar ansiava por descer abaixo do nvel da gua, que ficava na cinturadele. Sheila tremia com o esforo para manter a ateno presa nos pelos crespos do peito.
        E ento Rfaga tirou o sabonete das mos dela.
        -  a minha vez - falou com voz suave, roucamente carinhosa.
        Ela no tinha fora de vontade, ao sentir asmos dele tocarem a pele nua dos seus ombros. Aespuma sendo espalhada pelo corpo macio era umestimulante ertico aos sentidos que j estavam excitados pela masculinidade dele.
        Quando lhe segurou os seios, Sheila sentiu seusmamilos endurecerem na palma das suas mos. Amassagem feita pelos dedos fortes acendeu um fogona sua genitlia, um desejo incandescente de conhecer a posse integral por parte dele.
        Uma das mos deslizou pelas costas, abaixo dalinha da gua, enquanto a outra continuava a acariciar-lhe sensualmente o seio. A flutuabilidade da guafazia Sheila se sentir como se estivesse boiando, encostada nele. A mo desceu mais ainda, para se espalmar sobre as ndegas macias dela. Ao ser erguidacontra o corpo dele, Sheila sentiu a rigidez msculado seu desejo.
        Uma leve resistncia se manifestou, e ela apertou as mos contra o peito dele. A boca do homem seabriu sobre seus lbios, saboreando ao mximo sua doura. Ela sentiu um ronco nos ouvidos ante a percia exigente do beijo. No entanto, de alguma maneira, Sheila conseguiu se agarrar  sua frgil resistncia.
        Enquanto os lbios se abriam sob as ordens da lngua exploradora, manteve o resto do corpo rgido ao contacto dele. Podia sentir as batidas do corao dele sob suas mos, e a rigidez dos msculos quepoderiam to facilmente domin-la, mas no ofizeram.
        - No feche as pernas para mim, Sheila - sussurrou com voz rouca contra seus lbios.
        Parecia to sem energia, to desligado de qualquer outra coisa que no fosse a sua paixo que Sheila teve que objetar ao que exigia dela.
        - No.
        O protesto foi abafado pela posse incessante dos lbios msculos.
        - Abra-as - ordenou Rfaga.
        O brao que semi-envolvia as suas costas fez maior presso e ela obedeceu de bom grado, e foi erguida para receber a arremetida dos seus quadris. O dbil gemido de satisfao que soltou a contragosto foi bloqueado pela lngua exploradora dele. A gua batia contra a pele dela, mas no conseguia debelar o fogo da paixo deles, que agora ardia como uma s chama. Os dedos dela se enroscaram nos cabelos grossos e pretos dele, enquanto tremores orgsticos percorriam o seu corpo. Era como afogar-se e depois vir  tona velozmente at novas e eletrizantes alturas.
        Sem pensar em nada, sem ter conscincia do tempo ou do local, Sheila deixou que ele a levasse aos pncaros desconhecidos do desejo. Parou de pensar em Rfaga como seu captor implacvel. Jamais sonhara poder entregar-se com tal abandono, nem querer receber com tanta ansiedade egosta tudo o que lhe era dado.
        Quando as chamas finalmente se extinguiram, Sheila levou diversos minutos at conseguir abrir caminho por entre a escurido. Abrindo os olhos tontos de paixo, viu Rfaga observando-a preguiosamente. Mentalmente, admitiu que ele era dono do seu corpo e alma, e se deu conta, com fatalismo, de que ningum mais teria tanto poder sobre a sua carne e esprito.
        Moveu a cabea num protesto silencioso contra o destino e descobriu, sobressaltada, que estava deitada na grama. No conseguia lembrar-se de Rfagalevando-a para terra. Assustava-a o modo como otoque dele podia faz-la esquecer tudo.
        Ele estava deitado de lado junto dela, a moapoiada com intimidade em sua barriga, e Sheila percebeu a expresso ardente de satisfao nos olhos dele. Lembrava-lhe um felino selvagem que havia acabado de banquetear-se com a sua presa, e estava saciado.
        - Odeio voc - exclamou debilmente, sabendo que no era bem verdade.
        Os dentes brancos de Rfaga apareceram numsorriso, enquanto ele se punha de p.
        - Gostaria que meus inimigos todos odiassemcomo voc odeia, especialmente se parecessem comvoc - ironizou ele, percorrendo brevemente com oolhar o corpo despido dela, antes de ir se vestir.
        Irritava-a ver que ele achava as suas palavrasdivertidas, mas era pior saber que lhe havia dadoamplos motivos para zombar dela. De lbios cerrados, vestiu-se apressadamente. Desesperada, Sheilateve vontade de jurar que jamais se trairia de novo, mas duvidava que esta fosse uma promessa que tivesse condies de cumprir.
        Ouviu-se a voz de Laredo chamando Rfaga, enquanto passos apressados se aproximavam do lago.Ambos viraram a cabea a um s tempo, quando eleapareceu por entre as rvores.
        Os olhos azuis de Laredo desviaram-se momentaneamente para Sheila. Fios de gua escorriam desuas tmporas e pescoo, por causa do cabelo louro-escuro molhado. Ele segurava dois rifles. Jogou um deles para Rfaga com uma rpida explicao em espanholCom reflexos rpidos como um raio, Rfagapegou o rifle e segurou-o com uma das mos, enquanto agarrava Sheila pelo brao com a outra, empurrando-a para diante. Ela quase tropeou e caiu dejoelhos mas Rfaga levantou-a rapidamente e f-lacorrer pela trilha.
        - Pare de empurrar! - protestou Sheila, etentou desvencilhar-se dele. Os sapatos tinham ficadojunto ao lago. Era impossvel caminhar com cuidadopelo terreno irregular, com ele a empurr-la. - Noposso correr descala!
        Nem Laredo nem Rfaga prestaram a menorateno aos protestos dela. Um cavaleiro montadoesperava diante da casa de adobe, segurando as rdeas de dois animais selados.
        - Juan!
        Rfaga deu um empurro final em Sheila, na direo da casa e do guarda armado que estava espera. Acrescentou uma ordem severa em espanhol, obviamente para que o guarda ficasse com Sheila.
        Por um segundo de pavor, o nome Juan trouxe-lhe  mente a imagem do assassino de Brad, como seu hlito ftido, dentes amarelados e olharesobscenos. Quando conseguiu deter o seu movimentopara diante, impulsionada pelo empurro, Sheila soltou uma exclamao de alvio ao ver o mexicano tranqilo, vagamente respeitador que tomara o seu lugar. Era o homem do curral. 
        Tirando o cabelo molhado de cima dos olhos, fitou por sobre o ombro os trs cavaleiros que esporeavam as suas montarias na direo da entrada dodesfiladeiro. Ficou olhando para eles enquanto seafastavam, confusa e curiosa.
        - O que est acontecendo?
        Distrada, murmurou em voz alta o seu pensamento.
        - No se preocupe, seora - confortou-a ele, num ingls muito carregado.
        - O que houve! - Olhou para os cavaleiros, que diminuam a velocidade ao se acercarem da garganta. - Para onde esto indo?
        - Soldados. Aqui perto.
        - Procurando por mim? - Sheila prendeu a respirao, o primeiro raio de esperana brilhando.
        - Quien sabe? - O guarda sacudiu a cabea.
        - Esperamos.
        - , esperamos - suspirou ela, ansiosamente. Hesitando, Sheila lanou-lhe um olhar. - Seu nome  Juan?
        - S seora - concordou, respeitosamente.
        - Existe um outro chamado Juan, no ? - indagou, cautelosamente.
        - S... Juan Ortega. - Os olhos escuros se arregalaram expressivamente. - Ele  loco... mau.
        Havia outros adjetivos mais fortes que Sheila poderia ter usado, mas ficou calada. Ao invs disso, concentrou todo o pensamento numa orao para que os soldados logo surgissem cavalgando pela entrada do desfiladeiro.
        Devem ter achado o carro e o corpo de Brad,concluiu. Quem sabe os pais dela haviam notificadoas autoridades para procur-la, quando no retornaracom Brad, como havia prometido.
        Cerca de uma hora mais tarde, trs cavaleiros apareceram na entrada do desfiladeiro, os cavalos trotando serenamente pela encosta at o nvel do cho. As esperanas de Sheila viraram p.
        Abandonou o posto de viglia e entrou na casa. Permaneceu no quarto quando Rfaga e Laredo entraram na casa, pouco depois. J no havia mais nada de seu no quarto. Rfaga supervisionara a mudana dos seus poucos pertences para o quarto dele, de manh.
        Um punhado de homens entrou na casa de tijolocru, depois da volta de Rfaga. Deitada no pequenocatre, Sheila fitava o teto, escutando as vozes emespanhol na sala. Cada vez que Rfaga falava, elaimediatamente reconhecia o timbre baixo da sua voz.
        Fechou os olhos com fora, tentando bloquear a nitidez com que percebia tudo a respeito dele. Mas era intil.
        Quando o jantar ficou pronto, preparado pelamulher de Juan, Rfaga chamou Sheila para a sala.
        Os homens permaneceram, recusando a oferta decomida, mas aceitando caf de Consuelo. Sheila malconseguiu comer, dolorosamente consciente dos olhares dos homens. Sentia os olhares penetrantes que Rfaga lhe lanava, mas no retribuiu nenhum, mantendo a cabea baixa enquanto empurrava a comidano prato, de um lado para outro.
        Quis voltar de novo para seu quarto, mas Rfaga mandou que ficasse. Seu orgulho quase fez que recuperasse, mas Sheila se deu conta de que ele notoleraria nenhum atrevimento na frente dos seushomens. Calada, ajudou Consuelo a lavar os pratos,e ficou sentada ao lado de Rfaga.
        A discusso era evidentemente sobre algo degrande importncia, considerando-se a expresso sria no rosto de todos os presentes. Mas Sheila noentendia uma s palavra. Rfaga tomava notas emfolhas de papel amarelo, mas tambm escrevia emespanhol.
        Dois bules de caf tinham sido consumidos e a lua j ia alta no cu quando a reunio foi dada porencerrada e os homens se retiraram. Laredo foi oltimo, demorando-se mais alguns minutos para conversar com Rfaga a ss, depois fazendo um gesto decabea de boa-noite para Sheila. Enquanto Rfagaexaminava as suas anotaes, acrescentando novas, Sheila tirou as canecas de caf da mesa.
        A seguir, tentou sair silenciosamente da sala, planejando estar dormindo quando ele chegasse. Mas foi detida antes de dar trs passos para fora do cmodo.
        - Aonde vai? - perguntou Rfaga, erguendo os olhos.
        - Para a cama. Para onde mais? - respondeu Sheila, na defensiva.
        - Espere - ordenou. - S vou demorar alguns minutos.
        - Estou cansada e quero dormir. - No ia ceder sem discutir. - No vejo motivo para esperar por voc.
        - No gostaria de perturbar o seu sono, mais tarde.
        Ela teve uma exploso de mau gnio, ao perceber suas intenes nas entrelinhas da resposta.
        - Meu Deus - arquejou Sheila -, uma vez por dia no chega para voc! Tenho que suportar tudo de novo!
        Usando uma perna de trs da cadeira como ponto de apoio, ele girou-a de lado. Com um brao jogado negligentemente nas costas da cadeira, o seu olhar velado encontrou o ressentimento vivo nos olhos faiscantes dela.
        - Venha c. - O primeiro impulso de Sheila foi ignorar a ordem e sair da sala. Rfaga interpretou a causa da sua indeciso momentnea e repetiu a ordem. - Venha c.
        Ela cerrou as mos, as unhas ferindo a pele sensvel das palmas. Sheila foi at a cadeira, um desafio rgido em cada nervo tenso, embora obedecesse  ordem. A mo dele agarrou o brao que ela mantinha grudado ao corpo e puxou-a mais para perto da cadeira.

        - Suporta o meu contacto, no ? - falou, zombando, em voz baixa.
        - ! - sibilou Sheila, por sua vez, mas l sentia uma pulsao na garganta, ante a proximidade perturbadora.
        - E acha que fazer amor uma vez por dia  o bastante, no ? - continuou Rfaga a escarnecer dela, os olhos escuros brilhantes e enigmticos, ocontrole presente nas feies taciturnas.
        -  demais!
        - Acha que no ia gostar, hein?
        - Sei que no ia!
        No entanto, os seus sentidos j tornavam uma mentira  negativa.
        Com uma toro brusca do pulso dela, ele puxou-a contra a cadeira, as pernas dela roando numa coxa musculosa. Sheila forou-se a ignorar o contacto ardente. O aperto no pulso fez que se inclinasse de leve para diminuir a dor.
        Perdeu o flego quando o olhar dele passou do seu rosto para os seios, que foravam o tecido fino da blusa e o n que mantinha a frente fechada. A mo livre dele ergueu-se at o rego entre os seios.
        O fogo grego se espalhou pelas veias de Sheila quando os dedos magros do homem se enfiaram dentro da blusa e foram tocar-lhe o seio, afastando a fazenda para deixar  mostra a sua rotundidade suave. Quando a boca tocou o mamilo rosado, Sheila soltou uma exclamao abafada de protesto e deleite. Fechando com fora os olhos, tentou ignorar o modo como ele lambia o seu mamilo at deix-lo duro como pedra.
        Era uma tortura extica resistir ao chupar excitante do seu seio. Sheila conseguiu no ceder s ondas de desejo que mexiam com seus sentidos, at que a mo dele desceu pelo estmago e foi enfiar-se intimamente entre as suas coxas.
        Seus joelhos tremeram como gelia, e soube que estava perdida. Como uma pessoa que se afoga, sucumbindo a uma ressaca, Sheila deixou-se puxar para o colo dele. Rfaga despiu-a com lentido deliberada antes de lev-la para o quarto, com as mos entrelaadas ao redor do pescoo dele e os lbios cativos desejosos da sua boca dominadora.
        
        Foi um ciclo de seduo que se repetiu ao longo das duas semanas seguintes com mudanas de abertura, cenrio e dilogos. Sheila tentava controlar os sentidos, s vezes dominando por algum tempo seus desejos traioeiros, mas sempre - inevitavelmente, ao que parecia - Rfaga obtinha a reao que buscava.
        Cada ensaio da cena melhorava o final culminante, deixando a Sheila pouca coisa a que se agarrar, salvo o orgulho. Todo o resto Rfaga havia tirado, pouco a pouco.
        A sua vida antes de ser trazida para o desfiladeiro parecia ter acontecido  tanto tempo que era como se no tivesse existido. Era freqente Sheila acordar durante a noite fria e descobrir-se enroscada junto a Rfaga, aproveitando o calor do seu corpo.
        Naqueles momentos de sono parecia-lhe to natural estar deitada ao lado dele! Era como se nunca tivesse dormido sozinha.
        Sheila mexeu-se, inquieta, no catre, sem gostar dos pensamentos que perturbavam a sua sonolncia. Uma mo tocou o seu brao e ela se desviou, precisando reafirmar o seu orgulho.
        - No.
        Lanou um protesto tbio contra o contacto leve de Rfaga, e a exigncia que imaginava ele lhe fazia.
        - No tenho tempo de mud-lo para "sim esta manh. - A voz baixa dele, com leve sotaque, estava carregada de um divertimento tranqilo, confiante a sua capacidade de mudar a resposta dela, assim o quisesse. - Vamos. Tem que acordar e vestir.
        Franzindo o cenho, Sheila abriu os olhos. A chama de uma lamparina lanava um crculo de luz no centro do quarto, mas atravs das cortinas da janela podia ver que o cu ainda estava escuro, que era noite. Confusa, olhou para Rfaga, completamente vestido, sentado na beira da cama, calando as botas.
        Certificando-se de que o cobertor ainda ocultava a sua nudez, Sheila apoiou-se nos cotovelos.
        - Ainda no amanheceu.
        O seu olhar escuro percorreu-a brevemente.
        - Logo amanhecer. - Calou a outra bota. - Consuelo est preparando o caf.
        Sheila prestou ateno e ouviu os rudos que confirmavam a presena de mais algum na casa.
        - Mas por que to cedo? - insistiu.
        Rfaga se levantou da cama e olhou para ela.
        - Vou partir ao alvorecer.
        - Partir? - As palavras dele surpreenderam Sheila. Sentou-se na cama, trazendo consigo o cobertor agarrado junto ao peito. - No falou nada ontem sobre partir. Aonde vai? Por qu!
        A sua boca se retorceu com um divertimento cnico.
        - Aonde vai? O que vai fazer? Quando vai voltar? - Rfaga escarneceu das suas perguntas. - Parece uma esposa interrogando o marido. No sabia que se preocupava tanto com o que fao e aonde vou.
        Sheila se arrependeu imediatamente das suas perguntas impulsivas.
        - Estou me lixando para o que voc faz! - falou bruscamente, e jogou as pernas para fora da cama.
        - Agora, sim, est parecendo mais a minha leoa. - Ele riu baixinho. - Mordendo e arranhandoquando no est ronronando nos meus braos.
        Sheila arrancou o cobertor dos ps da cama eenrolou-se nele antes de se levantar e caminhar empertigada at a cmoda. O cobertor lhe caa nas costas, chegando quase  cintura, o cabelo mechado pelosol, em ondas soltas, tocando-lhe as omoplatas. Enquanto pegava a blusa e as calas, ouviu Rfaga, que se aproximava por trs dela.
        - Por que insiste em se enrolar nesse cobertor? - falou. - Acha que j no conheo de corcada centmetro de voc!
        - No tenho vontade de desfilar nua na suafrente.
        Sheila retirou-se, quando as mos moveram-se para pousar nos seus ombros.
        Afastou o cabelo da nuca da moa para deixar ocalor ardente da sua boca explorar a rea sensvel.
        Sheila sentiu-se derreter com a carcia perturbadora, e sabia muito bem que as suas defesas no agentariam se no o distrasse, e logo.
        - Imagino que v partir para tirar algum criminoso da cadeia - disse, com a dureza de umaacusao.
        O seu objetivo foi alcanado quando ele ergueua cabea, encontrando o reflexo do olhar dela noespelho quadrado que encimava a cmoda. Uma sobrancelha escura arqueava-se, intrigada, o olhar vivocheio de interrogao.
        - Por que est dizendo isso! - A voz dele era quase serena demais.
        - Laredo me contou que  o que vocs fazem.- E Sheila ficou se perguntando se no era para elasaber. - Imagino que vocs atacam, montados nosseus cavalos, e pegam os guardas de surpresa.
        - Os cavalos nos levam das montanhas e nostrazem de volta... nada mais. - Rfaga afastou-se. - Do lado de fora das Sierras, temos que usar outros meios de transporte.
        Sheila se deu conta de que ele no admitira nemnegara que o seu destino era uma priso.
        -  para l que voc vai? - perguntou denovo.
        Ele a olhou de esguelha, por um momento.
        - Vamos ver se  possvel, e, se for, verificar a melhor hora para faz-lo. Ficaremos ausentes trs, talvez quatro dias, no mximo.
        - O que vai fazer comigo enquanto estiverfora? - perguntou ela, com planejada indiferena. - Vai me trancar num quarto e deixar um guarda naporta?
        -  necessrio? - retrucou Rfaga.
        - No sei. - Sheila deu de ombros. - Acha que ?
        A boca dele se estreitou ante a evasiva dela.
        - Consuelo vir diariamente cozinhar paravoc. Poder sair de casa somente com Juan. Ele serresponsvel por voc. Deixei ordens para que a detenham caso passe da porta, a no ser que Juan estejajunto de voc. Haver sempre algum de guarda, quer Juan esteja aqui, quer no - terminou, numtom seco e autoritrio.
        - O que est querendo dizer  que no confiaem mim?
        -  - concordou Rfaga, friamente. - Noconfio em voc. - Deu meia-volta serenamente edirigiu-se para o corredor. - Vista-se para podermostomar o caf que Consuelo preparou.
        - No estou com fome - murmurou ela, Obstinadamente.
        Rfaga parou  porta, a boca retorcida cnica e zombeteiramente, aprofundando os vincos dos cantos.
        - Pobre Sheila. Em quem vai afiar as garras quando eu estiver ausente? Talvez at sinta saudadesminhas.
        - Nunca! - sibilou ela, como uma gatinhapateticamente vulnervel.
        Havia um brilho de riso nos olhos escuros dele, antes de se dirigir para o corredor, deixando Sheilaa vestir-se sozinha.
        A comida estava na mesa quando ela entrou nacozinha. Rfaga no puxou mais conversa, e Sheilacomeu em silncio.
        Enquanto afastava o prato, escutou o rudo decascos de vrios cavalos se aproximando da casa deadobe, devagar. Ao ranger do couro das selas seguiu-se o barulho da porta da frente sendo aberta.
        Laredo entrou, parando, mal cruzou a soleira.
        - Estamos prontos.
        Rfaga manteve os olhos fixos nos de Sheila porum longo momento, as feies impassveis Levantando-se, caminhou para a porta, parando para tirar oponcho do gancho e enfi-lo pela cabea. Calada, Sheila ficou observando-o por o chapu, baix-lo bemsobre a testa e apanhar o rifle encostado  paredeA seguir, ele virou-se para Sheila.
        - V l para fora - ordenou num tom seco, inesperadamente a ltima ordem dada diretamente por elea que teria que obedecer por vrios dias, e Sheilalevantou-se para acompanh-lo.
        - Seora - deteve-a a voz serena de Consuelo.
        Sheila se virou enquanto a esposa de Juan dirigiu-se depressa para junto dela, dizendo qualquercoisa em espanhol e oferecendo a Sheila um pesadoraboso. Sheila aceitou o xale mexicano, agradecendocom um sorriso a gentileza da mulher, e enrolou-senele.
        Rfaga estava parado junto  porta, abrindo-a para que ela o precedesse ao sair. O murmrio baixode vozes parou quando saram juntos da casa. Haviamais gente do que cavalos em pequenos grupos dolado de fora.
        Cinco cavalos selados estavam  espera, comdois cavaleiros j montados, Laredo e um outro homem. Os outros dois cavaleiros, alm de Rfaga, despediam-se das famlias.
        Uma mo firme agarrou o cotovelo de Sheila, empurrando-a para junto do cavalo que Juan segurava. Por um momento Sheila pensou que Rfagahavia resolvido lev-la junto com ele. Manteve-a ao seulado enquanto enfiava o rifle na bainha. A seguirvirou-se, agarrando o outro cotovelo da moa. Elase enrijeceu quando ele comeou a pux-la para si.
        - Isto  para os que vo ficar - Rfaga falava numa voz baixa, somente para os ouvidos dela, nomesmo tom de voz inexpressivo -, para que saibamque  a minha mulher, e que fazer-lhe mal  fazer-memal.
        Sheila no protestou quando ele a puxou parajunto de si. Levantou a cabea automaticamente, oslbios se encontrando com a boca que baixava. Foium beijo doce e duro, possessivo na intensidade ede breve durao.
        Os lbios dela tremiam quando ele os soltou. Mas Rfaga no largou imediatamente os braos, segurando-a contra a parede slida do seu peito enquanto o seu olhar velado examinava-lhe o rosto.
        - Quando eu me for, voc ficar aqui comJuan, espiando a minha partida. No entrar na casaantes que os outros se dirijam para as deles - ordenou.
        Ante o aceno de concordncia dela, Rfaga asoltou e montou com elegncia. Sheila deu um passoatrs e foi para o lado de Juan, enquanto Rfaga desviava o cavalo para longe dela. Os outros quatro cavaleiros se uniram a ele,  vontade, sem seguir nenhuma ordem determinada. Laredo inclinou o chapu para cumpriment-la e esporeou o cavalo.
        Uma aurora vermelha rasgava os cus quando os cinco cavaleiros viraram os seus cavalos na direo da garganta que os conduziria para fora do desfiladeiro. Sheila ficou observando-os se afastarem, mas Rfaga nem sequer se virou para ver se ela ainda estava l.
        
         Captulo 15
        
        A pequena casa de adobe parecia muito pequena sem a presena de Rfaga. No silncio, Sheila quase podia ouvir o eco das batidas do prprio corao. Caminhou at a janela da frente, sentindo-se como um fantasma que sacudia as suas correntes.
        L fora, um sol de meio de tarde comeava a deslizar na direo dos picos ocidentais. As horas escarlates do amanhecer pareciam bem distantes. Se as horas do dia passavam to devagar, como seria a noite? perguntava-se Sheila. Cruzou os braos com fora e cerrou os olhos.
        Quem sabe vai sentir saudades minhas", escarnecera Rfaga.
        Nunca!, ela negara. Mas lembrava-se da rigidez do corpo musculoso deitado ao seu lado, e da caricia experiente das suas mos excitando-lhe a carne, da sensao extica da sua boca cobrindo-lhe os lbios macios.
        Acima de tudo, havia aquele momento sensual em que ele enfiava a sua estaca de posse. Sentiu um fogo ardente na regio genital s lembranas ntidas que a simples recordao dele provocara. Subitamente, seu corao doeu de vontade de v-lo.
        Uma fera, um animal, ela o acusara. Mas ser que ela era melhor, ansiando pela gratificao fsica que ele lhe dava? Sheila ergueu a mo para correr os dedos trmulos pelos cabelos. Ser que se tornara uma vagabunda? Ser que qualquer homem satisfaria a sua fome carnal?
        Lembrou-se de como ficara enojada com as mosgrosseiras de Brad e o uso bestial que fizera do seucorpo. E o toque de Laredo no lhe evocara nenhumasensao lasciva. Rfaga parecia ser o nico com estepoder especial sobre os seus sentidos. Por qu? Porqu? berrava a sua mente, mas na verdade no queria saber a resposta.
        - A qumica do corpo - racionalizou Sheila, em voz alta.
        Inspirando profundamente, abriu os olhos. Seucorao parou, enquanto um medo gelado lhe paralisava os msculos. Do lado de fora da janela, apoiadocontra um poste, estava o homem que atirara emBrad. Os seus olhinhos obscenos a fitavam. A bocaestava frouxa, quase babava.
        Assustada e nauseada, Sheila se afastou da janela. Fazia dias que no o via. Mas l estava ele, vigiando a porta... e vigiando-a.
        Sheila recuou para um canto afastado do quarto. As pernas trmulas buscaram o apoio de uma cadeira. Encolheu-se nela, agarrando-se s palavras de Rfaga, de que agora era mulher dele. Ningum poriaa mo nela e nem se arriscaria a enfrentar a sua ira.
        Pela primeira vez, Sheila se conscientizou doque lhe poderia acontecer se Rfaga no voltasse. Orou fervorosamente pela sua volta rpida e em segurana. Qualquer idia de fuga enquanto ele estivesse ausente se desvanecera. Um sexto sentido lhe diria que o homem l fora daria um jeito de estar apar de todos os seus movimentos. Dentro de casa, ou com Juan, estaria segura e protegida. Em qualqueroutro lugar, o assassino de Brad estaria  espera.
        Uma batida  porta fez Sheila dar um salto, alarmada.
        - Quem... quem ? - perguntou, com voztrmula. Tentou controlar-se.
        - Sou eu, Juan - respondeu uma voz familiar, do outro lado da porta.
        Sheila soltou um suspiro de alvio, soltando arespirao, que inconscientemente vinha prendendo.
        - Entre - falou, com voz consideravelmentemais firme do que antes.
        Juan entrou, deixando a porta aberta, como seas convenes assim o exigissem.
        - Pensei que talvez a seora estivesse comvontade de andar a cavalo - disse, no seu inglsmuito carregado. O seu porte era digno, a atitudecorts e respeitosa, como se fosse um anfitrio entretendo um convidado.
        - Sim, estou, sim - concordou Sheila, subitamente sentindo a necessidade de fugir do vazio dacasa e da ameaa silenciosa do homem de guarda lfora.
        A gua ruana estava selada e  espera dela, asrdeas enroladas no poste que sustentava o telhadodo prtico. Sheila correu para junto da gua, ignorando deliberadamente o homem de guarda, mas sentiu, constrangida, os seus olhos quentes a segui-la.
        Montada, esperou impaciente por Juan, sem sentir-selivre antes que se houvesse afastado da casa e dosolhares do vigia, que pareciam despi-la.
        - A seora cavalga como se el diablo a estivesse perseguindo - comentou Juan, quando Sheilafinalmente diminuiu o ritmo, bem longe da casa.
        Ela hesitou, depois falou secamente:
        - O homem que est vigiando a casa, o quetambm se chama Juan... no gosto dele.
        Era minimizar muito o que sentia, no exprimia O medo que o homem lhe inspirava.
        - S, compreendo - foi a nica resposta que recebeu.
        O passeio ajudou a acalmar os nervos tensosde Sheila, o passeio e a companhia discreta de Juan.
        Lamentou quando o passeio acabou, mais de umahora depois, mas Juan prometeu que sairiam de novono dia seguinte. Sheila sabia que ansiaria pela chegada dessa hora.
        
        No terceiro dia da ausncia de Rfaga, o vazioda casa era opressivo. Quando Juan apareceu, trazendo a gua ruana, Sheila praticamente irrompeuporta afora. O guarda segurou a cabea da gua paraela montar, e a moa sorriu-lhe em agradecimento.
        O homem que atirara em Brad no estivera devigia desde o primeiro dia. Embora no tivesse perguntado, Sheila sentia que Juan era o responsvelpor isso. Sabia com que violncia ela detestava ohomem.
        Durante os seus passeios vespertinos, aprenderaa admirar a educao e a dignidade tranqila de Juan, e o seu sorriso, sempre fcil e amistoso. Sheila retribuiu-o, enquanto esporeavam os cavalos para ummeio galope pelo prado do desfiladeiro. Foi s depoisque haviam cruzado toda a sua extenso que diminuram a velocidade das montarias.
        Sheila deu uma palmadinha no pescoo arqueado da gua enquanto ela saltitava alegremente. A moa virou o rosto para o vento, deixando que refrescasse o afogueado de excitao das suas faces.
        -  bom sair de casa - declarou Sheila, fervorosamente. - s vezes sinto que estou sendo engolida naquele vazio.
        - Acontece a mesma coisa comigo - disse ele, com um aceno compreensivo de cabea - sempre que Consuelo sai de casa para ir cozinhar para vocs. No vai se sentir to s quando Rfaga voltar.
        O pulso dela se acelerou  meno do nome dele. Era uma loucura. Mas Juan no compreenderia se ela negasse o seu comentrio. Sheila sabia que sentia falta dele e que queria que voltasse em segurana.
        Ao invs disso, perguntou:
        - H quanto tempo conhece Rfaga?
        - H muito tempo - respondeu, como se tivesse perdido a conta dos anos.
        - Como o conheceu?
        - Cuidava dos cavalos num grande rancho. Eu era muito bom - falou, com orgulho. - Meu irmo estava na cadeia com trs outros por causa de txicos. Contou-me que um homem ia solt-los. Eu queria ajudar, porque meu irmo estava ficando maluco naquele lugar. Esperaria do lado de fora para ajudar meu irmo a correr.
        Havia uma expresso distante nos seus olhosenquanto falava. A voz estava com o sotaque maiscarregado quando continuou:
        - Estava quente, era hora da siesta. Tudo estava quieto. Nada se movia. Eu fiquei de guarda, pensando que esse homem no ia vir, porque tudo estava muito quieto. Ento, de repente, ouvi barulho egritos, depois vi gente correndo. Vi meu irmo e gritei-lhe para vir comigo. Comeou a correr, e algumdisparou. Vi meu irmo cair e corri para junto dele. Estava muito ferido, e decidi escond-lo. Um homemme mostrou onde devia me esconder e fiquei l commeu irmo.
        Esse homem voltou muito depois, e examinouo meu irmo. Disse que no havia nada a fazer, e quedevia deix-lo. Mas eu disse que no, que era meuirmo. O homem olhou para mim durante muitotempo, depois me disse para pegar meu irmo eacompanh-lo. Foi assim que conheci Rfaga, concluiu Juan.
        - Ele o trouxe para c! - indagou Sheila, e recebeu uma resposta afirmativa de cabea. - O queaconteceu ao seu irmo? Sobreviveu?
        - S.
        Cavalgavam lentamente na sombra da paredesul do desfiladeiro.  frente ficava a trilha inclinadapara a garganta e, para Sheila, a liberdade. Seria mesmo? Olhou para a trilha, depois curiosamente paraJuan.
        - Por que ficou aqui? No fez nada de errado. No havia motivo para se esconder.
        - Meu irmo estava aqui - explicou, com pacincia gentil. - E, mais tarde, Rfaga trouxe asnossas famlias para c. Ele  um bom homem. Aquino  um lugar assim to ruim para se viver. Trabalhocom os cavalos. H comida para a minha famlia, dinheiro para comprar-lhe roupas. Meu pas  pobre, Seora, mas vivemos bem melhor do que muitos.
        - Mas e quanto aos seus filhos? No h escolas, nenhum lugar onde possam aprender a ler e escrever - insistiu Sheila. - Nem mesmo podem sairdeste lugar.
        - Ensino-lhes ingls, e assim quem sabe algumdia possam ir para os Estados Unidos. - Sheila notou o seu queixo erguido com orgulho, e deu-se contade que o havia ofendido ao sugerir que no estavadando o melhor para a sua famlia. -  uma coisaimportante para aprenderem.
        - , claro que  - concordou com umsorriso.
        Juan desviou o seu cavalo da trilha inclinadaque era o caminho que levava para fora do desfiladeiro, e a gua de Sheila o acompanhou. Cavalgaramem silncio na direo do limiar leste.
        - Voc costuma ir com ele... com Rfaga? - perguntou.
        - S s vezes - respondeu, depois comentou: - mas  um espetculo de se ver. Num minuto tudoest quieto, depois... - Juan estalou os dedos - ele est l e no est mais. Rfaga  como o vento - acrescentou,  guisa de explicao.
        A definio de Laredo veio  sua lembrana, quando ele dissera que Rfaga queria dizer uma rajada de vento. Ser que entraria e sairia da vida delacom tanta rapidez!Sentiu uma onda de inquietao. Levantou osolhos para as paredes do desfiladeiro, perguntando-se por quanto tempo ainda a manteria ali, sua cativa, sua escrava, sua amante.
        Esporeando o flanco da gua, saiu cavalgando frente de Juan. No queria mais conversar, no quando o assunto acabava por ser Rfaga, inevitavelmente. Dissera que ficaria fora trs ou quatro dias. Esteera o terceiro dia, possivelmente as ltimas horas queteria para si mesma, durante muito tempo. Deviaestar mais  aproveitando a ausncia da companhiadele.
        Ao serpentear entre as rvores do lado norte dodesfiladeiro, Sheila lembrou-se de quando cavalgarapor ali com Rfaga. Junto ao lago, a sua carne ardeu lembrana de como ele havia feito amor com ela, na gua. No havia como fugir dele nos seus pensamentos, do mesmo modo que no havia como fugirdas paredes do desfiladeiro da sua priso, que incluaos guardas armados.
        Frustrada, Sheila deu meia-volta com a guapara retornar a casa. Haviam passado pelo curral eestavam se aproximando por trs, um caminho queSheila no experimentara antes. Inesperadamente, ocho cedeu para formar uma depresso grande e natural. No centro havia dois postes altos, distantescerca de um metro e vinte entre si. Ela freou a guae parou na beirada da depresso, fitando, curiosa, o centro de terra vermelha.
        - Nunca vi isto aqui antes - murmurouSheila. Olhando para Juan, viu o ar perturbado dosseus olhos escuros ao fitar o buraco, a sua expressomuito severa. - Que lugar  este?
        -  para o castigo.
        - Castigo? - Franziu o cenho. - Comoassim?
        - Os que agem errado, que no obedecem, sotrazidos aqui para serem castigados. - Ele levou oseu cavalo para junto da ruana e estendeu a mopara pegar as rdeas sob o focinho da gua. - Vamos. Sei que  necessrio, mas no gosto de olharpara este lugar.
        Ele a afastou do buraco, indo na direo docurral. Confusa, Sheila teve vontade de fazer-lhe maisperguntas, mas era bvio que Juan no estava disposto a falar. Ela j sabia que uma das regras de Rfaga era que ningum saa do desfiladeiro sem a suapermisso. Era evidente que a pessoa que o tentasseseria levada para aquela depresso e castigada.
        At a ela podia adivinhar, mas, e a forma decastigo...? Levando em conta a reao de Juan, Sheila concluiu que talvez fosse melhor ela no saber.
        Estremeceu, sem saber direito por qu.
        Os cavalos passaram devagarzinho pelo curral, e Juan no conduzia mais a gua pelas rdeas, umavez que j haviam ultrapassado a depresso. Cavalgavam lado a lado na estrada de terra batida entreas caas de adobe. Ao se aproximarem da casa deElena, Sheila notou o invlido sentado sob o prolongamento do telhado. Ficou levemente surpresa quando Juan ergueu a mo, num gesto de parar.
        - Um momento, seora.
        Pediu licena para levar o seu cavalo at o localem que o homem estava sentado.
        A gua ruana foi acompanhando o cavalo dele, e Sheila no tentou det-la. Escutou Juan cumprimentar o invlido e conversar com ele em espanhol, tranquilamente. Vrias vezes fez um gesto na direo deSheila, enquanto falava. A expresso vazia do invlido no dava nenhum sinal de vida. Fitava o espao, como se no se desse conta da presena deles.
        Elena apareceu na soleira da porta, lanando umolhar feroz para Sheila antes de falar vivamente comJuan. Caminhou depressa para junto do marido e ficou atrs da cadeira. As mos se apoiavam nos seusombros. O gesto lembrou a Sheila uma me confortando protetoramente o filho. Sentiu uma onda depiedade por Elena, mas sabia que a morena no ialhe agradecer por isso.
        Desviando o olhar, Sheila levou a gua para ocentro da trilha, para esperar por Juan. Ele se juntoua ela quase imediatamente. Sheila mordiscava, hesitante, o lbio inferior. Juan notou o movimento.
        - Elena estava zangada comigo, seora - explicou, como se achasse que Sheila pensara que osmodos bruscos da morena tivessem sido por causadela. - Tem certeza de que meu irmo no entendeo que eu digo, e acha que sou um idiota em conversar com ele.
        - Seu... seu irmo! - gaguejou Sheila.
        - S, Csar  meu irmo. No sabia? - perguntou, curioso.
        - No. - Sacudiu a cabea, ligeiramente desconcertada com a descoberta. - No, no sabia. - Outro pensamento veio  sua mente, e jorrou da sua boca antes que pudesse det-lo. - Mas Rfaga e Elena eram...
        A discrio interveio, e ela no pode dizer em voz alta que eles tinham sido amantes.
        - Tudo j acabou.
        Juan adivinhou o resto da sua frase, e indicou que no havia necessidade de discutir o assunto.
        Juan parecia ser to sensvel e moralista que Sheila no podia acreditar que ele realmente tivesseaprovado a ligao.
        - Mas ela  sua cunhada.
        - Cuida de Csar.
        A sua fisionomia estava fechada, indicando aSheila, sem palavras, que ela estava se metendo noque no era da sua conta.
        Irritada, Sheila olhou para a frente.
        - No entendo como pode ser to leal a Rfaga, tendo sido ele amante da sua cunhada.
        - No culpo Rfaga.
        Havia uma leve reprimenda na voz serena.
        Sheila ficou cheia de indignao, antes de lembrar-se de que aquela era uma cultura machista. Erauma sociedade de dois padres diferentes, especialmente nas reas rurais. Mas, de repente, Sheila perdeu a disposio de discutir o assunto com Juan.
        Agradecendo laconicamente o passeio, desmontou diante da casa e entregou as rdeas para Juan.
        A gua ruana esfregou o focinho contra o ombro dela, e Sheila acariciou, distrada, o animal de malha branca no focinho.
        - Desculpe, Arriba, hoje no tenho acar - murmurou, depois entrou na casa de adobe.
        O pr-do-sol no trouxe a volta de Rfaga. Teria outra noite e parte de outro dia para ficar sozinha.Acendendo um lampio de querosene, colocou-o aolado de uma cadeira e pegou um dos livros que Laredo lhe dera. Leu at que seus olhos estivessem cansados demais para enxergar, em seguida foi para acama. Depois de duas noites inquietas, desta vez osono chegou depressa.
        A porta da frente se fechando e passos queecoavam serenamente na casa vazia acordaram Sheila. Abriu os olhos pesados de sono e ouviu os passosse aproximando do quarto. Um sorriso preguioso esensual tocou-lhe os lbios enquanto rolava para o lado, O lugar de Rfaga. A mente entorpecida pelosono no estava funcionando direito, caso contrrioteria controlado a alegria que tomou conta do seucorao.
        - Rfaga - murmurou Sheila, ao ver a figura escura recortada na soleira da porta.
        No houve resposta. O seu olhar sonolento notou uma discrepncia. A figura no era alta o bastante para ser Rfaga. Todos os vestgios do sono desapareceram enquanto os msculos dela se retesaram, os sentidos totalmente alerta.
        - Juan ?  voc?
        Respirava fundo, tentando deter o medo que aumentava.
        - S, Juan - respondeu uma voz gutural.
        Mas no era Juan... pelo menos no era o homem meigo e orgulhoso a que Sheila se referia. Era o outro, Juan Ortega, o assassino de Brad. O seu grito de terror foi abafado pelos msculos constritores da sua garganta, quando o corpanzil ameaador entrou no quarto. Mas no havia tempo para o pnico.
        Funcionando com a velocidade de um raio, a mente registrou vrios fatos simultaneamente. O guarda l fora devia ser este homem, ou um comparsa. Caso contrrio, ele no teria entrado na casa. Os gritos dela poderiam fazer o outro homem entrar, e ento a situao estaria empatada, embora pendendo mais para o lado dele.
        No havia ningum para salv-la, exceto ela mesma. Nua sob o cobertor, Sheila deu-se conta de que a cama no era um bom local para armar sua defesa. Quando ele chegou ao p da cama, Sheila pulou fora, arrastando consigo o cobertor, e tentou sair correndo do quarto. As pernas se enroscavam no cobertor, atrasando a sua fuga.
        Ele tentou agarrar o brao dela e no conseguiu, os dedos se crispando no cobertor. Como uma idiota, Sheila tentou se agarrar ao cobertor que protegia a sua nudez, e ele a puxou para junto de si. Soltou um riso baixo de triunfo ao encost-la ao seu amplo peito.
        Com todas as suas foras, Sheila tentou afastar-se dele, largando o cobertor para ficar livre da sua proximidade revoltante. Um dos braos envolveu firmemente a cintura de Sheila, enquanto o outro se movia para a parte da frente do corpo.
        Os pelos speros da mo dele arranharam-lhe a pele macia quando ele arrancou primeiramente o cobertor de cima dos seios, depois do resto do corpo. Agarrou um dos seios com mo rude.
        O cheiro nauseante do seu bafo ftido sugeriu a Sheila que ia tentar beij-la. Girou a cabea bem para o lado, estremecendo ao sentir a umidade repulsiva da sua boca na curva do pescoo Arranhando como um animal selvagem, Sheila tentou libertar-se, respirando com soluos arquejantes de terror. Conseguiu virar-se parcialmente no seu abrao, mas isso s fez que passasse a sentir a ereo repugnante dele esfregando-se contra as suas ndegas nuas.
        Ele ofegava de desejo, o bafo quente e ftido quase sufocando Sheila. Torcendo-se e debatendo-se com violncia desesperada, mesmo assim ela no conseguia fugir s mos dele, que tateavam com rudeza todo o seu corpo nu.
        Um grito explodiu da garganta dela, quando ele a empurrou de costas para a cama. A parte posterior dos joelhos bateu de encontro ao colcho, e as pernas cederam. Ele caiu por cima, o peso sufocante imobilizando Sheila. Sem conseguir tocar-lhe os lbios, grudou a boca, abrindo-a toda, num seio, como se quisesse engoli-lo. Enterrando os dedos no seu couro cabeludo, Sheila tentou for-lo a largar o seio, puxando selvagemente os seus cabelos. Ele enterrou os dentes no mamilo, mordendo-o at que a dor cruciante fez que ela soltasse o cabelo.
        Enquanto continuava a sugar-lhe o seio, ele lhe apertava o traseiro, e comeou a ajeit-la melhor sobre os seus quadris. Sheila se debateu desesperadamente mas aquilo parecia estar ajudando-o no seu intento. Sentiu que ele tentava abrir suas pernas  fora. Tentou erguer um joelho para atingi-lo, mas o peso era demais para ela.
        O estmago se revirou ao toque da sua mo, quando ele comeou a mexer nas calas. Indescritivelmente enojada e apavorada, Sheila baixou as mos para empurrar-lhe as costelas e a cintura, tentando com todas as suas foras tir-lo de cima de si. A mo direita roou em alguma coisa slida e inanimada... o cabo de uma faca.
        No havia tempo para pensar. Os dedos buscaram e acharam a presilha que fechava a bainha da faca. Soltando-a, arrancou a arma e comeou a esfaquear-lhe as costas. Ele enrijeceu de surpresa ante a primeira arremetida da lmina.
        Com a segunda, endireitou o corpo, torcendo um brao atrs do corpo para suportar a dor. Quando Sheila enfiou a faca no seu corpo pela terceira vez, subitamente se deu conta de onde vinha a dor.
        O rosto estava feroz, congestionado de dio. Grunhiu como um touro enfurecido, mas Sheila soluava no seu esforo desesperado para evitar que ele a estuprasse, fosse como fosse. No viu a mo dele em movimento seno quando j era tarde demais. Luzes explodiram na sua cabea quando ele lhe atingiu o maxilar com as costas da mo.
        Uma nvoa preta rodopiando de dor ameaou engoli-la. Sheila lutou para continuar consciente, sabendo que tinha que manter a vantagem ou se perderia para a luxria dele. A mo segurava firmemente a faca, mas no precisou us-la de novo, pois o homem levantou-se e saiu cambaleando para fora do quarto.
        Quando se foi, ela no tinha mais foras. Esgotada, jazia sobre a cama, soluos entrecortados a lhesarem da garganta, lgrimas a lhe escorrerem pelorosto. Aos poucos a dor no queixo foi diminuindo.
        A pele onde as mos repulsivas haviam tocado comeou a ficar toda arrepiada.
        Arrastando-se para fora da cama, o corpo feridoe dolorido, Sheila foi aos tropees at a cmoda.
        Afastou o lampio, para que a escurido a escondesse, e deixou a faca ao lado. A jarra de gua junto dabacia estava cheia. Pegando-a, Sheila comeou a derramar vagarosamente a gua fresca sobre os ombrose a carne escaldante.
        A gua lhe escorreu pelo corpo e formou umapoa no cho. Mas ela nem se dava conta disso, enquanto comeava a esfregar o sabonete em todos oslugares que as mos nojentas dele haviam tocado,cobrindo cuidadosamente cada centmetro.
        Ainda soluando, tentou enxaguar a espumacom o resto da gua, mas as sensaes repelentespersistiam. Arrancando a toalha spera do gancho,tentou enxugar-se para ver se conseguia livrar-sedelas. Esfregou a pele at deix-la quase em carneviva, e teria continuado, se no tivesse ouvido a portada frente se abrir.
        Um dio assassino e primitivo correu incandescente pelas suas veias. A toalha caiu ao cho, sobre a poa de gua aos seus ps. A raiva violenta fazia tremer a mo que foi apanhar a faca em cima da cmoda.
        Desta feita, ela o mataria. Deslizando na ponta dosps, Sheila foi para o corredor.
        
        
         Captulo 16
        
        O brilho amarelo nos seus olhos era semelhantea de uma leoa assassina. Colada  parede junto aoarco de entrada para a sala, Sheila esperava a suapresa. Imvel, escutou os passos que se aproximavam. Um sorriso selvagem recurvou-lhe os lbiosquando a figura corpulenta entrou no corredor.
        Erguendo a faca, ela mirou a espinha dele eatacou. Mas a lmina cortou o ar, enquanto o alvo sedesviava. Ela jogara todo o seu peso no golpe mortal, serrara.
        Desequilibrada, soltou uma exclamao de frustrao. Uma armadilha de ao fechou-se sobre o seupulso, jogando-lhe a mo de encontro  parede.
        O impacto fez que soltasse a faca.
        - No! - arquejou, furiosa. 
        - No cavalguei metade da noite para ser assassinado na minha prpria casa! - rosnou a voz familiar.
        - Rfaga?  voc! - gritou Sheila, sem acreditar. A raiva morreu to repentinamente quantonascera. - Voc voltou! Ah, Deus, voltou! - Jogou-se nos braos dele, enterrando a cabea na solidez reconfortante do seu peito. - Estou to contente! To contente!

        Ele tirou dos ombros os alforjes, deixando que cassem ao cho. Foram os alforjes que haviam deixado a silhueta corpulenta, disfarando-lhe o corpoesguio. Ele no a abraou imediatamente, embora ela se agarrasse a ele com toda a fora.
        - Sheila...
        Ela ouviu o misto de raiva e confuso na voz dele, e moveu a cabea, em protesto.
        - Abrace-me - Sua voz latejava de necessidade de sentir a fora dele. - Por favor, apenas me abrace.
        Havia refgio no abrao dele, e Sheila no questionou porqu.
        Ele hesitou, depois deixou os braos envolverem-na. As mos moveram-se ao longo da espinha para ajust-la mais firmemente ao seu corpo. Inclinou a cabea, esfregando o queixo e o maxilar contra o cabelo sedoso e despenteado dela.
        A sensao do seu corpo rijo estava comeando a apagar os vestgios do toque de Ortega que ainda permaneciam. Ela comeou a beijar-lhe o peito. O batimento firme do corao assegurou a Sheila que estava agindo certo.
        Erguendo a cabea, ela deixou os beijos subirem at a base do pescoo dele. Seus dedos afastaram o colarinho da camisa, desabotoando-a para deslizar as mos pelo seu peito quente.
        A boca do homem roou-lhe a tmpora, e Sheila tremeu de desejo. Inclinou a cabea para trs para ver-lhe as feies fortes, os lbios se abrindo num convite silencioso. O olhar fixou-se na boca da moa, macia e trmula, mida e brilhante.
        - Por favor - murmurou Sheila -, beije-me.
        Ele esperou um segundo infinito antes de baixar a cabea para aceitar o convite. Abriu a boca dura e esfaimada sobre a dela. Sheila retribuiu o beijo com o mesmo fogo insacivel, sem se dar conta, at aquele momento, do quanto Rfaga lhe ensinara sobre a arte de fazer amor. Abriu bem a camisa dele para sentir os seios de encontro  nudez do seu peito.
        Com percia e prtica, as mos dele corriam seus quadris e costelas, redescobrindo os pontos de prazer ao longo dos ombros. A boca moveu-se para investigar melhor aqueles lugares especiais de paixo e acidentalmente tocou o seu maxilar inchado. A dor que a invadiu parecia a de mil agulhadas. Sem querer Sheila soltou um grito, levando a mo ao local ferido e afastando a cabea. Imediatamente sentiu seus dedos suaves a lhe tocarem a mo.
        - Machuquei-a? - perguntou, a voz rouca denotando surpresa.
        - No, eu...
        - Deixe-me ver - ordenou Rfaga suavemente (mas nem por isso deixava de ser uma ordem), enquanto afastava a mo dela para deixar que seus dedos lhe explorassem o maxilar. Ela se crispou incontrolavelmente quando ele tocou o local inchado.
        - O que  isso? - perguntou sombriamente. - Como foi que aconteceu isso ao seu rosto?
        As feies morenas estavam na penumbra, mas Sheila podia ver a rigidez implacvel do queixo e da boca. Os olhos dela encheram-se de lgrimas quando lhe contou a histria srdida.
        - Ele estava tentando me violentar e lutei com ele. Agarrei a sua faca e esfaqueei-o. Foi ento que ele me bateu. Quando voc chegou, pensei que fosse ele voltando para terminar o que comeara. Foi por isso que tentei esfaquear voc... porque pensei que fosse ele, e queria mat-lo. Queria mat-lo! - repetiu de novo, numa histeria crescente.
        - Quem? - Os dedos cravaram-se selvagemente nos ombros dela, sacudindo-a com fora. - Quem lhe fez isso? Quem?
        A histeria momentnea foi substituda pela raiva. Sheila lanou sobre Rfaga o nome do seu atacante.
        - Juan! - gritou, cuspindo o veneno do seu dio.
        A reao dele foi igualmente explosiva.
        - Mentirosa!!!
        Empurrou-a para longe de si. A fora violenta do gesto jogou-a de costas contra a parede.
        Um momento antes Sheila estivera cheia de amor; agora estava cheia de dio.
        - Se no acredita em mim, pergunte voc mesmo a ele! - sibilou. - Vai achar as marcas das facadas nas costas dele... trs facadas!
        O rosto era como granito cinzelado, duro e inflexvel. Os olhos escuros eram como lascas negras de gelo, ferindo-a com a sua raiva fria, machucando-afundo.
        - Far esta acusao cara a cara com ele - disse, sua boca formando uma linha fria e cruel.
        - Com prazer! - retrucou Sheila com veemncia.
        Rfaga deu meia-volta bruscamente, a raiva mantendo rgida a sua postura normalmente ereta enquanto saa da sala. Toda trmula, Sheila entrou aos tropees no quarto. Encostou o dedo do p na borda do cobertor que jazia no cho.
        Pegou-o e enrolou-se nele, sentindo subitamente um frio muito grande. Tinha vontade de se deitar na cama e morrer, mas podia ouvir a voz de Rfaga dando ordens ao guarda. De cabea erguida, Sheila entrou na sala.
        O lampio estava aceso, lanando um brilho lgubre no aposento. Rfaga estava de costas para a lareira, as mos nas costas. Tinha as pernas ligeiramente separadas, numa pose que indicava claramente que era o senhor de tudo o que seus olhos enxergavam.
        Sheila lembrou-se do modo como se havia jogado em seus braos e pedido atrevidamente seus beijos. De todos os homens em quem podia buscar conforto e compreenso, ele era o ltimo a quem devia ter escolhido. No havia um nico osso compassivo naquele corpo sem corao.
        Ele lhe lanou um olhar longo e sem emoo. Na defensiva, Sheila ergueu o queixo um pouco mais alto, encarando-o friamente. O olhar rude do homem desviou-se para a sua face. Sheila adivinhou que a pele j estava manchada, alm de inchada. Agora a dor estava comeando a piorar, um latejar doloroso que se irradiava pela cabea, fazendo-a sentir-se ligeiramente nauseada.
        Houve uma batida  porta. Rfaga deu uma lacnica permisso para que entrassem. Um tremor violento percorreu o corpo de Sheila. Virou-se quando a porta se abriu, incapaz de olhar para o rosto repulsivo do seu atacante. Baixando os olhos para o cho, ouviu a breve troca de palavras em espanhol.
        -  a seora quem lhe deseja dizer algo - anunciou Rfaga, num tom de voz mortalmente calmo.
        Virou a cabea bruscamente para olh-lo com raiva, odiando o escrnio descrente nos seus olhos escuros. Sheila forou-se a virar-se para a porta, preparando seus nervos abalados para levarem a cabo a cena horrvel. Primeiro viu Laredo, cujos olhos azuis se estreitaram brevemente ao notarem a marca no rosto dela. Mantendo-se rgida, olhou para o homem que Laredo segurava pelo brao.
        Um par de olhos escuros confusos e sonolentos a fitavam, indagadores e incertos. Era Juan, o homem que fora o seu companheiro constante nesses trs ltimos dias. Ele e Laredo eram as nicas pessoas a quem podia considerar quase amigas. O pesar ao descobrir por que Rfaga estava to certo de que ela mentira deixou-a sem fala.
        Muito distante, Sheila ouviu uma ordem sendo dada em espanhol. A testa de Laredo franziu-se sombriamente quando soltou o brao de Juan e foi para trs dele, para erguer-lhe a camisa. Lanou um olhar para Rfaga e sacudiu a cabea. A seguir, Sheila notou a presena dominadora de Rfaga ao seu lado.
        - No h ferimento, seor.
        Por trs das palavras glidas dele, percebia a acusao mordaz de que era uma mentirosa, ou coisa pior.
        Logo a fala lhe voltou, numa exploso de fria. Como ele a condenava rapidamente!
        - No me referia a ele! - esbravejou Sheila, a cabea latejando como se houvesse mil demnios l dentro. - Referia-me ao filho da me assassino que matou o meu marido... aquele a quem voc me entregou por pouco tempo, depois tomou de volta!  bvio que ele achou que estava na hora de voc parar de ter exclusividade sobre meu corpo, e de partilhar o prmio com ele! Laredo sabe a que animal gordo e nojento estou me referindo!
        Tendo esgotado a sua fria, comeou a soluar incontrolavelmente. Deu as costas para Rfaga, encolhendo os ombros de vergonha e degradao. Lgrimas quentes lhe escorriam dos olhos, queimando-lhe as faces enquanto chorava livre e abertamente. Seus joelhos ameaaram ceder, e ela oscilou de um lado a outro. Dedos fortes se estenderam para agarr-la pelos ombros.
        - No me toque! - Sheila recuou, desesperada, a voz rouca e alterada pelos fortes soluos. - Porco! Animal!
        Estava histrica.
        Praguejando violentamente em espanhol, Rfaga deu ordens bruscas. Dali a segundos, o corpo que se debatia e soluava foi empurrado por outro par de braos. Uma coisa dura tocou-lhe os lbios, e Sheila virou a cabea. O objeto acompanhava-a, persistente.
        - Vamos, Sheila - insistia Laredo, com firmeza - Beba. - Ela ainda lutava contra ele, chorando incontrolavelmente. - Pare com isso!
        Ele agarrou um punhado de seus cabelos e forou-lhe a cabea para trs, derramando  fora um pouco do lquido por entre os seus lbios. Queimou-lhe a garganta como fogo. Tossindo e sufocando, Sheila afastou a garrafa da boca, e Laredo no voltou a for-la.
        Quando a ardncia diminuiu, Sheila pde respirar sem sentir que seus pulmes estavam em fogo.
        A dose de lcool detivera a sua histeria e reduzira os soluos a uns sons secos e speros. Pousou a cabea exausta no ombro de Laredo, agradecida pelo apoio do brao que a envolvia.
        Os clios molhados pelas lgrimas se abriram devagar, o olhar atrado para a frieza inflexvel dos olhos de Rfaga. Sheila teve que suportar o seu olhar glido por apenas um segundo, antes que a porta se abrisse e desviasse a sua ateno.
        Desta feita, Sheila teve razo para estremecer. Dois homens vinham arrastando e carregando um terceiro para dentro da sala. Uma onda de nojo tomou conta dela ao v-lo. Estava sem camisa, o trax robusto e nu, exposto. A despeito da sua gordura, Sheila sabia que seus msculos no eram flcidos. Uma atadura improvisada envolvia a cintura larga, O tecido manchado com o seu prprio sangue.
        Agora Rfaga no podia duvidar dela, pensou Sheila, olhando para ele com amargura. Suas feies contraam-se em linhas cruis e implacveis, friamente distantes. A luz do lampio refletiu o brilho de algo metlico em sua mo. Sheila baixou o olhar e viu uma faca, a faca de Juan, aquela que usara para esfaque-lo. Rfaga deu um passo vagaroso e ameaador na direo do homem seguro pelos outros.
        A expresso dos seus olhos encheu o corao dela de um terror gelado. Rfaga ia mat-lo. Ela o sabia. Sheila at mesmo queria ver Ortega morrer; no entanto, parte dela recuava ante o que estava acontecendo.
        Quando Rfaga deu o segundo passo, o assassino de Brad deve ter-se dado conta da sua inteno, e comeou a balbuciar em espanhol. Quase choramingava. Sheila olhou para Rfaga, esperando ver o desprezo estampado nas suas feies duras. Estava parado, imvel, os ombros rgidos. Um msculo se contraa no seu maxilar.
        Houve uma mudana sutil na atmosfera da sala. Sheila sentiu que a ateno dos demais presentes se desviava para ela. Levantou os olhos para o rosto de Laredo, que olhava para ela, examinando-lhe as feies com uma expresso mista de ceticismo e severidade. Ela sentiu um arrepio gelado descer-lhe pelaespinha.
        - O que foi? - indagou, desconfiada. - O que ele est dizendo a meu respeito?
        Sheila exigiu uma traduo.
        Laredo olhou-a por um minuto, antes de responder.
        - Disse que estava de guarda do lado de forae voc veio at a porta, fazendo sinal para que eleentrasse. Sabia que no devia, mas era de noite epensou que podia haver algum problema.
        Sheila comeou a sacudir a cabea, afastando-sedo brao que lhe envolvia os ombros.
        - No! - negou com veemncia.
        - Disse que voc comeou a falar com ele - continuou Laredo. - No entendia o que voc dizia, mas achava que queria deixar o desfiladeiro e estava pedindo a ajuda dele. Como ele recusasse, voc se aproximou e deixou o cobertor cair ao cho. Depois abraou-o, e foi ento que ele perdeu a cabea. Foi a que voc pegou a faca e o feriu. Disse que foi enganado, e que voc teria fugido se no lhe tivesse batido.
        - No  verdade! - protestou violentamente.
        - Ele jura pela Santssima Virgem - replicou Laredo, secamente.
        - No  verdade! - Sheila virou-se para Rfaga. inconscientemente, cruzou o espao que os separava - No  verdade! - repetiu.
        Era imperativo que Rfaga acreditasse nela. Mas estava to distante como uma esttua de bronze a fit-la com olhos sem viso. Sabia que tanto ele quanto Laredo estavam se lembrando da vez em que tentara obter a ajuda de Laredo para fugir. Agarrando a coberta com uma das mos, Sheila acercou-se mais dele, curvando o brao  volta dos msculos da cintura dele.
        - Nem uma s palavra do que ele disse  verdade! - A voz estava rouca de emoo. - Ele veio at o nosso quarto enquanto eu dormia. Tentou me possuir  fora. Por que voc acha que lhe pedi para me abraar e me beijar?
        Algo faiscou nos olhos dele, uma luz ardente que aqueceu Sheila. O brao instintivamente envolveu as costas dela para pux-la para junto do seu corpo musculoso. O cobertor escorregou de um dos ombros, e a mo pousou na nudez da sua pele numa meia carcia. Foi ento que Juan, o seu atacante, falou de novo, e Sheila sentiu o calor indo embora do toque de Rfaga.
        - O que foi que ele disse! - indagou, colando-se mais ao corpo de Rfaga e tentando romper a barreira que ele subitamente erguera.
        - Disse que voc tambm se enrolou nele, como uma serpente. - A voz era seca, sem emoo, mas seus dedos se enterraram punitivamente na carne dela. - Disse que voc o enfeitiou como est tentando me enfeitiar.
        - Oh! - exclamou Sheila, num grito abafado de protesto.
        Tentou livrar-se dos braos dele, mas Rfaga no a soltou.
        - Voc no me enfeitia - disse em voz baixa - nem foge de mim.
        Ainda prendendo-a, Rfaga falou rapidamenteem espanhol, com os outros.
        Sheila parou de se debater. Faltavam-lhe foras para lutar contra ele, e teria sido intil, de qualquer maneira Quando Rfaga acabou, os dois homens que seguravam Juan soltaram-no. A reao do atacante foi um misto de alvio e medo. Todos, inclusive Laredo, saram em silncio da casa.
        Ela estava de cabea baixa, uma nvoa mida a toldar-lhe a Viso.
        - Voc o soltou - acusou Sheila numa voz baixa de tanta dor.
         - Ele desobedeceu a uma ordem. Por isso ser punido - declarou Rfaga.
        - E eu? - retrucou com amargura. - Tambm vou ser punida porque quase fui violentada?
        Ele exalou um suspiro impaciente e raivoso, e soltou-a abruptamente.
        - J  tarde.
        - No estou cansada. - Mas a voz soava muito cansada - E pode apostar que no vou para a cama com voc!
        - Sheila - comeou ele, com raiva.
        - Antes era seora. Agora  Sheila - interrompeu com amargo sarcasmo. - Por qu? Porque quer que v me deitar na cama com voc! Pois bem, que v  merda! - exclamou, tremendo visivelmente.
        - Estive longe trs dias imaginando se voc ainda estaria aqui quando voltasse - as narinas estavam dilatadas de raiva. - Agora estou de volta, e ainda  um inferno. Mas voc ainda  minha. Vai dormir comigo.. aqui ou no quarto, no faz diferena!
        - No ouse chegar perto de mim! - sibilou Sheila. Respirava fundo, assustada com o ar duro e implacvel do rosto dele.
        A boca dele se retorceu num sorriso frio. Com calma deliberao, comeou a despir-se, tirando as roupas e aparentemente a capa de civilizao junto com elas. O corao de Sheila batia feito louco, um pouco por medo e um pouco em resposta ao aperto sbito que sentia na boca do estmago. O corpo dele brilhava  luz do lampio como bronze duro e polido.
        Quando parou diante dela, a moa sacudiu a cabea, num protesto mudo ao que ele exigia.
        - Ponha o cobertor no cho - ordenou Rfaga.
         No, no, no! Berrava Sheila intimamente mas sentiu as mos desenrolando o cobertor do prprio corpo. A cessou a obedincia, e o cobertor escorregou-lhe das mos e formou um monte aos seus ps. Os olhos escuros dele comearam uma avaliao insolente, indo da cabea aos ps, e vice-versa.
        Ele estendeu a mo, agarrou-lhe a cintura e puxou o corpo dcil para junto do seu. Com a mo direita, segurou-a pela nuca e forou-a a levantar a cabea para encontrar os seus lbios.
        Foi um beijo duro e brutal, cheio de raiva. Chocada com a ausncia de qualquer paixo ardente, Sheila tentou resistir, mas os braos eram crculos de ferro inflexveis. No podia escapar  ameaa violenta da boca dele.
        Com uma sensualidade perigosa e cruel, entreabriu os lbios de Sheila. Os seios dela estavam esmagados contra a parede do seu peito. As mos msculas nas costas dela arqueavam-lhe os quadris parajunto dele, lanando-lhe tremores pela espinha. A seguir, ele a forou para trs e para baixo, at que ocho duro estivesse sob suas omoplatas.
        Mais tarde, Rfaga carregou-a at o quarto. Magoada e ligeiramente machucada pela posse animal, Sheila no emitiu um som quando ele a ps na cama.
        No tinha conscincia da expresso magoada, feridado seu olhar, mas Rfaga prestou ateno ao fit-la.
        Virando-se, caminhou at a cmoda e acendeuo lampio. Sheila ergueu a mo para proteger osolhos, escondendo-os, e ao rosto, da luz. Ouviu quando ele saiu do quarto. Voltou dali a segundos paraocultar a nudez dela com o cobertor que deixara cairna sala.
        - Por que toda esta gua no cho?
        Era uma pergunta que exigia resposta.
        A intimidade selvagem que terminara fazia minutos tornava difcil para Sheila assimilar a pergunta. Franziu a testa, tentando por as idias em ordem.
        - Foi... foi do banho - falou, lembrando-se finalmente. Seus olhos angustiados viram-no pegar a jarra perto da bacia. - Est vazia. Usei todaa gua.
        - Por qu? - quis saber Rfaga, erguendouma sobrancelha escura com ar satnico.
        - Por motivos bvios. - Sheila correu a motrmula pelos cabelos, agitada, e estremeceu ao selembrar do motivo desesperante. - Sentia-me suja, contaminada por... por ele - falou, sem conseguirreferir-se diretamente ao atacante. - Precisava melavar... esfregar todos os vestgios nojentos dele, mas no espero que voc compreenda como . MeuDeus, voc nem mesmo acredita em mim!
        A voz se tornou trmula ao lanar sobre ele altima frase.
        Virando o rosto para a parede, Sheila apertou opunho cerrado contra a boca, tentando engolir obolo insuportvel na garganta. Novamente ouviu Rfaga acercar-se da cama, e fechou com fora osolhos.
        - Tome - disse ele.
        Olhou para ele de esguelha. Estava lhe oferecendo os alforjes. Ela olhou friamente para eles, comlgrimas ardendo no fundo dos olhos.
        O que  isso? - perguntou.
        Ele jogou os alforjes na cama ao lado dela, depois dirigiu-se para a cmoda.
        - Comprei-lhe umas roupas, j que estava torelutante em vestir as roupas usadas de Elena.
        Sheila no chegou a acreditar nele, e abriu osalforjes para jogar o contedo na cama. Fitou asroupas que caram: uma cala Levi's, uma saia, maisoutra cala comprida, assim como vrias blusas. Osdedos entorpecidos escolheram uma blusa de sedaavermelhada para examinar mais de perto.
        - Achei que a cor iria bem com a sua alvura- disse Rfaga, suavemente.
        Ela virou-se para ele, sentindo-se perdida na escurido dominadora dosseus olhos. Mesmo estando do outro lado do quarto, Sheilapodia sentir a fora da sua presena. Libertou-se doolhar dele.
        - Onde as arranjou! - Lanou um olharpara as roupas na cama, erguendo um canto da bocacom amarga ironia. - No me diga que assaltouuma loja.
        - Comprei-as numa loja - disse ele, enfatizando o verbo.
        - Por qu? - perguntou Sheila, em tom dedesafio.
        - Porque, como voc mencionou muitas vezes, estava precisando de roupas.
        - isso  algum tipo de compensao por me manter aqui prisioneira? Porque, se for, no vai adiantar - disse bruscamente. - O que voc prefere mesmo  que eu no tenha roupa nenhuma. Assim, sempre que sentir desejo, pode me possuirsem perder tempo a tirar as minhas roupas. - Comum gesto amplo da mo, jogou as roupas ao cho. - Nem me passa pela cabea desapont-lo - concluiu, a voz cheia de sarcasmo.
        - Voc est recusando?- Rfaga a sufocava com o olhar penetrante.
        Os olhos cor de mbar da moa soltavam chispas de raiva.
        - Quem sabe eu deva jog-las na sua cara, para voc entender direito o que quero dizer. - Sheila viu a boca do homem se estreitar. - Nofinja que estava sendo atencioso; se fosse, l me teria soltado, ao invs de me prender aqui!
        Deu as costas para ela, o punho cerrado sobrea cmoda.
        - Odeia muito isto aqui, no ?
        Era uma afirmao seca, sem emoo.
        - Odiar? - Ela soltou uma risada baixa eamarga. - Que estranho voc usar esta palavra, selevarmos em conta que faz cinco minutos voc nofez amor comigo... fez dio comigo!
        - S - admitiu Rfaga, dando meia-volta para se dirigir devagar para a cama. - Possu voc com raiva, um minuto atrs.
        Parecia um enorme deus de bronze, acima dela.
        - Por qu? - Sheila sentiu a sua frieza penetr-la. - Queria acabar o que Juan comeara? A nica coisa de que eu tentava escapar era dele. No dia da sua partida eu o vi e soube que estaria esperando l fora por mim, caso tentasse fugir. Pensei que estaria a salvo se fizesse o que voc mandou, ficando dentro de casa ou saindo apenas com o outro Juan. Pensei que a sua palavra me protegeria, mas no protegeu. Quando penso no modo como ca nos seus braos quando voc voltou, sinto-me mal. No estou a salvo nem com voc. Provou isso quando me chamou de mentirosa e me violentou!
        O colcho cedeu ante o peso dele. Sheila tentara rolar para longe, mas ele a agarrou pelos pulsos, prendeu seus braos acima da cabea imobilizada, parou de lutar, esperando que ele se aproveitasse da vantagem.
        - Acredito em voc quando diz que Juan tentou estupr-la - disse com ar sombrio. - Acredito que roubou a faca dele e o esfaqueou para defender a sua honra.
        - Mas, ento, por qu? - exclamou Sheila, confusa. - Por que acreditou no que ele disse!
        - Porque acho que voc pode t-lo convidado a entrar - respondeu. - Voc devia saber que hoje era a sua ltima chance de fugir antes que eu voltasse. E sei que prometeria falsamente o seu corpo para qualquer homem que a ajudasse. J o fez antes com Laredo. - Sheila gemeu e virou a cabea. - Acho que o chamou, pensando poder control-lo, s que descobriu que no podia.
        - No chamei! Juro que no! - protestou, cerrando com fora os olhos.
        - H pouco voc disse que queria ficar livre - lembrou-lhe Rfaga friamente -, que queria fugir. Admitiu o que eu j sabia. Talvez haja um pouco de verdade nas histrias dos dois. No poderia mat-lo por desej-la, caso contrrio teria que matar-me, porque tambm sinto o desejo de possu-la.
        O calor mido de sua respirao bafejava a face de Sheila. Ela se enrijeceu ante o roar tantlico da boca sobre os seus lbios. Ele estava acomodando o corpo sobre o dela. Ela virou a cabea para se desviardo beijo leve e explorador.
        - No - protestou, dolorida. O cobertor, entre os dois corpos, arranhava-lhe a pele.
        - Este foi um dos motivos pelos quais no havia meiguice no meu corao quando a possu. - A voz estava abafada pelos cabelos dela e cheia de raiva. - O outro motivo era que sabia que Juan Ortega tinha razo quando falou que voc me tinha enfeitiado. Durante trs dias a sua imagem me perseguiu, leoa.  noite, era a lembrana da sua maciez junto a mim.
        Os dentes mordiscaram-lhe o lobo da orelha, deixando-a toda arrepiada. Esta era a percia sedutora que Sheila conhecia bem, o veludo sobre o ao. Estava sendo guiada de novo para o ato do amor, para ter satisfao, alm de d-la.
        - Voc me enfeitiou, leoa - murmurou de encontro  boca da moa, ainda com um tom de rudeza na voz -, fazendo-me desej-la.  justo que eu faa que me deseje tambm.
        
         Captulo 17
        
        Um estranho silncio enchia a casa. De p diante da janela da frente, Sheila olhou por cima do ombro. Franziu o cenho ao se dar conta de que Consuelo tinha ido embora sem o buenos das sorridente de costume. Esse silncio irritante tambm devia t-la afetado, concluiu Sheila.
        Tocou a frente abotoada da blusa. Com indiferena, Rfaga lhe ordenara que usasse as roupas que comprara. Era a ltima coisa que Sheila se lembrava de ele lhe ter dito diretamente.
        A sua indiferena no comeo e no fim da manh era um contraste escarnecedor com as atenes que lhe dedicara na noite passada. Sexualmente, ela devia t-lo enfeitiado, mas sem dvida no o enfeitiara de nenhuma outra maneira.
        De alguma forma, parecia a Sheila que o inverso era verdade. Oscilava entre o amor e o dio sempre que ele estava por perto, como um barmetro preso entre duas frentes conflitantes. Ficava se perguntando por quanto tempo mais essas duas emoes poderiam guerrear entre si at que uma sasse vitoriosa.
        O rudo de cascos de cavalos desviou a ateno de Sheila para a janela. Juan apareceu, conduzindo a gua ruana, Arriba, e o baio de Rfaga. A nuca da moa ficou toda arrepiada, de advertncia. Ela deu meia-volta e deparou com Rfaga, que havia entrado silenciosamente, de p no meio da sala. Sentiuum n de desejo no estmago, quando seus olhos seencontraram com o olhar velado, impassvel e distante.
        - Juan trouxe os cavalos. - Tentou parecercalma e natural. - imagino que vamos dar umpasseio.
        As palavras soaram desagradveis e desafiadoras.
        - No.
        - Ento, por que...
        Olhou de novo pela janela.
        - Est na hora do castigo de Juan Ortega. Osol do meio-dia  quente, e  uma longa caminhadaat o local. Achei que preferiria cavalgar - declarouRfaga. Um brilho sardnico luziu nos olhos dele aoacrescentar: - Quer v-lo sendo castigado?
        - Eu... - Sheila hesitou. No tinha certezade como se sentia exatamente, exceto de que queriaapagar da sua mente toda a lembrana do ataque deJuan.
        - Ontem voc estava ansiosa o bastante paraenfiar uma faca nas costas dele, e mais tarde paraque eu o matasse por voc. Ficou de corao molecom o nascer do sol?
        Sheila leu nas entrelinhas. Rfaga a estavaacusando de ter a conscincia culpada, de ter convidado Juan a entrar na casa sem estar preparada paraenfrentar as conseqncias. Estava insinuando que,  luz do dia, poderia sentir-se igualmente culpadapelo que acontecera devido ao seu suposto convite.
        - No, no fiquei - falou, brusca e iradamente. - Gostarei de v-lo sendo castigado.
        Ele inclinou a cabea morena levemente, numaaceitao arrogante da deciso.
        - Os cavalos esto l fora.
        Sheila passou por ele e cruzou a porta. Um Juan calado e de fisionomia solene entregou-lhe as rdeasda gua. Os dedos de Rfaga tocaram-lhe o cotovelopara ajud-la a montar. Ela retirou o brao, rejeitando desdenhosamente a oferta.
        J montada, os olhos faiscantes notaram queJuan fitava a marca roxa no seu maxilar. Vira a mancha no espelho e sabia como estava feia.
        - La seora est bem? - perguntou Juan, com uma meiga preocupao.
        - Estou, sim.
        Mas a resposta foi mais brusca do que pretendera que fosse.
        Ao cerrar os dentes com fora, sentiu uma pontada de dor ao longo do maxilar. Dando meia-voltacom a gua, Sheila conduziu o animal na direo dogrupo distante de casas.
        Sabia o destino... aquela depresso do terrenoque ficava atrs do curral. Com o canto do olho notou que Rfaga trouxera o baio para cavalgar ao seulado, mas no acusou a sua presena, nem com umapalavra, nem com um olhar.
        No havia um nico sinal de vida ao passarempelas casas de adobe. Quando chegaram  depresso, Sheila descobriu a razo de todo o silncio. Todos os homens, mulheres e crianas que moravamno desfiladeiro estavam ali. Em meio ao povo, haviapouca conversa. Apenas as crianas menores brincavam, as que no sabiam o que ia acontecer.
        Na beira do buraco, Sheila parou a gua, e Rfaga fez o mesmo com o cavalo. imediatamente, tornaram-se o centro de ateno de todos os presentes.
        Sheila viu as cabeas virarem-se na direo deles, e Sentiu o silncio ficar mais pronunciado.
        Laredo estava no centro do terreno, perto dos dois postes, junto com mais dois homens. Moveu bruscamente a cabea ao ver Sheila ao lado de Rfaga. Afastou-se dos dois homens, e veio com passadas longas ao encontro deles.
        - Mas que diabo ela est fazendo aqui? - indagou, olhando zangado para Rfaga.
        A expresso que cobria o rosto de Rfaga nosofreu a mais leve alterao.
        - A Sra. Townsend quis vir.
        Sheila empalideceu ante a fria formalidade. Passara de Sheila a seora, e agora era chamada de Sra. Townsend. Se ele estava procurando provar que estava envolvido com ela apenas fisicamente, no poderia ter escolhido um meio melhor.
        - Aqui no  lugar para ela - insistiu Laredo. - No h motivo para que veja isso. Deixe-a ir, Rfaga.
        - No mandei que viesse - respondeu Rfaga, sem se alterar. - Ela fica ou vai embora, segundo sua prpria opo.
        Laredo virou-se para ela, os olhos azuis faiscando.
        - Pelo amor de Deus, Sheila, v embora daqui. No vai querer ver isso. Mando Juan ir comvoc.
        - Voc est se esquecendo. - Virou-se paraque ele pudesse enxergar o machucado que enfeavaa sua face e o maxilar esquerdos. - Tenho amplosmotivos para querer v-lo castigado, Laredo.
        Ele inspirou fundo, baixando a cabea, nummeneio exasperado.
        - Ou voc  burra ou teimosa. Toro paraque saiba o que est fazendo.
        Soltou uma fasca dos olhos azuis em sua direo, antes de dar meia-volta.
        Rfaga deu uma ordem baixa em espanhol. Laredo parou e foi segurar as rdeas do baio para Rfaga desmontar. Ele no olhou de novo para Sheila.
        Mas ela sentiu o escrnio dos seus olhos vtreos antes de Rfaga afastar-se dos cavalos.
        As atenes desviaram-se para o centro do vale.
        Pela primeira vez, Sheila notou dois homens segurando o seu atacante. Estava plido, por baixo datesta morena, e os olhos escuros ficaram dardejando, nervosos, para os dois postes. Quase podia ver asgotas de suor, provocadas pelo medo, a lhe escorrerem pelo rosto. Embora estivesse imvel, Sheila sabiaque se encolhia todo por dentro. Olhando para ele, ainda sentiu nojo, porm pouco medo.
        Aos poucos, deu-se conta de que todos fitavamRfaga,  espera. O olhar desviou-se para ele, quese encontrava a alguns metros de distncia. Estavade costas para ela, mas era como se sentisse a atenoe estivesse  sua espera. No instante em que olhoupara ele, Sheila ouviu-o comear a falar em espanhol.
        A voz era calma e baixa, mas atingia a todos, semesforo.
        Laredo estava junto  cabea do baio, perto deSheila, que se debruou para a frente na sela, semdesviar o olhar de Rfaga.
        - O que ele est dizendo? - perguntou.
        Laredo virou a cabea ligeiramente, mostrandoo perfil, sem desviar a ateno de Rfaga.
        - Est explicando por que Juan deve ser punido.
        Ao acabar a explicao, Rfaga ficou calado, dep. O olhar de Sheila percorreu o povo reunido volta do buraco. Todos se entreolhavam, como que espera de alguma coisa.
        - O que est acontecendo agora! - Sheilaindagou de novo a Laredo.
        - Se algum quiser protestar contra a deciso dele, tem o direito de falar agora e defender Juan.
        - Que democrtico - escarneceu secamente, e recebeu um olhar de repreenso de Laredo.
        A um gesto de cabea de Rfaga, dois homensconduziram Juan para os postes. Colocando-o entreeles, comearam a amarrar-lhe os braos, esticando-oentre os postes. Quando acabaram, um dos homensrasgou a parte de trs da camisa de Juan.
        Um movimento perto dos postes chamou a ateno de Sheila. Os olhos se arregalaram ao ver o chicote frouxamente enrolado na mo de um homem.
        No imaginava que tipo de castigo Juan receberiamas no podia acreditar que fosse um aoitamentopblico.
        Hipnotizada, viu o homem desenrolar o chicote, deixando-o cair no cho  sua frente. Ergueu o brao. Sheila ouviu o estalar do aoite no ar, e viu o corte que ele fez nas costas de Juan.
        Um risco vermelho apareceu na carne, entre asomoplatas e a atadura que envolvia a parte inferiordas costas, onde Sheila o havia esfaqueado. O corpodele se sacudiu convulsivamente de dor.
        Estalar e cortar. Estalar e cortar. Aquilo se repetiu inmeras vezes. Um emaranhado de riscos vermelhos cobria-lhe as costas. O horror que Sheila sentia mantinha sua ateno presa  cena. No conseguiadesviar os olhos do que acontecia, ou se tornar surdaaos gritos estrangulados do homem. Dali a pouco, eleno emitia mais nenhum som, ao desabar, inanimado; s no caiu ao cho porque estava preso aospostes.
        O chicote foi abandonado ao solo. A fria sinuosa e violenta se esgotara. Um segundo homemcaminhou at os postes, com uma faca brilhando nasmos. A lmina cortou as cordas que sustentavamo corpo. Ela o viu desabar no cho e ali jazer, inerte.
        Uma fora inexplicvel subitamente atraiu seuolhar para Rfaga. As feies taciturnas estavam voltadas para ela, o olhar examinando, impassvel, o rosto de Sheila. Seu estmago deu voltas. Sentiu queia vomitar.
        Com uma brutalidade que no lhe era comum, Sheila puxou as rdeas. A gua quase empinou aotentar aliviar a presso do freio. Depois que a ruanadeu as costas ao vale, Sheila esporeou o animal, quase caindo da sela quando a gua disparou.
        Protegida pelo bosque, Sheila desmontou antesque a gua parasse completamente, depois caiu dejoelhos. Os engulhos do estmago s pararam quando no havia mais nada para botar para fora. Ficouali ajoelhada, molhada de suor frio, dbil e mortalmente plida.
        Finalmente, conseguiu que as pernas trmulasa sustentassem, mas no teve foras para montarde novo. Agarrando-se  sela para manter o equilbrio, caminhou ao lado da gua, oscilando enquantosaam do meio das rvores.
        Tenho que sair daqui. Tenho que sair daqui.O refro desesperado ficou martelando no seu crebro, at que a presso ficou quase insuportvel.
        Adiante, os olhos vidrados viram o reflexo brilhante do sol no lago formado pelo riacho. Sheilacambaleou para dentro da clareira, caindo de joelhos ao lado do lago. Queria jogar gua no rosto, mas as mos lhe tremiam demais.
        Algum estava ao seu lado. Virou-se para verRfaga inclinando-se sobre ela. Antes que pudesserecuar, ele j estava encostando um pano molhadono seu rosto, limpando o suor da testa e do lbiosuperior. Os clios se cerraram ante o frescor suavizante. E Sheila j no se importava mais com o tipode monstro que estava lhe oferecendo aquele alivio.
        - No lhe agradou v-lo punido como pensou, no?
        Rfaga enxaguou o pano e umedeceu o pescoo dela.
        - Foi brbaro e desumano - disse ela, e estremeceu ante a imagem da carne retalhada que lhe veio  mente.
        - Todo castigo  desumano - replicou ele, com um vestgio de severidade. - Qual  a alternativa?
        - No sei - resmungou Sheila.
        - Se voc encontrasse um castigo humano, resolveria um grande problema no mundo.
        Enrolou O pano molhado na nuca de Sheila, edeixou-o ali. Segurando-a pelos ombros, colocou a moa de p. Quando ela abriu os olhos, viu que eleos fitava profundamente, uma escurido enigmticanos prprios olhos.
        - Talvez voc no devesse ter assistido a isso- disse Rfaga, em voz baixa.
        Estava certa de que no deveria, mas isso denada adiantava, agora. Ainda se sentindo fraca, Sheila oscilava, sem firmeza alguma. Rfaga tomou-a nosbraos, como a um beb. Ela no ofereceu nenhumaresistncia quando ele a levou para casa.
        
        A cena do castigo a atormentou durante dias. Certa noite, Sheila acordou de um pesadelo, e Rfaga confortou-a como se fosse uma criana assustada, segurando-a bem junto de si e acariciando seuscabelos at que os tremores cessassem.
        Durante o dia, ela passava grande parte dotempo imersa em pensamentos, considerando a vida, Seus valores e contradies. O tempo todo, uma vozinha no fundo da sua cabea ficava repetindo: Voc tem que sair daqui, como se soubesse de algumacoisa que ela prpria desconhecia.
        Uma semana depois, ela e Rfaga estavam dando um passeio a cavalo numa gostosa tarde de primavera. Inesperadamente, ele a conduziu pela trilha inclinada que levava para fora do desfiladeiro. Aocarem da garganta, virou o cavalo para a direitapara seguir uma pequena trilha. Sheila deixou Arriba vontade, para que a gua subisse por si mesma apicada ngreme, que terminava num plat estreito erochoso, pontilhado de rvores ans. Rfaga desmontou do cavalo, e Sheila acompanhou-lhe o movimento, seguindo-lhe o exemplo quando afrouxou a sela paraaliviar o cavalo baio depois da longa subida. Largando as rdeas no cho, caminhou em direo salincia rochosa onde Rfaga se encontrava.
        A salincia oferecia uma vista ampla e limpado desfiladeiro l embaixo e dos picos montanhososda cordilheira Sierra Madre, que se estendia para onorte. Meio tonta devido  altitude, Sheila sentou-senuma pedra para olhar a paisagem e a aldeia no desfiladeiro.
        Seus pensamentos logo se voltaram para a presena sempre dominadora de Rfaga. Estava pertoda beira da salincia, com um dos joelhos ligeiramente inclinado, enquanto a outra perna sustentavaa maior parte do seu peso. As dobras do ponchoocultavam grande parte do corpo esguio e musculoso.
        A ateno de Sheila voltou-se para o perfil dele. Usava o chapu bem abaixado sobre a testa, cobrindo o cabelo negro e espesso. Os olhos escuros fitavam a distncia. A pele cor de bronze se esticava sobre as mas do rosto, depois descia, encovada, ato queixo firme.
        O vinco forte que ia do canto do nariz classicamente reto at o comeo da boca acentuava a linha reta e dura dos lbios masculinos e o empinar natural do queixo. Era agressivamente msculo, indomvel, confiante em si mesmo e no que queria. Sheilano pde deixar de se perguntar como chegara a setornar assim.
        - Quem  voc, Rfaga? - perguntou, inclinando a cabea para o lado.
        Ele se virou em sua direo, uma sobrancelhaerguida com ar indagador, como se tivesse se esquecido da presena dela. Os olhos velados se fixaramnos dela por um minuto.
        - Sou um homem - respondeu simplesmente.
        Era uma afirmao despretensiosa. Sheila ficoupensando que no conhecia mais ningum que tivesse respondido quela pergunta daquele jeito.
        Todos a quem conhecia se teriam identificado pelaocupao ou pelas realizaes, elaboradas para dar-seimportncia. Mas Rfaga no o fez.
        - Mas quem  voc! - insistiu. - Qual oseu nome verdadeiro? De onde vem? O que fez!Por que est aqui?
        Ele retorceu a boca, divertido, como se achasseque as perguntas eram tolas.
        - Que histrias os outros contaram a meurespeito?
        - Os outros? Quer dizer Juan e Laredo? Contaram-me vrias histrias, cada uma diferente daoutra - admitiu Sheila. - J esteve preso?
        - J.
        Novamente uma resposta sem explicao.
        - Por qu?
        - Por ter cometido um crime.  o motivo decostume.
        Havia um leve ar de riso na sua boca.
        - Que crime?
        - E isso importa! - retrucou Rfaga. - Cometi um nmero suficiente de outros, desde ento, para fazer o primeiro parecer insignificante.
        Sheila se deu conta de que era intil insistir napergunta. Ele no tinha inteno de lhe contar, e eraesperto demais para deixar escapar alguma coisa.
         - E voc fugiu? - perguntou, mudando dettica.
        - S.
        - Por qu?
        - Nunca esteve na cadeia, ou jamais faria talpergunta - Examinou-a, impassvel. - Ficar enjaulado como um animal  uma tortura igual  agonia fsica do aoite, especialmente quando aqueles aquem se ama tambm tm que suportar a vergonhado castigo. As condies so piores se nem voc nemsua famlia tm dinheiro para comprar as pequenasliberdades. Ento, voc vive mesmo como um animal. Tem havido melhorias, porm...
        Alou os ombros, ligeira mas expressivamente, e deixou o resto por dizer.
        A ateno de Sheila fora despertada pela fraseaqueles a quem se ama.
        - Tem famlia? Irmos ou irms?
        - Tive famlia.
        Rfaga virou-se para as cordilheiras.
        - Teve? Esto mortos?
        - Para mim, esto - respondeu, com totalausncia de emoo. - No posso voltar para elessem manch-los com aquilo em que me tornei.
        - Sente saudades deles - disse Sheila, semsequer se dar conta de que falara em voz alta.
        - No os conheo mais, e eles no me conhecem mais. - Os olhos escuros fixaram-se nos dela. - No podemos voltar ao que j fomos. Um momento que passou no pode ser recuperado. S umtolo o tentaria.
        - Como se tornou o que ? Um... - Buscou o termo certo. Bandido e fora-da-lei noeram os termos apropriados para ele, embora ela soubesse que eram parcialmente exatos. - Um mercenrio? - concluiu, finalmente, ainda insatisfeita com a escolha.
        - Um capricho do destino. Um homem quefugira junto comigo tinha deixado um amigo l napriso. Queria voltar para peg-lo, e me ofereceuuma pequena quantia para ajudar. Eu no tinha dinheiro e no podia me arriscar a voltar para a minhafamlia. Tinha trs opes: passar fome, roubar ou ajud-lo.
        - Se tivesse que fazer tudo de novo, aindafaria a mesma escolha? 
        - Quien sabe? A vidano permite que sevolte atrs nos caminhos, nem que se mude de direo. O hoje pode mudar O amanh, mas no o ontem.
        Virando-se, afastou-se da beirada e foi agachar-se  curta distncia de Sheila. Movia o braopor baixo do poncho. Segundos mais tarde apareceu um charuto fino e escuro entre seus dedos. Depois de coloc-lo entre os lbios, riscou um fsforo numa pedra e usou ambas as mos para proteger a chama de um vento implicante. Aquela mesmabrisa logo levou o aroma pungente do tabaco queardia ao nariz de Sheila.
        - Voc ... foi um revolucionrio? - perguntou ela, afastando uma mecha do cabelo clareadopelo sol do canto da boca.
        Os olhos escuros fitaram-na, brilhantes.
        - Todo mundo no Mxico  revolucionrio. Ainda se podem ouvir os gritos de viva la revolucin! nas ruas, na hora da fiesta.  a mesma coisatanto aqui como no seu pas. Basta a primeira armapela liberdade ser disparada para que a bala se torneimortal. - Rfaga fez uma pausa tragando de leveno charuto, depois soltando um fino fio de fumaa. Rolou o charuto entre os dedos, examinando-o comose o achasse interessante. Sheila ficou calada, pressentindo que ele estava pensando na pergunta inicialantes de responder a ela diretamente. - Talvez quando eu vim para as Sierras, tenha sido com ossonhos de um jovem de corrigir injustias.
        Sheila percebeu o cinismo, o auto-deboche secona voz.
        - O que aconteceu a esses sonhos? - indagou suavemente.
        - Foram vistos de longe, talvez. Vocs tmum ditado... - o olhar escuro dirigiu-se daponta ardente do charuto para o rosto dela - sobrea floresta e as rvores.
        - No se enxerga a floresta por entre as rvores - disse Sheila, com um aceno de cabea.
        - Si,  isso mesmo - concordou Rfaga. - Vi que a liberdade no  conquistada de arma empunho. S  encontrada quando a arma  baixada. Eaprendi o que homens mais sbios sempre souberam... que as mudanas duradouras levam tempo.
        - E o Mxico? - indagou.
        - Est acontecendo devagar. - A boca seretorceu. - Mas ainda temos homens que trabalhammuito e ganham pouqussimo, e vo encher a cara nobar mais prximo para afogar as frustraes, enquanto suas mulheres vo rezar nas igrejas.
        O leve desprezo no ltimo comentrio forouSheila a perguntar:
        - No acredita em Deus?
        - Acredito que haja um deus - admitiu Rfaga. - No acredito que um deus seja responsvelpela maneira como vivemos as nossas vidas. Cadaum d seus prprios passos.
        Pondo-se de p, caminhou de volta  beiradado plat. A fumaa do charuto redemoinhava numfio cinzento e fino, carregado pelo vento. Ele pareciadistante. Embora no tivesse respondido especificamente s perguntas dela, havia exposto alguns dosseus pensamentos. Agora, retraa-se de novo; seu ar distante voltara.
        - Se no tem mais perguntas... - jogou a ponta do charuto no cho, esmagando-o como salto da bota - est na hora de descermos.
        - H mais uma pergunta que quero lhe fazer - disse Sheila, a voz serena, mas cheia de determinao.
        - Qual ?
        - Quando vai me deixar partir!
        Fitou-o atentamente, mas no havia um lampejo de emoo por trs da aparncia atraente.
        Sem responder, caminhou na direo dos cavalos que pastavam nos tufos de grama que cresciamteimosamente no terreno rochoso. Pegou as rdeassoltas e conduziu-os para onde Sheila estava. Umaluz dourada brilhava resolutamente nos olhos dela.
        No ia deixar que ele ignorasse a sua pergunta.
        - Houve tempo de sobra para que tivessempago o meu resgate - ressaltou ela. - Por que nome soltaram?
        - No se recebeu dinheiro algum - disse,estendendo para ela as rdeas da gua.
        - No acredito em voc. - Sheila sacudiu acabea. - A essa altura meu pai j teria conseguidopagar praticamente qualquer quantia. Quanto foique pediram!
        Inconscientemente, ela tomou as rdeas das suasmos. Rfaga se afastou, caminhando para o ladoesquerdo do baio. Jogou as rdeas sobre o pescoodo cavalo e ergueu o estribo para apertar a cilha.
        Sheila agarrou-lhe o brao, os dedos se enroscandona fazenda do poncho.
        - Quanto! - repetiu com voz trmula.
        Ele olhou para ela, os olhos escuros impassveis, refletindo apenas a sua imagem, e nada dosprprios pensamentos.
        - No se pediu dinheiro algum.
        Sem soltar o seu brao musculoso, Sheila jogou a cabea para trs. Os msculos da sua garganta se contraram e ela engoliu em seco.
        - O que quer dizer com isso!
         - Exatamente o que disse - replicou Rfaga, seriamente. - No se exigiu dinheiro algum dos seus pais.
        - Mas... - Estava confusa, quase atordoada. Passou a mo nos olhos, como que para desanuviar a viso, para poder enxergar e pensar com clareza. - Por qu?
        Indo at o lado esquerdo da gua, ele apertou a cilha da sela de Sheila. Estava ignorando a pergunta, fingindo no t-la ouvido. No, deu-se conta amoa, no estava sequer fingindo. Ouvira-a, mas notinha importncia.
        - No vai me soltar, vai? - perguntou, comvoz tensa e engasgada.
        Ele a segurou pela cintura. Sheila estava entorpecida demais para protestar quando a colocou nasela. Passando as rdeas sobre o pescoo da gua,deixou-as pousar no aro dianteiro. Ela o observoudirigir-se para o baio e montar tranquilamente.
        - No vou a parte alguma at que voc meresponda - avisou Sheila, desviando a gua da trilha.
        Ele virou o baio para ficar de frente para ela,fazendo-o andar at que a perna roasse na dela. Asfeies impassveis encontraram o olhar desconfiadoda moa.
        - Voc vai ficar - disse Rfaga vivamente,fazendo uma pausa de um segundo para acrescentar:- por algum tempo?
        - Por quanto tempo? - insistiu Sheila. - At se cansar de mim? E ento, o que far! Vai meentregar aos seus homens? Vai me vender?
        A boca dele se estreitou numa linha severa.
        - Voc faz perguntas cretinas demais.
        - Cretinas! - Sua voz falhou. - Por que cretinice querer saber o que vai me acontecer quandovoc estiver cheio de mim?
        - Quando esse dia chegar, ser livre para partir - disse com brusquido.
        - Espera que eu acredite nisso?
        - Dou-lhe a minha palavra.
        A voz era fria e spera, o tom profundo.
        O brilho criminoso dos olhos dele desafiava Sheila a contestar a afirmao. Ela engoliu as palavras, duvidando poder acreditar em qualquer coisa queele lhe dissesse naquele momento.
        - Eles... os meus pais sabem que estou viva? - perguntou.
        - No sei.
        - Mas voc tem que saber - insistiu Sheila. - A sua rede de informantes lhe teria contado seestivessem fazendo perguntas a meu respeito.
        - No soube de nada.
        - No pode mandar-lhes notcias! - Seusolhos ficaram cheios de lgrimas, ao se dar conta deque seus pais provavelmente acreditavam que estivesse morta. Depois de tanto tempo, o que mais poderiam pensar! - No pode ao menos dizer-lhesque estou bem?
        - No  possvel.
        -  possvel! - Sua voz tremia traioeiramente. - Laredo j me contou inmeras vezes queh meios de descobrir as coisas. Esses mesmosmeios podem ser usados para avisar os meus pais.
        - No funciona ao inverso - disse Rfaga, laconicamente.
        - Meu Deus, voc no tem nenhum sentimento! - O aperto na garganta tornava-lhe dolorosa arespirao. - Deve imaginar o que eles esto sofrendo... sabendo que posso estar morta, mas semsaber ao certo se estou ou no.
        - Tambm seria doloroso para eles saber que est viva e no saber onde est ou poder entrar em contacto com voc - ressaltou ele, rudemente.
        - Por favor, Rfaga, por favor, mande-lhes notcias - suplicou ela.
        - No  possvel. - Tirou as rdeas da sua mo, recuando o baio e virando-se para conduzir a gua ruana. - No vamos mais discutir o assunto.
        - Deus, como odeio voc! - exclamou ela, respirando toda trmula, sabendo que era apenas a parte negra de uma emoo mais profunda.
        - J disse isso muitas vezes - escarneceu ele, friamente. - Suas palavras esto comeando a se tornar inspidas, de to repetidas.
        
         Captulo 18
        
        As notas reconfortantes do violo faziam umaserenata suave para a luz das estrelas do lado de forada janela. Sheila tentou ignorar a cano, o pensamento voando como sempre, nas ltimas semanas, procurando um jeito de fugir.
        No havia esperanas com Rfaga presente. Elea mantinha constantemente ao seu lado, levando-apara toda parte, cnscio de sua existncia em todosos minutos, como se soubesse exatamente o que sepassava na sua cabea. Sheila estava contando acharuma oportunidade quando ele partisse para invadira priso que fora inspecionar.
         medida que os dias se transformavam em semanas e Rfaga no dava sinal de marcar o ataque, Sheila comeou a ficar ansiosa.  noite, na hora dojantar, perguntara com falsa naturalidade quando elepartiria.
        Fora preciso cada grama do seu autocontrolepara no reagir quando ele lhe disse, com a mesmanaturalidade, que no ia haver ataque. O prisioneiroj fora julgado, e ia ser transferido para uma prisoamericana, para cumprir a sentena\.
        Sheila voltava  estaca zero, e todos os seusmovimentos pareciam estar \bloqueados. No havia sada. E ningum para ajud-la.
        A ltima nota do violo se esvaiu no silncio, enchendo o aposento de uma quietude significativa. Uma fora irresistvel fez que Sheila olhasse por cimado ombro. O pulso se acelerou ao notar o brilhoausente no olhar atento, vigilante de Rfaga. Sentiuum impulso fortssimo de se dirigir a ele, no parasuplicar que a libertasse, mas para sentir o fogo ardente do seu abrao.
        Era sempre assim. O poder que exercia sobreseu corpo era inquietante. Cada vez que a possua, Sheila redescobria o xtase puro da sua posse. Rfagadominava totalmente os seus sentidos; podia ergu-la a pncaros de paixo que ela nem sabia existirem.
        O violo foi deixado de lado. Com graa felina, Rfaga se ps de p e cruzou a distncia que o separava de Sheila,  janela. Ela se perdeu no fogo misterioso dos seus olhos. Embora no a estivesse tocando, podia sentir a percia sedutora. Dedos fortese esguios envolveram a carne macia dos seus braos.
        Sheila sentiu os ossos se derretendo, quando ele aatraiu para junto de si. Seu corao martelava feitolouco, contra as costelas.
        As pulsaes alucinadas tornavam uma piada aidia de fuga. Estava apaixonada por ele. Provavelmente j h muito tempo.
        O corao se lembrou de quem ele era, o chefede um bando de renegados. Mantinha-a presa, usava-a como sua mulher sem se importar com a suavontade. Mas Sheila sabia de tudo isso. Sabia hbastante tempo, e no fazia diferena. O coraonunca era lgico ou sensato.
        A mo dele afastava a gola da blusa da moa, enquanto seus lbios duros buscavam o local maissensvel do ombro. Um tremor delicioso percorreu-lhe a pele quando ele o encontrou. A luta interiorentre o que era sensato e o que era realidade acabou. Desta feita o amor venceu, quando Sheila arqueoua espinha para dar-lhe maior acesso s partes queexplorava.
        No demorou e ele a tomou nos braos e alevou para o quarto. Desta vez, deitada nua ao seulado, Sheila entregou-se totalmente. Na doura daentrega, encontrou a realizao do amor. No dia seguinte pensaria nas consequncias do seu envolvimento emocional. Naquela hora curtia loucamente ofogo apaixonado da posse.
        Mas a razo chegou nas asas do medo. O ltimobastio de defesa fora rompido, e o corao de Sheilano mais lhe pertencia. Vivia apavorada de que eledescobrisse o quanto estava fascinada por ele. Nohavia futuro para o seu amor. Sheila sabia que tinhaque fugir de Rfaga enquanto ainda lhe restava umachance de esquec-lo.
        
        Rfaga tocou-lhe o brao, e Sheila deu um pulo, os olhos arregalados virando para ele, para ver se elepodia adivinhar o que ela estivera pensando. Umasobrancelha escura arqueara-se zombeteiramente aover como ela recuara to violentamente ao toque.
        - Disse que queria cavalgar esta tarde. Juan trouxe os cavalos - disse-lhe, numa voz divertidae seca.
        - Que bom! - retrucou tensamente.
        Sheila tremia muito. Enfiou as mos trmulasno fundo do bolso da cala Levi's para ocult-las doolhar atento de Rfaga. Passou ao largo dele, comcuidado, evitando o contacto desnecessrio. Estavavivendo com os nervos  flor da pele. Aquilo nopodia durar muito.
        A gua ruana relinchou, ante a aproximao deSheila, jogando o focinho malhado para a frente, paraque a maciez de veludo fosse acariciada. Sheila fez-lhe a vontade, os msculos tensos ao redor dos lbios relaxando-se num sorriso.
        - Al para voc tambm, Arriba - murmurou, vendo a gua empinar as orelhas ao ouvir o seunome. - Pronta para uma corrida, no ?
        Juan debruou-se na sela para entregar as rdeas a Sheila. Segurando-se no aro, ela botou o pno estribo e montou sozinha, antes que Rfaga pudesse oferecer-lhe qualquer ajuda. Ele tomou as rdeas do baio das mos de Juan e caminhou at oflanco do animal, para montar.
        A mo se fechou sobre o aro da sela. Olhandopor sobre a patilha, Rfaga viu Laredo vindo emsua direo, em largas passadas, e esperou. Sheila notou a urgncia no caminhar de Laredo e escutou, curiosa, o dilogo em voz baixa, em espanhol, entreos dois.
        Depois de um aceno impaciente de cabea, Rfaga saltou da sela, amarrando o baio ao poste maisprximo, antes de lanar um olhar para Sheila.
        - Preciso fazer uma coisa - disse-lhe. - Passeie com Juan. Depois me encontrarei com vocs.
        - Claro - murmurou Sheila. O sorriso quelanou a Juan era trmulo. Seu estmago pareciacheio de ns. Vamos?
        - S - concordou ele, com um amplo sorriso, e virou o cavalo na direo do prado onde os cavalose a pequena quantidade de gado pastavam.
        Sheila estalou a lngua para Arriba, e a guaruana se ps a caminho, ansiosa. Cnscia dos olhosescuros que observavam a sua partida, manteve orosto rigidamente voltado para a frente, recusando-se a olhar para trs, embora soubesse que era o queRfaga estava esperando. Juan cavalgava a passo como cavalo, e Sheila no fez nenhuma tentativa de apressar o ritmo.
        - A seora est preocupada com alguma coisa, no?
        A voz, de sotaque muito forte, estava cheia deinteresse ao olhar para o rosto angustiado dela.
        - No. No, claro que no.
        Repetiu a segunda negativa mais enfaticamente, deu uma leve esporeada para incitar a ruana a meiogalope prado afora.
        Vacas irritadas saam do caminho. Um bezerrosaiu correndo, a cauda levantada bem alto no ar. Agua de pernas longas dava passadas compridas;mesmo a meio galope, comeou a se distanciar damontaria mais lenta e robusta de Juan. Sheila olhoupor cima do ombro, sabendo que ele logo forariao cavalo a galopar, se ela se distanciasse muito.
        Noutras pocas mais despreocupadas, Sheila teria zombado dele por causa da lentido do seu cavalo.
        Naquele dia, apenas ficou observando, com um olhardistrado... pelo menos, o olhar era distrado, atver o cavalo de Juan tropear. Mais uma passada e elecaiu para a frente, indo ao cho.
        Seus olhos espantados viram Juan livrar-se dasela, enquanto o animal caa pesadamente ao solo. Imediatamente, Sheila deu meia-volta com Arriba, para correr para junto do companheiro cado. Juan j estava de p e andando quando ela o alcanou.
        - Est bem, Juan ? - indagou, ansiosa.
        - S - respondeu, distante, enquanto exortava o cavalo cado a se levantar.
        Depois de dar chutes e agitar as pernas, ocavalo apavorado finalmente se levantou, mostrandoO branco dos olhos, sacudindo a cabea nervosamente. O animal ficava mudando de posio, poupandoa perna direita dianteira.
        - Est ferido - disse ela, mas Juan j tinhapercebido, e corria a mo exploratria sobre a perna, falando baixo e carinhosamente com o cavalo, emespanhol, para acalm-lo. - Est muito ruim?
        - ... - Juan hesitou, franzindo a testa e concentrando-se para encontrar a palavra inglesa certa - uma toro feia, acho.
        Sheila soltou um profundo suspiro de alvio.
        - Que bom. Por um momento temi que...No terminou a frase.
        - Terei que lev-lo de volta ao curral, seora- disse ele, e a expresso era de quem pedia desculpas pelo passeio ter que acabar to cedo.
        - Tudo bem, Juan, compre...
        Tambm no terminou essa frase.
        O pensamento atingiu-a como um raio. Essa erajustamente a oportunidade pela qual estava esperando, o momento exato para fugir. O cavalo de Juan estava manco. Era impossvel para ele deter Sheila, ou sair em seu encalo.
        Sem se dar chance de pensar uma segunda vez, girou a gua, dirigindo-a para a trilha inclinada queconduzia para fora do desfiladeiro. Seus olhos estavam cheios de lgrimas, e ela no tinha a menor idiade por que tinham brotado.
        - Seora! - chamou Juan, surpreendido. Elaenfiara as esporas nos flancos da gua, mas aindasegurava com firmeza o freio. A ruana saltou parao lado, saltitando e empinando, sem saber a qual dasordens obedecer. - Seora! No v! No, seora!
        Seu queixo tremia enquanto olhava por sobre oombro. Podia enxergar o ar de medo desesperadono rosto de Juan, que corria na sua direo. Debruou-se para a frente na sela, deixando o freio livrepara Arriba, enquanto chicoteava as ancas da guacom as pontas das rdeas.
        - Volte!
        Mas os gritos de Juan j se desvaneciam. A guadisparava encosta acima, os cascos fazendo voar pedaos de rochas e poeira. Sheila olhou para trs umavez, quase no topo, e viu Juan correndo pelo pradopara dar o alarme.
        Cruzando a garganta, Sheila guiou a gua paradescer a montanha, depois deixou-a  vontade. Havia uma pequena trilha ladeada de rvores, que descia sinuosa e tortuosamente. Sheila agarrou-se bemao pescoo da gua, baixando a cabea e desviando-se dos galhos que tentavam derrub-la da sela.
        Os troncos espalhados pelo caminho reduziram, velocidade a um meio galope, a gua fazendo mudanas fluidas de direo a cada curva da trilha. Parecia que a descida no acabava nunca. Quando osolo ficou plano, a gua passou a trotar, bufandoforte, as narinas bem dilatadas para aspirar o ar.
        O impulso natural de Sheila foi chicotear oanimal para faz-lo galopar, sabendo que Rfaga logoviria atrs dela. O bom senso no deixou que o fizesse. Ainda havia um longo caminho a percorrerpara se atingir qualquer tipo de civilizao. Era preciso conservar as foras da gua.
        Quando permitiu a Arriba que cavalgasse a passo, sentiu um vigor reconfortante nas largas passadasda ruana. No vale da montanha, Sheila virou para osul, tomando o caminho menos acidentado. Para oleste, havia mais montanhas para se atravessar, oque significaria uma velocidade menor e o esgotamento da gua. O vale se estendia para o norte, mas, ao que lhe constava, a terra era irregular e estril, eescassamente povoada. O sul era a escolha certa. Havia vilas e cidades, campos de minerao e de cortede madeira. Alm disso, o terreno do vale era relativamente plano. Daria  gua rpida uma chance deusar a velocidade para se distanciar de qualquer perseguidor.
        Olhando por cima do ombro, Sheila no pdever ou ouvir ningum a segui-la. A imagem de Rfaga lhe veio  mente, e seu corao se apertou desaudade. Sacudiu a cabea para afastar a imagem.
        Sheila acariciou o pescoo mido da ruana. Seguiram em frente, alternadamente a meio galope, a trote e a passo, Sheila no tinha idia de quantos quilmetros tinham viajado, nem quanto tempo sepassara. O sol comeara a se pr a oeste. Restavamapenas algumas horas de luz do dia.
        Foi ento que alguma coisa alertou Sheila. Virou-se para ver meia dzia de cavalos e cavaleirosgalopando diagonalmente na sua direo. Reconheceu Rfaga instantaneamente. Por uma frao de segundo pode apenas fit-los, incapaz de reagir.
        Esporeou os flancos do animal, e este disparou. Em duas grandes passadas, a gua estava galopando. Adiante, Sheila enxergou uma extenso de terra longa e muito plana. Se pudesse chegar at l, sabia quea gua velocssima deixaria os outros cavaleirospara trs.
        Mas Rfaga tambm devia t-la enxergado, ededuzido a mesma coisa. No subestimava a velocidade da montaria de Sheila. Vinham cavalgando tola num ngulo para intercept-la antes que chegasse  rea plana. Era tarde demais para desejart-los visto um minuto mais cedo.
        Inclinando-se para a frente na sela, enterrou orosto na crina esvoaante do animal. Sentiu o animaldistender-se, como se compreendesse a necessidadedesesperada da sua amazona de uma maior velocidade. Cada msculo da gua dava o mximo de si, tentando vencer a corrida para a liberdade.
        Sheila inclinou a cabea para o lado, olhandopor entre a crina clara para distinguir a distncia aque se achavam seus perseguidores. Enxergou-os, ainda um tanto longe, o ngulo aumentando.
        - Vamos conseguir, Arriba! - gritou, exultante. - Vamos conseguir!
        No havia possibilidade de Rfaga intercept-la antes de chegarem ao terreno plano. Ela sentiuuma pontada de dor no peito. Por um segundo, tevevontade de que ele a alcanasse. Queria que a levasse de volta ao desfiladeiro. Mas no diminuiu a velocidade da gua naquele momento de fraqueza.
        Quando ela e Arriba cruzaram a linha invisvelque lhes dava a vitria, Sheila viu Rfaga frear ocavalo, admitindo a derrota. Viu de relance os movimentos bruscos do baio, ao parar de chofre. A seguir desviou rapidamente o olhar. Continuou abaixada na sela, encolhida sobre o pescoo da gua, massuas mos no mais exortavam o animal a dar omximo de si. Mesmo assim, a ruana no diminuiua velocidade.
        Simultaneamente, uma exploso rasgou os ares, e a gua cambaleou, interrompendo o galope. A ruana tentou recuperar-se, esforando-se para manter oequilbrio. Atordoada, Sheila tentou ajudar, puxandoas rdeas para erguer a cabea da gua e firmar-lheas pernas.
        Mas era tarde demais. A gua caa ao cho. Sheila mal teve tempo de soltar os ps dos estribose pular da sela. Voou pelo ar. Depois, tudo escureceu.
        Quando abriu os olhos, deparou com a fisionomia carrancuda de Rfaga. Por um instante de atordoamento, Sheila no soube onde estava, ou o queacontecera. Tentou se mexer, e sentiu uma forte dorna cabea.
        - Foi uma idiota em tentar fugir - rosnouele, apertando os lbios.
        Sheila fechou os olhos.
        - Eu sei - concordou, com um pequeno soluo.
        Sentiu lgrimas nos olhos. No sabia se queriachorar porque tinha falhado na tentativa de fuga, ou porque estava contente por ele t-la alcanado.
        Era uma idiota por muitos motivos.
        - Est sentindo dor? - perguntou rudemente.
        - Estou - gemeu Sheila, os pulmes estourando com o esforo.
        - Onde? - perguntou, sem compaixo na voz, apenas raiva.
        - Minha cabea. - Tentou erguer a mo trmula para tocar o local e descobriu um milho deoutros locais que doam. - Em toda parte - arquejou.
        - Fique imvel - ordenou Rfaga.
        A despeito da raiva, o seu toque era surpreendentemente suave enquanto as mos procuravam ferimentos especficos. Sheila ficou confortada porisso. O entorpecimento estava comeando a desaparecer. Excetuando a dor na cabea, achava que noestava seriamente ferida em mais nenhum lugar, eras uma pisadura grande devido  queda.
        Rfaga chegou  mesma concluso.
        - No h nada quebrado.
        - Arriba... - Sheila ia perguntar pelo estado da gua valente, mas Rfaga j estava ajudando-a a pr-se de p, sustentando-a pelos ombros.
        O corpo dodo protestou, e Sheila teve que seconcentrar para fazer os msculos obedecerem. Obrao dele continuou a sustent-la enquanto ela oscilava, atordoada. Seu olhar se fixou num objeto grande, castanho, que jazia inerte no cho. Era Arriba, sem sela e arreios, imvel na morte.
        Com um grito abafado, Sheila cambaleou at agua, caindo de joelhos junto ao animal morto. Amo incrdula tocou o pescoo comprido, a umidadedo suor agarrando-se ao pelo do animal. O corpoainda estava quente, porm no mais pulsava comvida. No soube exatamente quando viu o buraco edescobriu a causa.
        Sheila olhou furiosa e acusadoramente para Rfaga, sem ligar para a dor que fazia latejar a suacabea.
         - Voc a matou! Atirou nela!
        No pde mais falar quando Rfaga se postoudiante dela.
        Abaixou-se e puxou-a para que ficasse de p.
        - Acha que eu a teria deixado ir embora?
        - Mas no precisava t-la matado! - exclamou Sheila, tentando livrar-se dele.
        Ele a puxou com fora para junto de si. A violncia do sbito contacto quase lhe tirou o flego. Seus braos no conseguiam abrir nenhum espaoentre eles enquanto ele a esmagava contra o peito, sua cabea jogada para trs para que ele visse as lgrimas magoadas e zangadas nos seus olhos.
        - Se houvesse algum outro meio de det-la, acha que no o teria usado! - rosnou Rfaga. - Acha que, quando tomei o rifle nas mos, no tinhaconscincia de que estava me arriscando a mat-la, ouferi-la seriamente! Acha que no tive vontade dechamar a bala de volta, depois que saiu da arma!- A linha da boca estava severamente estreita. - No tem importncia para mim que o cavalo estejamorto.
        No concluiu dizendo que era importante que ela estivesse viva e inclume.
        - Mas no foi culpa de Arriba - protestouSheila, o choque ainda muito recente para achar algum consolo nas palavras que ele apenas sugerira.
        - No, a culpa foi minha de t-la deixadomontar a gua, para comeo de conversa. - A vozbaixa estava spera e tensa com uma raiva que malcontrolava. - Se no me agradasse  imagem deduas beldades de pernas compridas... - Calou-sebruscamente, enquanto lanava um olhar glido paraalm de Sheila. - O que ?
        - Uma patrulha vem vindo para c - Sheilaouviu a resposta de Laredo. - Deve ter ouvido otiro.
        Sheila foi empurrada na direo do baio de Rfaga, enquanto ele dava uma ordem brusca:
        - Mande os homens se separarem. Encontramo-nos no desfiladeiro.
        Antes que pudesse tentar montar, Sheila foierguida e colocada na sela, Rfaga montando atrsdela. Seus ps ainda no se haviam enfiado nosestribos, e j dava meia-volta com o baio, esporeando-o para galopar. Sheila teve apenas uma viso derelance dos cavaleiros que se aproximavam, vindosdo sul, a uma distncia considervel. No pde deixar de pensar em como tinha estado perto de escapar.
        Rfaga virou o cavalo para o nordeste, enquanto o pequeno bando de cavaleiros se dispersava emtodas as direes. Carregando peso dobrado, o baiono podia vencer a patrulha na corrida; assim, Rfaga guiou o animal pela encosta ngreme de umamontanha, onde a agilidade do baio criado naquelasaltitudes compensaria a pouca velocidade.
        Em certo momento, quando pararam numa clareira entre as rvores, Sheila sentiu que Rfaga sevirava na sela para olhar para trs.
        - Esto nos seguindo! - indagou a moa.
        - J os perdemos de vista - declarou com voz inexpressiva. Mas no havia como disfarar a amargura cortante, quando acrescentou: - No era esta a resposta que queria ouvir, era!
        A raiva dele para com ela no diminura. Sheilaficou calada. No havia meios de negar a acusao,embora no fosse a verdade. Ambos permaneceramcalados enquanto o cavalo baio se dirigia para o norte, a sotavento da cordilheira.
        J estava escuro quando chegaram  gargantado desfiladeiro. O luar prateava o corredor enquantoo atravessavam, o baio trotando, ansioso para voltarpara casa. Sheila sentiu um leve aperto no corao,como se tambm ela estivesse voltando para casa.
        Laredo estava dentro da casa, esperando. Ergueu os olhos, cumprimentando-os sem sorrir.
        - Estou vendo que se safaram - falou. - Consuelo fez caf e tem comida na mesa.
        Sheila abriu a boca para dizer que queria apenas ir para a cama, mas Rfaga falou antes que pudesse se manifestar:
        - Tomaremos caf.
        Usou o tom de voz que j era bem conhecido deSheila. Era o que dizia que lhe derramaria o caf pelagoela abaixo se tentasse recus-lo. Assim, ela ficoucalada e foi sentar-se  mesa.
        Rfaga serviu duas xcaras, acrescentando umagrande quantidade de acar quela que colocou diante de Sheila. Esta sorveu o lquido forte e negro, semconseguir olhar para ele, que veio se sentar ao seulado. Havia um silncio pesado, opressivo, no ar.
        Lanou um olhar a Laredo, sentado  sua frente. Eledesviou rapidamente o seu, um ar de preocupaoe angstia nos olhos azuis.
        Quase imediatamente, levantou-se da mesa.
        - Est na hora de ir andando - disse laconicamente, e se retirou sem esperar que algum lhedesse boa-noite.
        Sheila sentia, constrangida, o olhar penetrantede Rfaga.
        - Por que fugiu, Sheila?
        Levantou bruscamente a cabea para ele, as lgrimas que afloravam ocultando o amor que brilhava nos olhos pintalgados de dourado.
        - Tinha que tentar escapar. Tinha que tentar - repetiu.
        Ele tirou o caf das mos trmulas da moa, e olhou para ela por um longo momento. O olhar velado no deixava transparecer nada do que ela pensava, mas ela esperou que ele a puxasse da cadeira e a tomasse nos braos, o nico lugar que ela agora sentiaser o seu.
        Ao invs disso, ele virou a cabea e ficou olhando para dentro da caneca de caf.
        - Precisa dormir. V para a cama.
        Sheila levantou-se, entorpecida, da mesa e se dirigiu para o quarto, onde se despiu e se arrastou parabaixo do cobertor. Ficou acordada durante muito tempo, esperando que Rfaga fosse ter com ela, mas finalmente seu corpo cansado e dolorido insistiu para que adormecesse.
        
        
         Captulo 19
        
        Rfaga no estava na cama quando Sheila acordou, embora tivesse uma vaga lembrana de ter sentido o brao dele  sua volta, enquanto dormia. Havia rudos de algum se mexendo na cozinha. O galo na cabea ainda estava dolorido, mas a cabea no mais latejava de dor.
        Rfaga lanou-lhe um olhar superficial quando ela entrou na cozinha. O bom-dia que estava na ponta da lngua de Sheila permaneceu ali. Uma raiva surda pairava como uma nuvem negra sobre a sala.
        Deixava o ar carregado, como se fosse uma violenta tempestade preste a estourar.
        Sheila tentou ignor-la com um cumprimento sereno para Consuelo:
        - Buenos das, Consuelo.
        Os olhos escuros da mulher simplesmente olharam de relance na sua direo. Um sorriso nervoso pairou nos seus lbios quando fez um aceno de cabea e retomou apressadamente as suas tarefas.
        Uma ordem, em voz baixa e rude, dada por Rfaga em espanhol fez Consuelo balanar a cabea e responder ofegante:
        - Si, seor.
        A mulher saiu porta afora, quase com alvio.
        Chamas douradas faiscaram nos olhos de Sheila, a irritao aumentando. Na noite anterior, fora Laredo quem se sentira constrangido na sua presena. Agora de manh fora Consuelo que tivera medo de olhar para ela.
        Acima de tudo, havia Rfaga. Sheila podia entender a raiva dele, s que no era exatamente raiva.
        Misturava-se com mais alguma coisa que ela no conseguia adivinhar.
        Servindo-se de uma xcara de caf, Sheila levou-a para a mesa, onde Rfaga estava sentado, ignorando a comida que Consuelo preparara. Seu apetite sumira  medida que aumentara a irritao.
        - Olhe a a comida - falou Rfaga.
        - No estou com fome - disse Sheila, recusando com um meneio de cabea.
        Ele no discutiu, nem lembrou-lhe que ela no comia desde o meio-dia do dia anterior. Embora ele no se mexesse, Sheila podia sentir sua impacincia com tanta clareza como se estivesse tamborilando a mesa com os dedos. Eram a quietude e o silncio que a perturbavam, e a sensao de que, dentro dele, campeava uma guerra violenta.
        J tentara escapar antes... durante o temporal. Ficara zangado, mas no desse jeito. Examinou-o por sobre a beirada da caneca de caf. As feies taciturnas pareciam entalhadas em granito. O ar sombrio e totalmente velado dos olhos impedia que Sheila percebesse o que estava pensando.
        Ela cerrou os dentes, o contnuo silncio tornando-se insuportvel.
        - Por que no fala alguma coisa! - insistiu.
        - Est bem, ento eu fugi e voc me pegou. No foi a primeira vez que tentei.
        - Mas foi a primeira em que saiu do desfiladeiro - respondeu Rfaga, secamente.
        Um pensamento lhe ocorreu.
        - No est culpando Juan pelo que houve, no? - Lembrou-se do que acontecera a Juan Ortega quando desobedeceu a uma das ordens de Rfaga. - No foi culpa dele. O seu cavalo ficou manco. No havia jeito de me deter.
        - No culpo Juan. - Novamente Sheila ouviu a firmeza na voz dele, como a lmina cortante de sua faca.
        - Como voc disse, o cavalo ficou manco, um acidente.
        - Ento, o que ? - Sheila franziu a testa, uma onda de impacincia fazendo que apertasse os lbios. - O que h de errado?
        - Voc saiu do desfiladeiro sem a minha permisso.
        - Ah, desculpe - retrucou com escrnio. - Quem sabe eu devesse ter ido procur-lopara avis-lo que ia fugir. Que coisa inteligente seria, no ?
        Um msculo se retesou no maxilar dele.
        - Voc infringiu uma regra.
        - Uma das suas regras! - revidou Sheila. - No estou presa s suas regras! No significam absolutamente nada para mim!
        - Voc no est compreendendo! - explodiu, uma reao duplamente criminosa porque no ergueu a voz. - Quando fiz de voc minha mulher, passou a ser sujeita a essas regras.
        - Ora, mas que pena! - desafiou-o abertamente, recusando-se a ser intimidada pela sua raiva.
        - , sim - concordou Rfaga com brusquido -, porque, se est sujeita s regras, tambm est sujeita ao castigo por desobedecer a elas.
        - No diga! Eu...
        As palavras irnicas e sarcsticas sumiram-lhe quando o significado real do que ele dissera a atingiu.
        O castigo por infringir regras e desobedecer a ordens era aplicado no vale por trs do curral. Sheila empalideceu. Uma viso de carne retalhada fez seu estmago dar voltas.
        - No est querendo dizer que eu... - Levantou-se da mesa. Movia a cabea de um lado para outro, tentando afastar o pensamento como se fosse um sonho mau, mas a realidade continuava. - No faria isso comigo!Rfaga postou-se diante dela. Enterrava os dedos na carne macia da parte superior dos seus braos.
        Sheila tinha conscincia da dor que eles estavam causando, mas estava insensvel a ela.
        - Se pudesse alterar a regra para voc, eu o faria. - Seria sua imaginao ou estava vendo mesmo aquela expresso torturada nos olhos escuros de Rfaga? - S o que posso fazer  diminuir o castigo porque  mulher e porque os nossos costumes so novos para voc.
        A voz era dura e seca.
        - No, no pode me condenar quilo! - exclamou, tentando soltar-se dele.
        Ele a sacudiu com fora, uma vez.
        -  a nica lei que  sagrada para ns. Protege a nossa liberdade e o risco da descoberta. No posso mud-la.
        - Mas sou sua mulher. Sem dvida... - tentou argumentar Sheila.
        - Uma regra no pode existir para uma pessoa e no valer para outra. - Rfaga interrompeu-a. - Ou  cumprida, ou  abolida.
        Ele a abraou, apertando-a contra si, apoiando a sua cabea no peito dele. Ela tremia violentamente, consumida por um medo gelado. Sentiu a linha forte do maxilar de encontro aos seus cabelos, quando ele inclinou a cabea morena e encostou o queixo ao lado da sua cabea.
        - No posso impedir o castigo, querida - falou com voz tensa. - Posso pedir clemncia e tomar medidas para que no seja muito machucada.  s o que posso fazer.
        Enquanto ela tremia incontrolavelmente, ele a envolveu num abrao ainda mais apertado, como que tentando absorver um pouco do seu medo. Sheila fechou os Olhos, sentindo o frio do pavor congelar o sangue nas veias.
        - Quando? - sussurrou.
        Rfaga no precisou perguntar o que ela queria dizer.
        - Esta manh. Agora - respondeu, com ar sombrio.
        Sheila enterrou o rosto na camisa, os nervos contrados.
        -  melhor assim, no a tempo de remoer o assunto.
        - Voc sabia, no ? - As palavras revelavam uma amargura terrvel. - Sabia ontem  noite. Laredo tambm. E Consuelo sabia, hoje cedo. Todos sabiam.
        - , sabamos.
        - E voc s me contou agora - acusou Sheila.
        - Todos sabiam a penalidade pelo que voc havia feito. Voc no sabia. No vi motivo para substituir a sua ignorncia por medo.
        A parte da mente que conseguia raciocinar com clareza lembrou-se das horas em que dormira enquanto Rfaga permanecera acordado, sentado sozinho na sala, atormentado pela certeza do que a esperava pela manh. Isso explicava a raiva surda que no era dirigida exatamente a ela.
        O fato de compreender isso no tornava mais fcil aceitar o que estava por acontecer. Ela tentou Se soltar dos braos dele, fazendo objeo  sua tentativa de confort-la.
        Rfaga deixou que ela se distanciasse um pouco dele, continuando a envolver-lhe firmemente a cintura com um brao, para mant-la arqueada. A outra mo lhe pousava na curva do ombro e do pescoo, os dedos enterrando-se no cordo, e o polegar apertando o osso do maxilar e do queixo. Os olhos escuros fitaram profundamente os dela, vendo as chamas crepitantes do ressentimento e do medo.
        - Odeio-o por isso - declarou Sheila, a voz trmula.
        - Si. E vai me odiar mais antes do fim do dia. - Bateram  porta. A cabea de Sheila virou-se bruscamente na direo do som, o corao parando de bater por uma frao de segundo. - Est na hora - anunciou Rfaga, friamente.
        Um grito abafado escapou da garganta dela. Tentou soltar-se dele, debatendo-se para fugir, mas ele a segurou com facilidade.
        - Voc  uma mulher, uma americana. - Rfaga falava em voz baixa e cortante. - Esperam de voc que chore e suplique para no ser levada, que desmaie ao ver o chicote, ou se acovarde e tenha que ser arrastada at os postes.  assim que esperam que voc se comporte.
        Sheila enrijeceu o corpo, reconhecendo o desafio que ele lhe fazia. Viu a si mesma reagindo do modo como ele descrevera, e soube que jamais poderia viver com tal humilhao. Um frio percorreu Sheila, entorpecendo-lhe os sentidos e congelando os horrores da sua imaginao.
        - Pode me soltar. - Lanou-lhe um olhar calmo. - No vou correr.
        - Vai desapont-los!Havia uma ponta de escrnio na sua voz.
        Bateram de novo  porta, agora com mais insistncia.
        -  melhor atender - disse ela, friamente.
        Seu olhar escuro varreu-lhe o rosto, avaliadoramente. A seguir, ele a soltou e foi at  porta, escancarando-a. Havia dois homens l fora, com os cavalos amarrados ao poste. Um deles falou discretamente com Rfaga, enquanto ambos olhavam para alm dele, para Sheila, com curiosidade no disfarada.
        Ela os encarou de volta, ligeiramente altiva.
        Rfaga se virou para ela, anunciando impassvel:
        - Vamos.
        Suas pernas estavam notavelmente firmes ao passar por ele e cruzar a soleira da porta, ignorando deliberadamente os dois homens. Parou do lado de fora, examinando os cavalos, permitindo-se um momento de tristeza pela gua ruana que nunca mais estaria  sua espera.
        - Qual deles devo montar? Ou... - olhou gelidamente para Rfaga - terei que ir a p, como se fosse um animal indo para o matadouro?
        - Montar o baio - respondeu Rfaga, suavemente.
        O cavalo dele. Enquanto Sheila se dirigia para o animal, um dos homens soltou as rdeas do poste.
        Sheila montou e estendeu a mo para pegar as rdeas, mas o homem no as largou, enquanto montava no prprio cavalo. Ela olhou de novo para Rfaga.
        - Quer dizer ao homem que no preciso que me conduzam! Sou bastante capaz de guiar o meu cavalo na direo certa.
        Sem o mais leve sinal de emoo, Rfaga disse qualquer coisa em espanhol para o homem. Era evidente que traduzira suas palavras, porque o homem hesitou, duvidando da sabedoria de entregar as rdeas a Sheila. Mas no discutiu.
        Com os ombros retos e a cabea erguida, Sheila virou o baio na direo das casas, esperando que Rfaga montasse antes de fazer o baio comear a andar. Rfaga cavalgava ao lado dela, os dois outros homens logo atrs.
        Como da outra vez, quando Juan Ortega fora levado, para ser punido, todo mundo estava ali reunido. Laredo, os lbios fortemente cerrados, estava  espera, as mos nos quadris. Agarrou as rdeas de Rfaga.
        - No pode levar isso a cabo, Rfaga - resmungou Laredo.
        - No posso impedir - foi a resposta seca.
        Sheila correu os olhos pelo vale antes de desmontar, surda aos apelos que Laredo fazia em seu favor. O meigo Juan apareceu ao seu lado, o chapu na mo, os olhos escuros cheios de dor.
        - Seora... - comeou ele.
        Sheila olhou para ele, vendo o sentimento de culpa na sua expresso. Permitiu aos seus sentidos entorpecidos uma ligeira sensao.
        - No  culpa sua  tranqilizou-o, serenamente. - Sinto muito quanto a Arriba. No cuidei muito bem dela.
        - Seora, por favor, eu...
        Porm Sheila se afastou, ignorando-o. A voz era glida ao se dirigir a Rfaga.
        - Creio que devo ir para o meio do vale, no ? Para que todos possam me ver?
        As feies dele estavam igualmente frias, quando concordou:
        - Sim.
        Deu um passo, e foi interceptada por Laredo.
        - Juro que nunca acreditei que Rfaga fosse deixar isso acontecer, Sheila - declarou com voz rouca. - Se acreditasse, teria derrubado o rifle das mos dele antes que abatesse o animal que voc montava.
        O seu queixo estava majestosamente erguido.
        - Agora  tarde demais para pensar nisso. Por favor, saia do meu caminho.
        O ar juvenil das feies de Laredo foi substitudo por uma severidade perturbadora. Depois de hesitar por uma frao de segundo, afastou-se para o lado. Estendeu a mo para peg-la pelo brao. Dizendo com voz tensa:
        - Eu a acompanho.
        Sheila retirou o brao, recusando o gesto de nojo dele com frio orgulho.
        - Vou sozinha.
        Ladeada por Rfaga e Laredo, caminhou at o meio do vale, perto dos dois postes. Viu os olhos curiosos que a Observavam, e sentiu a indagao silenciosamente que todos se faziam, de quanto tempo duraria o seu autocontrole.
        Essa sensao fortaleceu o seu orgulho. Esperavam que ela se encolhesse de terror, esse bando de criminosos e marginais. Aquilo tornou Sheila ainda mais resolvida a no ser um objeto de divertimento e escrnio para eles.
        Quando Rfaga se adiantou para declarar o motivo pelo qual seria punida, Sheila concentrou nele a ateno. Falou naquele tom de voz baixo que se ouvia claramente no silncio, despido de qualquer emoo. Embora no pudesse compreender as palavras, sentia a eloqncia do discurso.
        Quando acabou, houve um murmrio discreto de vozes, ao invs do silncio de concordncia que se seguira  explicao do castigo de Juan Ortega.
        Sheila permitiu-se um lampejo de esperana: quem sabe Rfaga os dissuadira da punio por tentativa de fuga.
        Uma mulher falou vivamente, a voz sobressaindo dos murmrios indecisos. Sheila se virou, e viu Elena. Os olhos escuros e malvolos expressavam toda a sua antipatia por Sheila. A voz maligna da morena estava cheia de condenao ao exigir ferozmente o castigo de Sheila.
        As palavras maliciosas ainda ecoavam no ar quando Juan se adiantou para defender Sheila. Laredo ficou ao seu lado, assinalando com a sua presena que concordava com tudo o que Juan dizia. Ela sentiuum aperto no corao ao ver seus dois defensores mas no se permitiu demonstrar emoo.
        A splica veemente de Juan parecia ter levado o povo para o lado de Sheila, at que mais algum se manifestou. Levou um momento at que Sheila localizasse a voz debochada em espanhol. Ficou gelada ao ver Juan Ortega.
        O rosto estava contorcido por um ar de vingana, os lbios se entreabriram num sorriso feroz, revelando os dentes amarelados e quebrados. Tinha os ombros encolhidos para indicar a dor que ainda sentia pelo aoitamento. O rosto apresentava uma palidez doentia, revelando que sua recuperao ainda no fora total.
        O olhar levemente dilatado de Sheila desviou-se para Rfaga, que ouvia, impassvel, a denncia de Juan Ortega. A seguir, para Laredo, que se virara, com um ar derrotado nos olhos azuis. Ela olhou fixamente nos olhos dele.
        - O que ele est dizendo? - sussurrou, mal movendo os lbios.
        Laredo se aproximou dela, sem olh-la, enquanto respondia  pergunta.
        - Est dizendo a eles que no importa qual tenha sido o seu motivo para sair daqui, nem quais as circunstncias que o cercam. Est lembrando a eles que foi aoitado por desobedecer a uma ordem... uma ordem que esquecera na sua fraqueza, quando voc o convidou a entrar e exibiu para ele a sua feminilidade. Se o motivo dele no pode salv-lo do chicote, ento o seu tambm no pode. E est lembrando a eles que a sua fuga quase resultou em uma patrulha do governo descobrir o desfiladeiro. Se no fosse por outro motivo, teria que ser punida por este.
        Quando Juan Ortega acabou de falar, houve acenos de concordncia por toda parte. Alguns estavam relutantes, mas a maioria aprovava entusiasticamente o discurso Sheila no precisou que lhe dissesse sua ltima esperana de ser poupada pelo que ocorrera.
        Durante vrios segundos, ningum pareceu se mover Finalmente, Rfaga virou-se para olhar para ela. Um msculo se contraa convulsivamente no maxilar, mas no havia outro sinal de que discordava da sentena. Um tremor percorreu os joelhos de Sheila, mas ela forou-os a sustent-la enquanto retribua o olhar impassvel de Rfaga.
        Sem esperar que ele desse a ordem, Sheila se virou e caminhou at os postes idnticos, ficando de p entre eles, a cabea orgulhosamente erguida. Rfaga fez sinal a um dos homens para amarr-la, enquanto um outro lhe trazia o chicote. O primeiro homem enrolou-lhe uma corda no pulso esquerdo e amarrou-a bem apertado.
        Laredo voou para o lado dela, impedindo com o brao que o homem amarrasse a corda ao poste. Lanou um olhar por cima do ombro para Rfaga, os olhos brilhando com uma chama azul.
        - Que merda, Rfaga, no pode fazer isso com ela! - falou com selvageria.
        - Afaste-se - ordenou Rfaga, demonstrando completa indiferena ao protesto.
        - Pelo amor de Deus, homem, deixe-me ao menos tomar o lugar dela! - exclamou Laredo, desesperadamente, buscando qualquer alternativa para poupar Sheila.
        O pedido dele foi a gota d'gua. Uma fria negra escureceu ainda mais a expresso de Rfaga.
        - Acha que eu no tomaria o lugar dela, se pudesse?! - explodiu com raiva selvagem. - Afaste-se!
        Correntes eltricas cruzaram-se nos ares entre os dois homens, at que Laredo finalmente recuou, baixando o brao para deixar que Sheila fosse amarrada ao poste. Olhos azuis torturados lanaram um breve olhar para Sheila antes que Laredo se afastasse, a cabea baixa, frustrado.
        Enquanto o brao direito estava sendo amarrado ao outro poste, Sheila fitou Rfaga, o medo gelado roendo-lhe as entranhas, enquanto tentava no olhar para o chicote na sua mo. Tinha vontade de chorar, de suplicar-lhe que no fizesse essa coisa cruel, desprezvel. Mas, fitando o rosto msculo, novamente despido de qualquer expresso, as emoes totalmente sob controle, sentiu foras para manter em silncio o seu medo.
        Ao invs de suplicar uma misericrdia que no receberia, Sheila inclinou a cabea com orgulho e desafio, e ironizou:
        - Quem vai usar o chicote em mim! Voc, Rfaga?
        - No. - Falou em voz to baixa que ela teve que se esforar para escutar. O olhar escuro dirigiu-se para Laredo, que lhes dava as costas, como se quisesse apagar a imagem de Sheila amarrada aos dois postes. - Ser Laredo a tomar o chicote nas mos.
        Sheila no teve dificuldade de ouvir isso. Tampouco Laredo, que deu meia-volta, o rosto marcado por uma raiva incrdula.
        - No pode me pedir para fazer isso! - declarou num sopro de voz torturado.
        Rfaga estendeu o chicote, dizendo suavemente:
        - No confiaria o chicote  mo de mais ningum, amigo.
        Houve um momento de indeciso, quando Laredo o fitou. A seguir, tirou o chicote das mos de Rfaga e caminhou para trs dos postes, para um lugar s costas de Sheila. Rfaga olhou para Sheila, olhos se encontraram por um minuto. Depois, foi postar-se atrs dela.
        Os msculos dela se retesaram ao sentir o metal frio de uma lmina enfiar-se sob a blusa, o lado cego tocando-lhe a pele. O lado cortante comeou a abrir a fazenda que lhe cobria as costas. Ele voltou para junto de Laredo.
        - Est na hora - falou, com um leve aceno de cabea para Laredo.
        A testa de Sheila ficou orvalhada de suor. s suas costas, o chicote estalou trs vezes em rpida sucesso. Sentiu um n de medo no estmago ao escutar o zunir do aoite cortando o ar. Preparou-se, enroscando os dedos na corda que lhe prendia os pulsos aos postes. Mas nada podia prepar-la para a chicotada cortante na pele nua das suas costas.
        Um grito abafado de dor lhe escapou da garganta. Cerrando os dentes, tentou engolir o grito, com xito parcial. Novamente ouviu o zunir do aoite, antes de sentir os milhares de agulhadas a lhe penetrarem as costas. Desta feita, Sheila mordeu o lbio para abafar o gemido de dor. As lgrimas lhe escorriam pelas faces, embora no tivesse conscincia de que estivesse chorando.
        Sentia apenas aquela dor cruciante rasgando-lhe as costas. Sabia que Rfaga estava de p diante dela, porm j no mais o enxergava. Os sentidos se afogavam na dor.
        Cinco ou seis vezes - Sheila perdeu a conta - suportou o golpe do chicote. Da vez seguinte, Seus joelhos cederam e ela desabou, todo o peso do corpo sustentado pelas cordas. Os braos quase foram deslocados das juntas, mas nem sentia os membros.
        A cabea oscilou para a frente, o cabelo grudado  testa e ao pescoo pelo suor que lhe escorria dos poros. Num estupor de sofrimento, Sheila esperou, semi-consciente, pelo prximo golpe cortante do aoite. O suor cobria-lhe os olhos, e no conseguiuenxergar.
        Havia um gosto salgado de sangue na sua boca, o seu prprio sangue que escorria da ferida feita nos lbios pelos dentes. Esperou pela chicotada, e esperou. Como ela no veio, Sheila tentou apoiar-se nas pernas e se levantar.
        Ouviu a voz de Rfaga.
        - No se levante - ordenou, com voz rouca. - Posso acabar com isso se no se levantar, querida.
        Sheila escutou-o. At mesmo entendeu o que dizia. Mas no conseguiu transmitir a mensagem s suas pernas. Um instinto animal poderoso fazia que se erguesse, como se ficar largada significasse a morte.
        Algum praguejou selvagemente em espanhol. Soluos e gemidos errticos chegavam aos seus ouvidos. Sheila no se dava conta de que estavam sendo emitidos por sua prpria garganta. E ento ficou de p, embora oscilante.
        Seu corao batia como o de um coelho selvagem preso nas garras de uma guia. No ouviu o estalar do chicote, e seu corpo se sacudiu convulsivamente quando ele lhe cortou a pele. Sheila quase caiu de joelhos de novo, mas a adrenalina que era bombeada para as suas veias deu-lhe foras para se manter ereta. Novamente o aoite lhe estalou nas costas, e novamente Sheila caiu apoiada num joelho, agora quase inconsciente. Tentou se levantar.
        - No!
        Foi como uma trovoada, estourando e vibrando no ar, carregada de violncia. Um par de mos a amparam.
        - No me toque! - gritou uma voz, quase enlouquecida de dor. Desta feita, Sheila deu-se conta de que era a sua prpria voz.
        - Acabou - prometeu Rfaga, num murmrio rouco.
        Seus braos caram ao longo do corpo, e as cordas que atavam os pulsos foram cortadas. Sheila desabou contra o sustentculo de granito que lhe era oferecido, a cabea apoiada contra algo slido. Uma mo trmula afastou-lhe das tmporas o cabelo mido de suor.
        Uma voz em espanhol falava meiga e suavemente ao seu ouvido, enquanto uma tira de ao lhe envolvia as coxas, erguendo Sheila de tal modo que parecia estar flutuando acima do colo.
        - Ela est bem?
        O crebro entorpecido identificou a voz de Laredo. Sheila forou as plpebras pesadas a se abrirem.
        O olhar embaado deparou com os olhos azuis midos, refletindo uma dor que parecia igual  dela. O esforo se tornou grande demais, e ela fechou os olhos, deixando a sensao de flutuar domin-la.
        O prximo momento de conscincia demorou mais. Sheila estava sentada numa cama, sustentada por um brao forte, enquanto uma mo lhe tirava do corpo a blusa cortada. Muito suavemente, mudaram-na de posio, deitando-a de bruos.
        Ela descerrou os clios, reconhecendo a mo de Rfaga quando afastou os cabelos das faces e do pescoo. Para alm dele, podia ver Consuelo andando de um lado a outro, ansiosa, os olhos escuros dilatados e iluminados de preocupao. As costas pareciam estar pegando fogo, mas Sheila sorriu debilmente para a mulher.
        - Estou bem - falou, a voz rouca mal passando de um sussurro.
        - No fale, querida - repreendeu-a Rfaga num tom de voz reconfortante e suave, e virou-se para tomar algo das mos de Consuelo. - Precisamos limpar as suas costas. Vai doer. Desculpe.
        Ao sentir a ferroada abrasadora, Sheila enterrou o rosto no travesseiro para abafar o grito arquejante de dor. A despeito de ter usado o precisamos notou que eram apenas as mos de Rfaga que a tocavam, limpando cuidadosamente as suas costas antes de aplicar um ungento para aliviar a dor da pele em carne viva.
        Com um pano fresco e mido, enxugou-lhe o suor do rosto e do pescoo. Enrolando um pano nos pulsos queimados pelas cordas, mandou que dormisse. Sheila fechou os olhos, obedientemente.
        Quando acordou, Rfaga estava sentado ao lado da cama, numa viglia silenciosa. Debruava-se para a frente na cadeira de espaldar reto, o rosto enterrado nas mos. Sheila rebuscou as suas emoes para ver se encontrava um sentimento de dio pelo que ele permitira que lhe acontecesse, mas no achou nenhum.
        As mos fortes e esguias moveram-se para esfregar-lhe o queixo, depois o pescoo. Quando ele olhou para a cama onde ela jazia, Sheila viu a dor que brilhava nos seus olhos cor de bano. Ela sumiu imediatamente, quando viu que a moa acordara.
        - Como se sente? - perguntou suavemente.
        Sheila moveu-se ligeiramente e sentiu mil agulhas se enterrarem nas suas costas.
        - Di - falou, com voz tensa, para sufocar o arquejo de dor.
        - Vai doer durante algum tempo - disse-lhe Rfaga. - Tem que agradecer a Laredo o fato de que as marcas vo sarar sem deixar cicatrizes na sua linda pele. - Hesitou. - No o odeie pelo que fez.
        - No o odeio  tranqilizou-o Sheila.
        - Que bom!
        A sua boca se curvou ligeiramente, quase num sorriso.
        - Rfaga. - Olhou atentamente para ele, em silncio, depois perguntou:
        - Teria me chicoteado se Laredo se tivesse recusado?
        Fitou as mos, a testa vincada por uma ruga sombria.
        - No, no poderia.
        Sheila sorriu meigamente.
        - Acho que teria.
        Ele levantou bruscamente a cabea ao ouvir as palavras, um brilho frio de desafio nos olhos, porque o estava chamando de mentiroso numa questo dessas.
        - Acho que teria - repetiu -, ao invs de entregar o chicote para algum como Juan Ortega.
        - Talvez - disse ele, laconicamente, e comeou a se levantar.
        Ela deslizou a mo pela cama, buscando det-lo. Rfaga viu o movimento e parou. O olhar velado dirigiu-se indagadoramente para o seu rosto.
        - Hoje de manh - comeou Sheila, sem jeito -, odiava voc, e todas as pessoas ligadas a voc. Agora, no odeio ningum. Muito menos voc.
        Podia ter acrescentado, mas o corao ainda no estava pronto para fazer uma confisso integral. Esperou, torcendo para que ele dissesse alguma coisa que lhe permitisse revelar tudo o que sentia.
        A frieza abandonou a expresso dele. Seus olhos eram como um veludo preto e macio, ao fit-la. O corao da moa bateu mais depressa. Ele parecia mais atraente e bonito do que nunca... forte, msculo e cheio de vida.
        Mas, quando Rfaga respondeu, no disse nada que exortasse Sheila a revelar a verdadeira profundidade dos seus sentimentos.
        - Precisa comer. Vou mandar Consuelo preparar alguma coisa para voc.
        
        
         
         
         Captulo 20
        
        Durante os dias que se seguiram  recuperao, Sheila descobriu um novo Rfaga. O antigo homem dominador e autocrtico que conhecia desaparecera.
        Em seu lugar, surgira um amante comovedoramente meigo, cheio de considerao e bondade, embora continuasse completamente msculo. Sheila no acreditava ser possvel apaixonar-se ainda mais por Rfaga, mas isso acontecera.
        -  to lindo - suspirou, maravilhada.
        - O qu? - quis saber Rfaga.
        Sheila virou-se, sobressaltada, sem se dar conta de que falara em voz alta. Ele corria para ela de um modo que lhe tirava o flego, clido e ntimo, como se existissem apenas os dois caminhando devagar por entre a grama alta do prado verde, conduzindo os seus cavalos.
        - O dia - mentiu, ruborizando-se de leve.
        - Est cansada. - Os olhos escuros examinaram o leve rubor. - Acho que exageramos na caminhada. Vamos, deixemos os cavalos pastarem. - Segurou-a pelo cotovelo, guiando-a para um pequeno morro. - Vamos descansar um pouco.
        Sem discutir, Sheila soltou as rdeas, e o cavalo baio imediatamente baixou a cabea para pastar. O gado e os cavalos pastavam a curta distncia. Onde estivessem cavalos e gado, podia-se ter certeza de encontrar Pablo, o filho de Juan, prximo a eles. Sheila procurou-o com o olhar, e encontrou-o sentado numa pedra,  sombra. Acenou para ele, e este acenou timidamente para retribuir o cumprimento.
        - Pablo  um menino muito responsvel, - comentou Rfaga, seguindo a direo do olhar de Sheila.
        - , muito consciencioso - concordou Sheila. - Juan est lhe ensinando ingls para que algum dia possa ir para os Estados Unidos.
        - Pobre Pablo - riu Rfaga, sentando-se no cho e puxando Sheila para junto dele -, ter Juan como professor de ingls!- Eu poderia ensinar ingls a Pablo, e ele me ensinaria espanhol - disse ela em voz alta, logo que o pensamento lhe ocorreu.
        Uma flor semelhante  margarida crescia no meio da vegetao alta. Sheila a colheu, rodando-a distrada, entre os dedos. Rfaga deitou-se na grama verde, acomodando Sheila na curva do brao.
        - Acho que voc no vai ensinar Pablo - disse, virando o rosto para ela, com um sorriso estranho curvando os lbios msculos.
        - Por que no? - perguntou Sheila, lanando-lhe um olhar curioso.
        - Porque ele est virando homenzinho. No gostaria que tivesse uma paixo desesperada de adolescente por voc - respondeu Rfaga, com uma luz irrequieta a lhe brilhar nos olhos. -  uma idade muito suscetvel a tal enfermidade.
        - Voc j sofreu dela!
        De certa maneira, era difcil imaginar Rfaga como um rapazola vulnervel.
        - Todos os meninos sofrem, antes de se tornarem homens.
        - Como era ela? - perguntou Sheila, fitando o cu muito anil l em cima. O ar estava espanto claro e luminoso, a bola amarela do sol brilhante sobre o desfiladeiro.
        - Faz muito tempo, no me lembro.
        - Tem que se lembrar de alguma coisa - insistiu.
        - Lembro que tinha cabelos dourados e nem sabia que eu existia - disse, com um sorriso na voz.
        - Era americana?
        - , acho que era - concordou Rfaga, indiferente.Sheila pensou nos prprios cabelos, que refletiam a cor dourada do sol. Sentiu uma onda de calor a aquec-la. Quem sabe Rfaga ainda era suscetvel a louras americanas. Estava pensando se devia continuar a bater na mesma tecla, quando Rfaga mudou de assunto.
        - Tinha razo. - Apertou ligeiramente a mo ao redor da sua cintura. A sua voz estava cheia de contentamento. -  um lindo dia.
        - As montanhas parecem estar to perto!  quase como se eu pudesse estender a mo e toc-las. - Fitou os picos muito bem delineados de encontro ao azul vibrante do cu. - J pensou em sair daqui? - perguntou.
        - E para onde iria! - retrucou Rfaga.
        Sheila virou-se de lado, apoiando-se num cotovelo e descansando a mo na barriga lisa e musculosa. Havia um ar de esperana ansiosa no olhar que lhe lanou.
        - Podia ir para outro pas, comear uma nova vida, adotar um novo nome.  inteligente, vivo, um lder nato. Podia ser o que quisesse - argumentou Sheila.
        - Um novo pas e uma nova identidade no iriam mudar o fato de ser procurado, Sheila - respondeu pacientemente. - Se fizesse o que voc diz, sempre haveria o risco de que algum dia me descobrissem. Se tenho que viver perigosamente, prefiro faz-lo aqui nas montanhas. Conheo-as to intimamente quanto a voc.
        O cabelo dela cara sobre uma das faces. Rfaga prendeu-o atrs da orelha, os dedos acariciando-lhe levemente a pele. Sheila sentiu o primeiro tremor do desejo, e tentou ignor-lo. Comeara uma coisa e precisava acab-la. No podia deixar que Rfaga a distrasse, no importando o quanto estivesse com vontade.
        - Rfaga, tenho dinheiro - disse Sheila, apressadamente, depois esclareceu rapidamente as palavras. - No estou me referindo ao dinheiro dos meus pais. Tenho dinheiro prprio. Se voc...
        Um dedo tocou-lhe os lbios, calando-a.
        - O dinheiro compra coisas, Sheila. Compra coisas de que no preciso. No pode comprar a minha liberdade, no depois de todo este tempo. As coisas de que preciso esto aqui,  sua frente. - O olhar dele percorreu o desfiladeiro. - Amigos, as montanhas, um lugar para morar, um teto sobre a minha cabea. As nicas coisas que o dinheiro pode comprar so roupas e os alimentos que no podemos plantar aqui.
        Ela se sentiu irritada por ver Rfaga rejeitar a sua oferta, antes mesmo que a fizesse.
        - E quando precisa de dinheiro, algum o contrate para arrancar um criminoso qualquer da cadeia.
        - Acha isso contraditrio, no , querida! - Repuxou a boca ligeiramente. - Vamos a tantos extremos para manter as leis que fazemos para ns mesmos, depois infringimos as do governo, por dinheiro.
        Um pouco da raiva de Sheila se dissolveu, ante o termo carinhoso. Teve vontade de discutir, mas achou difcil.
        - , acho.
        - Ns nos colocamos alm das leis que voc conhece, e descobrimos que no podemos ser livres sem leis. Fizemos as nossas.  uma contradio, mas colocamo-nos nessa posio: num circulo sem fim - explicou Rfaga.
        - Mas no podemos abandonar o crculo? - perguntou Sheila, voltando ao comeo.
        A mo amoldou-se ao lado do pescoo, o polegar acariciando ritmicamente o cordo sensvel formado ao longo de sua pele.
        - Certas coisas vivas podem ser arrancadas e transplantadas para outro solo, para ali florescerem. Voc, acho eu,  uma delas. - Os olhos ficaram mais escuros, olhando profundamente para ela, quase para dentro da sua alma. - Eu no poderia deixar as Sierras. No h razo para tentar. Tudo o que quero est aqui.
        Ele fez presso no pescoo de Sheila, forando-a a deitar-se mais. Os lbios rijos roaram tantalicamente as curvas macias da boca dela, brincando com a promessa de um beijo. No entanto, quando Sheila j ia aceit-lo, ele apertou-lhe mais o pescoo, afastando-a.
        - Tudo o que quero est aqui - repetiu Rfaga roucamente, de encontro  sua boca, a respirao clida misturando-se  dela. - Tudo o que jamais poderia desejar encontrei.
        Parecia ser a hora. O corao doa de vontade de se dar. Sheila murmurou suavemente:
        - Eu o amo.
        Como resposta, a presso dos dedos esguios ao longo da nuca da moa aumentou, puxando-a mais uns dois centmetros para baixo, enquanto a boca se abria sobre os seus lbios. Os sentidos de Sheila foram assaltados pela mistura intoxicante da fumaa aromtica do tabaco que se grudava  pele dele e do cheiro almiscarado da sua masculinidade. O beijo cada vez mais ntimo tocou no mago apaixonado, espalhando um fogo por sob a maciez de seu corpo.
        Com xtase trmulo, Sheila oscilou sobre a almofada slida do seu peito, as curvas fartas amoldando-se aos seus contornos musculosos. As mos agarravam-se  sua caixa torcica, ferozmente possessivas.
        A lngua separou-lhe os lbios para explorar as cavidades ntimas da sua boca. O desejo se inflamou com um fogo dourado, para correr fervendo pelas veias.
        Uma mo no quadril colocou-a bem em cimadele, depois subiu para amoldar-se  parte inferiorde um dos seios. Dedos esguios afastaram os cabelos dourados do pescoo, enquanto a boca abria umatrilha incandescente at a concavidade da sua garganta. Rfaga voltou pelo mesmo caminho, parandoa intervalos para mordiscar a curva do seu ombro,o cordo sensvel do pescoo, o lobo de uma orelha.
        Novamente a boca rija voltou a consumir-lhe os lbios, provando-lhe a doura e reclamando-oscomo inteiramente seus. Sheila podia sentir as batidas rpidas do corao dele, uma serenata louca queacompanhava o ritmo do seu prprio pulso acelerado.
        Subitamente, Rfaga deitou-a de lado. Os dedos cuidaram do estorvo dos botes da blusa comuma urgncia excitante. Um arrepio de deleite sensual danou-lhe sobre a pele quando o tecido foiafastado para deixar os seios  mostra. A sensaode frescor foi breve, dissipando-se sob o calor damo que se fechava sobre a rotundidade firme doseio, que se intumescia ao seu toque.
        Sheila enfiou as mos sob a camisa dele, gozando sem pejo a sensao da pele rija sob o seu toque. O mamilo ficou duro como um pico rosado com a manipulao dos seus dedos. Rfaga largou-lhe os lbios para investigar o boto ertico com a boca e a lngua. Ela estremeceu de desejo. A sensao foi intensificada quando a mo dele lhe correu por cima do estmago nu at a regio genital. Os quadris se moveram em reao  sua carcia sugestiva.
        Apertando as suas costas contra a grama, os dedos fortes buscaram o fecho da Levi's. Sheila gemeu baixinho, Sem Sentir. Rfaga hesitou imediatamente. As chamas sensuais que ardiam no seu olhar escuro varreram-lhe o rosto.
        - O cho duro est lhe causando dor?
        O desejo estava expresso claramente na voz rouca, mas era um desejo que podia controlar. H muito que Sheila aprendera que a capacidade de controlar-se era uma marca da sua percia em fazer amor.
        - No. - Murmurou a negativa trmula, deslizando a mo pela nuca forte dele. - S o jeito quevoc me provoca me causa dor.
        Os dentes brancos dele apareceram brevementenum sorriso de satisfao e ela baixou a boca sobreos lbios entreabertos.
        -  assim mesmo que tem que ser, querida - disse, de encontro aos seus lbios.
        Um momento de sanidade dominou-a ao senti-lo abrir o zper da cala. As mos empurraram-lhe o peito num dbil protesto enquanto torcia a boca, afastando-a.
        - Pablo pode ver a gente, Rfaga - lembrou-lhe, num murmrio ofegante.
        Ele ergueu a cabea.
        - Quer que me afaste de voc?
        O brilho em seus olhos j antecipava a resposta, antes que Sheila a desse.
        - No - disse, esfregando a face contra o maxilar dele como uma gatinha que desejasse seracariciada de novo.
        - Quer ficar nos meus braos, mas no quer que eu faa amor com voc. - Havia uma inflexo irnica no tom de sua voz. - isso no  possvel para nenhum de ns.
         - Eu sei - suspirou Sheila, com a dolorosanecessidade que sentia.
        Afastando-se, Rfaga agarrou-a pelos pulsos,colocando-a de p enquanto se levantava. Ela abriua boca para protestar, mas ele a tomou nos braos,rapidamente. Carregando-a como se no pesasse maisdo que uma pena, dirigiu-se para a parede do desfiladeiro, do outro lado do pequeno morro.
        - Para onde estamos indo! - indagou Sheila, olhando ao redor, sua viso limitada.
        - Para l - replicou Rfaga, inclinando a cabea para um ponto  frente deles.
        O destino era uma caverna, aberta na parederochosa. Parte da entrada estava obscurecida por arbustos. O ngulo da luz do sol afastava grande parte da escurido. Sheila olhou ao redor, curiosa, notando as marcas do alargamento da entrada, feito por mos humanas.
        Como se tivesse lido a pergunta na sua cabea, Rfaga disse:
        - Uma famlia tarabumara viveu aqui, no passado.
        Enquanto punha Sheila no cho, ela se esqueceu completamente dos antigos habitantes da caverna. As mos dele afastaram-lhe a blusa dos ombros, e ela rapidamente tirou os braos das mangas. A sua necessidade tornou-se repentinamente sbita e primitiva, e Rfaga pareceu sentir o mesmo. O seu beijo firme era um fogo penetrante, exigente e possessivo. A paixo deles era uma erupo vulcnica, o calor incandescente fundindo-os um ao outro.
        Foi a friagem do pr-do-sol, que se refletia em sua pele nua, que finalmente arrancou Sheila da paz sublime e alucinada dos seus braos, muito, muito mais tarde, buscando o calor protetor das suas roupas. Estava consciente dos olhos escuros que a observavam vestir-se, mas no sentia timidez, nem necessidade de pudor.
        Havia um sentimento de orgulho das formas do seu corpo, um orgulho de que Rfaga descobrisse beleza na sua nudez e satisfao carnal no seu corpo. Tinha orgulho da suavidade translcida da sua pele, da esbelteza dos quadris - como Rfaga os descrevera, amplos o bastante para receber um homem e da rotundidade farta aos seios, os mamilos eretos.
        Vestindo-se com movimentos serenos, Sheila ouviu o barulho de roupas s suas costas. Vestiu a blusa e virou-se para ver Rfaga enfiando a camisa nas calas de brim. Caminhou para o seu lado sem nada dizer, mas o brilho escuro dos olhos dele era clido e cheio de admirao, ao fitar os dela. Sheila sentiu que se satisfaria em aquecer-se ao calor daquela luz pelo resto da vida.
        Ele acariciou sua face com as costas dos dedos, num gesto levssimo.
        - Vou trazer os cavalos para c.
        A sombra de um sorriso curvou a linha mscula da sua boca antes de ele sair da caverna. Sheila ficou vendo-o se afastar, at sumir de vista. Continuou a fitar o local onde o vira pela ltima vez, as mos tocando os botes da blusa semi-abotoada.
        Seus dedos roaram acidentalmente a curva do seio, e ali ficaram para tocar o rego formado por eles, e ela se lembrou de como as mos e a boca de Rfaga os haviam estimulado. Seu corao transbordava de um amor que no era s fsico.
        Houve um movimento na folhagem espessa, mas veio da direo oposta  que Rfaga tomara. Ainda assim, Sheila virou-se, na expectativa, imaginando que o veria trazendo os cavalos. Seus olhos se dilataram, alarmados, os dedos enroscando-se protetoramente para juntar as duas partes da frente da blusa.
        Juan Ortega estava perto da entrada, os olhos escuros e obscenos despindo-a mentalmente. Sheila ficou se perguntando h quanto tempo estaria ali.
        Alguma coisa no olhar dele lhe dizia que no acabara de chegar. Sentiu-se nauseada ao imaginar que ele pudesse ter assistido ao interldio particular. Ele disse algo, no seu espanhol gutural, e deu um passo em sua direo.
        Do lado de fora da caverna, uma ordem seca fez Juan dar meia-volta, afastando-se de Sheila. Rfaga voltara. Ela se apoiou debilmente contra a parede, engolindo em grandes golfadas o ar que tivera medo de respirar, havia um momento. Os olhos pintalgados de mbar fecharam-se de alvio ao escutar a reprimenda cortante, em voz baixa, que Rfaga estava dando, e a resposta apressada de Juan Ortega.
        Ficou oculta nas sombras, mesmo depois de ter ouvido Juan ir embora.
        - Sheila! - chamou Rfaga, ainda um resto de aspereza na voz.
        - Sim - disse, com voz trmula, mas a resposta permitiu que ele a localizasse no interior escuro da caverna.
        As mos dele agarraram-lhe os ombros, afastando-a da parede.
        - O que est fazendo aqui atrs? - indagou, num tom de quem exigia resposta.
        - Ele... veio atrs de mim. Pensei...
        Oscilou em seus braos, tremendo com a reao.
        - Ele estava procurando por mim - declarou Rfaga. Abraou-a, quando sentiu os tremores que a sacudiam. - Pablo lhe contou que nos vira caminhando nesta direo. Ortega ouviu um barulho na caverna e veio investigar. Quando a viu, disse que perguntou por mim. Voc foi entrando na caverna, e ele pensou que eu estava a.
        Sheila recuou a cabea, tentando ver o rosto de Rfaga nas sombras.
        - Acredita nele? - perguntou acusadoramente.
        -  possvel.
        -  - concordou Sheila, secamente.
        O homem era astuto, e ela no confiava nele. Controlando os nervos em frangalhos, saiu dos braos de Rfaga, terminando de abotoar a blusa. Sabia que Rfaga a olhava atentamente, mas evitou o seu olhar.
        - Os cavalos esto l fora? - perguntou, mudando de assunto, sem vontade de falar mais em Juan Ortega, e querendo sair da caverna contaminada pela invaso dele.
        - Sim, esto.
        Quando Sheila saiu, apressada, para a luz do sol que declinava, Rfaga a acompanhou facilmente com longas passadas. Dois cavalos estavam amarrados junto  entrada. Um alazo descontrado empinou, indiferente, uma orelha quando se aproximaram, enquanto o baio levantou a cabea e relinchou suavemente.
        Sheila dirigiu-se at o baio, pegando as rdeas para jog-las por sobre a cabea dele. Mas Rfaga segurou-a pelo brao, detendo-a.
        - Tem medo de Ortega. Por qu?
        Examinou atentamente o rosto erguido para ele.
        - Sempre tive medo dele... desde a primeira vez que o vi - respondeu secamente -, no importa que voc ache o contrrio.
        - O que quer dizer com isso? - indagou, com uma sobrancelha morena arqueada.
        - Quero dizer que no o convidei para entrar na casa na noite em que tentou me estuprar, embora saiba que voc no acredita nisso. Fico toda arrepiada cada vez que ele est nas proximidades.
        Um arrepio de nojo correu pela sua pele enquanto falava.
        Rfaga agarrou Sheila pelos ombros e virou-a para que olhasse para ele.
        - No precisa ter medo de Ortega. Ele no se aproximar mais de voc. Sabe muitssimo bem o que eu faria com ele.
        Estava tentando tranqiliza-la, e acreditava no que dizia. Mas Sheila no, e nem sabia explicar por que. Era apenas uma sensao esquisita que sentia sempre que via Juan Ortega. Era uma coisa que no conseguia definir.
        Rfaga apertou-a com mais fora, quando Sheila no lhe respondeu.
        - Est me entendendo, Sheila!
        - Estou - disse, sorrindo para disfarar que no conseguia acreditar nele.
        O baio encostou o focinho com carinho no brao dela. Sheila usou o gesto como desculpa para mudar de assunto.
        - Por que no o monta mais, Rfaga?
        - Porque  seu.
        - No literalmente,  claro.
        Sheila sorriu com mais naturalidade, dessa feita, lembrando-se da explicao dele quando lhe haviam dado Arriba.
        - O baio  meu, posso d-lo. No  simplesmente um gesto de cortesia - corrigiu Rfaga. - O baio  seu. J disse isso a Juan. O baio  o cavalo que ele dever selar sempre que voc quiser montar.
        - Por causa de Arriba - murmurou ela.
        - , por causa da gua. No posso substituir o carinho que voc tinha pela gua, mas posso lhe dar um cavalo que equivalha a ela. - Acariciou o topete do baio. - Ele no  to veloz quanto a sua gua - explicou -, mas pode transpor cem montanhas carregando-a, e ainda ter o vigor para tentar outras cem.  noite, tem olhos felinos que podem distinguir um caminho seguro.
        - Mas... - Sheila franziu o cenho. Ele prprio proclamara que o baio era o melhor cavalo. Ser que dera para ela em sinal de confiana? Sheila no teve oportunidade de perguntar.
        - Temos que ir. - Virou-se, segurando as rdeas do alazo e montando. - Chegou um cavaleiro, e tenho que ir falar com ele.
        Jogando as rdeas por sobre a cabea do baio, Sheila alou-se  sela. Pde apenas seguir sua deciso, assim que ele, imediatamente, virou o alazo na direo da casa.
        Sheila reconheceu no cavaleiro o mesmo homem que viera em pleno temporal, fazia semanas. Dessa vez o homem no fez nenhuma tentativa de disfarar o seu interesse por ela, e Sheila teve a impresso de que viera por sua causa.
        Fosse qual fosse a informao que tivesse trazido, ela desagradou a Rfaga. Quando tentou confirmar a suspeita de que a notcia lhe dizia respeito, Rfaga negou-a prontamente, mas recusou-se a contar o motivo pelo qual o homem viera... de to longe e to depressa, a julgar pelo cavalo exausto e suado amarrado diante da casa de adobe.
        Foi uma das poucas vezes, durante os dias serenos da sua recuperao, que Sheila lembrava-se de Rfaga t-la excludo. E as horas de harmonia superavam, em muito, o momento em que uma barreira se interps entre eles.
        A mudana no relacionamento deles era aparente para todos os que os viam juntos. Assim, Sheila comeou a receber o respeito amistoso de todos no desfiladeiro. At mesmo os guardas que cuidavam da porta sentiam isso, no mais ficando bruscamente alerta quando ela aparecia, mas sorrindo e fazendo um comprimento de cabea, cortesmente. A casa de adobe e o desfiladeiro no eram mais uma priso de onde ela quisesse fugir, e eles pareciam saber disso.
        Com o sabonete e uma toalha nas mos, Sheila saiu de casa. Servindo-se de uma combinao demmica com os rudimentos de espanhol que aprendera com Consuelo, explicou ao guarda que ia lavar o cabelo no lago. Ele concordou com um movimento de cabea, e fez sinal para que ela fosse. Sorriu consigo mesma, recordando a poca em que seu caminho seria bloqueado por um rifle.
        S muito raramente sentia saudade dos pais, uma vontade de avis-los de que estava bem. Parecia-lhe que se haviam passado anos desde que morara na casa deles. Sentia como se vivessem num outro mundo, onde ela no mais se encaixava. Sheila no se importava. Estava contente nesse mundo com Rfaga.
        Cantarolando, distrada, ajoelhou-se  beira do lago. Estremeceu antes mesmo de enfiar a cabea na gua gelada. O cabelo crescera muito. Flutuava na gua como um leque dourado-escuro. Esfregou o sabonete nos cabelos at arder, depois espalhou o resto da espuma pela cabeleira.
        Ao enxagu-la, teve a sensao de que havia algum por perto. Virou-se, numa semi-expectativa de ver Rfaga, mas no havia ningum  vista. Dando de ombros, Sheila enfiou a cabea na gua.O dia estava lindo demais para voltar para casa imediatamente. Ela se dirigiu para um local perto do lago onde o sol penetrava a espessura das rvores e aquecia o solo. Desenrolando a toalha, comeou a secar a ponta dos cabelos.Um leve barulho de grama pisada f-la virar-se para a esquerda. Um homem a observava. Sheila j o vira no desfiladeiro, mas no sabia o seu nome. Havia algo nele que a deixava inquieta.
        Ela sorriu, hesitante.
        - Buenos das.
        O homem no retribuiu o cumprimento, mas fez sinal para que ela se levantasse. Obedeceu, desconfiada, tentando concluir se ele viera a mando de Rfaga, devido  Sua longa ausncia. No sabia por que, mas achava que no. Quando o homem deu um passo em sua direo, ela recuou.
        Um brao envolveu a sua cintura por trs. Uma mo tapou-lhe a boca, abafando o seu grito de alarme. Chutando e unhando, Sheila tentou livrar-se. O primeiro homem aproximou-se rapidamente dela, com uma corda na mo. Os pulsos fortemente amarrados, ela foi arrastada para o interior do bosque, onde trs cavalos amarrados esperavam.
        A mo que lhe tapava a boca mal lhe deixava ar para respirar. O pouco que Sheila conseguia inspirar vinha maculado com um odor ftido da mo. Ela dilatava as narinas, tentando absorver o oxignio, mas a respirao era ofegante, devido ao medo e ao esforo.
        Quando a mo foi retirada, Sheila gritou:
        - Rfa...
        Um leno sujo foi enfiado brutalmente em sua boca, quase sufocando-a. Outro pedao de pano foi amarrado ao redor da cabea, para manter a mordaa no lugar. Deram um n no pano  altura da nuca, e fios de cabelo ficaram presos no n, aumentando a dor no couro cabeludo.
        Ao ser colocada  fora sobre uma sela, Sheila viu de relance o segundo raptor. No foi surpresa ver Juan Ortega. Parece que tudo sempre conduzira a esta situao, desde o dia em que ele matara Brad na estrada. A terrvel sensao de inevitabilidade assustou-a.
        O sorriso obsceno parecia estar gozando do terror nos olhos cor de mbar dela, os dentes quebrados e amarelados semelhantes s presas de um co famintos. Amarrou suas mos no aro da sela, no lhe dando chance de escorregar do cavalo e correr.
        Segurando as rdeas, montou no prprio cavalo. O primeiro homem j estava na sela,  espera. Seguiu Ortega, que ia mostrando o caminho. Ao invs de seguirem por entre as rvores, para o leste, estavam voltando para o lago. Ela teve um lampejo de esperana. Se no a levassem para fora do desfiladeiro, haveria uma chance de poder alertar algum.
        Estavam quase ao nvel do lago, andando bem junto da face norte do desfiladeiro. Abruptamente, Ortega freou o cavalo, enrijecendo o corpo. Sheila olhou para a frente e viu Juan impedindo o caminho, um rifle na mo. O segundo homem cavalgou depressa para a frente, como que para esconder Sheila dos olhos de Juan, mas este j a vira e estava fazendo uma pergunta em espanhol, com voz fria.
        Seu corao bateu com fora, de alvio. Havia lgrimas nos cantos dos seus olhos. Juan sabia o quanto ela desprezava e temia Ortega. Jamais acreditaria em qualquer histria que o astuto homem pudesse inventar. O olhar se desviou para aquele animal nojento que fingia ser humano. Tambm dessa feita, ele seria detido.
        Foi ento que os olhos viram o que Juan no podia ver; a viso dele estava bloqueada pelo outro cavaleiro, e pela montaria de Ortega. Este tirava a faca da bainha, lenta e cuidadosamente. Sheila tentou soltar um grito de advertncia, mas o leno abafou o som. Sua tentativa desviou para si a ateno de Juan. Era por este momento que Ortega estava esperando... quando os olhos vivos de Juan no vigiassem cada movimento seu.
        Com a velocidade de um raio, arremessou a faca. Tarde demais, Juan se deu conta do seu erro. Tentou levar o rifle ao ombro, mas a lmina da faca j se enterrava em seu peito, jogando-o para trs. O grito de terror de Sheila no pde sair da sua garganta.
        Ortega esporeou o cavalo, puxando as rdeas da montaria de Sheila. Ela conseguiu ver de relance o corpo de Juan em convulses, no cho, quando passaram por ele, E ento o cavalo foi virado na direo da face rochosa do desfiladeiro, para subir uma trilha apagada que subitamente apareceu por trs de uma grande pedra coberta de limo. Um segundo caminho para se sair do desfiladeiro. Uma trilha que Sheila desconhecia.
        
         
         Captulo 21
        
        Aps sarem do desfiladeiro, cavalgaram rapidamente para o oeste. Sheila podia sentir a montaria tropeando de exausto, retesando-se contra as rdeas que insistiam em pux-la.
        Viu o jeito nervoso com que os dois homens olhavam para a trilha atrs deles. Sabia que estavam forando os cavalos para deixar o mximo de distncia possvel entre eles e o desfiladeiro. Fosse qual fosse o destino deles, Ortega pretendia atingi-lo antes que qualquer perseguidor pudesse alcan-los. Sheila podia apenas rezar para que Rfaga estivesse na pista deles, agora.
        O cavalo de Ortega tropeou e quase caiu de joelhos. Um repelo selvagem nas rdeas f-lo levantar a cabea, enquanto Ortega xingava ferozmente o animal em espanhol. Sheila viu as manchas de sangue na espuma que cercava a boca do cavalo, e sentiu Uma onda de piedade pelo animal ferido, depois concluiu que devia guardar a piedade para si mesma. A sua hora iria chegar, e ento estaria recebendo das mos de Ortega uma forma diferente e mais degradante de selvageria.
        Na primeira clareira rochosa que alcanaram, Ortega parou para dar um descanso aos animais, sentindo finalmente que, se os forasse mais um pouco,logo estariam todos a p. Sheila sentia-se to encalorada e cansada quanto os cavalos. Suas mos e dedos estavam entorpecidos pela corda apertada ao redor dos pulsos. No entanto, o medo a deixava duplamente alerta.
        Os dois homens desmontaram, bebendo avidamente dos cantis. Sheila tinha conscincia do quanto a sua garganta estava seca. A mordaa que lhe machucava a boca fazia o maxilar doer, o pano secando a lngua at que ela parecesse spera como madeira.Somente quando haviam bebido at se fartar foi que eles deram gua aos cavalos.
        Mudando de posio na sela, ela tentou aliviar os msculos dormentes dos braos. O couro rangeu,chamando a ateno de Ortega para ela. Seus lbios se abriram num sorriso lascivo ao fitar a frente da blusa.
        O sol l em cima estava quente, e o suor escorria profusamente dos seus poros. Ensopava-lhe a blusa, fazendo que o tecido se colasse  pele. Sheila retesou-se, consciente da nitidez dos contornos dos seios, os mamilos projetando-se contra o tecido.
        A pele ficou repentinamente pegajosa de medo quando Ortega se dirigiu ao cavalo dela. Tentou ser estica, sabendo que ele adoraria v-la tremer diante de si. No conseguiu evitar a contrao dos msculos ante o toque das mos gorduchas, quando ele soltou a corda do aro da sela.
        Puxou-a da sela com um repelo. Foi uma ttica deliberada para faz-la cair pesadamente nos seus braos. Sua mo agarrou um dos seios da moa. Riu maliciosamente ante o grito abafado de protesto. Sheila tentou recuperar o equilbrio, que lhe daria foras para opor resistncia.
        O outro homem disse qualquer coisa em espanhol para Ortega. Sheila compreendeu algumas palavras, o bastante para saber que seu outro raptor achava que aquela no era a hora nem o local para Ortega fazer o que pretendia. Mas Juan Ortega continuou a sorrir, enquanto argumentava que os cavalos estavam descansando Sheila se contorcia desesperadamente nos braos dele, os ps mal tocando o cho. O outro homem sacudiu a cabea e comeou a se afastar.
        Mas Ortega chamou-o de volta, girando Sheila nos braos de modo a que ficasse de frente para o segundo homem. A mo que massageava to rudemente o seio estendeu-se para agarrar a gola da blusa,rasgando-a de alto a baixo antes que Sheila pudesse det-lo.
        O tecido rasgado foi puxado para o lado, deixando  mostra os globos sedosos dos seios, que subiam e desciam rapidamente devido  respirao ofegante e apavorada. A voz de Ortega parecia desafiar o seu comparsa a ignorar o prmio que haviam capturado.
        Soluando de encontro ao leno, Sheila fez um esforo sobre-humano e conseguiu libertar-se das mos dele. Tentou correr, mas Ortega agarrou uma das pontas da blusa, rasgando-a mais ainda. O segundo homem segurou-a quando ela tentava fugir daquele a quem mais temia. Enquanto ele a prendia firmemente, Ortega terminou de arrancar-lhe o resto da blusa. Sheila debatia-se feito louca na tentativa de evitar que ele lhe desabotoasse as calas.
        O homem tinha dificuldades em segur-la, mas estava conseguindo. Sheila sentiu a ereo apertando-se contra o seu traseiro, e soube que ele a estupraria to logo Ortega terminasse. As calas j estavam arriadas at as coxas.
        Sheila deu um chute em Ortega, visando o seu sexo. Ele agarrou o p antes que pudesse acertar o golpe, e puxou-lhe as calas. Ela agora estava alucinada de medo, berrando o nome de Rfaga sem parar, mas o leno que a amordaava impedia que os gritos sassem.
        Estava sendo forada a se deitar no cho, retorcendo-se e debatendo-se como uma cobra sobre carves quentes. O homem agarrou-lhe os pulsos amarrados, erguendo-os acima da cabea para impedi-la de se levantar, enquanto Ortega tentava tirar as prprias calas.
        Houve uma exploso, e subitamente os braos de Sheila no mais estavam imobilizados acima da cabea. Rolou de barriga para baixo e tentou se levantar. Ortega j corria para os cavalos. Houve outra exploso e Sheila viu-o cair.
        Sua mente aterrorizada finalmente se deu conta de que a exploso fora um tiro. Virou-se para ver Rfaga entrando na pequena clareira, com o rifle engatilhado. Atrs dele vinham Laredo e um terceiro homem.
        Sheila desabou, soluando de alvio. Os olhos cheios de lgrimas viram Ortega tentando desesperadamente se arrastar. Houve outro tiro, e ele parou de se mexer. Rfaga estava de p junto ao corpo,rolando-o de costas com a ponta da bota, o cano do rifle apontando para a cabea.
        Ento, Sheila percebeu Laredo ajoelhado ao seu lado. Tirou a jaqueta e cobriu a sua nudez. Ela agradeceu com os olhos.
        - Graas a Deus, voc est bem - murmurou Laredo, e comeou a soltar o leno que lhe amordaava a boca.
        - No toque nela! - rosnou Rfaga. Os dentes estavam  mostra, como os de um animal,enquanto dava meia-volta e apontava o rifle para Laredo.
        Laredo, que o conhecia, parou instantaneamente, com as duas mos  mostra, enquanto as afastava lenta e cautelosamente dela. Sheila, que o amava, sentiu uma pontada fria de medo ao ver a selvageria glida estampada em suas feies. A expresso negra e inflexvel dos olhos dele era assustadora. No pde deixar de crispar-se, insegura, quando ele se dirigiu para ela.
        Sem dizer palavra, inclinou-se para soltar a mordaa. O toque era suave, mas no alterou a rigidez implacvel do maxilar. Um misto de soluo e suspiro de alvio saiu de sua boca, quando o leno foi retirado. Lgrimas escorriam-lhe dos clios, mas Sheila no conseguia chorar como tinha vontade. Rfaga enfiou uma faca entre os seus pulsos, cortando a corda que os prendia, antes de endireitar-se e afastar-se. Ela estava entorpecida demais pelo choque para se levantar sozinha.
        Nem Laredo nem o outro cavaleiro ousavam fazer um gesto para ajud-la. Ficou ali largada, sem saber o que fazer. Queria o conforto clido dos braos de Rfaga, mas ele parecia envolto em gelo, duro e insensvel.
        Voltou  clareira, trazendo trs cavalos e um cobertor. Entregando as rdeas ao terceiro homem,Rfaga caminhou at onde Sheila jazia no cho. Depois de desenrolar totalmente o cobertor, agachou-se junto a ela, usando-o como um biombo enquanto ela retirava a jaqueta de Laredo e jogava-a para ele.
        Sheila sequer tentou ajud-lo enquanto Rfaga a enrolava no cobertor, como se fosse um beb. E,como um beb, tomou-a nos braos e carregou-a at o alazo.
        Laredo estava parado junto  cabea do alazo.
        - E quanto a eles? - fez um sinal para os corpos dos dois homens.
        - Deixe-os a para os animais comerem - replicou Rfaga, por entre dentes cerrados. Virou-se secamente para o terceiro homem e mandou que trouxesse os cavalos dos mortos.
        Sheila tremeu, e ele apertou mais o abrao,esmagando-a contra o peito. Ela se encolheu mais no cobertor, o nico lugar onde parecia encontrar calor. A volta ao desfiladeiro foi longa e opressivamente silenciosa.
        Ao chegarem  casa, Rfaga desmontou agilmente do cavalo. Ainda carregando Sheila, fez sinal ao vigia para abrir a porta. Por sobre o seu ombro,Sheila viu Laredo comear a desmontar, mas Rfaga fechou a porta com um chute no momento em que cruzaram a soleira. Caminhou direto para o quarto,parou junto  porta e colocou-a de p; suavemente.
        O rosto dele era uma mscara endurecida, gravada em bronze, com olhos negros frios e sem emoo.
        - Fique aqui - ordenou Rfaga.
        No sabendo se devia tomar as palavras literalmente ou no, Sheila no se mexeu. De qualquer modo, duvidava ser capaz de faz-lo. Estava atordoada demais com tudo o que acontecera. Ouviu rudos que ele fazia na cozinha. Fugazmente, Sheila ficou imaginando onde estaria Consuelo, depois lembrou-se da faca furando o peito de Juan.
        Quando Rfaga voltou, teve vontade de perguntar sobre Juan, mas a pergunta ficou entalada na sua garganta. O vapor se elevava da bacia que ele colocou no meio do piso. Estendeu uma toalha ao seu lado e caminhou para junto de Sheila. Os olhos dilatados,que mal piscavam, fitaram-no enquanto ele tirava o cobertor do seu corpo e o jogava para um lado. Levando-a at a bacia, colocou-a de p dentro dela.
        Com um sabonete e gua morna, Rfaga comeou metodicamente a lavar-lhe cada centmetro com a indiferena de um mdico. Sheila permaneceu calada e imvel, como um manequim, lembrando-se de outra feita, quando fora ela a esfregar o corpo para limp-lo do toque de Juan Ortega. Talvez Rfaga tambm se estivesse lembrando daquela vez, e agora a lavava para se desculpar do fato de estar sendo preciso fazer aquilo uma segunda vez.
        Aps enxug-la, Rfaga levou-a para a cama,deitando-a e cobrindo-a com o cobertor. Sentou-se  beira da cama, ao lado dela, por um minuto. Sheila ansiava para que ele a tomasse nos braos e lhe proporcionasse a segurana e o calor do seu abrao.Olhou, desolada, para os olhos escuros. A indiferena que havia neles era cruel. Teve vontade de suplicar-lhe que a abraasse, mas no conseguia dizer uma s palavra.
        Uma lgrima escorreu dos seus clios, parecendo congelar-se numa gota de cristal na sua face. Ele impou com a ponta do dedo, um msculo se contraindo no maxilar. Sem uma palavra, levantou-se e saiu do quarto. Sheila virou o rosto para a parede e se entregou ao sofrimento. Ouviu a porta da frente se fechando, e cerrou os olhos.
        Depois que o sol se ps, Rfaga voltou para casa, trazendo-lhe comida. Sheila tentou recus-la,mas ele insistiu em que comesse. Foram as nicas palavras que dirigiu a ela. Ela conseguiu engolir um tero da comida, antes de afastar o prato. Ele o pegou e se retirou.
        Pela manh, o procedimento se repetiu, s que Sheila comeu menos. No sabia onde Rfaga havia dormido, mas no tinha sido com ela. Retraiu-se,igualmente, face ao alheamento dele.
        Mais uma vez, Rfaga saiu da casa to logo ela comera. Sheila se levantou, incapaz de enfrentar a idia de que ele a encontrasse na cama pela terceira vez, e olhasse para ela como se fosse uma estranha.Aps vestir-se, caminhou at a porta da frente. O silncio da casa vazia era sufocante. Sentiu-se semi-nauseada.
        Pensou em sair para o ar puro da montanha,mas o guarda recusou-se a deix-la sair, sacudindo a cabea com tristeza, ao fazer sinal para que voltasse para dentro. Era prisioneira de novo, confinada  casa.
        Inquieta, Sheila andou pela casa, a dor lhe rasgando o corao e deixando-lhe os nervos em frangalhos. Ficava olhando atravs da janela as sombras que o sol lanava, esperando pelo meio-dia, quando Rfaga lhe traria o almoo. Mas, quando o sol chegou ao auge, foi Laredo quem trouxe a comida. Ao v-lo, o controle de Sheila, mantido;por um fio,desmoronou.
        - O que deseja! - exclamou, escancarando a porta quando ele bateu.Laredo entrou na casa, trazendo uma pequena bandeja.
        - Que bom ver que j est de p. - Os olhos azuis percorreram-na de alto a baixo, numa ligeira avaliao. - Trouxe-lhe um pouco de comida. Rfaga disse que no anda comendo direito.
        - Se est to preocupado, por que no veio ele mesmo trazer a comida? - Enfiou as unhas nas palmas das mos, a mgoa intensa que sentia libertada com amargura. Sheila nem tinha conscincia do que fazia, quando ergueu o brao e derrubou a bandeja, lanando-a com estrondo ao cho. - No tenho comido porque no tenho sentido fome... e ainda no sinto! Pode dizer isso a Rfaga, j que  evidente que ele nem suporta mais me ver!
        - Sheila, no  isso.Laredo sacudiu a cabea com tristeza, o olhar meigo encontrando-lhe as chamas amarelas nos olhos.
        - No ? - disse ela, a voz sufocada. - No dirigiu uma palavra a mim, nem sequer me tocou! Nem mesmo pde dormir na mesma casa, ontem  noite.
        - Voc no est compreendendo - comeou ele.
        - No, no estou compreendendo! - gritou frustrada e magoada. - Onde est ele agora! O que est fazendo? Por que no pode...
        Estava ficando histrica, a voz entrecortada de soluos Laredo segurou-a pelos ombros.
        - Ele est com Juan, Sheila - disse, severamente. Inspirando bruscamente, fitou-o por um instante, depois deu meia-volta. Ele no tentou det-la, mas Sheila sentiu que a observava quando ela abraou o estmago revolto. Ondas de nusea a envolveram, mas lutou contra elas.
        - Como vai ele? - perguntou, com voz funda.
        - Ainda inconsciente. Perdeu um bocado de sangue - respondeu Laredo, suavemente. - A faca no atingiu os pulmes, mas no sabemos que danos internos causou.
        Sheila deixou pender a cabea, cerrando os olhos com fora.
        -  tudo culpa minha. Se no tivesse tentado alert-lo, poderia ter visto a faca na mo de Ortega.
        Ele colocou um dedo sob o queixo dela, levantando-o.
        - No pode se culpar, Sheila. Juan sabia que no podia tirar os olhos de cima de Ortega nem por um segundo.
        Mas no modo como ele pronunciara as ltimas palavras fez que olhasse para ele.
        - Sabe o que aconteceu?
        Laredo meneou a cabea afirmativamente.
        - Juan estava consciente quando o encontramos. Como, no sei. Conseguiu arrastar-se at o lago.Rfaga, eu e o guarda o encontramos quando fomos procur-la. Algum tinha contado a Juan que vira Ortega e Chvez tirarem trs cavalos do curral. Juan ficou desconfiado e comeou a segui-los. Foi ento que deparou com vocs trs.
        Ela estremeceu, lembrando-se.
        - Quando eles derrubaram Juan, no pensei que houvesse alguma chance de vocs nos alcanarem antes que eles...
        Laredo no lhe deu chance de terminar a frase,tomando-a nos braos.
        - Rfaga conhece essas montanhas como a palma das mos. Logo que viu a trilha que estavam tomando, utilizamos atalhos para intercept-los.
        A cabea de Sheila apoiou-se de leve no seu ombro,encontrando algum conforto no abrao. Ele embalou-a suavemente.
        - Agora tudo acabou.
        Sheila murmurou.Pensando no alheamento cortante de Rfaga,Sheila negou com voz tensa:
        - No de todo. Rfaga...
        A porta da frente se abriu e ele entrou, parando de chofre ao ver Sheila nos braos de Laredo. A mscara de bronze que cobria as feies se derreteu enquanto chamas escuras de raiva ardiam-lhe nos olhos.Suavemente, Laredo afastou Sheila de si, e retribuiu sem temor o olhar irado.
        - Contei a Sheila sobre Juan - falou,  guisa de explicao, depois passou calmamente por Rfaga e saiu.
        Rfaga continuou a fitar Sheila, conseguindo controlar aos poucos a raiva. O olhar se desviou sbita e significativamente para a bandeja de comida espalhada pelo cho junto aos seus ps.
        - A comida foi preparada para ser ingerida,no para ser jogada ao cho - disse gelidamente.Poderia ter suportado a raiva, mas essa indiferena glida a deixava fora de si.
        - Coma-a voc mesmo! - gritou Sheila. - No a quero!
        Ele pareceu esticar-se at o mximo de sua altura, frio e reservado.
        - Vamos deix-la para as baratas, ento.
        Rfaga comeou a se afastar, mas Sheila no podia deix-lo ir-se. Agarrou-o pelo cotovelo para impedir a sua sada. Ele parou, olhando para ela, enquanto os olhos dela perscrutavam-lhe o rosto em busca de alguma indicao do motivo do seu comportamento para com ela.
        - O que , Rfaga? O que h de errado? - perguntou, ansiosa. - O que foi que eu fiz! Culpa-me pelo que aconteceu a Juan? Acha que fui com Ortega de boa vontade?
        Sheila lembrava-se de como estivera certa de que a informao do cavaleiro lhe dizia respeito. Ele puxou pelos ombros contra si.
        - Voc devia recriminar-me pela minha estupidez, Sheila - disse Rfaga, a respirao agitando-lhe o cabelo. - Quase custou a vida de um bom homem e amigo leal seu... Juan ainda pode morrer.No sei. E quase a jogou nas mos de um homem que teria abusado de voc com a sua luxria. - A voz dele estava spera, com uma raiva selvagem que se voltava contra si prprio. - Mereo o seu dio e a sua desconfiana, por falhar em proteg-la quando a forcei a aceitar a minha proteo, levando-a para a minha cama. Vi o modo como voc se encolheu diante de mim l nas montanhas, o medo que havia em seus olhos quando olhou para mim.
        - Eu estava com medo - admitiu Sheila,apoiando-se nele, fechando os olhos -, com medo daquela fria fria em seus olhos. Mais tarde, pensei que voc me culpasse pelo que acontecera. No o odeio. Como poderia?
        Teria acrescentado quando o amo tanto, mas ele j reclamava os lbios dela num beijo firme e possessivo. Sheila abraou-lhe o pescoo, enquanto ele a tomava nos braos e a levava para o quarto. O calor do abrao fez com que ela esquecesse a angstia anterior. No entanto, faltava alguma coisa. Sheila percebeu isso, depois de alguns dias. Eles no haviam recuperado aquela magia especial que os unia antesdo incidente. Havia uma parte de si mesmo que Rfaga no entregava. Primeiro, tentou convencer-se de que, quando Juan demonstrasse sinais de recuperao, Rfaga voltaria a ser o mesmo. Mas isso no aconteceu. Juan ainda estava muito fraco, mas comeava a reagir aos cuidados amorosos da mulher, Consuelo. E, ainda assim, havia vezes em que Rfaga se escondia por trs de um olhar velado, examinando Sheila em silncio, como se esperasse descobrir alguma coisa. Esses momentos a deixavam preocupada, no importando o quanto tentasse ignor-los.
        A parte dele na cama estava vazia. Quando Sheila acordava, era raro encontrar Rfaga ali. Acordava com o sol, deixando-a dormindo. Uma dor de cabea pressionava-lhe as tmporas. Sheila franziu a testa e tentou afastar a dor, esfregando o local com a ponta dos dedos.Passos leves entraram no corredor. Sheila virou a cabea na direo do som, mexendo-se depressa demais, e uma sbita tontura deixou-lhe o rosto sem cor.Consuelo apareceu  porta do quarto, sorrindo.
        - Buenos das, Sheila.
        - Buenos das. - O cumprimento soava dbil aos seus prprios ouvidos. - Como est passando Juan hoje!
        Houve uma afirmao, em espanhol, de que estava muito melhor, antes que Consuelo estalasse a lngua para Sheila e implicasse com ela por alguma coisa. Sheila franziu a testa, certa de que no havia compreendido a mulher. Culpou a dor de cabea atordoante, concluindo que afetara a sua concentrao.
        - O que disse, Consuelo? - pediu, para que o comentrio fosse repetido.A repetio no aumentou sua compreenso das palavras em espanhol. Consuelo tentou de novo, combinando-as com pantomima e mmica. A boca de Sheila abriu-se de espanto quando Consuelo embalou uma trouxinha imaginria nos braos, apontou para Sheila e disse beb.
        - No  possvel - protestou Sheila, com uma exclamao abafada. Mas um raciocnio rpido fez que visse que era mais do que possvel. Era provavelmente verdade. Estava grvida. Passou a mo na barriga, como se pudesse sentir o beb que crescia dentro de si.
        A barriga estava lisa e macia como sempre. Por enquanto. Como fora ingnua em no ter suspeitado,pensou Sheila, com raiva. Um ms e meio, dois meses. Deus, nem conseguia se lembrar.
        Imediatamente, Consuelo notou que Sheila no havia percebido. A meiga mulher se apressou a tranqiliza-la, dizendo que a notcia era maravilhosa.Sheila compreendeu mais pelo tom de voz da mulher do que pelas palavras em si. Por um momento, s pde sentir choque e confuso. Depois, entendeu um comentrio referindo-se  satisfao que Rfaga sentiria. E de repente Sheila deu-se conta de que ele teria que saber que ela esperava um filho seu.
        Deu um jeito para que Consuelo sasse do quarto, para ficar sozinha e pensar direito na descoberta.Uma parte dela resplandecia com a idia de ter um filho de Rfaga no ventre. Mas tambm havia medo... medo, porque no havia mdicos naquela regio. Estaria dando  luz uma criana sob condies que podiam apenas ser classificadas como primitivas.
        Quanto a Rfaga, desejava-a agora, que era bonita e tinha um belo corpo. Mas quanto tempo duraria o desejo, quando a barriga ficasse do tamanho de um melo, e as suas pernas compridas parecessem to graciosas quanto a de uma pata desajeitada!
        Sheila comeou a chorar.
         Captulo 22
        
        O silncio durante o almoo era pesado. Sheila sabia que tinha as plpebras ainda inchadas de tanto chorar, e as feies contradas de tenso. Rfaga no podia deixar de ter notado. O olhar velado, embora alerta, inspecionara continuamente o rosto dela durante toda a refeio.
        S os dois estavam na casa. Consuelo estava na sua, com Juan. Era a hora de contar a Rfaga sobre o beb. As mos fecharam-se em volta da caneca vazia de caf  sua frente.
        No havia um jeito fcil de falar. Tremendo, Sheila ergueu o queixo, um leve desafio no gesto, e declarou:
        - Vou ter um beb.
        Nenhum lampejo nos olhos negros.
        -  - disse Rfaga, como se estivesse confirmando a declarao dela.
        - Voc sabia? - perguntou, com uma leve ruga de incredulidade na testa.
        - Acha que no conheo cada centmetro de voc! - Ergueu cinicamente um dos cantos da boca. - Acha que no notaria a mais leve alterao no seu corpo!
        O comunicado no trouxera nenhuma luz de satisfao aos seus olhos escuros. No havia nem a alegria nem o orgulho que Consuelo sugerira que iria haver quando ela lhe contasse. Ele no queria o beb. Sheila sentiu alguma coisa morrer no seu corao.
        - O que voc quer de mim? - indagou Rfaga, examinando-a atentamente, com ar de brandura.
        Quero que fique feliz por causa do beb, Sheila teve vontade de gritar. Ao invs disso, deu os ombros e falou:
        - Nada.
        Dobrou-se toda para a frente.
        - No quer que eu providencie para voc fazer um aborto?
        - Um aborto!!!
        A mo moveu-se protetoramente para cobrir a barriga, como se, naquele momento, ele pudesse arrancar a vida que ela trazia dentro de si.
        - Muitas mulheres americanas j vieram ao Mxico, anteriormente, para se livrarem de bebs indesejveis.  isso o que voc quer? - perguntou,com uma calma de enfurecer.
        Meu Deus, pensou ela, como ele pode sugerir uma coisa dessas? Era o fruto dele que levava no ventre, o seu filho. Como podia acreditar que ela quisesse se livrar dele!
        - No. - A voz lhe saiu fria da garganta. - No  isso o que quero - declarou Sheila, levantando-se da mesa. Precisava se retirar antes que se descontrolasse e fizesse alguma coisa que acabaria por prejudicar o beb.
        - Ento, por que me contou!
        A pergunta de Rfaga deteve os seus passos,quando Sheila se virou.
        - J lhe disse. - Manteve-se rgida, sem olhar para trs. - Porque  o pai do beb. Achei que devia saber.
        Tremia incontrolavelmente, as lgrimas fazendo arder os seus olhos. Ouviu o barulho de um p de cadeira se arrastando quando Rfaga se levantou da mesa. Seu corao martelou desesperadamente de encontro s costelas. Todos os seus msculos estavam preparados para a fuga, mas ele no se aproximou dela. Caminhava a passos largos para a porta.
        Quando Sheila a ouviu abriu-se e fechar-se, tateou em direo  cadeira, em busca de apoio, j que suas pernas ameaavam ceder. Largou-se rapidamente na cadeira. Enterrando o rosto nas mos, comeou a chorar. Teria o beb, mas perderia Rfaga. No era uma troca justa.
        O estoque de lgrimas se esgotou. Sheila estava totalmente entregue ao tormento. No ouviu a porta se abrir, ou o som dos passos que se aproximavam.Ainda acreditava estar sozinha com o seu sofrimento,quando uma mo tocou-lhe o ombro. Virou bruscamente a cabea, os olhos embaados vendo Rfaga de p ao lado da cadeira.
        - No me toque! - A cadeira caiu ao cho quando ela se mexeu para fugir ao toque. Enfrentou-o rigidamente, recuando quando ele se adiantou para ela. - No chegue perto de mim! - sibilou,com raiva e mgoa amargas, um animal ferido virando-se contra quem o havia machucado. - J no fez o bastante? Por que no me deixa em paz?
        O aposento era pequeno. Dali a momentos ele a encurralava contra uma parede, agarrando-a pelos braos, recusando-se a solt-la. Havia um ar de severidade inflexvel na sua boca.
        - Escute-me, Sheila - ordenou Rfaga.
        - No quero escutar nada que voc tenha a dizer! - gritou. Empurrava-o, e ele no fazia nenhuma tentativa de pux-la mais para perto de si.
        - Vai ter que me escutar - insistiu ele, com aspereza. - Conheo um padre que nos casar e ficar calado. No ser legal aos olhos do governo,mas aos olhos de Deus seremos marido e mulher.
        - No banque o condescendente! - Sheila rejeitou a proposta com violncia. - No suportaria a vergonha de ser casada com voc!
        Ele a sacudiu com fora, os dentes  mostra.
        - Quero que a nossa unio seja abenoada pela igreja, e que voc tenha a proteo do meu nome.
        - No quero nem uma coisa nem outra! - O protesto era cheio de dor. O orgulho ainda insistia em que rejeitasse a oferta que ele fizera apenas por causa do beb que trazia dentro de si. Sheila reforou a recusa com uma mentira. - No quero voc!
        Por um momento, o fogo que ardia nos olhos escuros pareceu prestes a consumi-la em suas chamas violentas. Brutalmente, apertou Sheila contra o peito.Os dedos duros que se enterravam em seus braos ergueram-na na ponta dos ps. O calor que havia entre eles tornava a respirao difcil para Sheila.
        - Ento, o que voc quer? - indagou, com selvageria. - Quer que eu a deixe ir embora?  isso! Para voltar para junto dos seus pais e ter o beb l com eles! Quer fazer isso e ouvi-lo ser chamado de bastardo? - Rfaga no deu a Sheila a oportunidade de dar uma nica resposta. - No a deixarei ir embora! Se era isso que esperava, pode tirar a idia da cabea. Jamais permitirei que voc me deixe... nem a criana que foi concebida do nosso amor. O padre nos casar, e a criana, quando nascer, ser batizada por um padre! Vai ser criada aqui nesta casa, neste desfiladeiro, com os irmos e irms que possam nascer depois.
        O corao dela parou de bater, depois alou-se aos cus.
        - Quer o nosso beb, Rfaga? - suspirou Sheila.
        -  a carne da nossa carne. Acha que o renegaria!
        Franziu a testa, com raiva.
        - No sei - Fechou os olhos, sacudindo,confusa, a cabea. - Pensei... que quando lhe contei,voc pareceu to...
        Ele enterrou os dedos nos seus braos, exigente.
        - Quer o nosso beb? - Rfaga fez a mesma pergunta a Sheila.
        - Quero. - No havia nenhuma incerteza na sua voz. - Sim, quero o beb. - Reafirmou-o com mais nfase, embora, a voz mal passasse de um sussurro. - Eu o amo, Rfaga. - Abriu os olhos e viu o lampejo de dvida nos seus olhos negros. - Pensou que eu no queria o beb - acusou-o, incrdula.
        - Mas era possvel. - Varria-lhe o rosto com o olhar que no era totalmente convencido - Voc foi trazida para c contra a vontade. Forcei-a ocupar a minha cama. - Soltou-lhe um dos braos, e sua mo moveu-se para as costas de Sheila, acariciando-a de leve,enquanto a atraa possessivamente para junto de si. - Castiguei voc, quando fugiu de mim. Como poderia supor que quisesse um filho concebido comigo? Quando vi a vermelhido dos seus olhos, soube que tinha vertido lgrimas amargas pela lamentvel descoberta.
        - Somente porque pensei que voc no ia querer nem ao beb, nem a mim. - Os seus dedos trmulos traaram o contorno ntido da face e do maxilar dele. - Daqui a alguns meses estarei to gorda e feia que...
        - No. - A mo cobriu-lhe os lbios. - Mesmo quando estiver pesada da gravidez, ser bonita. - A voz era baixa e rouca, o veludo negro dos seus olhos fitando profundamente os dela. - Lembra-se daquela vez em que tentou fugir, em meio ao temporal, e depois sentou-se diante do fogo, para se aquecer! Fiquei olhando para voc, ali, enrolada no cobertor com que a envolvi. A luz do fogo iluminava os seus cabelos, e imaginei-a sentada ali, a barriga quase distendida, esperando um nen. Naquele momento senti um desejo como nunca sentira antes. Pensei em satisfaz-lo, possuindo-a. Mas possu-la uma vez era como beber a gua do mar. Descobri que tinha que ter mais do que o seu corpo. Queria o seu pensamento, corao e alma. Eu a amo, querida, como jamais amei outra mulher.
        Sheila sentiu que o seu corao ia explodir de alegria. H muito esperava ouvir essas palavras, e havia perdido a esperana de que ele fosse sentir por ela o amor que agora confessava.
        - Eu o amo - murmurou baixinho,como um juramento.
        Rfaga sorriu.
        - Logo o beb vai fazer crescer a sua barriga.- Dirigiu a mo para a barriga dela, espalmando os dedos sobre ela, acendendo um fogo dentro de Sheila. - Quando isso acontecer, olharei para voc e sentirei a mesma onda de desejo, querida. Nunca vou parar de quer-la ou de am-la. - A voz ficou mais profunda e rouca, quando enfiou a mo sob sua blusa, para amoldar-se aos seios fartos. - Pense nas horas incontveis que vou passar vendo o nosso filho mamar no seu seio. Entende agora a felicidade que senti quando me dei conta de que voc estava grvida!
        - Sim. - Ela riu com uma alegria ofegante,lgrimas brilhando nos seus olhos. - Sim, entendo.
        - E vai consentir que o padre nos case?
        - Sim - concordou Sheila.As sobrancelhas morenas juntaram-se, num sintoma de preocupao.
        - Lamento no lhe poder oferecer a legalidade de uma cerimnia civil, mas meu nome  conhecido demais para...
        - Eu sei. No me importo - insistiu.
        Rfaga inspirou fundo, um lampejo de dor nos olhos.
        - No tenho o direito de lhe pedir que compartilhe dessa vida comigo. Posso oferecer-lhe to pouco, e voc me d tanto!
        - S o que quero  o seu amor. J tive todo o resto. No significaria coisa alguma sem voc. Sei disso. Precisa me acreditar.
        - S sei que no posso deix-la partir - declarou ele, apertando-a rudemente contra si, enquanto baixava a boca para atender ao convite dos seus lbios.
        
        Trs dias mais tarde, a luz dourada da aurora se espalhava pelo cu. As mos de Rfaga seguravam com ternura o rosto de Sheila. Seu olhar escuro se dirigiu para alm dela, para Laredo, j montado e segurando as rdeas do cavalo.
        - Est na hora de ir, amada - disse-lhe, suavemente.
        - Por favor, Rfaga, venha agora com a gente.
        Sheila lhe pedia para mudar de idia.
        - No. - Sacudiu a cabea, sorrindo, para diminuir a dureza do seu tom de voz. -  uma viagem longa. Vai precisar descansar pelo menos um dia, quando chegar l, e no posso me arriscar a ficar tanto tempo num lugar onde possa ser reconhecido... a no ser - zombou Rfaga - que voc queira ir me visitar na cadeia.
        - No, claro que no.
        Sheila baixou a cabea, mas detestava ter que se separar dele, mesmo que fosse por alguns dias.
        - Partirei amanh. - Ergueu o seu queixo com o polegar. - Da prxima vez que me vir, estaremos diante do padre. - Deu-lhe um beijo breve e forte antes de gui-la com firmeza at o baio, e ajud-la a montar. Apoiou a mo na sua coxa, enquanto, olhava para Laredo. - Lembre-se - disse-lhe vivamente -, v diretamente ao padre Ramrez. No fale com mais ningum. Ele me conhece e arranjar um lugar seguro para vocs ficarem.
        Laredo balanou a cabea, concordando, e entregou as rdeas do baio a Sheila.
        - Cuidarei dela, Rfaga.
        Seus olhos ficaram marejados de lgrimas, quando Sheila baixou o olhar para Rfaga. A boca deste se estreitara severamente, mas no olhar escuro ardia a luz do seu amor. Os lbios da boca se abriram para protestar de novo que no queria ir sem ele.
        Ele bateu com fora na anca do baio. O cavalo saltou para a frente, alarmado. Sheila travou a sua sada por um momento, depois exortou-o a seguir em frente. Dali a segundos, Laredo estava cavalgando ao seu lado.Passando pelo lago formado pelo riacho, tomaram a trilha estreita e rochosa que subia a face norte do desfiladeiro. Subiram em fila inclinada, Sheila na frente, pelo caminho longo e sinuoso atravs de um corredor de rvores e pedras. Logo que o sol apareceu no alto da cordilheira oriental, a manh se encheu de luz.
        O baio subia com esforo a ltima encosta ngreme da trilha quando Sheila ouviu um tiro de rifle. Freou o cavalo bruscamente no topo e viu a cabea de Laredo girar na direo do rudo. Ele esporeou o cavalo at o topo e desmontou, ignorando Sheila enquanto corria para um mirante rochoso.
        - O que foi? - perguntou ela juntando-se a ele.
        No ar puro da montanha ecoavam gritos confusos de alarme.
        - Meu Deus,  uma patrulha - murmurou Laredo.
        Um bando de cavaleiros fardados galopava pelo prado em direo s casas de adobe. O esconderijo do desfiladeiro fora descoberto. O seu corao subiu-lhe  garganta. Rfaga estava l. Dando meia-volta,Sheila correu para o baio. Mas Laredo estava l, agarrando um dos arreios para det-la.
        - Que diabo, aonde pensa que vai? - exclamou, segurando a cabea inquieta do baio.
        - Rfaga est l. Tenho que ir para junto dele.
        - Acha que no quero ir? - retrucou Laredo,bruscamente. - Ele sabe que estamos fora de perigo,que estamos salvos. S tem que se preocupar em fugir de l. Se no puder, ento eu o arranco de qualquer priso em que o colocarem. No  hora de bancar a melodramtica.
        Ela reconheceu a lgica dos argumentos dele,mas no se guiava pela lgica. Esporeando os flancos do baio, chicoteou-o com as rdeas. O baio arrastou Laredo uns sessenta centmetros antes que ele fosse forado a larg-lo, e o cavalo desceu em disparada a trilha que acabara de subir.
        Dali a segundos, Sheila ouviu o barulho do cavalo de Laredo vindo atrs dela. Num lugar mais largo da trilha, forou o cavalo a emparelhar com o dela.
        - No pode me deter! - exclamou, furiosa.
        - Estou percebendo! - respondeu, no mesmo tom. - Sei que sou uma besta quadrada, mas prometi a Rfaga que tomaria conta de voc, e jamais poderia olhar na cara dele se a deixasse descer para l sozinha.
        Esporeou o cavalo para passar  frente. Acima do rudo dos cascos dos cavalos, podia-se ouvir o tiroteio l no desfiladeiro. Rfaga e os seus homens estavam oferecendo resistncia.
        A descida desenfreada levou-os ao final da trilha num tero do tempo. No lago, Laredo fez um gesto na direo da casa de adobe onde haviam deixado Rfaga. A maior parte dos disparos vinha do grupo de casas a oeste, mas havia o som de tiros tambm perto da casa isolada.
        Laredo saiu do meio das rvores adiante de Sheila. Imediatamente, uma rajada de tiros explodiu  sua volta. Ao ver o rapaz sacudir-se convulsivamente, o instinto fez Sheila deter o baio, puxando as rdeas. O cavalo castanho desequilibrou-se e caiu.Laredo continuou no cho depois que o cavalo conseguiu se pr de p e trotou para dentro do bosque,onde Sheila esperava.
        Ela estava comeando a desmontar quando ouviu Laredo gritar-lhe:
        - D o fora daqui!
        Sua voz estava cheia de dor.
        Sheila desmontou, querendo dirigir-se at Laredo, e sabendo que, se sasse do bosque, estaria abandonando a sua proteo. Segurou as rdeas do cavalo castanho.
        - No pode me ajudar - disse Laredo, grunhindo com o esforo de falar. - No posso me mexer; d o fora daqui!
        Com um soluo de angstia, soube que ele tinha razo. Voltou a olhar para o telhado de sap da casa,virou-se e montou o cavalo castanho, e foi puxando o baio. Foi abrindo caminho por entre as rvores,afastando-se de Laredo, para o outro lado da casa de adobe. Rfaga estava encurralado dentro dela.
        A clareira entre as rvores e a casa parecia perigosamente larga. Tinha que atravess-la para chegar at a casa e Rfaga. Sheila hesitou, depois esporeou o animal. O baio corria emparelhado enquanto ela chicoteava o cavalo castanho atravs da clareira at a proteo temporria do lado leste da casa.
        A patrulha atacara primeiro o grupo de casas.A fora principal s agora comeava a estender a incurso at a casa de adobe isolada. O cano de um rifle rebrilhou numa das janelas, quando ela se aproximou, e Sheila freou o cavalo perto dela.
        - Rfaga!
        Imediatamente ele apareceu  janela. Seus olhos se estreitaram iradamente ao v-la, as feies embrutecidas e implacveis.
        - O que est fazendo aqui? - murmurou,com selvageria.
        - Tinha que voltar. Depressa! - exortou Sheila, mas ele j pulava pela janela.
        - Onde est Laredo!
        Estava com um p no estribo, montando o baio,quando fez a pergunta.
        - Caiu - ela respondeu simplesmente, e viu a boca do homem se enrijecer.
        - No temos a menor chance no prado. Vamos tentar penetrar no meio das rvores.
        As balas zuniam  volta deles enquanto faziam os cavalos disparar, percorrendo o mesmo caminho que Sheila seguira para chegar at l. No havia tempo para ficar pensando no seu medo. Sheila simplesmente sabia que estava com medo. Chegaram inclumes s rvores, e Rfaga virou o baio na direo do lago e da trilha estreita que subia a face norte do desfiladeiro. Quase tarde demais enxergaram um punhado de cavaleiros fardados aproximando-se por entre as rvores, o que lhe barrava o caminho.
        Sem hesitar um segundo, Rfaga fez o baio dar meia-volta. Sheila adivinhou que o plano alternativo de Rfaga era continuar no meio do bosque at chegarem  parede leste, depois correr para a trilha principal que levava para fora do desfiladeiro.Um grito de um dos cavaleiros fardados revelou que haviam sido vistos. Ganhar velocidade era praticamente impossvel no bosque, com os galhos baixos das rvores fustigando-lhes o rosto, tentando derrub-los da sela.
        - Sheila - Rfaga estava atrs dela, que olhou por sobre o ombro, agachada sobre o pescoo do cavalo castanho. - Precisamos tentar cruzar o prado agora, antes que nos interceptem.
        O olhar abrangente, Sheila viu outro fragmento da patrulha aproximando-se, vindo do prado. Perseguidos por trs e ameaados pelo lado, ela sabia que ele tinha razo, e balanou a cabea, concordando. O desfiladeiro estreito subitamente pareceu muito largo e a trilha inclinada, muito distante.
        O cavalo castanho irrompeu do bosque antes do baio e se manteve  frente por algumas passadas. Os dois cavalos estavam distendidos, dando o mximo de si, mas o baio comeou a se distanciar ligeiramente. Rfaga controlou a velocidade do baio, para evitar que a distncia entre eles aumentasse mais.
        Os cavaleiros se aproximavam, o ngulo diminuindo  medida que Sheila e Rfaga chegavam mais perto do centro do prado. Sheila percebeu que haveria uma pequena chance de Rfaga se salvar, mas isso no aconteceria se continuasse a frear o cavalo para acompanh-la. A deciso foi tomada sem pensar,puramente baseada no instinto de sobrevivncia.
        - Para mim no d! - berrou para Rfaga.- V sem mim!
        - No!
        Mas Sheila j puxava as rdeas do cavalo castanho, fazendo-o dar meia-volta, enquanto Rfaga tentava, sem xito, agarrar-lhe as rdeas.
        Cnscia de que ele estava diminuindo a velocidade do baio para ir busc-la, Sheila guiou o animal direto para a patrulha.
        Comeou a acenar o brao e a berrar a plenos pulmes.
        - Socorro! Sou americana!
        Repetia incessantemente as palavras, quase soluando, enquanto rezava para que Rfaga seguisse o seu caminho.
        A patrulha reduziu a velocidade quando Sheila conduziu O cavalo castanho para o meio dela. Freou o animal bruscamente diante deles. O chefe da patrulha olhou-a de alto a baixo, a ateno se detendo brevemente na cor dourada dos seus cabelos.
        Um gesto de sua mo separou a maioria da patrulha do resto, enviando-a atrs de Rfaga. Finalmente, Sheila olhou para trs e viu o baio correndo para a trilha. Soube, ento, que conseguira ganhar para ele o tempo de que precisava para escapar.
        Tremendo, Sheila tentou desmontar, quase caindo da sela. As pernas cedendo, caiu de joelhos,soluando de alvio.
        Uma voz fez uma pergunta em espanhol, mas ela estava confusa demais para fazer a traduo. A pergunta foi repetida num ingls com sotaque.
        - Est bem, seora? - perguntou uma voz calma, mas bem vibrante.
        As lgrimas faziam os clios grudarem uns nos outros. Ela as enxugou, enquanto engolia os soluos,respirando aos arrancos. A princpio, Sheila estava fraca demais pela reao, para responder. Finalmente, o aceno de cabea foi acompanhado por uma vacilante resposta:
        - Sim, estou bem.
        Um par de botas militares engraxadas estava  sua vista, perto. O couro de uma sela rangeu prximo, quando um cavalo bateu os cascos e relinchou nervosamente. Muito longe, Sheila podia ouvir os sons de outra diligncia no desfiladeiro.
        -  a seora Sheila Townsend, do Texas? - a voz com sotaque pedia confirmao.
        Erguendo a cabea, Sheila afastou do rosto o cabelo emaranhado pelo vento, olhando cautelosamente para o oficial fardado.
        - Sim, sou Sheila Townsend - admitiu.
        O homem era de estatura mdia, com um nariz adunco e olhos castanhos penetrantes.
        -  a filha do seor Elliot Rogers? - Quando ela concordou, a boca fina do homem curvou-se num sorriso polido. - H muito tempo que a procuramos, seora... Desde que encontramos o corpo de seu marido no carro. - Com uma leve reverncia,e estendendo a mo enluvada para ajudar Sheila a se levantar, acrescentou: - Por favor, sou o capito Ramn Echeverra.
        Aceitando a sua ajuda, Sheila levantou-se a fim de olhar para o oficial. Ele a observava com ar alerta,vivamente curioso e especulador. Ela ainda tremia,por fora e por dentro. Era difcil conter o ressentimento para com o oficial que dirigira o ataque contra Rfaga.
        - Como... como me encontraram?
        A sua voz tremia, soando rouca e baixa, enquanto retirava a mo da dele.Novamente ele lhe deu aquele leve sorriso de polidez, e nada mais.
        - Como j disse, ns a temos procurado desde que achamos o seu marido, seora. A princpio, houve muitos boatos de que estava sendo mantida presa pelos homens que atiraram nele. Depois, mais nada,como se as montanhas a tivessem engolido. Faz algumas semanas, uma patrulha de rotina estava nas proximidades e ouviu um disparo. Quando foram investigar, acreditaram ter visto uma mulher loura com um pequeno grupo de cavaleiros. Desde ento, temos gente vasculhando a rea. Foi assim que localizamos o desfiladeiro - explicou.
        - Entendo - murmurou ela, depois estremeceu intimamente ao ver que fora a sua tentativa idiota de fugir que levara a isso.
        O olhar do oficial mexicano desviou-se brevemente para a trilha inclinada que levava para fora do desfiladeiro, antes de voltar a sua ateno penetrante para Sheila.
        -  uma pena que o homem tenha conseguido escapar quando a senhora veio para junto de ns.Era o chefe do bando, no era?
        - Era.
        Sheila hesitou apenas um segundo antes de confirmar o fato, mas foi o bastante para intensificar o olhar do Oficial.
        - O nome dele? - indagou.
        - No sei o nome dele - respondeu depressa.Desta feita, foi depressa demais.Uma sobrancelha morena arqueou-se imediatamente.
        - Esse no  o bando de Rfaga?
        Sheila rapidamente se questionou, em dvida se devia mentir ou dizer a verdade, mas havia chances demais de pegarem-na na mentira.
        - , era assim que o chamavam, mas no sei o nome dele - admitiu, com voz tensa. - Ouvi que se referiram a ele como Rfaga, nada mais.
        - Diz o nome dele de maneira estranha,seora.- A boca do oficial se curvou ligeiramente, um brilho de especulao nos olhos castanhos.
        - Acha, capito!
        Sheila retesou-se instantaneamente, fingindo indiferena.
        - Passou muito tempo aqui, seora. - Parecia escolher as palavras com cuidado, sem libert-la do seu olhar penetrante. - No entanto, no foi pedido um resgate, nem a senhora foi vendida.  uma mulher muito bonita. No creio que esse criminoso,Rfaga, tenha ficado cego aos seus encantos. - Sheila sentiu-se empalidecer. - Acho que, talvez, a tenha mantido como mulher. Talvez depois de tanto tempo, a seora no fosse mais uma prisioneira.
        Inspirando vivamente, Sheila no pde deixar o olhar se desviar do astuto oficial. Mas o instinto de sobrevivncia ainda era forte.
        - Depois de tudo por que passei, como temcoragem de dizer isso? - perguntou, com falsa indignao.
        - Desculpe, seora - respondeu, sem sinceridade, ante o seu revoltado desafio -, mas deve se dar conta de como ns vimos isso.
        - Lembra-se da patrulha que me viu faz algumas semanas? - Cruzando os braos, Sheila estendeu as mos para as costas, para segurar a bainha da blusa. - Estava tentando fugir. Veja como Rfaga me castigou. - Sheila deu as costas ao oficial,erguendo a blusa para revelar as marcas deixadas pelo chicote. Virou-se para olh-lo de novo, com um ar gelado de desafio. - Tem mais perguntas sobre se eu era ou no uma prisioneira contra a minha vontade!
        Ele inclinou a cabea, numa saudao respeitosa.
        - Minhas desculpas, seora. - Mas a desconfiana ainda espreitava nos seus olhos. Estava aceitando o que via, por enquanto, mas Sheila pressentia que mais tarde ele a questionaria. - Se a seora j se recuperou, cavalgaremos at as casas onde meus homens reuniram os prisioneiros.
        Sheila fez um gesto lacnico de concordncia, e aceitou a ainda para montar no cavalo, cnscia do seu olhar levemente zombeteiro. No podia ler os pensamentos dele, mas sabia que se estava perguntando se ela teria sido a amante de um homem, ou de vrios. Mas ela fingiu no notar, sorrindo serenamente quando ele lhe entregou as rdeas do cavalo castanho. Da parte dela, ele no receberia nenhuma informao sobre Rfaga.
        
        
         Captulo 23
        
        Sheila deparou com uma cena cheia de emoo quando cavalgavam por entre as casas de adobe. Os membros capturados do bando de Rfaga tinham sido amontoados como gado prestes a ir ao matadouro.Seu nmero indicava que poucos haviam escapado. Os que foram feridos na escaramua tambm estavam l, gemendo de dor. Sheila no conseguiu ver Laredo no meio do grupo amontoado, e no ousou perguntar por ele, pelo menos por enquanto. 
        Os soldados que tomavam conta dos prisioneiros ignoravam as mulheres chorosas que suplicavam para cuidar dos seus homens feridos. Crianas amedrontadas agarravam-se-lhes s saias. As menorzinhas choramingavam com medo de alguma coisa que no entendiam, ao passo que as mais velhas olhavam  volta, os olhos escuros e arregalados cheios de lgrimas.
        O oficial que cavalgava ao lado de Sheila no parou onde os prisioneiros estavam sendo vigiados, mas continuou a andar por entre as casas toscas, onde outros dos seus homens estavam fazendo uma revista sistemtica em busca daqueles que ainda pudessem estar escondidos. Sheila forou-se a no demonstrar nenhuma emoo ante a cena.
        Conseguiu ignorar tudo o que viu, at chegarem  ltima casa antes do curral. Ao ver Elena de joelhos, abraando as pernas de um homem desabado numa cadeira, Sheila fez o cavalo castanho parar.Um rifle jazia por terra junto  cadeira. Uma manchavermelha se espalhava pelo seu peito.
        Quando Sheila parou, o oficial se virou paraver o que havia chamado a sua ateno. Como que pressentindo a presena deles, Elena levantou a cabea. Enxugou as lgrimas das faces e ergueu-se, orgulhosa, para fit-los, a mo apoiada no ombro do marido morto. Comeou a falar-lhes em espanhol, a voz baixa e vibrante de emoo.
        - Entende espanhol, seora? - perguntou o oficial.
        - Muito pouco - murmurou Sheila sem conseguir tirar os olhos de Elena.
        - A mulher est dizendo que empurrou a cadeira para o vo da porta quando viu os soldados chegando, e botou-lhe um rifle nas mos. Diz que os soldados o mataram como se fosse um homem - traduzia suavemente o oficial. - Diz que agora o marido dela  um homem, porque est livre.
        Sheila sentiu um bolo na garganta, quando cutucou o cavalo para faz-lo andar. Percebeu o olhar curioso do oficial, e deu-lhe a explicao que buscava, sem olhar para ele.
        - O marido dela, Csar, era paraltico, um beb indefeso que no conhecia nada nem ningum.
        - Conhecia essa mulher? - indagou ele.
        - Como o senhor mesmo enfatizou, capitn Echeverra, faz muito tempo que estou aqui - Sheila lembrou-lhe sombriamente, e ps o cavalo para trotar.
        Quando chegaram ao curral, ele ajudou-a a desmontar. Sheila estava ctica quanto  preocupao corts com o seu bem-estar. Gostaria que se afastasse e a deixasse s, nem que fosse por pouco tempo.
        Como uma sombra, o oficial a acompanhou at um local protegido do sol, parando para indagar educadamente:
        - Quer um pouco de gua!
        - No, obrigada - recusou laconicamente.Ele ficou parado ao seu lado.
        - Daqui a pouco vamos deixar este lugar.Quer levar alguma coisa? Mandarei meus homens...
        - Nada - interrompeu Sheila, suavemente.Apoiava a mo na barriga. O beb de Rfaga era a nica coisa que iria levar dali.
        - , imagino que no queira nada - concordou o oficial. - Sem dvida est ansiosa para ir embora daqui. Passou por muita coisa... ver seu marido ser morto, permanecer prisioneira desses criminosos.  uma mulher muito forte, seora Townsend.
        - Por favor - Sheila estava achando irritantes as palavras compassivas dele. - No quero pensar nisso.
        - Compreendo - disse, inclinando a cabea num gesto de respeito aos seus desejos. - No quer falar nessas coisas.
        - , no quero - concordou vivamente.
        - Se me d licena, preciso ir falar com meus homens.
        - Claro - concordou Sheila, e desviou os olhos quando o oficial sorriu cortesmente e se retirou.
        Fechando os olhos para no ver o que se passava, Sheila desejou poder tambm fechar os ouvidos aos sons. Gostaria de poder chorar, como as mulheres e crianas estavam fazendo, mas tinha que ficar calada, guardando o sofrimento dentro de si. No havia o menor vestgio de dor na sua expresso,quando o oficial voltou para anunciar que estavam prontos para partir.
        Novamente, Sheila foi separada dos prisioneiros, cavalgando  frente da patrulha, ao lado do oficial. Enquanto subiam a trilha inclinada, ela volveu o olhar para o desfiladeiro, sabendo que jamais voltaria quele local, o seu lar.No era mais um refgio protegido do mundo exterior. Tinha sido invadido, e aqueles que ali haviam vivido jamais encontrariam de novo liberdade e segurana dentro das suas paredes. Estava perdido para sempre.
        Havia tristeza nos seus olhos, mas Sheila disfarou-a rapidamente quando viu que o oficial a observava. O punhado de soldados que perseguira Rfaga encontrou-se com a patrulha no topo da trilha. Relataram que ele os havia enganado, sumido sem deixar vestgios, como se tivesse sido carregado pelo vento, como sugeria seu nome. Ela tocou rapidamente os clios, em sinal de alvio, mas no deu outra demonstrao de alegria.
        A brisa da montanha tocou-lhe a face, uma carcia fugaz que parecia dizer adeus por um instante,antes de entrarem sob a proteo das rvores. Sheila sentiu-se abalada pela sbita percepo de que talvez nunca mais visse Rfaga. Tentou bloquear o pensamento, quando comearam a descer a montanha.
         Seus pais esto sendo avisados de que a encontramos a salvo e inclume - informou o oficial mexicano.
        - Como esto meus pais? - perguntou Sheila rapidamente, ansiosa por conversar e distrair os seus pensamentos de Rfaga.
        - Tm estado muito preocupados com a senhora - respondeu.
        - Onde esto! No Mxico!
        Desejou sbita e desesperadamente ver os pais.Parecia que estava longe deles havia uma vida inteira.
        - S, sua me est em Chihuahua desde que a senhora desapareceu - explicou ele. - Seu pai vem de avio nos fins de semana, ou quando os negcios o permitem. Tenho falado sempre com eles. 
        - Quero v-los. - Sheila murmurou o desejo em voz alta.
        - Naturalmente, e eles desejaro v-la, para se certificarem de que est bem, segundo lhe dissemos. - Sorriu de leve. - Parece que est sendo providenciado transporte para que os dois possam nos encontrar no nosso acampamento desta noite.
        - Obrigada - disse ela, numa expresso genuna de gratido, acompanhada por um sorriso trmulo, enquanto fazia o cavalo castanho comear a trotar.
        O pr-do-sol veio encontrar a patrulha ainda nas Sierras, acampando num dos vales para passar a noite. Os soldados estavam ocupados, prendendo os cavalos e comeando a fazer uma fogueira. Sheila observava de longe as atividades, com um interesse distrado.
        Os pais chegaram junto com os ltimos raios de um sol vermelho. Sheila correu para os seus braos, rindo e chorando, abraando e beijando, os trs falando a um s tempo. No entanto, a sua alegria em reunir-se a eles era agridoce.
        Recobrando o controle das emoes, ela finalmente deu um passo atrs para olhar para eles, segurando-lhes as mos com fora. Fitou-os atravs de um vu de lgrimas, e sorriu ao v-los. O pai ainda conseguia ter o ar de empresrio influente e poderoso, a despeito da cala e jaqueta de brim que usava.E a me, vestindo um terninho cqui rstico, ainda possua aquela aura de elegncia que lhe era to peculiar.
        - Tem certeza de que est bem, querida? - perguntou o pai, apertando-lhe a mo.
        - Sim, estou bem - ela o tranqilizou.
        - Todos esses meses sem notcia. - Sacudiu ligeiramente a cabea, a voz abafada de emoo. - Sua me nunca deixou de acreditar que voc estavaviva e bem. - Envolveu com o brao os ombros damulher. - Mesmo quando as coisas pareciam bem negras, nunca me deixou perder a esperana.
        Sheila olhou para a me, conhecendo a fora de ferro contida dentro daquele invlucro feminino.Sentiu a inspeo penetrante dos olhos castanhos-amndoa, enquanto sondavam por sob a expresso de Sheila.
        - O que aconteceu, Sheila! Eles...- Constance Rogers fez uma pausa, delicadamente.
        E Sheila sorriu debilmente.
        - Est tentando perguntar se fui violentada,mame? - indagou, meigamente. - No fui. - No havia motivo para ocultar a verdade aos pais.Mais cedo ou mais tarde contaria a eles sobre Rfaga,e preferia que fosse agora. - Rfaga fez amor comigo, mas no me violentou.
        O pai ficou imediatamente ofendido.
        - Quer dizer que o chefe do bando...
        -  estranho, papai - interrompeu ela, suavemente -, mas se voc tivesse a oportunidade de conhecer Rfaga, gostaria dele.
        Um ar estranho passou pelo rosto da me.
        - Sempre achei que isso era bobagem, mas estou vendo no seu rosto. Est grvida, no est,Sheila! - murmurou.
        - Estou, sim - admitiu, com um brilho de serenidade nos olhos. - Rfaga e eu amos casar amanh; a cerimnia seria realizada por um padre de aldeia do outro lado da montanha.
        - Minha garotinha casando-se com um criminoso? - exclamou o pai, fitando incrdulo a moa.
        - No faz mal, E. J.  tranqilizou-o a me.- Ela agora est conosco. Depois que a levarmos para casa, tudo isso ficar no passado, esquecido.
        Sheila franziu a testa.
        - No tinha pensado em voltar para o Texas.
        Roou os dedos pela testa, confusa. No havia sequer pensado no futuro.
        - Bem, mas claro que vai voltar, querida insistiu a me, com um sorriso. - Precisa pensar no beb imagino que queira ficar com ele.
        - Claro que sim - retrucou Sheila, apertando a mo protetora contra o estmago.
        - Precisa de um lugar para morar, cuidados mdicos para voc e o nen raciocinou a me. - O que  mais natural do que voltar para casa.
        - Suponho que tenha razo - concordou,hesitante.
        - No h motivo para informar aos outros que o beb no  de Brad - acrescentou o pai.
        - Papai - riu Sheila baixinho -, quando o beb nascer com cabelos negros e olhos escuros, ningum vai acreditar que foi gerado por Brad.
        - Depois que o nen nascer - manifestou-se Constance Rogers -, voc vai querer voltar para a universidade e se formar. Afinal de contas, agora tem que pensar no futuro dele, alm do seu.
        -  - concordou Sheila, mas as referncias dos pais a coisas materiais e status social no pareciam mais ter importncia.
        Como se a me tivesse percebido que ela no concordara integralmente, mudou de assunto.
        - Mais tarde, faremos planos sobre o que voc quer fazer, Sheila. Neste momento, basta a seu pai e a mim termos voc aqui.
        Um vu de lgrimas toldou-lhe a viso.
        - Parece que faz tanto tempo que no os vejo! - disse Sheila.
        - Acontece o mesmo conosco, querida.
        O pai deu-lhe um abrao apertado e um beijo mido no topo da cabea.
        - Ah, seor e seora Rogers - a voz do oficial mexicano interrompeu a reunio deles -, que bom ver a sua filha de novo, no !
        - Muito bom - respondeu o pai, soltando Sheila. - Nem sei como podemos lhe agradecer por t-la encontrado, capito.
        - No foi nada. - Deu de ombros. - Os prisioneiros esto sendo alimentados. A nossa refeio logo ficar pronta. Se quiserem aceitar um pouco de caf...
        Comeou a abrir o brao na direo da fogueira, num convite.Sua frase foi interrompida por uma voz americana estridente:
        - Seu filho da puta, se espera que eu coma esse lixo, desamarre as minhas mos!
        Havia um toque de dor na mesma voz, quando repetiu as palavras em espanhol.
        - Laredo - exclamou Sheila, com voz abafada, e deu um passo instintivo na direo do som.O oficial moveu-se para impedir-lhe a passagem.
        - Seora, eu...
        No ia deix-la continuar o seu caminho.
        - Por favor, ele foi bondoso para mim - Sheila explicou, s pressas. - Posso falar-lhe por alguns minutos?
        O oficial j ia recusar quando o pai se adiantou para defender a causa.
        - Sem dvida no far nenhum mal, capito.
        O pedido foi levado em muita considerao,antes que o oficial concordasse.
        - irei com a senhora.
        Os prisioneiros j mal conversavam entre si,mas quando Sheila apareceu com o oficial mexicano,fez-se um silncio sepulcral. Vrios deles fitaram-na com ressentimento sem disfarces, por se estar associando ao inimigo. Os outros a ignoraram friamente.
        Laredo desviou o olhar deliberadamente, quando ela parou junto dele. Estava deitado no cho, parcialmente escorado. Uma atadura branca estava enrolada na sua coxa direita. O sangue ensopava-lhe a camisa, no lado esquerdo. Havia um prato de comida em seu colo, mas os pulsos estavam algemados.
        - Al, Laredo - disse Sheila finalmente,procurando chamar a ateno dele.
        Ele ergueu os olhos azuis frios, lanando um olhar de relance ao homem que a acompanhava, antes de fitar Sheila.
        - No gosto do pessoal com quem est andando, Sra. Townsend.
        Ela se ajoelhou junto dele, murmurando bem baixinho:
        - Nem eu. - Num tom de voz mais alto,perguntou. - Est muito ferido?
        - Dizem que vou viver.
        Acercando-se dele, Sheila podia ver o tom cinzento por baixo do bronzeado das suas feies.
        - No est comendo - falou, notando a comida intocada no prato.
        - Estou com um probleminha no brao esquerdo. No consigo mex-lo - explicou, com sarcasmo. - Portanto, a no ser que joguem esta gororoba pela minha goela abaixo, acho que vou ter que passar fome.
        Sheila olhou de esguelha para o oficial.
        - No d para soltar as mos dele s para poder comer? - pediu cortesmente.
        Houve uma hesitao antes que dessem ordem a um dos soldados para deixar livres as mos de Laredo. Sheila pde ver que fazia um esforo tremendo para conseguir comer. Depois de trs colheradas, parou.
        - No tem o gosto da comida de Consuelo - disse Laredo, com um dbil sorriso.
        - Nem a aparncia.
        Sheila pegou a colher e comeou a aliment-lo. Um dos soldados veio de junto da fogueira para procurar o capito. Este se afastou um pouco para conversar com o homem.Enquanto Sheila levava a colher  boca de Laredo, ele murmurava baixinho:
        - Rfaga ficou ferido?
        - No, escapou - sussurrou. - Sem um arranho.
        - Para onde ir, Laredo!
        - Somente ele o sabe.
        Tentou se levantar um pouco mais, e fez uma careta de dor.
        - E quanto a voc, Sheila? - perguntou no mesmo tom de voz baixo que no podia ser ouvido pelos outros. - Para onde vai! Voltar para o Texas com seus pais?
        - No sei... quem sabe, pelo menos at o nen nascer. Ou quem sabe eu fique aqui. Talvez consiga encontrar R...
        Interrompeu abruptamente a frase, dando-se conta de que era Rfaga quem os soldados esperavam capturar.Se ficasse no Mxico, estariam esperando para ver se ela entrava em contacto com ele, ou vice-versa.Pelo bem dele, tinha que ir embora. Se pensasse com a cabea, e no com o corao, Sheila sabia que o melhor seria que jamais voltasse ao Mxico.
        A existncia dele no tinha estabilidade. Jamais poderia oferecer um futuro para ela ou para o beb.O filho deles, ainda por nascer, merecia uma vida decente, a liberdade pela qual Rfaga ansiava, e que nunca poderia ter. Nos Estados Unidos, Sheila poderia dar tudo isso ao filho, e mais as vantagens do dinheiro.
        Quem sabe, ao sacrificar a vida dela pelo filho deles, estaria descobrindo o verdadeiro significado do amor? Estaria sendo nobre? Ou estaria simplesmente com medo de fugir e se esconder, se passasse da vida ao lado de Rfaga? Estava realmente confusa demais para saber.
        - Se for para os Estados Unidos, ser que - a voz de Laredo estava estranhamente emocionada - podia dar um pulinho em Alamogordo?
        O queixo tremeu ligeiramente, compreendendo.
        - Para ver seus pais!
        - O sobrenome deles  Ludlow... Scott Ludlow No lhes conte a meu respeito, mas...
        - Verei se esto bem, e darei um jeito de avis-lo - prometeu Sheila, suavemente. - Nesse meio tempo, farei o que puder por voc e pelos outros. Ouvi dizer que o dinheiro ajuda.
        Houve apenas silncio, enquanto ela lhe dava mais algumas colheradas de comida. Laredo fitava-a,pensativo. Quando finalmente falou, foi to baixo que Sheila teve que se debruar mais para ouvir o que dizia.
        - Se quer mesmo ajudar - murmurou -,comece alguma coisa para distrair-lhes a ateno.Dois dos guardas que nos vigiam so adolescentes.H uma chance de podermos domin-los e pegar-lhes as armas. Quem sabe, na confuso, alguns de ns possamos fugir.
        - Voc pode ser morto - exclamou Sheila,protestando, mas Laredo apenas a fitou em silncio.
        - Vou tentar - concordou, com um suspiro relutante. Lanando um olhar por cima do ombro, viu que o oficial conclua a sua conversa com o subordinado. Virou-se rapidamente, perguntando a Laredo: - Onde est Juan? No o vi junto com os outros.
        - Est ali - respondeu Laredo, com um gesto lateral de cabea -, debaixo do cobertor. - Sheila olhou, notando uma forma comprida completamente envolta num cobertor de cores vivas. Sentiu um aperto doloroso na garganta. - O seu ferimento abriu, e ele morreu - declarou Laredo, sem emoo.
        - Seora.
        O oficial estava de p ao lado dela.Engolindo em seco para aliviar o aperto na garganta, Sheila levantou-se. O prato estava vazio.No tinha mais motivo para ficar com ele, e o oficial estava lembrando-lhe isso. Afastou-se enquanto um soldado voltava a algemar os pulsos de Laredo. Seu rosto estava plido com o choque da morte de Juan. Manteve-o desviado do olhar atento do oficial, enquanto se dirigiam para junto dos seus pais, ao p da fogueira.
        - Obrigado por ter-me deixado falar com ele - disse, precisando romper o silncio.
        - Sente afeio por este homem? - indagou.
        -  um amigo - respondeu Sheila simplesmente. -  americano, algum com quem eu podia conversar.
        - Compreendo. - Ele balanou a cabea, mas ela duvidava que tivesse compreendido. - Desculpe-me, seora, mas no pude deixar de observar que parece um tanto nervosa. No est feliz de estar com seus pais?
        - Claro que estou.
        A resposta foi irritadia.
        Ele lhe lanou um olhar breve e esquisito, depois deixou que o silncio dominasse a caminhada at a fogueira. Sheila parou no limiar do crculo de luz. Os pais estavam sentados a um canto, conversando, ainda sem se dar conta de que ela tinha voltado. O oficial fez sinal a um de seus homens para lhes trazer caf, depois virou-se para contemplar Sheila. Esta sabia que devia ir para junto dos pais, mas tambm sabia que estavam conversando sobre ela.. e sobre Rfaga e o beb. Sendo assim, ficou onde estava.
        - Andamos muito, hoje - o oficial comentou o distraidamente.
        -  - concordou Sheila.
        - Tive tempo de pensar, enquanto cavalgava - continuou ele. - Estou convencido de que voc  mulher de Rfaga. Embora no possa prov-lo, creio que pertenceu a ele de bom grado. Seus olhos e rosto no tm a expresso de uma mulher que foi forada a aceitar as atenes de um homem. s vezes, vejo seus olhos fitando as montanhas, e h um brilho especial neles, como se soubesse que ele est l, em algum lugar. Talvez esteja pensando que ele vir busc-la. - Ergueu a sobrancelha, uma luz nascendo-lhe nos olhos. -  - comentou positivamente, enquanto Sheila se enrijecia -, , ele vir busc-la.
        O oficial se virou, dando ordens bruscas a vrios dos soldados que estavam em volta da fogueira. Houve uma agitao imediata. Ele exibia um sorriso complacente no rosto, quando voltou a olhar para Sheila.
        - Vou colocar sentinelas extras. Estaremos prontos para ele... o seu Rfaga... quando vier - declarou.
        - Est enganado - negou Sheila desesperadamente. - Ele no vir.
        Um tiro foi disparado, depois um segundo e um terceiro. O oficial agarrou o brao de Sheila,fitando para os seus homens. Mais tiros foram disparados antes que os soldados respondessem ao tiroteio. Sheila lutava contra a mo que prendia os seus movimentos.
        Rudos de luta vinham do local onde Laredo e os demais estavam presos. No caos, estavam tentando ganhar a liberdade. Uma bala zuniu perto do ouvido dela, atingindo o oficial, que afrouxou a presso instantaneamente, e ela se libertou.
        - Sheila, aqui! - a voz dolorosamente familiar de Rfaga a chamou, e ela se virou na direo do som.Seus olhos perscrutaram a escurido indistinta das rvores que cercavam o acampamento. Comeou a correr, sem ter certeza da direo.
        - Sheila, no! - gritou a me. - No v!
        Mas a sua escolha j estava feita. No havia nada que o mundo civilizado pudesse lhe oferecer, ou ao beb, que equivalesse a um momento nos braos de Rfaga, no importando as circunstncias. Rfaga saiu de trs de uma rvore. O rifle que segurava  altura do quadril disparou, dando cobertura a Sheila. Ela correu para ele.
         FIM
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A AUTORA E SUA OBRA

Janet Dailey ocupa uma posio invejvel no mundo dos best sellers: seus romances atingiram a faixa dos noventa milhes de exemplares, traduzidos em dezessete idiomas e noventa pases.  a quinta escritora mais lida do mundo.  sua frente, esto Harold Robbins, Barbara Cartland, Irving Wallace e Louis L'Amour.
Nascida em 21 de maio de 1944, na pequena cidade de Storm Lake, em Iowa, Janet sonhava em escrever desde a adolescncia. Formou-se em secretariado e comeou a trabalhar para Bill Dailey, um bem-sucedido empresrio do ramo imobilirio e de construo. Em 1964, casaram-se. Ao mesmo tempo, Bill ampliava seus negcios para a explorao de petrleo. Em 1374, Bill resolveu aposentar-se e vendeu tudo o que tinha.
O casal comeou a viajar atravs dos Estados Unidos, num trailer. Janet lia muito, e afirmava que poderia escrever romances to belos como os que comprava. Desafiada por Bill, lanou-se ao trabalho, e, em pouco tempo, conclua No quarter asked (1976). O resultado foi um sucesso imediato. Nesse mesmo ano, escreveu doze livros. Essa produo espantosa deve-se a uma rigorosa disciplina de trabalho: Janet comea a escrever s quatro da manh e encerra seu expediente s cinco da tarde.
Seu marido trabalha, com entusiasmo, como seu agente editorial, e realiza tambm o trabalho de levantamento do ambiente onde a histria vai transcorrer: desde a localizao de ruas e prdios at decorao de hotis e restaurantes. Os dois traaram um plano divertido: entrar para o Guines Book of World Records. Para isso, Janet ter que escrever um romance passado em cada Estado norte-americano.
Em cinco anos e meio, Janet Dailey publicou sessenta e dois ttulos. Seus livros esto impregnados de uma atmosfera sentimental,  qual ela acrescenta situaes perigosas e um toque de erotismo. Os protagonistas so, em geral, uma jovem bela e inocente e um homem forte e experiente. Uma frmula que tem dado certo, como prova a quantia de um milho de dlares que a autora recebe por ano de sua editora.




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1 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
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